Janeiro de Gelo
7 Mentiras e Incertezas
Capítulo 6 — Mentiras e Incertezas
Kendall West
Estou deitado, ainda com Ash sobre o meu peito. Nós dois estamos ofegantes, e eu procuro desesperadamente as palavras certas para iniciar algum tipo de diálogo conciliador.
Tento de todas as formas fazer minha mente produzir alguma coisa razoavelmente formal, agradável, talvez até romântica.
Nada.
Na falta de algo mais apropriado, olho para o rosto dela e simplesmente despejo:
— Você é linda.
Ela sorri.
Um sorriso doce e inocente, mesmo depois de tudo.
Ash se desvencilha do meu abraço, enrola-se no lençol para cobrir o que ainda resta de sua nudez e fica de frente para mim.
— A gente voltou?
Ela me lança um olhar curioso.
Engulo em seco antes de responder:
— Não depende só de mim. Você tem que me dizer. Quer voltar comigo?
Sinto meu rosto esquentar.
Ela não responde com palavras. Simplesmente se joga sobre mim.
— Mas é claro que eu quero, seu loiro teimoso. Eu nunca quis ficar longe de você.
Ela espalha beijos rápidos pelo meu rosto, pelos meus lábios, pela nuca. Eu sorrio.
— Então eu quero também. Senti sua falta.
E era verdade.
Apesar de nosso relacionamento conseguir me enlouquecer algumas vezes, havia algo divertido nele. Ashley tinha essa capacidade irritante de me manter entretido, mesmo quando eu preferia estar sozinho.
Ela me envolve novamente nos braços e continua distribuindo beijos.
Tento me soltar com delicadeza e, num movimento rápido, saio da cama. Pego uma toalha e a enrolo ao redor do corpo.
— Vou tomar uma ducha. Já volto.
— Está bem.
Entro no banheiro e deixo a porta entreaberta. Estou suado, e quanto mais rápido puder ficar debaixo da água fria, melhor.
Fecho o box e deixo a água cair sobre mim. O calor vai desaparecendo aos poucos, levado pelo fluxo gelado que escorre pelo meu corpo.
Começo a me lavar, esfregando primeiro o rosto.
Então escuto o interruptor sendo acionado.
Abro os olhos.
O banheiro está mergulhado na escuridão.
Ainda assim, consigo distinguir a silhueta de Ashley se aproximando. Ela continua enrolada no lençol. Para diante do box, abre a porta e deixa o tecido escorregar.
Ela não diz nada.
Apenas me encara.
Há um pequeno sorriso em seus lábios. Um sorriso confiante, quase provocador.
Então ela entra.
O beijo acontece antes que eu consiga pensar.
E é aí que tudo desmorona.
Os lábios dela são macios. Delicados.
Exatamente como os dele.
Duke.
Meu estômago se contrai.
Por um instante, não estou mais ali.
Não estou beijando Ashley.
Estou pensando nele.
Na boca dele.
Na sensação daquele beijo.
Meu coração acelera, e eu me afasto.
Não.
Não posso.
Não posso gostar dele.
Não posso me apaixonar.
Tenho que afastar qualquer coisa que me faça lembrar Duke.
Qualquer coisa.
Tento parecer o menos rude possível.
— Ash, por favor… você pode me esperar lá fora?
Ela para.
— O quê?
— Não é nada. É só que… eu gosto de tomar banho sozinho.
O olhar dela muda.
Por um instante, vejo claramente o constrangimento e a mágoa.
Ela tenta esconder.
— Oh… Ah. Tudo bem.
Ela sai do box e se abaixa para pegar o lençol no chão.
Assim que fico sozinho, sinto a raiva crescer dentro de mim.
Fecho os olhos.
— Droga!
Meu punho encontra a parede.
A dor percorre minha mão, mas não é suficiente para apagar aquilo que está acontecendo dentro da minha cabeça.
Desabo no piso do box e fico ali, deixando a água cair sobre mim.
Esperando a raiva passar.
Esperando Duke desaparecer da minha cabeça.
Sem sucesso.
Christopher Valiate
Antes de ir para casa, passo na escola e pago o combinado ao Chippe. Quase duzentos dólares pela incumbência de faltar às aulas.
Mas, naquele momento, eu não me importo.
Minha cabeça só consegue pensar em uma coisa:
Lucy é minha namorada.
Ainda parece estranho pensar nisso.
Não a conheço há tanto tempo, mas o que sinto por ela não parece caber em uma medida tão simples quanto tempo.
Não sei explicar.
Só sei que acabei de deixá-la em casa e já quero vê-la novamente.
Quero tê-la por perto.
Quero protegê-la.
Quero fazê-la feliz.
Do jeito que eu puder.
É com a cabeça a mil que entro em casa e coloco o carro na garagem.
Subo até a cozinha e, para minha surpresa, encontro Maura preparando o jantar.
Mal entro e ela já dispara, naquela voz que parece um pato rouco:
— Sua mãe foi jantar com a Amber e a Sally. Seu pai viajou, e ela avisou que vai chegar tarde. Pediu para eu preparar o jantar e te dar um abraço. Então… considere dado.
É.
Estava bom demais para ser verdade.
Minha mãe sempre tenta fazer tudo sozinha. Não ser tão ausente, como ela mesma gosta de dizer, mas, na maioria das vezes, ou melhor, na maioria dos lugares onde moramos, ela nunca consegue manter essa promessa por muito tempo.
Principalmente depois que arruma uma amiga nova.
Como não era nenhuma surpresa, respondo secamente:
— Já era de se esperar.
Maura sempre tenta me consolar.
O que me faz pensar: consolar do quê?
Eu já me acostumei.
Ficar remoendo isso é que incomoda.
Dispenso-a com um aceno de cabeça e, antes que ela possa começar um daqueles discursos que eu conheço tão bem, sigo para o quarto.
— Vou pedir pizza.
Não que essa história dos meus pais tenha me afetado.
Já não importa tanto quanto antes.
Afinal, tenho outros motivos para sorrir.
E o maior deles, no momento, se chama Lucy West.
Assim que entro no quarto, pego o celular e ligo para ela.
Ela atende no terceiro toque.
— Alô?
— Oi, Lucy. Sou eu.
— Oi, amor.
Faço uma careta.
— Amor? Quando foi que a gente passou de normal para nojento?
Ela começa a rir.
— Deixa de ser chato. Só estou tentando ser carinhosa.
— Eu sei. Mas isso é realmente necessário?
— Desisto. Você é insuportável.
— Eu sei que sou difícil, amor.
— Viu? Você também falou.
— Eu disse de propósito. E você… hum… bom, digamos que é impossível não me amar.
Tento colocar uma voz de galanteador barato.
Ela não se impressiona.
— Não tenha tanta certeza assim.
A voz dela vem carregada de malícia.
— Poupe seus blefes. Sei que esse coração é meu. Aliás, o coração e todo o resto.
Ela ri.
— Você é impossível, idiota.
— Sou o idiota dos seus sonhos, e você é a princesa dos meus.
— A parte da princesa, pelo menos, você acertou.
Fico alguns segundos em silêncio.
— Porra. Eu tentei ser fofo.
Ela começa a rir ainda mais.
— É assim que eu me sinto.
— Está tirando sarro da minha cara?
— Talvez.
E continuamos conversando.
Às sete da noite, peço a pizza. Às sete e meia, ela chega.
E eu continuo ao telefone com Lucy.
O assunto muda de uma coisa para outra, até que pergunto:
— Então, você curte o quê?
— Como assim?
— Estilo musical.
— Ah. Eu estou meio na vibe rock indie ultimamente, mas também ouço muito pop.
— Sério?
— Sim.
— Quais são suas bandas favoritas?
— Depende muito do meu humor. Mas curto Interpol, The Killers e Imagine Dragons. Acho que são as minhas prediletas. E as suas?
— Bom, eu curto Maroon 5, Imagine Dragons e Interpol.
— Sério!?
— Claro!
— Porra, Imagine Dragons são os melhores.
— Sim.
Fico alguns segundos em silêncio.
— Mas, Lucy, mudando de assunto…
— Lá vem.
— Eu não teria que pedir permissão para alguém antes de transformar você na minha escrava sexual?
Ela começa a rir.
— Não. Meu pai morreu e minha mãe vive viajando, então fica na boa.
— Mas e o seu irmão? Acho que ele não foi muito com a minha cara.
— O Ken? Relaxa. Ele não se mete nesses assuntos.
— Mesmo assim, sinto que deveria falar com ele.
— Olha, eu não acho necessário, mas, se você quiser, não me oponho. Até porque ele é de boa.
— Então beleza. A gente marca um dia para eu avisar, por escrito, que minhas intenções são profanar esse corpo.
Ela gargalha.
— Tá bom, seu doente.
— Só se for de amor.
Continuamos rindo.
Quando finalmente percebo, já passa de uma da manhã.
O tempo simplesmente desaparece quando estou com Lucy.
E talvez esse seja o problema.
Nunca parece suficiente.
Nenhum momento ao lado dela parece suficiente.
— Então, Chris… amanhã tem aula. Estou com sono. Vamos dormir?
— Já?
— É. Eu ainda nem comi nada e já estou querendo deitar. Boa noite, amor.
— Beleza, amor. Dorme bem.
— Você também.
Ela desliga.
Saio do quarto para jogar as caixas de pizza fora.
Ao passar pela sala de jantar, percebo Maura sentada, entretida com alguma coisa.
Uma fotografia.
Curioso, aproximo-me na ponta dos pés.
Então percebo que ela está chorando.
Paro.
Tento enxergar o que há na fotografia.
Poderia ser um marido falecido.
Durante muito tempo desconfiei que Maura fosse viúva.
Talvez fosse uma mãe.
Uma tia.
Alguém que tivesse morrido ou simplesmente desaparecido da vida dela.
Mas não.
A fotografia retrata um bebê.
Um bebê sendo segurado nos braços de um adulto e sorrindo.
Fico tão distraído com a cena que meu cotovelo esbarra na luminária da bancada.
O ruído faz Maura perceber minha presença.
Ela esconde a fotografia rapidamente sob a blusa, enxuga as lágrimas e tenta disfarçar o nervosismo.
— Ah, Chris. Você está aí. Precisa de alguma coisa?… Eu… eu nem vi você chegar.
Dá para ver o pânico estampado em seu rosto.
Um olhar triste.
Ferido.
Ela parece completamente exposta.
Eu já havia percebido que Maura era melancólica.
Sempre quieta.
Falava apenas quando necessário ou quando alguém lhe fazia uma pergunta.
Não que eu a odiasse.
Mas sempre mantive certa distância por causa de sua intromissão descuidada em algumas situações.
Só que, naquele momento, havia algo diferente.
Ela parecia vulnerável.
Antes que pudesse me conter, minha língua dispara:
— Quem era aquela criança?
Ela me olha.
O pânico aumenta.
O sangue parece abandonar seu rosto.
Ela respira fundo e demora alguns segundos antes de responder.
— Hãm? Que criança?
— A da foto.
— Que foto?
— Quando cheguei, você estava segurando uma fotografia. Era a foto de uma criança. Quem era ela?
— Não tem nenhuma foto, Chris.
O tom cínico dela é tão artificial que até o pior dos atores perceberia.
— Você deve ter se enganado. Talvez, no escuro, tenha imaginado alguma coisa.
— Não. Eu vi. Tenho certeza.
— A única coisa que está nas minhas mãos é o meu celular. O que mais poderia ser?
Olho para ela por alguns segundos.
Então estendo as caixas de pizza.
— Tudo bem. Está certo. Trouxe essas caixas. Pode jogar fora para mim?
Ela estende as mãos.
— Claro. Dê-me aqui.
Entrego as caixas.
Lanço um último olhar desconfiado para ela.
Não quero perder tempo discutindo.
Então finjo seguir para o quarto.
Mas paro atrás da parede oposta.
Espio.
Maura olha para trás.
Não me vê.
Só então tira a fotografia debaixo da blusa.
E a beija.
Um beijo breve.
Cuidadoso.
Carregado de sentimento.
Fico intrigado.
Então ela sai para jogar as caixas no lixo.
Quando desaparece pelo corredor, volto para o quarto, completamente pensativo.
Pelo que eu sabia, Maura não tinha família.
Seus pais haviam morrido quando ela ainda era criança.
Não tinha tios.
Nem irmãos.
Passara a infância em um orfanato e, aos dezoito anos, começara a trabalhar fazendo faxina em um dos escritórios do meu avô.
Lembro do que minha mãe havia contado certa vez.
Ela precisava levar alguns documentos para meu pai, e, assim que Benedict terminou de assiná-los, Maura entrou atrapalhada no escritório e derrubou café no assoalho.
Meu avô quase a demitiu.
Mas, por algum motivo, compadeceu-se dela.
E acabou deixando-a responsável pela nossa casa.
O que eu sabia era simples:
Maura nunca havia sido casada.
E, independentemente da idade que tivesse, não poderia ser mãe daquele bebê.
Passei boa parte daquela noite pensando nisso.
Mesmo não gostando de bisbilhotar a vida alheia, não conseguia ignorar o fato de que Maura havia tentado esconder aquela fotografia.
Por quê?
Se ela tinha algum familiar, não havia motivo para esconder.
A menos que ele fosse procurado pelo FBI.
Mas, tratando-se de um bebê, duvido que crimes envolvendo papinha fossem punidos com cadeia.
Qual seria a pena por derramar mingau na cadeirinha?
Por mais absurda que fosse a ideia, não conseguia parar de pensar.
Fiquei deitado, olhando para o teto, lembrando da verdadeira investigação que fiz sobre Maura quando ela entrou pela primeira vez em nossa casa, ainda em Seattle.
Eu já era uma criança curiosa naquela época.
Mesmo aos doze anos, tinha uma memória bastante eficiente.
Minha mãe respondeu às minhas perguntas.
Ou, pelo menos, respondeu ao que sabia.
Agora, porém, duvido muito que ela conseguiria explicar aquilo.
Porque alguma coisa me diz que essa história não está certa.
E, pela primeira vez, tenho a sensação de que Maura não é exatamente quem diz ser.
Kendall West
Saio do chuveiro e encontro Ashley sentada na cama.
Ela já está vestida.
Quando me vê, levanta-se e se aproxima.
Passa os braços ao redor das minhas costas, logo abaixo das omoplatas, e repousa a cabeça sobre meu ombro.
Faço o mesmo.
Então sussurro:
— Me perdoa?
Ela vira o rosto na direção do meu ouvido.
— Pelo quê?
— Por ter tratado você daquele jeito. Eu só estava tentando digerir tudo.
Ela fica em silêncio por alguns segundos.
— Tudo bem. Não me ofendi. Só fiquei surpresa.
— Me desculpa mesmo assim. A gente acabou de voltar, e eu não quero atritos.
— Eu também não. Gosto quando a gente flui tranquilamente.
Há algo quase mágico na maneira como ela consegue me acalmar.
Talvez seja isso que me faz continuar voltando.
Ashley consegue silenciar o caos dentro da minha cabeça.
Quero compensá-la pelo que aconteceu.
A envolvo em meus braços e conduzo de volta a cama.
Dessa vez, não há pressa.
Só o desejo de esquecer.
Esquecer tudo.
Duke.
A confusão.
A culpa.
Aquela sensação absurda que insiste em crescer dentro de mim.
Posso não amá-la da maneira como deveria.
Talvez nunca consiga.
Mas, quando estou com Ashley, por alguns instantes, nenhuma outra necessidade parece importar.
Minha mente se permite divagar.
Nós dois.
Essa nova fase.
Talvez eu consiga fazer isso funcionar.
Talvez consiga convencer a mim mesmo de que é exatamente isso que quero.
O resto se perde na intimidade daquele momento.
E, quando tudo termina, ficamos deitados lado a lado, exaustos, em silêncio.
Prontos para uma breve noite de sono.
Ou, pelo menos, para tentar descansar das coisas que nossas próprias mentes insistem em não deixar para trás.
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