It's In The Blood
8 You're Special To Me
Notas iniciais
Pov's Tracy
Abençoado seja o dia que decidi ir para Ohio.
Final de outubro. O New Directions venceu a competição interna do McKinley. Eu contaria essa história, mas foi algo rápido e pouco elaborado, então prefiro focar no que realmente me marcou naquela época.
Estávamos mais do que contentes com a vitória e cem por cento focados nas Sectionals, já que enfrentaríamos os Warblers. O que me faz lembrar de Kevin. Havíamos trocado mensagens nas últimas semanas e até mesmo tomei um café ou outro com ele na Dalton. Chirs sabia, Alex sabia, Kat sabia.
Daniel não sabia.
Eu não queria mentir para ele, mas ele andava estranho demais. E naquele tempo eu não fazia ideia do por quê. Ele ficava revoltado a mínima menção à Kevin e me dizia diversas vezes para não confiar nele, o que já estava me irritando. Então decidi não dizer nada para ele, afinal ele não era meu pai.
Naquele dia, nós cinco chegamos antes de todo mundo na sala do coral. Eu, Chirs e Kat falávamos sobre moda e Danny e Alex vinham atrás falando de futebol. Quando me sentei, Daniel praticamente dominou a cadeira ao meu lado, ele parecia preocupado.
— Você está bem? Não atendeu o telefone ontem... aconteceu alguma coisa com seus pais?
Senti um aperto no coração. Eu passara todo o dia anterior conversando com Kevin e nem mesmo mandei um "boa noite" para ele.
— Não aconteceu nada, Danny. Eu só estava me sentindo meio enjoada. Devo ter comido algo que me fez mal. — falei, com um sorriso no rosto que pode ter parecido natural para qualquer um, mas que ele saberia que era falso. Ele sempre sabia. Ficou me encarando desconfiado.
— Não está me escondendo nada, não é, Tracy ?
— Claro que não! — minha voz soou muito desesperada e suspeita. Mas se ele notou, não demonstrou.
— Ok. Tudo bem. — Ele me deu um sorriso e um beijo na bochecha enquanto os outros alunos chegavam, e eu me sentia uma idiota por esconder aquilo dele.
Tio Sam entrou na sala após alguns minutos e pediu silêncio. Quando ficamos quietos, ele começou a falar.
— Pessoal, quero parabenizar vocês pela vitória nas eliminatórias. Agora precisamos focar nas Sectionals, estamos um pouco atrasados em relação aos outros corais. E como esse é um dos times mais fortes que eu já dirigi, resolvi correr atrás de um pequeno agrado para vocês. Já estou planejando isso há algum tempo, mas achei melhor só contar a vocês quando eu pudesse confirmar. E agora é oficial, então... Por favor, Kat... — Kat estava sentada no colo do irmão, na bateria, e "rufou os tambores" para Sam. — Semana que vem vocês receberão a visita de alguns dos integrantes da formação original do New Directions. Alguns dos que conseguiram o que vocês estão procurando: sucesso !
A sala explodiu em comemoração. Em meio ao pandemônio, eu e Danny trocamos um olhar e gritamos ao mesmo tempo:
— REUNIÃO DE FAMÍLIA !!
— AH MEU DEUS !! ELES VÊM AQUI?!?! AH MEU DEUS !! — Chris pulava na minha frente, totalmente animado. Ele já conhecia toda a minha família, mas isso não o impedia de ser fã de carteirinha de todos eles.
— Eu vou ver a mamãe e a mamá, Tracy. DÁ PRA ACREDITAR NESSA MERDA?!?!? — Danny disse, jogando os braços para cima e soltando uma gargalhada. Ele sentia tanta falta das mães dele.
— Wow. — disse Alex, meio em choque. — Eu vou conhecer vários ídolos meus. WOW.
— AAAAAAAHHHH !! — Kat soltou o grito mais estridente da história. Vários cães ficaram surdos ao redor, tenho certeza. — Ah meu Deus !! Vocês têm que me apresentar para eles. POR FAVOR!
— Mas é claro que sim. Só tente não gritar assim perto do papai. Ele vai achar achar você vai assombrá-lo a noite.
Demos risada e começamos a planeja o que iríamos cantar no dia da visita. Estávamos mais animados que qualquer um ali. O que, obviamente, incomodava a cobra criada chamada Rennie Morris.
— Que ótima notícia, não é ? — Ela perguntou se aproximando, logo após estourando uma bola de chiclete. Chris a encarou de cima à baixo, com sua melhor cara de nojo. — É ótimo para o time ter ajuda profissional, vinda de pessoas que sabem tudo sobre corais. Tentem não atrapalhar isso na ânsia de esfregar a familiazinha de vocês na nossa cara, sim?
— Não precisamos esfregar nossa família na cara de ninguém. A imprensa já faz isso por nós — Respondo. Alex, Kat e Chirs dão risada descaradamente, e Daniel parece se segurar para não socar a cara de Rennie. — Aliás, Rennie, você é a única que parece querer ser melhor que os outros aqui. Sinto muito que alguns elogios que recebemos te incomodam, mas nós ensaiamos, sabe? Não só eu e Daniel, mas nós cinco passamos horas treinando e aprimorando o que sabemos, ao invés de ficarmos falando mal dos outros e fazendo compras todos os dias, como umas e outras que eu conheço. — termino, lhe dando meu melhor sorriso sarcástico. Ela bufou, furiosa, e saiu batendo o pé.
Alex me olhou intensamente por um segundo. Em seguida abriu um sorrizinho de canto e disse:
— Garota... Você é das minhas. — levantou a mão em minha direção, e trocamos um hive-five em meio a risadas. Kat quase caiu no chão de tanto rir, e Dan e Chirs apenas negavam com a cabeça em meio a risos discretos.
— Bem, acho que nós devemos mandar Morris para a casa do caralho e focar no que realmente importa: a melhor semana que esse coral já teve. — disse Daniel, com um sorriso vitorioso no rosto.
~ H.A ~
Pov's Chris
Eu estava uma pilha de nervos e uma confusão sentimental sem precedentes. Eu não sabia se devia estar feliz pela visita ilustre no coral ou emocionalmente exausto do convívio com meus pais. Ser o filho único e não ser o preferido dos seus pais deveria ser cientificamente impossível. Mas não era, pois até os meus primos pareciam ser mais queridos do que eu. Porque eu sou gay. Estávamos quase no final da primeira metade do século XXI, e ainda existia gente como meus pais, com mente fechada e frios, incapazes de entender que isso não é escolha minha. Eu gostaria de garotas se pudesse, mas eu não posso, não consigo. Lembrava de entrevistas onde Kurt dizia como seu pai sempre fez o possível para estar ao seu lado. Eu queria saber como era ser amado independente de qualquer coisa.
Estava sentado na arquibancada do campo de futebol, onde os meninos costumavam fazer exercícios nos finais de semana, olhando para o nada e pensando em tudo. Nem vi ele se aproximar.
— Você é difícil de encontrar, hein?!?
— Alex! Que susto! — disse, levando uma mão ao peito, os olhos arregalados.
— Te assustei? — Ele perguntou, sentando de braços cruzados ao meu lado, a sobrancelha arqueada e com um maldito sorriso torto no rosto.
— Não, claro que não. Eu digo "que susto" como cumprimento formal. É educado. — digo, revirando os olhos. Ele apenas riu.
— Então... hum. — Ele me olhou e depois olhou para o campo. — Você conhece a família deles?
Os originais eram o assunto do momento, ele não precisava dizer mais do que isso para que eu entendesse.
— Conheço. Eu moro perto da casa dos avós de Tracy desde que nasci, e nos conhecemos brincando na praça lá perto. Ela me levou para Nova York com ela nas férias quando tínhamos 11, foi quando eu conheci Daniel e o resto da família dela. Me sinto parte dessa família, na verdade. É uma sensação acolhedora. — digo, encarando ainda mais pensativo o vazio do campo. A família dela aceitava todos tão bem, desde o colégio. Por isso eram uma família: eles se amavam sem julgamentos. As vezes, sentia muita vontade de ser filho de um deles.
— Legal. — Ele assentiu de leve, sorrindo para os próprios pés. — Posso te contar algo constrangedor?
— Claro que pode! Não conto para ninguém, eu juro — digo estendendo as mãos, mostrando que não estava cruzando os dedos e com um sorriso idiota na cara. Ele caiu na gargalhada.
— Certo, vou acreditar em você. — Disse, finalmente parando de rir. — É que... E-eu estou realmente nervoso com essa visita. Quer dizer, são artistas de todos os tipos: atores, cantores, estilista, diretor de cinema... Puta merda, eu estou sendo um idiota.
— Não pense assim! — digo, me virando no banco e ficando de frente para ele. — Eu também me senti assim quando fui conhecer eles. É normal se sentir intimidado por eles antes de conhecê-los. A mídia os faz parecer sobre humanos. Mas eles são muito legais. São pessoas como você, começaram igual a você: de baixo, num coral de cidade pequena. Você vai gostar deles, e eles de você. — dou uns tapinhas amigáveis em suas costas.
— Bem, se você está falando... Então tudo bem. — Ele respirou fundo — Vamos, temos aula agora — ele estendeu a mão para mim e me ajudou a levantar, e seguimos juntos para dentro do colégio.
[...]
Finalmente segunda-feira. Estávamos na sala do coral em um silêncio sepulcral, apenas olhando para a porta e esperando a entrada de todas aquelas lendas. Mas foi o som que chegou primeiro.
— ¡Hijos de puta, sal de mi camino! ¡Vamos, mi amor, quiero verlo! (Filhos da puta, saiam da minha frente! Vamos, meu amor, eu quero ver ele!) — a voz de Santana explodiu no corredor, e Daniel abriu o maior sorriso do mundo e sussurrou um "mamá" emocionado.
Sam estava rindo, junto a mim e Tracy, os únicos que entendiam o suficiente de espanhol para saber o que ela tinha dito, quando Santana abriu a porta com força e correu os olhos rapidamente até ver Daniel correndo para si.
— MAMÁ !!! — Seu grito ecoou na sala quando ele se jogou nos braços de sua mãe, fazendo eu e as meninas soltarmos um "aaaw" e Alex um "tão gay" murmurado, sendo acotovelado por Tracy e Kat na cintura.
— Dan ? — a voz doce de Brittany apareceu por trás dos dois se abraçando, e Santana com algum custo o soltou para que ele abraçasse a outra mãe. Antes mesmo que pudéssemos ficar emocionados com a cena, outra voz soou no corredor. Uma bem mais estridente e dramática, uma voz poderosa porém irritante, mas sempre capaz de arrepiar um fã de verdade (vulgo eu).
— AH MEU DEUS!! SAI DA FRENTE, SAI DA FRENTE!! EU PRECISO VER A MINHA FILHA!! — Tracy caiu na gargalhada ao ouvir a voz da mãe no corredor. Rachel entrou na sala empurrando Santana de seu caminho, recebendo insultos em espanhol como resposta. Ela veio como um furacão em direção de Tracy e praticamente a levantou do chão, e essa simplesmente não conseguia parar de rir.
— MÃE, EU PRECISO RESPIRAR!! — Ela disse, em meio a risadas. — MAMÃE, ME SOLTE!! — mais risadas.
— Vocês são todos muito dramáticos — disse Noah, entrando com Quinn ao seu lado. Tracy finalmente conseguiu soltar-se de Rachel e foi abraçá-la.
Logo os outros foram entrando: Tina entrou empurrando a cadeira de Artie, Mercedes apareceu logo depois (e o velho clima conhecido entre ela e Sam estava lá. Todos torciam para que eles ficassem juntos de uma vez). Mas faltavam duas pessoas ali.
— Onde estão os meus pais ? — perguntou Tracy, olhando em volta confusa.
— Eles estavam bem atrás de nós... — disse Brittany, enquanto me cumprimentava. Todos vinham falar comigo, já que eu era praticamente da família. Mas isso não me impedia de quase ter um troço toda vez que um deles me abraçava.
— Não acredito nisso. Não acredito. — outra voz soou perto da porta, junto com o som de sapatos batendo forte no chão. Kurt entrou na sala com um ar mal humorado e cara de quem não conseguiu o que queria. Mas tudo isso sumiu quando ele viu o rosto de Tracy. — Ah, princesa... — Ele falou baixinho, apertando-a em seus braços quando ela se aproximou dele. — Hey, Chris e Daniel. — cumprimentou, ainda abraçado a ela.
— Oi, tio Kurt. — respondemos praticamente ao mesmo tempo.
Nesse momento, Blaine entrou na sala. Se a sala inteira já estava segurando a respiração com as presenças na sala, as meninas morreram quando ele apareceu. Com todo o respeito, Blaine era um coroa muito gato.
— Ei, fugitiva, não vai me dizer nem oi? — ele disse, de braços cruzados logo atrás de Kurt, que revirou os olhos. Soube na hora que eles haviam brigado, e isso seria horrível para Tracy. Mas ela não pareceu perceber quando se jogou nos braços de Blaine.
Mais alguns segundos fofos de reencontro antes que Katherine pudesse finalmente se dar conta do que estava acontecendo ali.
— Ah, meu Deus. Isso está mesmo acontecendo?! Eles estão aqui de verdade?! — ela perguntou ao meu lado, em uma tentativa de sussurro que acabou por se tornar um gritinho abafado. Alex, ao seu lado, parecia pela primeira vez seu irmão gêmeo, olhando para todos os visitantes com um olhar inocente e devoto, como se olhasse para deuses.
— Não. Você está tendo alucinações, não tem ninguém diferente aqui. Você anda usando alguma droga, Kat? — digo a ela, um sorrizinho brincando nos lábios. Ela semicerra os olhos balançando a cabeça com o quem diz "ha, ha, ha" e me mostrando a língua, o que arranca risadas de todos. Menos Alex, que ainda está estático no lugar.
— Ah, é mesmo. Gente, essa é Katherine Mills, e o seu irmão gêmeo, Alex. Ficamos amigos a algum tempo — diz Tracy, os empurrando para o meio da sala, praticamente os obrigando a cumprimentar seus familiares.
Todos se aproximaram para dar oi, e Kat falava com todo mundo com aquele tom de voz de fã desesperada e fez cada um deles deixar um autógrafo em seu caderno. Quase teve um ataque cardíaco quando Kurt e Blaine a cumprimentaram, dando-lhe um beijo na bochecha.
E Alex? Ele mal respirava enquanto toda a família de Tracy e Daniel o cumprimentava, os olhos adoravelmente arregalados e até mesmo gaguejando um pouco. Parei para prestar atenção nele. Alex era aquele tipo típico de garoto que parece ser a pessoa mais autoconfiante do planeta, mas então você a observa em uma situação como essa, nada convencional, e percebe que ela é tão inclinada a ter toda a sorte de sentimentos e reações vergonhosas que você. E de alguma forma, por algum motivo, isso é extremamente atraente.
~ H.A ~
Pov's Blaine
Tem uma coisa sobre Kurt que eu acabo por me esquecer muitas vezes, mas que deveria ficar gravado em mim antes que eu possa voltar à minha zona de conforto.
Kurt Hummel não desiste tão fácil.
Estava em Madri para um show, já dando graças à Deus pela pequena pausa de duas semana na turnê que ocorreria após este. Adorava as turnês, mas já estava um tanto cansado dos shows ininterruptos. Foi quando recebi a ligação de Sam.
— Hey, Blaine! Se preparando para o show? — sua voz soou extremamente animada do outro lado, o que me fez soltar uma risada.
— Sim, eu estou. Entro no palco em duas horas.
— Conseguiu agendar aquela sua folga para as próximas duas semanas? — perguntou ansioso. Ele contava com essa folga para meu comparecimento na visita dos integrantes originais do New Directions ao colégio (e de nada adiantou argumentar que, tecnicamente falando, eu não era um dos originais), então era normal que estivesse nervoso.
— Consegui, Sam. Estarei na McKinley na semana que vem.
— YEAH !!! — ele gritou no meu ouvido, o que me fez afastar o telefone deste dando risada. — Eu já confirmei com todo mundo. Will e Emma estão emotivos com essa visita. Vou dar a notícia ao coral amanhã. Vai ser uma das melhores coisas que já aconteceram nesse lugar.
— Com certeza. Eu simplesmente adorei essa ideia. Vai ser incrível.
Ele ficou em silêncio por um tempo, como se escolhesse as palavras antes de falar. Soube antecipadamente qual seria sua pergunta.
— Kurt deu sinal de vida desde que... Você sabe... Enfim, você falou com ele? — ele perguntou nervosamente. Respirei fundo antes de responder.
— Não, eu não soube nada dele desde aquele show. Só espero que ele não deixe o clima tenso na frente de Tracy. Isso tudo já é muito difícil para ela.
— Kurt pode ser bem orgulhoso as vezes, mas ele pensa na filha. Não se preocupe. E lembre que você não está errado nessa história.
— Eu sei. Bem, preciso me preparar para o show. Falo com você mais tarde.
— Ok. Boa sorte no palco, Blaine. Até mais.
[...]
Dias depois, desembarquei em Lima um tanto nervoso. Rachel ficara de me buscar no aeroporto, já que chegaria antes de mim. Mas eu simplesmente não consegui pedir para que ela não levasse Kurt. Isso implicaria em explicar os meus motivos, e por algum motivo eu não queria expor Kurt.
Assim que a encontrei em meio às outras pessoas, avistei Kurt ao seu lado. Imediatamente ajeitei minha postura e franzi o cenho, mas ele não parecia estar bravo, revoltado, sentido ou planejando uma vingança.
Na verdade, ele sorria para mim.
Me aproximei de Rachel e a abracei, enquanto ela se atropelava nas palavras para elogiar minha turnê.
— Blaine!! Você está tão incrível nessa turnê! Acho que só te vi animado desse jeito em palco no início da sua carreira. Eu estou tão, tão,TÃO orgulhosa de você!
— Ah, Rach. Você está exagerando.
— Não está não! — disse Kurt. Ele tinha as mãos na cintura e um sorriso brilhante no rosto, como se estivesse feliz em me ver — Você está mesmo incrível. O álbum está incrível. Os shows estão arrasadores. E isso são apenas fatos. — e então ele me abraça. Como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Talvez, pensando na letra daquela música, ele tenha decidido que sermos amigos é melhor do que nada. Ou talvez eu deva desconfiar disso tudo, pensei.
Fiquei pensando em tudo isso durante toda a tarde daquele domingo. Havíamos decido nos encontrar com Tracy apenas no dia da visita, então não tinha muito mais o que fazer além de ficar no sofá do meu apartamento em Lima, pensando em tudo aquilo. Quando de repente escuto a campainha tocar.
— Oi, Blaine! — Não consigo acreditar na cena ao abrir a porta. Kurt estava parado bem ali, sorridente e com os braços cheios de sacolas de compras.
— Hum... Oi. — digo, olhando hora para seu rosto, hora para as sacolas. Apenas abri espaço para que ele entrasse.
Quando ele se dirigiu à cozinha (como se morasse ali), finalmente resolvi perguntar:
— Sem querer parecer grosseiro, mas... Por que você está aqui? E cheio de compras? — digo com um rosto confuso. Ele dá uma risada tímida.
— Eu achei que seria legal passarmos um tempo juntos. Então trouxe coisas para o jantar — ele diz, desempacotando a comida pronta que ele provavelmente comprou em um daqueles restaurantes chiques que abriram em Lima naqueles últimos anos.
Não respondi. Apenas fiquei ali, observando-o mexer nos armários, procurando o lugar onde eu guardava os talheres, os pratos, as travessas. Eu conhecia aquela atitude. O sorriso leve e discreto no rosto, os movimentos firmes de quem sabe o que está fazendo.
Era a postura dele quando tinha tudo em mente para conseguir o que queria. E eu sabia exatamente o que ele queria.
— Eu estou morto de saudades de Tracy. — ele continou falando, na mesma naturalidade — Não acredito que não a vejo pessoalmente desde setembro. Parece que ela foi para faculdade aos 14 anos, não consigo me acostumar direito com isso. — ele abria uma garrafa de vinho quando percebeu que eu ainda estava parado do outro lado da bancada da sala de jantar, de braços cruzados e o observando. — Jesus, Blaine. Você vem jantar ou não?
— Ahn... claro. — disse, lentamente me dirigido à mesa e me sentando de frente para ele, seguro pela boa distância de uma mesa entre nós. — Também sinto muito a falta de Tracy -completo. Se passarmos a noite falando dela, pensei, talvez eu não tenha que criar um clima ruim com ele justo nessa semana.
— Eu fico me perguntando se... Bem, se ela achou o que queria. Se está se sentindo melhor. Não que eu queira levá-la de volta para New York, mas realmente espero que ela não esteja mais se sentindo do jeito que estava quando veio para cá. — ele mexia a comida com o garfo e tinha uma expressão pensadora, e por um segundo eu realmente achei que o motivo da visita era falar sobre Tracy.
— Ela tem falado conosco por telefone e Skype, e parece mesmo estar um pouco melhor. Vamos dar tempo ao tempo, Kurt. As coisas vão ficar melhores para ela.
— Assim espero. — ele disse, e sorriu para mim. Um sorriso aparentemente amigável e comum, mas eu fora casado com ele por anos. Eu podia ler as segundas intenções em seu rosto, até mesmo sentir seu cheiro.
E mais uma vez, isso não me soou empolgante ou excitante. Foi revoltante.
O jantar seguiu calmo, falando de nossa filha, nossas carreiras, a visita ao McKinley. Quando terminamos, imediatamente comecei a pensar numa desculpa para que ele fosse embora.
— Foi legal da sua parte ter vindo aqui — digo, indo em direção à porta de saída e esperando que ele me seguisse — Mas eu não preguei os olhos no avião e nem quando cheguei, preciso desesperadamente dormir um pouco — completo já em frente a porta, sorrindo da forma mais gentil possível, como se sentisse muito por ter que mandá-lo embora.
— Ah, Blaine! — ele exclamou, fazendo biquinho e cruzando os braços. Quando estávamos casados, ele fazia isso sempre que queria alguma coisa. Sempre dava certo.
Mas não dessa vez. Eu não seria seu capacho dessa vez. Ele não teria mais esse poder sobre mim.
— Sinto muito, Kurt. Mas teremos um dia cheio amanhã. — digo, abrindo a porta de costas para ele.
— Nós podíamos ter uma noite cheia agora — ele disse. Baixo e rouco. Direto no meu ouvido. E pela primeira vez desde aquela mensagem, sua atitude me causou um arrepio.
— Não, não podíamos. Se você está precisando se esfregar em alguém, vá para uma festa. E boa sorte para se explicar com sua filha quando aparecer de ressaca na escola dela amanhã. — Fiz minha melhor cara séria e mantive a voz firme, rezando para que ele não percebesse que havia me atingido, mesmo que pouco, parado ao lado da porta aberta.
— Ah, qual é, Anderson. Deixe de ser careta — ele revirou os olhos ao falar.
— Antes careta do que seu brinquedo. Eu tenho uma coisinha nova desde que nos separamos, e ela se chama amor próprio. Agora saia da minha casa. Você não vai querer que eu chame a polícia para te tirar a força.
Ele me encarou. Então abriu um sorriso extremamente sacana, quase diabólico. Se aproximou de mim aos poucos até me ter prensado à parede, e dessa vez meu corpo simplesmente não conseguiu responder com raiva ou indignação. Minha respiração ficou entrecortada, e o clima simplesmente ficou mais quente.
— Ok, Blaine. Você prefere bancar o difícil. Mas tudo bem, isso torna tudo mais interessante. Será mais saboroso quando eu conseguir. — ele falava bem em frente à minha boca, e isso era torturante. Ele terminou a sua fala no meu pé do ouvido — Boa noite, Anderson — então ele me dá um beijo na bochecha e finalmente vai embora.
[...]
Dia seguinte, no prédio da McKinley. Como cheguei um pouco cedo, resolvi passar no banheiro do primeiro andar para dar uma ajeitada no cabelo. Como estava no meio do período de aulas, o lugar estava totalmente vazio, então me distraí cantarolando uma canção qualquer. Meu celular vibrou com uma mensagem de minha mãe, pedindo que eu fosse visitá-la mais tarde, e me concentrei tanto em responder que não o ouvir entrar, ou fechar a porta.
— Bom dia, Blaine! — ele disse atrás de mim. Levei um leve susto com sua aparição repentina, mas ao ver que era ele, apenas revirei os olhos e recoloquei meu telefone no bolso. — Posso saber com quem estava falando?
— Não. Você não é mais meu marido. — disse seco, me virando para sair. Mas ele me impediu.
— Uh, esquentadinho. Ok, eu realmente não me importo. — ele se aproximou e ia me prensar contra a pia, mas eu coloquei a mão em seu peito, o mantendo afastado. — Vamos lá, Blaine. Temos uns minutos antes da aula do coral começar. Por que não aproveita comigo, hein?
— EU. NÃO. SOU. SEU. BRINQUEDO. — A cada palavra dita, eu o empurrava com o indicador em seu peito, o fazendo ir para trás. — EU NÃO SOU MAIS TÃO IDIOTA QUANTO EU ERA QUANDO TÍNHAMOS 18 ANOS, KURT!! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ ME USAR E FICAR ESPALHANDO SUAS DESCULPAS DEPOIS! — eu praticamente gritava essas palavras, mas baixei o tom à quase um sussurro antes de terminar minha fala. — Você acha que vai se divertir as minhas custas e depois sair dizendo que eu nunca te superei? Tenho uma notícia para você: desista, pois faz tempo que eu superei você.
Ele apenas me encarou com uma expressão horrorizada. Em seguida, simplesmente saiu pela porta pisando duro. Depois de me ajeitar melhor, sai do banheiro, indo em direção à sala do coral.
~ H.A ~
Pov's Daniel
É, eu sei. Eu devia ter dito à ela a verdade. Eu devia ter sido menos medroso e assumido de uma vez. Mas quando você tem 14 anos, é tudo muito mais confuso. Você simplesmente complica tudo, mesmo que isso só atrapalhe você.
Eu percebi que Tracy estava estranha naquela semana. Ela não respondia mensagens, não atendia ligações, nunca estava na casa dos avós. Chris dizia que ela estava com ele e Kat, que estava precisando "de um momento de meninas" para esfriar a cabeça. Eu acreditei por um momento, afinal, ela havia ficado abalada por ter estado no prédio da Dalton tão repentinamente e sem os pais.
Mas logo fiquei sem entender um detalhe. Se era esse o caso, por que ela não conversava comigo sobre isso? Ela me contava tudo, sempre. E do nada era como... Como se eu não fosse mais necessário. E dada a minha situação — perdidamente, estupidamente, irreversivelmente apaixonado por ela -, isso não era nem um pouco agradável.
No dia da visita, eu pude ignorar um pouco essa situação. Passar algum tempo com minhas mães foi gratificante. Mas não conseguia simplesmente não notar a forma como ela olhava o celular a cada cinco minutos. Como sorria a cada vez que olhava. Como parecia muito desconfortável perto de mim.
E era impossível não ficar paranóico quanto à isso.
Ao final da aula, mãe e mamãe foram para a casa de minha abuela, e eu disse que sairia para tomar um café e logo voltaria para casa. Tracy não quis passar a tarde comigo, pois iria preparar um jantar para os pais com a ajuda de tia Rachel. Até aí, tudo bem, eu entendia.
Quer dizer, entenderia. Se fosse verdade.
Eu entrei no café com a cabeça um pouco baixa, perdido em pensamentos. Fiz o pedido ainda distraído e só os notei quando procurava uma mesa.
Tracy estava em uma mesa com Kevin, se matando de rir. Preparando um jantar, claro.
Me sentei em uma mesa próxima e fiquei ouvindo a conversa.
— É incrível como você fica fofa falando dos seus pais — ele dizia, aquele maldito sorriso galanteador na cara. Foi preciso muita força de vontade para não dar um soco na cara dele. Ela apenas ficou vermelha e abaixou a cabeça.
— Eu dou muito valor à eles — ela disse, dando de ombros. — Enfim, acho que está na hora de eu ir. Preciso ajudar minha mãe com o jantar.
— Tudo bem. Amanhã tem uma apresentação dos Warblers na praça principal. Eu adoraria que você fosse. Leve seus amigos. — ele respondeu, levantando da cadeira e a ajudando em seguida.
— Tudo bem. Vou avisar o Chris e os gêmeos.
Mas e o seu outro amigo? Daniel, não é? Não vão chamar ele? Pensei que ele fosse seu melhor amigo.
— E-ele é. Mas acho que ele não vai querer ir. — ela diz, claramente nervosa. Isso é o suficiente para mim.
Me levanto e vou embora sem ser visto. Eu só quero matar alguém. Não porque ela estava com ele. Àquela autora do campeonato, eu já havia desencanado da minha desconfiança dele. Se ela tivesse falado comigo, eu teria dito para ela ir em frente. Eu sabia muito bem que eu não teria coragem de dizer para ela que gostava dela, principalmente quando ela ainda não havia superado totalmente o divórcio dos pais e precisava do melhor amigo. Eu queria matar alguém por ela ter mentido para mim.
[...]
Apareci à noite na casa da mãe dela. A filha da mãe ainda me abriu o maior — e mais lindo — sorriso quando me viu.
— Danny!! Pensei que você ia ficar com suas mães — ela abriu passagem para mim — Eu te levaria para o jardim, mas meus pais estão lá. Acho que estão brigando — ela disse revirando os olhos.
— Não quero entrar. Quero saber porque mentiu para mim — digo seco, os braços cruzados. Não estava nem um pouco afim de bater papo.
— Do que você... — ela interrompeu a frase nesse ponto, ao analisar minha expressão. Ela soube que eu sabia e que não poderia mais disfarçar. — É sobre o Kevin, não é?
— Bem, até onde sei, essa é a única mentira sua. Mas nunca se sabe, né? — minha expressão era totalmente cínica, e eu podia até ouvir o som das minhas palavras a atingindo como um soco.
— Você não entenderia. Só porque você não gosta dele, você ia ficar falando merda toda vez que eu falasse com ele.
— Entenderia, Tracy. Enquanto você estava me ignorando e enganando, eu só queria falar com você para dizer que eu não ligo. Você pode falar e sair e se agarrar com quem você quiser, mas você preferiu MENTIR. PRA. MIM. — digo, gesticulando extremamente revoltado.
— Você não é meu pai. Não te devo satisfações do que faço. — ela cruzou os braços de cara fechada, incapaz de assumir seu nome erro — E até parece que você nunca me escondeu nada. Você não me contou quando suas mães queriam te mandar para cá.
A encarei pasmo por um segundo antes de lhe responder.
— Me responde uma coisa, garota. Você é retardada? Eu não contei porque não queria que se sentisse culpada por me fazer ficar em New York quando já se culpava pelo divórcio dos seus pais. Afinal, eu só fiquei por você. Eu só aceitei vir para vir com você. Mas obviamente você não dá o menor valor à isso.
— Você fez isso porque quis. Ninguém te obrigou a nada. — ela diz, engolindo em seco. Suas palavras doem mais do que uma surra dada por um time inteiro de futebol.
— É, você tem razão. Não se preocupe, Tracy. Eu nunca mais vou fazer porcaria nenhuma por você. Agora me faça um favor e vá a merda.
Viro as costas e vou embora rapidamente, antes que ela possa dizer mais alguma coisa. Sigo o caminho até a casa da abuela, mas é complicado.
É muito difícil enxergar o caminho quando seus olhos estão repletos de lágrimas.
~H.A~
Pov's Kurt
Eu sei que ninguém vai entender o meu lado. Eu mesmo não entendo hoje em dia. Mas me parecia tão óbvio naquele tempo.
Eu saí daquele banheiro totalmente revoltado com o mundo. Totalmente revoltado com Blaine. Totalmente revoltado comigo. Ele olhou nos meus e disse que me superou.
Então porque eu não conseguia fazer o mesmo?
Essa era a questão. Eu só queria mais uma noite. Não, nem tanto. Um beijo me bastaria àquela altura do campeonato. Eu não conseguia esquecê-lo, não conseguia superar os anos que passamos casados, não conseguia aceitar o fato de que era tudo minha culpa, já que eu fora embora sem dar à ele — à nós — uma chance de consertar as coisas.
Mas o pior é que eu não tinha humildade suficiente para assumir nada disso. Então eu fiquei com raiva.
No primeiro dia da nossa semana na McKinley, a visita foi focada em falar sobre como o coral nos ajudou a nos tornamos quem somos e a responder perguntas dos alunos sobre nosso tempo no New Directions. E era incrível como, por exemplo, perguntavam sobre como Quinn e Puck e Santana e Brittany ficaram juntos, e até mesmo à Rachel sobre Finn. Mas nada para mim e Blaine. E eu queria dizer, quando me perguntaram sobre as melhores coisas que o coral me trouxe, como eu jamais teria conhecido Blaine sem ele, e que sem Blaine, eu nem tenho certeza se estaria vivo ou se a pressão causada por Karofsky me levaria ao suicido. E que eu não teria acreditado em mim mesmo, e não teria ficado mais confiante quanto a tudo em relação a mim, e não teria Tracy... Mas nada disso foi dito. E o próprio Blaine pareceu não achar importante lembrar que eu fui o único motivo para que fosse parar na McKinley.
Mas todas essas coisas pairavam ali, e ao observar Tracy, percebi que ela notava. Ela conhecia a história, e por mais que eu pudesse jurar que foi ela que implorou, de alguma forma, para que meu passado com seu pai não fosse citado, sua não citação parecia ser ainda mais torturante. O lembrete cruel de que realmente havia acabado.
Fui um tanto rude com Blaine o tempo todo. Não houve quem não tenha percebido, incluindo Tracy, o que me deixou apreensivo. Ao final da aula, eu só queria desesperadamente ir para a casa de papai. Eu me despedi de minha filha, prometi um jantar com ela e a mãe mais tarde e fui embora. Quando estava perto do meu carro, ouvi o som de saltos batendo rapidamente sobre o chão do estacionamento. Olhei para trás trás e vi Mercedes se aproximar.
— Kurt? Querido, você está bem?! Está mais pálido do que o normal!
— Eu acho que não, Mercedes. — digo, me escorando no carro. Fecho os olhos, levanto a cabeça em direção ao céu e respiro profundamente. Depois torno a os abrir e encaro minha amiga. — Não sei lidar com rejeições.
— Vamos para sua casa e você vai contar exatamente o que está acontecendo. — ela diz, me empurrando para dentro do carro.
[...]
Estávamos na casa de papai, apenas eu e Mercedes, pois ele e Carole estavam em uma reunião em Washington. O notebook estava em nossa frente, na mesa de centro da sala, ligado numa chamada de vídeo com Elliot. Eu comia sorvete direto do pote, como se fosse uma menina de 12 que descobriu que o garoto que ela gosta está a fim de outra.
— Eu ainda não entendi o que exatamente te chateia, Kurt. — diz Elliot, após me ouvir dizer o quanto Blaine é um idiota por longos minutos. — Ok, você tentou uma amizade colorida, levou um não de cara, não desistiu e levou um não definitivo. Tudo bem. Mas essa não é a parte que você liga o foda-se e parte para outra? — ele me encara confuso do outro lado da tela.
— Eu também não entendo, Kurt. — diz Mercedes. Então ela adota um olhar desconfiado. — Porque exatamente você está chateado?
— Porque levei um fora. Porque Blaine não é mais tão influenciável como era antes e eu fiz papel de otário. Porque eu odeio não conseguir o que eu quero. — digo emburrado. Não são verdades completas, nem completas mentiras. São o lado da verdade que eu escolhi.
Mercedes e Elliot trocam um olhar pela tela. Parecem conversar pelos olhos algo que eu não posso ouvir. Mas eu não ligo, estou ocupado demais na luta interna entre a saudade que eu sinto e o orgulho que eu alimento.
— Kurt... — ela diz, me tirando de meus devaneios. — Há alguma possibilidade, qualquer uma, por menor que seja...
— ... de você ainda sentir algo por Blaine? — completa Elliot.
Encaro a tela. Depois encaro Mercedes. Ponho o pote de sorvete sobre a mesa de centro, deito no sofá com a cabeça no colo dela e respiro fundo, fechando os olhos. Sei que eles sabem qual a minha resposta. E agradeço internamente por não comentarem, não opinarem e não darem conselhos que sabem que não vou ouvir. Apenas ficam ali, me dando algum apoio só por estarem presentes, independente de concordarem com minhas atitudes ou não.
[...]
Cheguei à casa de Rachel no horário marcado e toquei a campainha. Tracy atendeu com um sorriso no rosto.
— Papai!! — ela me abraçou rapidamente, logo me puxando para dentro. — MÃE, PAI! O PAPAI CHEGOU!
— Seu pai está aqui?! — Pergunto, a voz meio engasgada. Não queira vê-lo. Não queria aturar meus próprios sentimentos.
— Está... — ela parece se lembrar de que o clima não estava bom entre nós e sua expressão é tomada em parte por culpa, em parte pelo medo de ser assim definitivamente: seus pais um contra o outro.
— Ei, está tudo bem. Não se preocupe. — digo a ela, acariciando seu cabelo.
O jantar passou tranquilo. Tracy contou como estava sendo sua experiência na McKinley, e seus olhos brilharam quando ela disse que "foi pega de surpresa por algumas coisas que se saíram muito melhor do que ela esperava". Ela não entrou em detalhes e pareceu evitar falar de algo, e pude jurar que era algo relacionado à um garoto. Fiquei 10% orgulhoso e 90% enciumado, mas preferi não dizer nada.
Mantenho minha educação em relação à Blaine, e Rach e Tracy parecem acreditar que esteja tudo bem. Ele aparenta saber que isso é unicamente por minha filha.
Após o jantar, me sento na grama do jardim da casa de Rach e fico apenas encarando o céu, a cabeça à mil. Escuto passos vindo em minha direção e viro a cabeça, vendo Blaine andar olhando para o céu. Quando ele olha para baixo e me vê, fecha a cara e começa a dar meia volta.
— Eu não mordo, Anderson. — deixo escapar. E sai mais amigável do que eu gostaria.
— Não acredito nem um pouco nisso — ele responde por cima do ombro, voltando a andar de volta para dentro.
Então sou tomado por um impulso. De repente, a ideia de afastar Blaine de mim parece horrível, sufocante até.
— Ei, espera! Por que está fugindo? Eu é que tenho que ficar bravo. Eu levei um fora. Na verdade, três foras. Um em frente à uma legião de fãs. — digo já em pé, em tom divertido e com as mãos na cintura. Ele respira fundo, vira de novo e volta a andar em minha direção. Para bem na minha frente, de braços cruzados.
— Eu não diria que estou bravo. Só estou te evitando para não ter que ficar te dando foras o tempo todo. É cansativo. — posso sentir o quente de seu hálito no meu rosto, e isso é tão convidativo. Mas me contenho.
— Tá, já entendi. Foi mal, ok? — é impossível não pensar nas inúmeras coisas pelas quais devo desculpas. Mas me concentro na menos importante e constrangedora. — Sei que passei dos limites. Não sei o que deu em mim. Não vai se repetir, eu garanto. Tudo bem? — digo, lhe estendendo a mão. Ele olha desconfiado. — Vamos, Blaine. Esse clima estranho é estressante para nós e ruim para Tracy. Vamos acabar logo com isso.
Ele finalmente respira fundo e aperta minha mão. A energia que sinto com esse simples toque quase me leva a fazer uma besteira. Quase.
Sentamos na grama e encaremos o céu. A pergunta em minha garganta me sufoca, então eu a faço.
— Blaine... Por que exatamente você rejeitou tudo isso com tanta... determinação? Você parece ter um motivo muito forte e eu sinto que preciso saber o que é.
— Apenas esqueça isso, Kurt. — ele sussurrou, como se fosse um pedido, como se implorasse. Seus olhos brilharam um tom mais verde à luz das estrelas.
— Por favor, Blaine. Eu sinto que é importante. Eu só... E-eu não sei. Só confie em mim. Por favor.
Ele encarou o céu mais uns instantes. Depois seus olhos encontraram os meus com um brilho triste.
— Porque eu não posso fazer isso com você, Kurt. Você foi a pessoa mais importante que eu tive em minha vida. Você foi meu primeiro em tudo. Você é pai da minha filha. Você, Kurt, fez esse Blaine aqui ser como é — ele apontou para simesmo — e isso não é pouca merda para mim. Eu posso usar qualquer pessoa. Eu posso fazer qualquer um minha diversão de uma noite. Ou meu amiginho colorido. Mas não você. Você é importante... É especial demais para isso.
Eu o encaro por um instante que parece infinito. Apenas tendo controlar meus impulsos.
E meu primeiro impulso não é beijá-lo ou agarrá-lo. Não é arrancar suas roupas e fazer tudo ali mesmo, no gramado e abaixo da lua. Só quero tocar seu rosto, já um pouco corado pelo o que acaba de assumir. Só quero diminuir o espaço entre nós — medido não nos centímetros que nos separam, mas nas milhas de orgulho que existe dentro mim — e colocar meus dedos bem de leve no lugar onde sua barba já dá sinais de vida, arrastá-los por seu rosto, pelas sobrancelhas grossas, pelas bochechas, pelo queixo, e encostar minha testa na dele... Mas não posso tocá-lo com essa intimidade. Esse é um privilégio que eu não tenho mais.
Então me levanto e lhe estendo a mão. Quando ele se levanta e para em minha frente, apenas o abraço forte, e ele retribui na mesma intensidade.
— Me perdoe, Blaine. De verdade. Eu sinto tanto, Blaine... — e mesmo que ele não saiba, eu peço desculpas por tudo que já possa ter feito de mal desde o dia em que nos conhecemos.
— Está tudo bem, Kurt. Já passou.
E nós ficamos lá, abraçados, abaixo da luz das estrelas.
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