Janeiro de Gelo
6 Sua mente suas regras.
Capítulo 5 — Sua mente, suas regras
Christopher Valiate
O sol havia acabado de surgir, mas eu já sentia a poluição do ar diminuir à medida que o frio começava a perder força. Ainda estava deitado, encarando o teto enquanto a luz atravessava as frestas da cortina e invadia meu quarto.
Meu corpo implorava por mais alguns minutos naquela cama, mas o despertador mal havia tocado quando percebi que, se não levantasse naquele instante, chegaria atrasado.
Além disso, Lucy estaria me esperando, como de costume. E, depois das últimas advertências, não podíamos nos dar ao luxo de acumular outra.
Então levantei.
Tomei uma ducha, me arrumei e, como não estava fazendo tanto frio, escolhi roupas mais leves. Em seguida, desci para a cozinha.
Eram raras as vezes em que eu conseguia tomar café em casa antes de sair. Por isso, assim que entrei, minha mãe ergueu os olhos e me encarou com uma expressão quase incrédula.
— Que surpresa. O senhor tomando café?
— Me aprontei mais cedo hoje. E também não posso me atrasar. Tenho dado carona para a Lucy esses dias.
— Ah, está explicado, então. Bem, pelo menos isso, né?
— O que quer dizer?
Ela abriu um sorriso.
— Que a namoradinha está fazendo você acordar cedo.
— ELA NÃO É MINHA NAMORADA!
Ela começou a rir.
— Ok! Então coma.
— É sério!
— Tudo bem. Não está mais aqui quem falou.
— Assim está bem melhor.
Olhei para o relógio.
07:30.
— Hm… Estou atrasado. Tenho que ir.
Levantei-me desajeitadamente da mesa.
— Ei, espera! Você nem terminou o café.
Eu já estava descendo a escada para a garagem.
— Desculpa. Fica para depois.
Clarice permaneceu parada por alguns segundos, encarando a porta da garagem. Mesmo sabendo que eu já não estava mais ali, ainda exclamou:
— Ah, estava bom demais para ser verdade!
Então voltou aos seus afazeres.
Desci para a garagem, entrei no carro e saí pelo bairro.
No meio do caminho, meu celular tocou.
— Alô?
— Cadê você? — perguntou Lucy.
— Já estou chegando.
— Anda logo. Hoje a primeira aula é da senhora Scarlety, e ela odeia atrasos. Não sei o que ela faria caso chegássemos tarde.
— Relaxa. Desce que eu estou na portaria.
— Ok.
Ela desligou.
Estacionei o carro em frente ao prédio e, dois minutos depois, Lucy já estava saltando para dentro do conversível.
— Pra que a pressa? Pensei que tivéssemos um acordo quanto a adiar nossas visitas diárias ao purgatório.
— E temos. Mas, desde a última semana, nossos “quinze minutos” nos custaram três advertências. Na quarta…
Interrompi:
— O que acontece? Desistem da redenção e nos despacham para o inferno?
— Não. Suspensão. Não quero manchar meu histórico.
— Bom, para mim isso seria um bônus. Mas, como você quer manter pelo menos a sua ficha escolar “pura”, eu respeito.
Ela riu.
— Idiota.
— Eu sei.
— E pare de atentar contra a minha inocência. Já te disse: minha cabeça é depravada, meu corpo não.
Olhei para ela de lado.
— Essa conversa a gente tem depois.
— Como é?
— Deixa para lá.
Nós dois rimos.
Durante o percurso, nos limitamos a reclamar do mundo e discutir música pop. Em algum momento, chegamos à conclusão absolutamente científica de que Miley Cyrus havia alcançado o nível de “melhor pessoa do mundo” seu último álbum Bangerz, lançado recentemente foi um divisor de águas com toda certeza.
Quando chegamos ao colégio, Lucy indicou uma vaga entre um chery utilitário amarelo e um Camaro retrô cuja pintura original havia sido coberta por uma camada de tinta verde brilhante.
Do utilitário saíram duas garotas, Cindy e Emily. Os garotos do Camaro Creg e Goyel.
Descemos e cumprimentamos todos.
Olhei para o relógio.
07:58.
— Quase oito, galera. Quem está afim de quinze minutos de detenção?
Lucy foi a primeira a responder:
— Eu estou fora. Não vejo sentido nisso. São só quinze minutos. O que você ganha com isso?
— Menos quinze minutos no inferno. Não é óbvio?
Todos riram.
Ela balançou a cabeça.
— Nunca entendi por que você odeia tanto a escola.
Sem pestanejar, respondi:
— Sempre tive aversão a tudo que é rotulado como “obrigatório”. Mais alguma pergunta?
Pigarreei, abrindo um sorriso frouxo.
Lucy me lançou um olhar furtivo.
— Não. Estou satisfeita. De perguntas, pelo menos.
Antes que eu pudesse responder, Cindy, a garota de cabelos azuis, que até então estava abraçada a Emily, soltou:
—Eita...
Todo mundo riu.
Lucy replica.
—Brincadeira pessoal.
—Era? Poxa eu já me imaginei no altar.
Ela revirou os olhos.
— Você não presta.
— Finalmente alguém percebeu.
Então olhei para o grupo.
— Mas e aí? Já que a Lucy deixou bem claro que quinze minutos é pouco, quem topa fugir da escola hoje?
Cindy foi a primeira a responder:
— Eu e Emy topamos. Estou afim de beber e tenho identidade falsa.
Olhei para Creg e Goyel.
Creg deu de ombros.
—Estamos dentro, não vamos perder a diversão.
Lucy me lançou um olhar vencido.
— Ah… Tá certo. Já que sou voto vencido, não vou passar o dia todo sozinha aqui.
Só então me pronunciei:
— Então, já que estamos de acordo, não tem porque continuar aqui.
Parei.
— Pera aí. Falta uma coisa.
Creg franziu a testa.
— O quê?
— Vocês conhecem alguém que possa nos dar cobertura caso o diabo dê por falta de seis almas penitentes?
Todos riram.
Creg então respondeu:
— Eu conheço a pessoa certa.
Era um tal de Chippe, alguém que, segundo Creg, conseguia invadir o sistema da Pelotas com facilidade.
Ligamos para ele.
Chippe aceitou ajudar, desde que pagássemos uma quantia em dinheiro.
Com tudo acertado, às 08:15 irrompemos pelos portões do estacionamento, dirigindo displicentemente pela cidade.
Com a capota abaixada e os vidros dos outros carros abertos, sentíamos a brisa no rosto enquanto a música tocava em volume alto.
Quando precisávamos conversar, praticamente gritávamos uns com os outros.
Fiz uma manobra, me posicionei ao lado do carro de Cindy, que havia tomado a dianteira, e gritei:
— Pra onde?
Ela olhou para mim.
— Só me segue.
Voltei o carro para a posição anterior e, ao passar pelo veículo do meio, fiz sinal para que Creg e Goyel acompanhassem o utilitário de Cindy.
Os três carros formavam quase um comboio.
Passamos cerca de meia hora atravessando a Times Square, até que um guarda de trânsito tentou nos parar.
Naturalmente, aceleramos.
Depois, descemos pela avenida, nos afastando do centro.
Quando percebi, já estávamos no bairro chinês. Chinatown.
Cindy colocou a mão para fora da janela e fez sinal para pararmos.
Descemos.
Fui rapidamente em sua direção.
— E agora?
Ela respondeu com a maior tranquilidade do mundo:
— Tenha calma. Vem comigo.
Ela me pegou pelo braço e me arrastou para uma transversal estreita do bairro.
Visualmente, o lugar parecia composto por várias caixas de fósforo pintadas de vermelho, empilhadas umas sobre as outras, com pequenos detalhes orientais em azul decorando as fachadas dos prédios. A tinta dourada nos corrimãos das escadas e nas inúmeras varandas completava o cenário. Lanternas de papel. Vendedores ambulantes. Completavam o visual único.
Caminhamos por cerca de cinco minutos.
Na verdade, o lugar era bastante animado, cercado por lojas e barracas que vendiam todo tipo de coisa excêntrica. Comidas das mais variadas, temperos, frutas e até mesmo artigos de pirotecnia.
Goyel, que até então estava calado, perguntou:
— Cindy, ainda vai demorar muito? Por que você não foi ao Jerônimo? Lá seria muito mais fácil conseguir vodka.
Ela se virou.
— E quem disse que eu quero vodka? E, mesmo que quisesse, não posso voltar lá tão cedo. Desde que furtei aqueles cigarros, o Jerônimo quer ver o diabo, mas não quer me ver.
Emily, que vinha alguns passos atrás, soltou uma risada tímida.
Andamos mais um pouco.
Cindy apontou para uma lojinha escondida localizada em um beco entre dois prédios. Parecia mais um depósito. E talvez fosse.
— É aqui. Quem tem grana?
— Pega aqui.
Entreguei a ela uma nota de cem dólares.
Ela ergueu as sobrancelhas.
—É, vai servir.
— Cala a boca. Onde pegamos as coisas?
—Esperem aqui. Volto num instante.
Cinco minutos depois, Cindy voltou carregando várias sacolas.
— Será que dá para me ajudar? Puta que pariu, preciso fazer tudo sozinha?
Eu e Creg pegamos algumas sacolas e seguimos de volta para os carros.
Ao chegar, abrimos uma delas.
Havia bebidas, gelo, sucos e cigarros.
Olhei para aquilo tudo.
— É. Acho que já dá para começar a matar o meu fígado.
Rimos.
Voltamos aos automóveis e seguimos para qualquer que fosse o lugar que Cindy pretendia nos levar.
Kendall West
Acordei meio atônito.
Pisquei algumas vezes, tentando me acostumar com a claridade que escapava da janela.
Havia um peso sobre meu braço direito.
Só então percebi que Duke estava dormindo encostado a mim.
Fiquei imóvel por alguns segundos, observando-o.
A lembrança da noite anterior voltou de uma vez, acompanhada por uma sensação difícil de nomear.
Duke finalmente abriu os olhos.
Virou-se para mim, ainda confuso.
— Ken? É você mesmo?
— Sim.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— O que aconteceu ontem… foi de verdade?
— Foi.
— Mas…
— Mas o quê?
Ele se afastou, sentou-se na beirada da cama e passou as mãos pelo rosto.
— Foi a última vez, não foi? Primeira e última.
— Duke, eu não acho que…
Ele me interrompeu.
— Tudo bem. Eu sabia que seria assim. Agora é cada um para o seu lado.
Dava para medir a tristeza em cada palavra que ele dizia.
Eu queria ajudá-lo.
Queria dizer que tudo ficaria bem. Que talvez encontrássemos uma maneira de resolver aquilo. De fazer funcionar. Mas eu não via como…
Eu não podia.
Não negava os sentimentos que haviam surgido. Também não negava que estar com ele havia significado alguma coisa.
Mas eu tinha uma vida.
E aquilo que existia entre nós parecia uma coisa que eu não sabia como encaixar nela.
Eu não podia simplesmente mudar tudo de uma hora para outra. Não daquele jeito. Não por algo que eu ainda nem sabia se poderia dar certo.
E havia Ashley.
O que ela pensaria?
O que minha irmã pensaria?
O que o pessoal do colégio diria?
Eu não podia simplesmente jogar tudo para o alto. Por mais que quisesse diminuir o sofrimento dele, não sabia como fazer isso sem destruir nossas vidas no processo.
Então me calei.
Duke abotoou a camisa, ainda sentado na beirada da cama. Depois se levantou, entrou no banheiro e fechou a porta.
Olhei para o relógio de cabeceira.
10:47
Fui até a porta do banheiro.
— Duke, são 10:47. Como não fomos à escola. Quer que eu ligue para o Chippe?
Silêncio.
Esperei.
Nada.
Depois de alguns minutos, finalmente ouvi sua voz.
— Tanto faz.
Baixo. Simples.
— Ok. Vou ligar.
Peguei o telefone e pedi ao Chippe que desse um jeito em nossas faltas.
Depois fui até a cozinha procurar alguma coisa para comer.
Peguei trigo, ovos, leite e açúcar, coloquei tudo sobre a pia e comecei a preparar uma massa para panquecas.
Assim que misturei os primeiros ingredientes, ouvi a porta da frente bater com força.
Fui até a sala e abri a porta.
O corredor estava vazio.
Ninguém.
Voltei rapidamente para o quarto.
A porta do banheiro estava aberta.
Duke havia ido embora.
Sobre a cabeceira, havia apenas um bilhete amassado.
Peguei-o.
A letra era curta e apressada.
“Eu só preciso de um tempo. Vou tentar apagar o que houve da minha mente.”
Amassei o papel entre os dedos.
Por um instante, senti uma raiva absurda de mim mesmo.
Não queria fazê-lo sofrer.
Ele não merecia aquilo.
Mas eu também não sabia o que fazer.
E, naquele momento, isso parecia ser a pior parte.
Joguei o bilhete contra a parede.
Depois voltei para a cozinha e tentei me distrair, terminando a massa das panquecas.
Christopher Valiate
Nos afastamos do bairro chinês e, quando percebi, já estávamos nas proximidades do rio Hudson, bem à margem de Manhattan.
Seguimos pela ponte.
Cindy havia dito que conhecia um lugar perto do cais, então simplesmente acompanhei suas instruções.
Depois da ponte, seguimos por uma ruela estreita até chegarmos diante de um galpão com um portão enferrujado, já dentro da área do cais.
Descemos dos carros.
Cindy deu um salto e abriu os braços.
— Ninguém vai encher nosso saco aqui.
Creg olhou para o galpão.
— O dono não se incomoda de emprestar?
Cindy deu um sorriso.
— Não. O dono é meu pai. E, desde que ele comprou as docas do outro lado da cidade, ninguém vem mais aqui.
— Certo. Então vamos entrar logo.
— Tudo bem.
Ela nos guiou por um beco ao lado do depósito e abriu uma porta enferrujada.
Eu tinha que admitir: era muito mais confortável do que eu imaginava.
Havia máquinas de jogos, uma cama king-size, conjuntos estofados enormes, poltronas, pufes, um aparelho de som e uma televisão enorme.
Olhei ao redor.
— Uau. Onde conseguiu tudo isso?
Emily, que já estava se acomodando na cama nos fundos, respondeu:
— Ela comprou tudo. Transformou esse lugar no nosso esconderijo. Faz uns três meses que o pai dela cedeu o local. Afinal, a Cindy é bem reservada e, pelo menos isso, ele respeita.
Cindy sorriu.
Ela se aproximou de Emily e lhe deu um beijo rápido.
Então olhei para o resto do grupo.
— Bom, não temos que esperar mais nada.
Lucy, que até então estava quieta, respondeu:
— Não temos mesmo.
Ela ligou o aparelho de som.
A música começou a tocar.
O volume aumentou.
As luzes do lugar foram acesas.
Eu abri uma garrafa e servi uma dose para cada um.
Erguemos os copos juntos.
— ARRIBA!
— ABAJO!
— AL CENTRO!
— ADENTRO!
E aquela exclamação marcou o começo de uma tarde que, naquele momento, nenhum de nós imaginava que seria impossível esquecer.
Christopher Valiate:
A primeira dose desceu queimando. A segunda também. Mas, com o tempo, acabei me acostumando e, de copo em copo, aquela queimação momentânea foi se tornando prazerosa e razoavelmente apreciável.
Nunca havia experimentado tequila e, olha, que tempo perdido foi esse em que fiquei sem conhecer essa “belezinha”. Novelas mexicanas me dão sono e raiva, mas essa bebida conseguiu me deixar bem acordado.
Quando nos demos conta, já tínhamos liquidado as cinco garrafas de tequila. Então abrimos uma vodka.
Cindy, já meio alta das ideias, levantou-se da cama, foi até a mesa, pegou outra garrafa de vodka e subiu na mesa de bilhar, que ficava no canto reservado aos jogos. Começou a beber e a… hm, “sensualizar” com a garrafa na boca.
Eu, que estava sentado em um dos estofados junto a Lucy, apenas observei a cena.
— Uai! — falei, em tom de brincadeira.
Creg, que até então estava aos beijos com Goyel, levantou-se, encarou Cindy e soltou:
— Ah, minha Nossa Senhora! Ela bebe e vira stripper. Ô, Emy, vem aqui e controla a tua mulher.
Emily apenas se revirou na cama.
Eu e Lucy nos limitamos a rir. A Emy não era tão ciumenta assim, pelo menos não bêbada, então ninguém se deu ao trabalho de mandar Cindy parar. Além disso, era meio cômico ver alguém tentando sensualizar ao som de “Future”.
Aproveitando a deixa, falei:
— Tá bom. Já que a Cindy se adiantou, por que a gente não brinca de verdade ou consequência?
Lucy se pronunciou logo em seguida:
— Legal. Vem pra cá, Emy. E vê se desce daí, Cindy, você vai acabar caindo e morrendo. CARALHO, eu tô muito bêbada!
Ela piscou os olhos várias vezes e passou as mãos pelo rosto.
Em seguida, Emily se levantou da cama, Cindy saiu de cima da mesa, os meninos pararam de se agarrar, eu soltei Lucy e nos sentamos no chão ao redor da mesinha de centro.
Creg logo se empolgou e pegou uma long neck vazia para podermos girar.
— Tá legal. Lembrando que tudo o que acontecer aqui morre aqui. E sem restrições quanto aos desafios. Isso quer dizer que todo mundo pode se beijar ou sei lá… com todo mundo. Caso você não saiba, Chris, a boca da garrafa pergunta, o fundo responde. Todos de acordo?
— Sim! — falamos em coro.
Creg se virou para mim.
— Ok. Como você é o novato da turma, gira primeiro.
— Tá bem.
Assenti, meio apreensivo. Peguei a garrafa meio sem jeito e, por pouco, não a deixei escapar da minha mão. Então a segurei pelo meio e a girei moderadamente.
Por uns vinte segundos, todos ficaram acompanhando o movimento da garrafa.
Ela finalmente parou.
Goyel.
Ele seria quem perguntaria, e eu quem responderia.
— Verdade ou consequência, Chris? — perguntou ele, em um tom ousado.
Sem titubear, respondi:
— Vamos ver as consequências de hoje?
Digo, talvez eu tenha falado aquilo mais avoado do que deveria, porque o pessoal vibrou imediatamente e Lucy berrou um “BOAAA!” meio esganiçado.
Goyel sorriu.
— Não sei… Que tal me dar um beijo, bonitão?
Aquilo não me surpreendeu.
Goyel era um cara alto, loiro e definitivamente não era feio. Além disso, ele me encarava desde que nos conhecemos. Eu nunca ligara muito para rótulos. Um beijo a mais ou a menos não faria diferença.
Então soltei:
— Por que não?
— Assim é que eu gosto.
Goyel se inclinou em minha direção sobre a mesa, uma vez que estávamos de lados opostos.
Creg berrou:
— Ah, meu Deus!
Cindy gritou e urrou de satisfação.
— Andem logo! Quero ver essas bocas em ação!
Eu e Goyel ficamos apenas parados, nos encarando. Eu estava apreensivo. Nunca havia beijado um garoto, mas sabia que seria um beijo como qualquer outro. O que realmente me deixava nervoso era Lucy estar ali.
Então, surpreendentemente, ela falou:
— Anda logo com isso, Chris. É só um beijo. Todo mundo aqui já fez isso.
Ao ouvir aquilo, respondi com audácia:
— Tá bem. Mas, se é pra fazer isso, vou fazer direito.
Levantei-me e levei Goyel até o estofado maior enquanto os outros assistiam. Joguei-o sobre o móvel e me lancei sobre ele. Posicionei minha boca próxima ao seu ouvido e perguntei:
— Tá pronto?
Ele respondeu com a voz meio trêmula:
— Acho que tô.
— Ok. Espero que saiba o que “beijo técnico” significa.
Creg perdeu a paciência e, juntamente com Cindy, gritou:
— ANDEM LOGO COM ISSO! NÃO TEMOS O DIA TODO!
— Tá bom, tá bom! — respondi, meio alheio a eles.
Então, finalmente, encostei meu lábio superior sobre o lábio inferior dele e iniciei um beijo cálido e voraz ao mesmo tempo. Molhado, sem demora ou excesso de força. Na medida certa.
Depois de um curto período, me levantei e estendi a mão para ajudá-lo a se levantar.
O pessoal ria e gritava, completamente insandecido pelo efeito do álcool e pelo que acabávamos de fazer.
Voltamos a nos organizar ao redor da mesa.
Goyel passou a língua pelos lábios e comentou:
— Nossa, Chris. Você beija bem.
— Pois é. Beija mesmo — completou Lucy, para ninguém em especial.
Todos se voltaram para ela.
Cindy foi a primeira a reagir:
— Quer dizer que temos um casal honorário aqui?
Todos riram.
— O que é casal honorário? — perguntei.
Cindy respondeu com uma entonação digna de Sherlock Holmes:
— “Casal honorário”, meu caro, são duas pessoas que ficam juntas na maioria do tempo, só que, em festa, como está, por exemplo, ninguém é de ninguém. Tipo eu e a Emy, ou Creg e Goyel.
— É tipo a gente — completaram Creg e Goyel, em coro.
Então falei:
— Ah, mas eu e a Lucy não oficializamos nada.
— Nem precisa — disse Lucy, para minha surpresa.
Ela me encarou com um sorriso provocador.
— Mas, já que você é uma donzela imaculada, nesse caso, eu pergunto: me concede a honra de ser meu namorado honorário até eu achar algo melhor pra me divertir?
Só então me pronunciei:
— Sim, senhora. Aceito ser sua distração. Mas vou logo avisando que quero décimo terceiro e férias remuneradas.
Todos caíram na gargalhada.
Eu apenas ri e dei um selinho de leve nos lábios de Lucy, antes de Cindy girar a garrafa e a brincadeira continuar.
Kendall West, 15h45:
Naquela tarde, aproveitei para arrumar a casa. Quando não sobrou mais nada com que me ocupar, resolvi ligar para Ashley.
Faziam alguns dias desde a última vez em que nos falamos, e eu queria me resolver com ela. Porque é foda ter que ver uma pessoa com a qual você tinha ou tem uma relação, não sei, e simplesmente não falar. Além de ser infantil, pega mal para mim.
Então peguei meu celular e usei a discagem rápida 3 para ligar para ela.
— Chamando…
— Quem é? — Era a voz cadenciada da Ashley.
— Sou eu, Ken. Eu tava pensando… se a gente não podia deixar tudo o que aconteceu pra trás e você viria me ver. Afinal, o Chippe me disse que você não tá doente e que só não foi porque seus pais viajaram, mas você não queria que eles soubessem que você faltou. Então, topa?
Houve um breve silêncio.
— Tudo bem, Ken. Eu nem sei por que estava com raiva e… é. Eu senti a sua falta.
Eu queria dizer que também senti.
Mas a verdade era que tudo se tornara bem mais tranquilo sem Ashley por perto. Ela é ótima, mas um drama ambulante. Não tinha tanta energia quanto gostaria disponível para ela.
Então apenas respondi:
— Beleza. Vou pedir pizza. Não demora.
— Ok — disse ela.
Desliguei e disquei o número da pizzaria.
Pedi três pizzas: duas sicilianas e uma de pepperoni. Ashley adorava pepperoni.
Sentei-me na poltrona para aguardar as pizzas. Meia hora depois, o pedido chegou à minha porta. Paguei, deixei as caixas sobre a mesa e voltei para a poltrona, esperando Ashley. Mais meia hora se passou até a campainha tocar.
— Já vai!
Fui até a porta da frente, abri e Ashley estava ali.
— Oi, Ken.
— Oi, Ash.
Ela não falou mais nada. Apenas entrou.
Fechei a porta e a acompanhei.
Ash deixou a bolsa sobre a poltrona, deu uma volta pelo apartamento e parou diante da janela da sala, de costas para mim.
— Eu…
Interrompi antes que pudesse continuar.
— Antes de mais nada, queria dizer que sinto muito. Sei que tenho estado distante. Não é culpa sua. Nunca quis te fazer sofrer.
Ela respirou fundo.
— Ken, eu… também fui injusta. No caminho pra cá, fiquei tentando enumerar razões pelas quais poderia jogar qualquer culpa ou problema pra cima de você. E só então me dei conta do quanto isso é mesquinho. Você… não merece isso. E eu não mereço. Nós não merecemos. Talvez isso não esteja mais funcionando…
Nesse momento, caiu a ficha.
Meu relacionamento estava indo pelos ares, junto com a minha posição social. Eu não podia deixar aquilo acontecer. Não podia parecer um babaca diante de todos.
Então decidi que faria qualquer coisa para salvar aquele relacionamento.
— Não é bem assim, Ash. Vem cá.
Ela veio em minha direção.
Então, antes que pudesse revidar, eu a envolvi em um beijo.
No início, ela tentou se desvencilhar, mas a segurei firme junto ao meu corpo. Enquanto as pizzas esfriavam sobre a mesa, o clima entre nós esquentava. Dessa vez, em cima do sofá. Em meio ao amasso, ainda sobre ela, murmurei:
— Fica comigo mais essa noite e eu prometo que te faço esquecer todas as outras lembranças ruins.
Ela retrucou com um beijo faminto, seguido por abraços fortes e apertados. Quando me dei conta, já a tinha levado até o quarto.
Eu não podia parar. Não queria parar. O lance com Ashley era físico.
Comecei a despi-la, e ela fez o mesmo comigo. Desabotoei as calças jeans que ela usava com certa brutalidade, arranquei-as e as arremessei para algum canto do quarto. O gesto foi seguido por mais beijos, regados por lascívia e desejo.
Eu já não tinha certeza do que sentia.
Porque, quando estava com ela, o calor também era intenso. Naquele momento, eu só queria aquele corpo em mim.
Arranquei minha camiseta e, com um gesto rude, atirei Ashley sobre a cama. Tirei sua blusa e o sutiã, deixando a calcinha como a última peça.
Beijei-a novamente.
Depois, beijei e suguei sua nuca e seu pescoço, respirando forte perto de sua orelha. Eu sabia que aquilo a excitava.
Continuei beijando seu queixo e seu tórax, explorando aquele corpo com a boca, até agarrar a última peça com a mandíbula e finalmente arrancá-la.
Sob mim, Ash me encarou.
Seu olhar estava turvo, mas intenso. Carregado de malícia, êxtase e vontade de mais.
Agora, completamente despida sobre mim, ela poderia ser minha.
E, com algumas peças a menos de roupa, depois eu seria totalmente dela.
Lucy West:
— Tá bom. O que vai ser, Chris? — perguntei após o giro da garrafa.
Ele me respondeu imediatamente:
— Desafio.
Falou com aquele tom sarcástico que já começava a me irritar e divertir ao mesmo tempo.
— Ok. O desafio é o seguinte…
Peguei um pedaço de flanela vermelha que havia encontrado por ali.
— Eu vou colocar a venda e você tem cinco minutos para fazer o que quiser com o meu corpo.
O queixo dele caiu, e eu ri.
— Meninos, marquem o tempo. Nada a mais ou a menos que cinco minutos.
— Beleza — respondeu Goyel, animado.
— Lucy, tem certeza? — perguntou Christopher, surpreendentemente envergonhado.
— Claro! — exclamei, desafiadoramente.
Levantei-me e me dirigi à cama dos fundos, já um pouco amassada pelas meninas. Andei primeiramente de costas, com o dorso voltado para o pessoal, e fixei os olhos em Chris (mesmo vendada) podia sentir sua direção, ao mesmo tempo em que desabotoava três botões da minha blusa de linho branca.
Assim que parte dos meus seios e do meu sutiã preto ficou à vista, deitei-me na cama e disse:
— O que está esperando?
Ele, meio desconcertado, respondeu:
— Hm… hãm… já tô indo.
— Ótimo. Meninos, marquem o tempo.
— Cronômetro rodando!
Dito isso, Chris se levantou de solavanco e caminhou, ou praticamente correu, até a cama.
Lançou-se sobre mim e, apesar da falta de jeito momentânea por causa da bebida, segurou minha nuca e beijou minha boca.
Depois, meu pescoço.
Daquele jeito que eu amava.
Deu uma leve sugada e mordeu meu lábio inferior, fazendo meu corpo inteiro reagir.
Então fez algo inesperado.
Foi descendo, beijando meu tórax, depois o espaço entre os seios e, em seguida, os próprios seios.
Eu nunca tinha experimentado aquele tipo de coisa.
Mas foi bom.
Muito bom.
Tão bom que os cinco minutos evaporaram antes que eu pudesse aproveitar mais.
Então ouvi Emy dizer:
— Já chega, garoto. Seu tempo acabou.
Os outros riram e bateram palmas.
Chris se levantou, deu um sorriso, olhou para mim com aqueles olhos profundos e perguntou:
— E então?
— O quê? — perguntei, confusa.
— Foi bom?
Ele perguntou com uma expressão genuinamente curiosa.
— Foi.
Respondi, enrubescendo.
Porque, com a mesma facilidade com que o álcool te dá coragem, ele também a tira.
— Tudo bem.
Ele segurou minha mão e me ajudou a levantar, indiferente à resposta.
Sentamos ao redor da mesa novamente.
Então olhei para o relógio.
17h20.
Nossa. O tempo voa quando você se diverte.
— Cindy, acha que conseguimos voltar para Park Slope em vinte minutos?
— Hm… talvez. Por quê?
— Bom, faltam vinte minutos para terminar o último tempo.
Goyel, que estava comendo pipoca, cuspiu uma parte no chão.
— Puta que pariu.
— CARALHO! — exclamou Emy.
Chris se levantou.
— Então é melhor irmos andando. Emy, sábado a gente passa aqui e ajuda a arrumar a bagunça. Hoje não dá.
— Beleza. Só lamento mesmo por essas últimas garrafas de vodka — disse Emy.
— Para de ser alcoólatra e vamo logo — respondi.
Goyel, que já estava abrindo o portão, gritou:
— Eu não posso me atrasar pra porra do jantar! Alguém aqui entende o que é ter pais alemãs? ELES SÃO RÍGIDOS COM A PORRA DO HORÁRIO!
Creg rebateu:
— Para de ser exagerado. Se você se atrasar, o que vão fazer? Tirar seu videogame?
Todos riram.
Goyel revirou os olhos.
— Não. Mas não preciso deles bisbilhotando a minha vida pra saberem se estou vendendo drogas. Você sabe como eles são doentes com isso. Vigilantes e invasivos.
— É. Eu sei.
— Tá bom, gente, vamo logo, pra ninguém se encrencar — interveio Chris.
Saímos.
O grupo foi avançando em direção aos carros, mas, aos poucos, Chris e eu fomos ficando para trás. Ele passou um braço ao redor dos meus ombros, me envolvendo em um abraço.
— foi um bom dia foi.
— É… foi legal — respondi, meio envergonhada.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Seus amigos são ótimos e… você também.
Senti o rosto esquentar.
Fiquei tão tímida que perdi a voz.
Ele percebeu.
E, como se quisesse me obrigar a falar, perguntou:
— Aquilo foi sério?
— Aquilo o quê? — respondi, intrigada.
— Você sabe. De namorar.
Meu coração deu uma pequena cambalhota.
— Eu não sei…
Minha voz saiu trêmula, quase como uma chama prestes a se apagar.
Christopher parou.
E então me puxou.
Encostou-me contra a parede do beco e me encarou diretamente nos olhos.
Aqueles olhos rubros.
Não havia mais brincadeira neles.
— Que tal namorar comigo?
Por alguns segundos, esqueci completamente como se respirava.
Sem saída, respondi:
— Aceito!
Ele me beijou.
E, naquele instante, alguma coisa mudou.
Christopher Valiate:
Enquanto caminhávamos em direção aos carros, Charlie apareceu outra vez.
Não fisicamente.
Claro que não.
Ele nunca precisava de convite.
Era mais parecido com uma voz que surgia no lugar errado, na hora errada, com uma opinião que eu definitivamente não tinha pedido.
“Então…”
Ignorei.
“Namorado honorário, beijo em Goyel, Lucy agora oficialmente namorada… Você realmente decidiu acelerar todos os capítulos hoje, hein?”
— Cala a boca, Charlie.
Lucy olhou para mim.
— O quê?
Percebi meu erro.
— Nada.
“Nada?”
— Eu disse nada.
“Você sabe que eu estou começando a achar que você fala comigo em voz alta de propósito.”
— Eu não falo com você em voz alta.
“Acabou de falar.”
Respirei fundo.
Charlie tinha um talento irritante de ser precisamente inconveniente.
Olhei para Lucy, que caminhava ao meu lado sem desconfiar de absolutamente nada.
Ela sorria.
E aquilo me fez sorrir também.
“Bonito.”
— O quê?
“Você sorrindo. Parece que gosta dela.”
Revirei os olhos.
— Charlie…
“Só estou dizendo.”
— Você fala demais.
“E você pensa demais. Equilíbrio perfeito.”
Não consegui evitar uma risada baixa.
Lucy me olhou novamente.
— Você tá estranho.
— Talvez eu esteja bêbado.
“Talvez?”
Ignorei Charlie.
Dessa vez, porém, ele ficou em silêncio.
E talvez aquilo tenha sido o mais estranho de tudo.
Porque, por alguns segundos, eu não precisei daquela voz.
Eu só precisava caminhar ao lado dela.
Passamos na escola para pagar o Chippe e, depois, levei Lucy para casa.
Durante o caminho, ela não parou de falar, rir e me provocar.
E eu não parei de sorrir.
Charlie também não disse mais nada.
Quando finalmente nos despedimos, fiquei alguns segundos observando Lucy entrar.
Eu ainda não sabia exatamente no que estava me metendo.
Talvez ninguém soubesse.
Mas havia alguma coisa naquela tarde que parecia maior do que todas as piadas, garrafas, beijos e decisões impulsivas que tinham acontecido.
Por algumas horas, eu simplesmente me senti leve.
E, quando finalmente fui embora, uma única certeza ficou comigo:
Aquela tinha sido, sem dúvida, uma tarde inesquecível.
Fale com o autor