Janeiro de Gelo

5 Você é o que deseja


Notas iniciais
“Kiss me like u know this is goodbye we could try to make it all count”

Capítulo 4


Você é o que deseja


Janeiro, 04:00 AM


O despertador ainda não havia tocado.

Na verdade, ele nem fazia parte daquela manhã. Acordei antes do sol nascer, antes dos carros começarem a preencher as ruas e antes da cidade lembrar que precisava continuar funcionando. Durante alguns segundos fiquei olhando para o teto, tentando entender por que meus olhos já estavam abertos. Não era insônia.

Era aquela sensação avassaladora de ter pensamentos demais ocupando o mesmo espaço. Quando minha cabeça ficava cheia demais, eu precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa que impedisse meus próprios pensamentos de gritarem mais alto. Levantei. Peguei o primeiro agasalho que encontrei jogado sobre uma cadeira, vesti e saí. A madrugada de Nova York tinha uma cara completamente diferente do resto do dia. Durante o dia, a cidade parecia uma criatura gigante correndo sem parar. Às quatro da manhã, ela parecia apenas uma sombra descansando. Não absolutamente mas em sua maioria. O frio era intenso. Cada respiração deixava uma pequena nuvem branca no ar, era o ar quente de cada respiração sublimando em contato com a atmosfera externa gélida. Meus pensamentos diminuíram o fluxo a medida que o ambiente tomava minha atenção e ocupava minha mente.


Comecei a correr.


Sem pressa.


Sem objetivo.


Apenas correr.


Talvez algumas pessoas procurassem respostas em conversas. Eu não buscava nada além de esvaziar minha mente naquele momento. O parque estava quase vazio quando cheguei.

Alguns guardas caminhavam pelas trilhas, provavelmente acostumados com aquele horário estranho em que somente insônia e problemas costumavam aparecer.


Continuei pelas árvores.


O parque era bonito naquela hora. O lago no centro parecia uma fotografia incompleta, preso entre a noite e o amanhecer. As árvores ao redor formavam sombras compridas e silenciosas, e por alguns minutos eu tive a impressão de que aquele lugar existia separado do resto da cidade. Da própria realidade, em um limbo que não era noite, nem dia.


Quarenta e cinco minutos.

Foi esse o tempo que passei correndo.

Quando atravessei a outra margem do lago, vi uma grande estátua cercada por alguns jovens. Pelo jeito desajeitado deles, pelas risadas altas e pela maneira como um deles estava praticamente abraçado ao próprio estômago, não era difícil imaginar o motivo de estarem ali.


Bebida.


Muita bebida.


Continuei andando, até uma voz surgir atrás de mim.


— Chris?


Parei.


Olhei para trás.


Um garoto alto, usando um capuz, vinha na minha direção.


Demorei alguns segundos para reconhecer.


— Hãm… eu conheço você?


Ele retirou o capuz.


— Kendall.


Revirei os olhos mentalmente.


Claro.


O irmão da Lucy.


— Ah. Sim. Eu lembro.


Ele me analisou por alguns segundos.


— O que você está fazendo aqui essa hora?


— Correndo.


— Quatro da manhã?


— Pelo visto.


Ele soltou um suspiro.


— Cara, não é seguro ficar andando por aí sozinho esse horário.


Aquilo me incomodou mais do que deveria.


Talvez porque eu odiasse quando alguém tentava decidir algo por mim.


— Não preciso de sugestão sobre onde ou quando andar. Eu decido isso sozinho.


Ele levantou as mãos em sinal de rendição.


— Tudo bem. Não precisa ficar na defensiva. Eu só estava tentando ajudar.


Antes que eu respondesse, um dos garotos próximos à estátua caiu de joelhos e começou a vomitar.


Kendall olhou para trás.


Depois olhou para mim.


Eu apenas observei a cena.


— Não tenta me ajudar — falei. — Você parece ocupado.


Ele soltou uma risada curta.


— Engraçadinho.


O garoto que estava passando mal continuava tentando recuperar o equilíbrio.


Kendall foi até ele.


— Duke, cara. Eu falei pra você não misturar tudo aquilo.


Duke respondeu alguma coisa incompreensível.


Provavelmente porque estava ocupado demais tentando não morrer de ressaca. O corpo todo agonizando. Os músculos enrijecidos. Náuseas frequentes. Mas não expeliu nada além de suco gástrico. Acho que não sobrou mais nada para por para fora.


Não consegui evitar.


Comecei a rir.


A situação era absurda demais.


Kendall me lançou um olhar irritado.


— Você está rindo?


— Um pouco.


— Legal. Muito Legal cara.


— Desculpa.


Ele balançou a cabeça, mas quase sorriu.


Depois voltou a ajudar o amigo.


Eu continuei minha corrida.


Mas, enquanto me afastava, uma coisa ficou na minha cabeça:

Kendall West era exatamente o tipo de pessoa que eu dizia evitar.


Popular.


Confiante.


Parte daquele mundo que normalmente me cansava.


Mesmo assim…


Ele parecia diferente hoje. Não sei precisar o motivo específico. E não importa na verdade. Apresso o passo.

Quando voltei para casa, minha mãe já estava acordada.


Claro.


Minha mãe parecia possuir um relógio interno programado para perceber qualquer movimento estranho dentro daquela casa.

Entrei na cozinha.


— Oi, mãe.


Ela virou.


— Oi, filho. Bom dia.


Depois estreitou os olhos.


— Onde você dormiu ontem?


Parei.


Ela tinha uma habilidade impressionante de escolher a pergunta mais difícil no momento mais inconveniente.


— Em casa, levantei cedo pra dar uma corrida.


Ela me olhou por alguns segundos.


— Tudo bem, mas avisa da próxima vez.


Suspirei.


— Eu esqueci.


— Christopher.


O tom dela mudou.


Não era bronca.


Era preocupação.


— Só quero saber que você está bem.


Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Minha mãe tinha uma maneira irritante de conseguir atravessar minhas defesas sem esforço.


— Eu aviso.


Ela sorriu.


— Obrigada. Amo você.


Comecei a subir as escadas.

Antes de desaparecer, parei.


— Mãe?


— Sim?


Olhei para ela.


— Eu também te amo.


O sorriso dela apareceu imediatamente.


— Agora vai tomar banho antes que você chegue atrasado.


Sorri de canto.


Era uma ordem.


Mas uma ordem carinhosa.


Kendall West


Eu carreguei Duke até o carro.

Sinceramente, ainda tentava entender como alguém conseguia beber tanto em uma única noite. E ainda tínhamos a escola daqui a algumas horas, acho que essa altura comparecer ao treino e as aulas estava fora de cogitação.


E havia alertado.


Mais de uma vez.


Mas Duke tinha aquela habilidade irritante de transformar qualquer conselho em um desafio pessoal.


— Eu falei pra você não misturar a porra daquelas bebidas — murmurei enquanto abria a porta do carro.


Ele não respondeu.


Claro que não.


Estava ocupado demais tentando convencer o próprio estômago a continuar funcionando.


Coloquei-o no banco traseiro e liguei o carro.


Dirigi devagar.


A última coisa que eu precisava era ele vomitar dentro do carro e depois ter que explicar para minha irmã por que o banco traseiro parecia uma cena de crime.

Ela provavelmente sobreviveria a um assassinato dentro de casa antes de aceitar uma mancha no estofado. E cheiro azedo de vômito. Quando chegamos ao prédio, pedi ao porteiro para ficar de olho no carro enquanto eu levava Duke para cima.


O apartamento estava silencioso.


Silencioso demais.


Acomodei Duke no sofá e fui guardar o carro.


Quando voltei, ele já estava acordado.


Sentado.


As mãos apoiadas no rosto.


Parecia menos bêbado e mais destruído.


Sentei na poltrona a sua frente.


— Duke.


Ele não respondeu.


— Cara, por que você bebeu tanto?


Nada.


Suspirei.


— Os caras estavam bebendo pra se divertir. Você parecia estar tentando se destruir. O que estava tentando provar? Pra que?


A mandíbula dele travou.


Eu conhecia aquele olhar.


Era o olhar de alguém tentando segurar algo que estava prestes a quebrar.


— Foi a Kate, não foi?


O silêncio confirmou antes da resposta.


— Que se dane a Kate.


Ele riu sem humor.


— Quero mais que aquela vadia se foda.


Cruzei os braços.


— Calma cara. Só estou tentando entender. Então por que isso?


Ele levantou o olhar.


E pela primeira vez naquela noite eu percebi que não era raiva.


Era dor.


— Caramba, Ken… isso em você é cinismo ou frieza? Difícil decidir!


Franzi a testa.


— O quê?


— Você sabe muito bem o que.


— Não, eu não sei.


Ele se levantou com dificuldade.


— Claro que sabe.


— Duke…


— Você conseguiu o que queria.


Meu rosto fechou.


— Do que você está falando?


Ele riu.


Mas era um riso vazio.


— Agora eu sou apenas alguém que você brinca quando está entediado. Só me pergunto o porque? A atenção da Ashley e do resto da escola não eram suficientes? Você tinha que me arrastar para o seu buraco negro também?!


Aquelas palavras me atingiram antes mesmo de eu entender.


— Você está falando merda.


— Estou?


Ele passou a mão pelo rosto.


— Depois daquele dia no treino…


Meu corpo ficou imóvel.


Ele percebeu.


— Você lembra.


Não respondi.


Claro que lembrava.


Como esquecer?


Aquele momento tinha sido estranho.

Confuso. Não tinha sido uma decisão. Apenas aconteceu. Algo que eu havia guardado em uma gaveta mental e trancado.


— Eu tentei esquecer — ele continuou. — Tentei fingir que não aconteceu.


A voz dele falhou.


— Mas eu não consigo.


Fiquei olhando para ele. Sem resposta.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha uma resposta a dar. Eu nem sei direito porque aquilo aconteceu. Achei que havia sido uma brincadeira algo que nem iríamos lembrar.


— Eu não consigo parar de pensar em você.


O apartamento pareceu menor.


Mais silencioso.


— Duke…


Ele desviou o olhar.


— Esquece.


Ele tentou passar por mim.


Mas eu continuei parado.


— Não.


Ele me encarou.


— Não o quê?


Respirei fundo.


— Não fala como se fosse simples.


Ele ficou quieto.


Eu também.


Era estranho.


Eu conseguia enfrentar qualquer pessoa no colégio. Qualquer provocação. Qualquer ameaça. Mas essa conversa parecia muito mais perigosa.


— Você não é gay — falei finalmente.


Ele soltou uma risada amarga.


— Essa é sua preocupação?


— Eu estou tentando entender.


— Eu também estou tentando.


A resposta me desmontou.

Porque era verdade. Ele não parecia alguém com todas as respostas. Parecia alguém assustado. Assim como eu.

Ele tentava se levantar mas sem equilíbrio acabava cambaleando e caindo para trás. Antes que atingisse o sofá novamente eu o seguro pela cintura. Em seguida sinto a pressão dos seus lábios contra os meus. Não consegui reagir. Apenas retribui aquele beijo, o mais estranho era que queria retribuir. Nem me ocorreu resistir. Ele afasta seu rosto novamente e diz:


— Preciso disso de novo Ken, preciso de você.


Eu respiro fundo e solto os braços que ainda se encontravam ao redor de seu corpo:


— Cara, você tá bêbado… não tá pensando direito. Isso… isso…não tá certo. Lucy ainda está dormindo. Vamo deixar isso pra lá.


Me viro em direção a cozinha, ele me impede segurando minha mão:


— Não vai Ken, você não pode decidir por mim.


Solto a sua mão, arfando, apreensivo com toda situação e respondo:


— Estou decidindo por mim! Isso não pode continuar. Nós não somos isso! Não podemos ser. Duke. Somos amigos. Vá para o quarto e descanse. Não há mais o que falar agora.


Ele quase rosna uma resposta de volta:


— Então é isso? Que grande covarde de Merda é você! Quando chega chapado no treino, as “brincadeiras” na porra do vestiário tá tudo bem. Quando são nos seus termos, tá tudo certo. Mas se eu decido então não… é isso então… achei que fôssemos amigos. Mas sou apenas um brinquedo pra você né? Pra usar e descartar? Responde SEU FILHO DE UMA PUTA! Covarde de merda!


Me viro, e o acerto em cheio no rosto. Um líquido escarlate escorre de sua narina direita. Ele solta um riso maníaco e sevira de costas. Sinto minhas emoções fora de controle e desço em busca de ar. Me arrependo imediatamente do que fiz mas não conseguia pensar…Desço e começo a andar sem rumo pelas esquinas próximas ao meu prédio. Penso nele, penso no momento a quele se referia, penso em minha irmã adormecida em seu quarto, torço para que não tenha despertado pela discursão e ouvido aquilo. Não sabia o que dizer, não tinha ideia de como lidar com aquilo. Não conseguia pensar. Respiro fundo algumas vezes. Recalculo a rota para uma mercearia ali próximo.




Christopher Valiate


7:30 AM.


Olhei para o relógio.


Péssima ideia.


— Droga.


Eu estava atrasado.


Peguei uma maçã na fruteira e saí correndo.


Minha mãe apareceu na porta.


— Christopher!


— Desculpa, mãe!


— Você não vai tomar café?


— Eu vou me atrasar!


Ela abriu a boca para responder, mas eu já tinha desaparecido. Cinco minutos depois eu estava dentro do carro.


Liguei.


O motor respondeu. Pelo menos alguém naquela manhã parecia acordado e funcionando.


Peguei o celular e liguei para Lucy.


Chamando…


Chamando….


— Oi Chris.


Sorri.


— Bom dia para você também.


— Bom diaa


— Estou saindo de casa. Quer ir comigo?


Houve uma pequena pausa.


— Sim. Estou acabando o café e desço, espero na portaria.


— Ótimo, já estou próximo.


O prédio dos West já estava se tornando familiar. Talvez familiar demais. Estacionei e esperei. Pouco depois, Lucy aparece.

Como sempre. Correndo. E quase tropeçando.


Ela entrou no carro.


— Nossa, você foi rápida.


— Em dias normais meu irmão me leva. Mas hoje após o café ele me disse que não iria.


Ela colocou o cinto.


— Aconteceu alguma coisa?


Ela deu de ombros.


— Não sei direito. Algum problema com um amigo. Quando acordei as 6:30 ele ainda não havia dormido. Mas pelo menos me preparou o café.


Olhei para frente.


Por algum motivo, lembrei de Kendall no parque.


— Um amigo chamado Duke?


Lucy virou o rosto.


— Como você sabe?


— Encontrei os dois hoje cedo.


Ela arqueou a sobrancelha.


— Você estava onde às quatro da manhã?


Parei.


Droga.


Lucy ao que parece tinha herdado a habilidade da família de fazer perguntas impossíveis.


— Correndo.


— Às 4:00 da manhã?


— É o que parece…


Ela me encarou.


Depois começou a rir.


— Você é muito estranho.


— Obrigado.


— Não foi exatamente um elogio.


— Vou aceitar mesmo assim.


Ela balançou a cabeça sorrindo.


E seguimos para a escola.



Duke Benson


Acordo lentamente. Minha cabeça parece pesar uma tonelada. Por alguns segundos não lembro onde estou. Então vejo o quarto.

O apartamento do Kendall. E lembro.

Tudo volta de uma vez. A discussão. As palavras. A confusão. Levanto e encaro meu reflexo no espelho. Eu parecia exatamente como me sentia. Perdido, acabado e confuso. Ouço o registro do chuveiro sendo fechado. Pouco tempo depois a irrompe pela porta do banheiro adentra o quarto enrolado em uma toalha branca enquanto enxuga os cabelos com outra.


Ele me vê acordado.


— Você melhorou?


Assinto.


—É mais ou menos.


Ele percebe o machucado no meu rosto e imediatamente muda a expressão.


— Meu Deus. Duke.


Ele se aproxima.


— Eu fiz isso.


— Não precisa….


Mas ele ignora.


Me leva até o banheiro, me põe sentado próximo a bancada da pia. Pega uma caixa de primeiros socorros e começa a cuidar do ferimento. E aquele gesto simples é quase pior do que qualquer palavra. Porque Kendall sempre foi assim. Ele dizia que não se importava. Mas estava sempre cuidando de tudo. Quando nossos olhos se encontram, nenhum dos dois fala nada. E talvez aquele silêncio diga mais do que qualquer conversa. Eu queria acreditar que aquilo significava alguma coisa. Mas também tinha medo de estar apenas criando esperança. Porque amar alguém que não sabe o que sente é como segurar uma porta aberta durante uma tempestade.

Você fica ali esperando. É atingido por respingos da chuva, mas nunca está completamente a salvo ou exposto. Mas mantém a porta aberta. Mesmo sabendo que pode e provavelmente vai se machucar. Você assume o risco. E naquele momento eu só sabia de uma coisa: Sentia alguma coisa por ele, não era apenas luxúria, não era carnal, era algo diferente. Algo que não conhecia ou entendia. E isso me assustava e tornava tudo muito mais complicado. Enquanto ele limpava o ferimento com algodão, olho nos seus olhos. E ele retribui. Não conseguimos desviar o olhar um do outro, a tensão era palpável. Ele termina a limpeza e acaricia levemente minha bochecha com o polegar direito. Dou um meio sorriso, e então ele se curva e seus lábios encontram os meus. Por um momento retribuo o beijo, mas de súbito me afasto.


—Não Ken, olha eu tentei… mas você não quer isso… não vou forçar a barra…


Fui impedido de continuar.

Ele silencia meu esforço ético com outro beijo. A essa altura penso: que se foda!

Me ponho de pé e o beijo com toda intensidade que gostaria. E seguimos para o quarto. Ele me deita na cama e começa a despir-me, sem pressa, peça por peça… sua respiração ofegante, passeando da minha nuca ao meu peito e além, o calor das suas lufadas quentes de ar sobre a minha pele, seus lábios quentes… nossas mãos entrelaçadas, nossas peles em contato…A toalha de alguma forma ainda resistia entre nós. De súbito ele vasculha a mesa de cabeceira e recupera um baseado meio amassado e um isqueiro. Acende e dá um longo trago. Depois me beija e passa o trago para mim. Revezamos os beijos e os tragos…Na cama… eu o olhava e sorria… ele fazia o mesmo. Nenhuma palavra era dita. Tudo que precisava ser dito estava em cada um daqueles olhares e sorrisos. Em cada centímetro daquele quarto. Que aquele ponto mais parecia uma sauna. O tempo simplesmente não existia ali, pelo menos eu não o via passar. Nós também não existíamos. Era algo tão improvável. Algo que não deveria acontecer. Algo que nós dois tentaríamos negar nas próximas horas. Algo que fingiríamos não existir. Mas por algum motivo teimávamos em não resistir. Me entreguei, e o recebi. O acolhi no momento. O senti o amei, sem me importar com nada. Sabia que pagaria o preço mais tarde. Mas não sentia como se tivesse escolha. Queria ser dele, ansiava por ele, por nós. Mesmo sabendo que da porta pra fora. Aquilo tudo ia deixar de existir. Nada importava naquele momento. Nada além de nós.


Christopher Valiate, 16:20 PM:


Estávamos nos dois últimos horários de química, mas não me sentia muita bem, uma sensação desconfortável na boca do estômago. Um olhar vertiginoso. Penso que talvez seja algo que comi e Charlie imediatamente replica.


“Ou pensou”


Qual é Charlie, você não tem que ser onipresente, dá um tempo.


“Helloo, gato eu só existo porque você existe”


Nem me lembre disso… As vezes me pergunto se te dar tanta confiança foi uma boa ideia.


“Claro que foi, o que seria de você sem mim para te ajudar a organizar tantos pensamentos?”


Talvez um ser humano normal?


“Tenho duas respostas pra isso…”

“Defina normal?” E “Bem que você queria…”


Ah CALA A BOCA!


Percebo que acabei me expressando um pouco mais alto do que gostaria… o professor havia interrompido a aula e alguns alunos se voltaram para mim. (Opa, fiz merda)


—Senhor Christopher, gostaria de esclarecer a quem se dirigia? Certamente não a mim ou aos isótopos os quais discutíamos…


Sinto minhas bochechas queimarem e minhas costas esquentarem. Mas esforço-me para dar uma resposta adequada.


—Perdão professor, estava com pensamento longe. Acabei pensando alto demais… (Charlie você me paga) penso


“Eu mal posso esperar” ele de imediato replica


—Tente guardar seus pensamentos para si mesmo da próxima vez sr. Muito bem turma, como eu ia dizendo…


—(Acredite eu tento e guardo a maior parte) penso..


“E não é nem a metade”


—(JÁ CHEGA CHARLIE, você deveria me ajudar!)


“Eu faço o melhor que posso”


Algum tempo depois o sinal toca, encontro Lucy e a levo até em casa. Não falamos muito no caminho e agradeço por ela não ser o tipo de companhia que exige muita interação de volta. Deixei-a em frente ao seu prédio e segui para casa. Minha cabeça estava particularmente cheia aquela noite. Nada de ruim havia acontecido até então, mas acho que meu cérebro veio com defeito de fábrica pois mesmo as coisas boas, levavam dias a serem processadas. Eu precisava de Charlie, precisava colocar tudo no papel, rever se possível, repassar e pensar de novo de novo e de novo… pra ter certeza de que não fiz nada errado de que fui o que precisava ser. De que não decepcionei ninguém. Guardei o carro. E subi para o quarto. Não havia ninguém em casa aparentemente. Entro no quarto tiro a roupa e me dirijo ao banheiro, precisava urgentemente de um banho. Fico uns bons minutos embaixo da água corrente, apenas respirando fundo. Sinto a sensação de perigo diminuir, e a calma volta a tomar conta. Recordo da vodka para emergências guardada no armário abaixo da pia junto a um maço de Lucky Strike Lila ambos intocados. Quando era mais novo, costumava me machucar porque entendi que a dor física me ajudava a manter o foco. Isso funcionou por um tempo. Mas me levou a um extremo que não gostaria de revisitar. No meu antigo colégio, os garotos fumavam bastante, nunca gostei de cigarro. Mas encontrei esse saborizado que tornava suportável a experiência e ajudava a respirar e pensar. A vodka tinha o mesmo o propósito. Mas também me levou a padrões destrutivos, aos 13 anos tomei um dos maiores porres da minha vida. E jurei que nunca mais. Então a evitava. Mas as vezes um shot ou dois ao som de Sky Ferreira me ajudavam a desinibir e dançar, mesmo que sozinho no meu quarto. Na maior parte do tempo meu maior suporte era Charlie, um objeto inanimado alimentado com meus pensamentos e sentimentos. Mas que vinha se tornando bem atrevido ultimamente. Ele se apossou de minha autocrítica latente e fazia questão de me lembrar disso. O que é bom por um lado, ajuda a manter meu ego sob controle. Mas por outro é inconveniente as vezes, desconcertante e parece ter adquirido vontade própria. É estranho. Porque sou eu mesmo observando meus próprios pensamentos enquanto eles acontecem. De uma forma absurdamente analítica, criteriosa, satírica, sádica ou até cruel. É desafiador conviver com ele. Mas tenho que admitir que esse “carinha” é extremamente perspicaz. Muitas vezes me aponta com exatidão as situações bem antes de eu enxerga-las por completo ou compreendê-las. Me toma algum tempo para acompanhá-lo. São tantas possibilidades e caminhos ao mesmo tempo. E já fazendo graça de tudo antes mesmo de compreender. O humor ajuda a tornar as catástrofes da minha vida mais leves.


“O que posso fazer, sou bom nisso”


Bom em me deixar maluco?


“Bom em te ajudar a organizar toda a maluquice e ainda te arranco umas risadas no processo, tem que admitir, é eficiente”


É, de certa forma sim…


“Sabe Chris, a vida é um absurdo, para todos. Passamos dia após dia tentando escapar da perplexidade que é estar vivo. Mas não há saída, tem de encontrar um caminho para a vida. Uma forma de existir no meio disso. Por mais desconfortável e sem sentido que seja”


Eu juro que tento. Mas falho miseravelmente. Não vejo muito sentido em nada. Acho que me dei conta disso muito cedo. E uma vez que você vê a verdade. Não pode desver. Não pode fingir que não viu e olhar por outro lado. É só que… eu me importo muito com tudo. Eu me importo muito com o mundo. Mas não me encaixo em lugar algum. Não há nada que me faça pensar que valha a pena continuar isso dia após dia. Viver parece sustentar um desconforto absurdo, sem nenhum motivo que justifique isso. Tenho mais dinheiro do que poderia querer, já viajei mais do que maioria dos adolescentes da minha idade. Finalmente acho que estou gostando de uma garota. Nada disso me faz enxergar um futuro em que eu esteja nele. Amo minha família, quero todos bem e felizes. Não sei o que mais poderia querer. Será que algo mudaria isso?


“Não acho que seja tudo que tem, não tem ou possa vir a ter… mas o caminho até lá. Você estava com tanto medo antes de chegar aqui. E olha tudo que já rolou. Já pensou nos momentos em que você não estava tão pessimista assim? Ouvindo música no carro, dançando sozinho… as conversas com Lucy. Quando você não estava na sua mente. Mas presente, fora dela. Tudo que você conseguiu compreender sobre si mesmo e sobre ela nesse pequeno espaço que compartilharam. A felicidade é simples chris. Ela vem em ondas. Mas sempre encontra o caminho de volta até você”


Já repassamos isso. Acho que você tem razão. Me ocorre que é um estado inconstante essa tal felicidade. Mas porque o desconforto é tão presente? Porque sinto que estou sempre dando mais do que posso? Porque parece que sempre me custa mais entregar o que outros fazem tão facilmente? Eu nunca entendi isso. Não sei porque fico repassando, analisando cada intenção. Incerto das interações, se fiz a coisa certa ou não. Me perdendo em turbilhões de pensamentos por coisas tão triviais. E no final parece que sempre entrego menos que o resto deles. Mesmo sentindo que dei o meu máximo, o pior. Ninguém parece perceber, eu to exausto. Cansei de tentar.


“Exceto Lucy, ela parece te enxergar”


É, acho que você tem razão. Lucy viu através de mim. Confio nela. Com ela consigo ser eu mesmo.


“É um começo…”


Acho que sim. Acabaram as piadinhas?


“Não, só te dando uma trégua, não se acostume”


você é incorrigível.


Fecho Charlie, o devolvo a gaveta com chave. Acho que por essa noite foi o suficiente. Olho pelo vidro da janela, as luzes da rua invadindo levemente o interior do quarto. Me perco nessa visão e de súbito caio no sono.