Jar of secrets

3 Eu sei como é perder alguém.


Três semanas! As piores três semanas da minha vida!

À três semanas que eu estou aqui e não sei o que fazer ou o que pensar sobre a minha situação. Eu sou obrigada a ter diariamente uma consulta com um psicólogo que parece que é da época dos dinossauros de tão velho. O medo e a tristeza eram sentimentos constantes que me consumiam pouco a pouco a cada dia que se passava e o pensamento de ter sido abandonada despedaçava o meu coração.

Eu estava tão despedaçada que eu só via um par de olhos sem brilho ao olhar-me no espelho. Até agora nenhum deles apareceu e eu já perdi as esperanças de que isso fosse acontecer. Eu já estive nesta situação uma vez e eles só demoraram uma semana a encontrar-me por isso essa demora era uma confirmação de que fora abandonada aqui.

Até agora a minha aparição aqui e o desaparecimento deles continua um mistério para mim. Eu tenho tomado tantos comprimidos que a minha mente está a perder-se dentro de mim e as vozes, que tinham desaparecido, voltaram a aparecer, mas desta vez elas estão mais intensas e poderosas como se só tivessem estado à espera que eu me encontrasse sozinha de novo para atacarem. Elas sabem que eu sou mais fraca quando estou sozinha do que acompanhada por eles.

Durante as consultas, eu não falo absolutamente nada e eu também não me esforço para que seja o contrário. Eu aprendi a ignorar a presença das pessoas ao observar alguns autistas que estavam internados aqui apesar de eu não ver o motivo desse ato já que eles não prejudicam ninguém. Na minha opinião os psicólogos são inúteis que vêm uma doença mental como um jogo de enigmas que eles devem resolver e nada do que eles me digam ou façam fará com que eu revele o meu segredo. Segredo esse que eu amo com todo o meu coração. Ele estará para sempre dentro de mim e se eu o revelar, eles vão fazer de tudo para o tirar de mim e fazer eu esquecer-me que ele existe.

—Mina! Se tu não cooperares, eu não poderei ajudar-te!- o doutor Shin que era o meu antigo psicólogo explicou-me visivelmente cansado da minha resistência. -Tu estavas começando a melhorar e de um dia para o outro, voltaste a fechar-te para o mundo como no dia em que nós tivemos a nossa primeira consulta. O que aconteceu contigo que te abalou tanto?- ele perguntou-me enquanto revia os meus exames. Eu não sei porquê, mas o hospital inteiro estava apreensivo com a minha suposta mudança de comportamento e queriam a todo o custo obter uma resposta. Eu também gostaria de saber, mas eu nem sei do que ele estava a falar. Eu tenho passado os últimos meses em Seul e agora eu estou aqui. Tal como ele, eu também gostaria de obter respostas, mas nenhum dos dois as teria.

—Podes ir!- ele dispensou-me quando outro médico entrou no seu consultório.

—O problema é que eu fui separada da pessoa que me dava força para enfrentar o mundo. Isso foi o que me abalou!- eu respondi mentalmente enquanto saia do consultório.

—Ela ainda chora à noite?- eu ouvi o doutor Choi perguntar antes de fechar a porta.

Só de pensar que o motivo do meu choro está a quilómetros de distância, eu sentia um aperto no coração e à noite era quando os meus pensamentos eram mais intensos. Eu não queria voltar para aquele quarto frio que faz-me pensar na minha vida insignificante de louca então eu decidi ir para a sala de convívio onde todos os pacientes se juntam. Desde de que estou aqui, eu ainda não tinha posto os pés lá, mas antigamente eu também não frequentava muita essa sala. Acho que era uma forma de dizer a mim mesma que eu não era como eles e que só estou aqui por causa da Gisele.

Quando eu entrei, ninguém notou a minha presença e eu fiquei agradecida por ser ignorada. A única coisa que eu queria era ficar no meu canto sem que fosse incomodada por alguém e pudesse rever a minhas lembranças em paz como um filme a passar na minha cabeça. Alguns podem considerar esse ato autodestrutivo já que rever os momentos pode piorar o meu estado, mas essas memórias ajudavam-me a manter a calma. Eu parei no meio da sala e observei o ambiente. Vários pacientes simplesmente olhavam para o nada com os olhos opacos e outros estavam entretidos à sua própria maneira, mas um ou melhor uma chamou-me a atenção. Ela estava sentada perto da janela com dois blocos, uma tela e um estojo de pintura e estava pintando a paisagem que era visível pela janela da sala. Aqui era permitido que nós tivéssemos objetos para que nós nos pudéssemos distrair e um exemplo era a Wendy que trouxe o seu violino e ela toca sempre no fim de tarde, mas ninguém podia tocar no seu precioso violino senão ela se descontrola. Eu pertenço aos poucos que vem especialmente nos fins de tarde na sala de convívio para a assistir e poder ouvir a bela melodia que invadia a sala. O modo como ela tocava lembrava o Jin quando tocava o violino ou a harpa para nós. A melodia era suave e melódica assim como a da Wendy, mas a do Jin tinha um toque especial que trazia-me uma paz e uma calma que às vezes me assustava um pouco.

Infelizmente eu não tinha nada que pudesse me distrair exceto os livros da biblioteca quais eu quase li todos porque a Gisele não deixou-me trazer os meus materiais de pintura. Eu comecei a caminhar na sua direção e sentei-me na cadeira ao seu lado. Ela não teve nenhuma reação e simplesmente continuou a pintar como se eu não estivesse aqui. Eu observava cada movimento que ela fazia, cada traço novo que o desenho ganhava e imagens de mim pintando invadiram a minha mente. Em Seul, para que eu mantivesse a calma, eu me sentava debaixo da árvore que tinha no jardim e começava a rabiscar. Um pequeno sorriso formou-se no meu rosto com essa lembrança. Ela parou de pintar de repente e pousou o pincel na mesa. Ela começou a analisar a tela assim como eu e ela olhou para mim com um sorriso que mostrava a satisfação pelo seu trabalho e eu dei o meu primeiro sorriso verdadeiro em semanas.

—Gostaste?- ela perguntou e eu concordei com a cabeça. Ela levantou-se e pegou nas suas coisas deixando-me sozinha na mesa. Ela parou de andar antes de abandonar a sala e virou-se ainda com o mesmo sorriso. Eu compreendi que era para eu a seguir e assim eu o fiz. Eu segui-a pelos longos corredores desertos, ela parou na frente de uma porta que chamou-me muito a atenção já que era decorada por uma árvore com folhas de várias cores. Ao entrar no quarto, eu fui bombardeada com uma explosão de cores de diferentes tons. Como todos os quartos ela tinha uma cama e um banheiro, mas o que diferenciava o seu quarto dos outros era que num canto tinha uma mesa cheia de lápis, canetas, telas e blocos que são usados para desenho. As paredes eram repletas de telas de várias paisagens e de cores. Esse deve ser o quarto mais vivo da clínica inteira e uma tela chamou imenso a minha atenção tanto que eu aproximei-me para a poder observar melhor. Era um lobo com uma pelagem branca e preta e no centro do lobo estava um bosque com um céu azul bem estrelado. O tom que ela usou para pintar o céu fazia-me lembrar do Tae. Aquele ser sorriso quadrado que muitas vezes fez-me rir até lágrimas saírem dos meus olhos e a minha barriga começar a doer.

—Pelo visto, tu gostaste mais desse!- ela constata sorridente.

—Sim, essa tela faz-me lembrar alguém muito especial.- eu respondi um pouco nostálgica.

—Eu sei como é perder alguém. Foi por causa dessa pessoa que eu vim parar aqui.- ela explicou com um olhar distante. Era o mesmo olhar que eu via no meu reflexo da janela quando eu observava o horizonte. -Para ti! Para não fazeres como eu e te esqueceres das pessoas que amas!- ela entregou-me a tela com o lobo após recompor-se e a retirar da parede.

—Muito obrigado!- eu agradeci do fundo do meu coração e sorri. Uma enfermeira entrou interrompendo a nossa conversa.

—Está na hora da medicação, Clarissa!- ela avisou com uma bandeja cheia de comprimidos e um copo de água.

Então o seu nome era Clarissa, eu com certeza não me iria esquecer dela!

Segurando firmemente no presente que acabará de ganhar, eu caminhei até o meu quarto. Quando eu entrei no quarto e pendurei o quadro na parede, eu já não me sentia tão desolada. Eu analisei o desenho e comecei a prestar atenção nos detalhes. A forma como os traços faziam o seu caminho era muito similar à minha e o meu olhar parou nos olhos do lobo. A intensidade daquele azul gélido era idêntico ao olhar do Tae e foi como se uma pequena, mas importante fração de mim tivesse voltado. Só a sensação de ter algo do meu passado comigo, é o suficiente para que eu possa aguentar esta situação.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.