It's In The Blood
9 You're Just a Stranger Now
Notas iniciais
Pov's Tracy
Existem algumas características que, cientificamente falando, são passadas geneticamente de pai/mãe para os filhos. Também é comprovado que alguns traços da personalidade das pessoas podem vir de coisas que elas observaram ainda na primeira infância (quando bebês). Em resumo, tem coisas que estão no sangue.
E digamos que eu usasse isso como desculpa o tempo todo para agir de forma não tão correta .
Então naquela noite, quando Daniel virou as costas e foi embora, eu simplesmente voltei à cozinha e terminei de ajudar minha mãe com a bagunça. Depois tomei um banho e me sentei no sofá com ela e meus pais que, milagrosamente, estavam totalmente a vontade um com o outro. Eu já havia desistido de entender as ida e vindas deles. Tarde da noite, eu finalmente fui para o meu quarto, e por todo esse espaço de tempo, eu precisei esconder o quão irritada eu estava.
É, eu já sei. Eu não estava nem um pouco no meu direito de estar brava. Mas eu lembrava de entrevistas que papai Kurt costumava dar sobre seu sucesso como estilista. Ele dizia que o segredo era simples: um Hummel não abaixa a guarda. Muito menos a cabeça. E eu podia muito bem disfarçar meu orgulho infantil por trás de uma personalidade forte, não podia? Afinal, essas coisas estão no sangue, não estão?
É incrível o quanto você pode ser ridícula aos 14 anos.
Então, naquela noite, eu dei a mim mesma um sem-número de motivos para estar certa em mentir para o meu melhor amigo, certificando-me de que me manteria firme até o fim, custasse o que custasse.
Mesmo que isso me custasse o próprio Daniel.
[...]
No dia seguinte, ele não falou comigo em nenhuma aula, e eu não dei a mínima. Mas, na aula do coral, fui atrás dele, pois tínhamos um compromisso.
— Temos um dueto para apresentar. — ele guardava seus livros no armário e nem me olhou ao responder.
— Faça sozinha. Tio Kurt pode te ensinar como.
Ele ia virando as costas para mim, mas eu o puxei pelo braço.
— Larga de ser infantil, Daniel! As apresentações dessa semana valem nota para a média final de artes. Eu não estou nem aí se você não quer falar comigo, eu quero minha nota.
Péssima escolha de palavras.
Ele olhou bem na minha cara, o olhar típico de um Lopez quando quer matar você. Ele ficou me olhando assim por longos segundos.
— Ótimo — ele começou a andar para a sala do coral e eu o segui. — Mas vai ter uma mudança na música. Não se preocupe, você sabe a letra muito bem.
Não respondi. Chegamos a sala do coral atrasados, e todos já estavam lá, incluindo as "visitas" da semana. Ele simplesmente foi à banda, disse o nome da música e votou para o centro da sala me encarnado de cara feia. Mal acreditei quando ouvi a música começar, mas cantei com toda a raiva que eu não tinha o direito de ter.
(Tracy)
If I'm a bad person, you don't like me
(Se eu sou uma pessoa ruim, você não gosta de mim)
Well, I guess I'll make my own way
(Bem, acho que vou fazer do meu próprio jeito)
(Daniel)
It's a circle, a mean cycle
(É um círculo, um ciclo vicioso)
I can't excite you anymore
(Eu não consigo mais te animar)
Ninguém parecia entender ou acreditar no que estava acontecendo. Meus pais olhavam para nós com os olhos arregalados, e tia Santana e tia Brittany trocavam olhares nervosos. Era como se tivéssemos voltado a ter 6 anos, quando nos odiávamos. Porém pior.
(Tracy)
Where's your gavel? Your jury?
(Onde está seu martelo? Seu júri?)
What's my offense this time?
(Qual meu crime dessa vez?)
You're not a judge, but if you're gonna judge me
(Você não é um juiz, mas se vai me julgar)
Well, sentence me to another life
(Bem, me sentencie à outra vida)
(Daniel)
Don't wanna hear your sad songs
(Não quero ouvir suas músicas tristes)
I don't wanna feel your pain
(Não quero sentir sua dor)
Isso reverberou em mim com a força de um furacão. Eu sabia que não era fácil lidar comigo naquela situação: triste, abalada e sensível com o divórcio dos meus pais... Mas Danny cantou aqueles versos como se tivesse náuseas por ter que aturar meu humor.
(Tracy)
When you swear it's all my fault
(Quando você jura que é tudo minha culpa)
'Cause you know, we're not the same (no)
(Porque você sabe que não somos os mesmos [não])
We're not the same (oh)
(Não somos os mesmos)
Oh, we're not the same
(Oh, nós não somos os mesmos)
(Tracy e Daniel)
Yeah, the friends who stuck together
(Yeah, amigos que viviam grudados)
We wrote our names in blood
(Nós escrevemos nossos nomes em sangue)
But I guess you can't accept that the
change is good (hey)
(Mas você não consegue aceitar que a mudança é boa)
It's good (hey), it's good
(É boa [hey], é boa)
A essa altura todos pareciam estarrecidos com o que presenciavam. Nossos amigos pareciam não entender absolutamente nada, e Chris estava com um olhar desconfiado. Rennie apenas sorria, como se toda aquela merda estivesse acontecendo só para o seu deleite.
(Tracy e Daniel)
Well, you treat me just like
(Você me trata como)
Another stranger
(Um estranho qualquer)
Well, it's nice to meet you, sir
(Bem, é um prazer te conhecer, senhor)
I guess I'll go
(Acho que eu já vou)
I best be on my way out
(É melhor eu seguir meu caminho) (refrão 2x)
(Tracy)
Ignorance is your new best friend
(Ignorância é sua nova melhor amiga)
(Daniel)
Ignorance is your new best friend
(Ignorância é sua nova melhor amiga)
Nós estávamos cara a cara, meus olhos e os dele grudados uns nos outros. E o olhar dele transparecia mais dor e decepção do que propriamente raiva.
(Daniel)
And this is the best thing that could've happened
(E isso é a melhor coisa que poderia ter acontecido)
Any longer and I wouldn't have made it
(Mais um pouco e eu não teria feito isso)
(Tracy)
It's not a war, no, it's not a rapture
(Não é uma guerra, não é uma ruptura)
I'm just a person, but you can't take it
(Sou só uma pessoa, mas você não aceita isso)
(Daniel)
The same tricks that, that once fooled me
(Os mesmos truques que uma vez me engararam)
They won't get you anywhere
(Não vão te levar a lugar nenhum)
(Tracy)
I'm not the same kid from your memory
(Não sou a mesma criança da sua memória)
Well, now I can fend for myself
(Bem, agora posso me defender por mim mesma)
Eu apontava o dedo em seu rosto a esse ponto. Podia sentir o suor escorrer por minhas costas, o rosto contorcer de raiva. Mas raiva do que? Quais eram os meus motivos? Por que eu tinha que ser imatura ao ponto de não notar quão ridículo era o papel a qual estava me prestando?
(Daniel)
Don't wanna hear your sad songs
(Não quero ouvir suas músicas tristes)
I don't wanna feel your pain
(Eu não quero sentir sua dor)
(Tracy)
When you swear it's all my fault
(Quando jura que é tudo minha culpa)
'Cause you know, we're not the same (no)
(Porque sabe que não somos os mesmos)
We're not the same (oh)
(Não somos os mesmos)
Oh, we're not the same
(Oh, não somos os mesmos)
(Tracy e Daniel)
Yeah, we used to stick together
(Sim, costumávamos viver juntos)
We wrote our names in blood
(Escrevemos nossos nomes em sangue)
But I guess you can't accept that the change is good (hey)
(Mas acho que você não aceita que a mudança é boa)
It's good (hey), it's good
(Tracy e Daniel)
Well, you treat me just like
(Bem, você me tratar como)
Another stranger
(Um estranho qualquer)
Well, it's nice to meet you, sir
(Bem, foi um prazer, senhor)
I guess I'll go
(Acho que eu já vou)
I best be on my way out
(É melhor eu achar minha própria saída) (refrão 2x)
(Tracy)
Ignorance is your new best friend
(Ignorância é sua nova melhor amiga)
(Daniel)
Ignorance is your new best friend
(Ignorância é sua nova melhor amiga)
(Tracy e Daniel)
Ignorance is your new best friend
Ignorance is your new best friend
(Ignorância é sua nova melhor amiga)
(Tracy e Daniel)
Well, you treat me just like
(Bem, você me tratar como)
Another stranger
(Um estranho qualquer)
Well, it's nice to meet you, sir
(Bem, foi um prazer, senhor)
I guess I'll go
(Acho que eu já vou)
I best be on my way out
(É melhor eu achar minha própria saída) (refrão 2x)
Então a música acabou. A sala do coral entrou em um silêncio sepulcral, por longos, intermináveis e infinitos segundos. Até que, com os olhos molhados e um soluço escapado sem querer, Daniel saiu da sala pisando duro.
Eu ainda fiquei de pé alguns segundos a mais, remoendo o que havia acontecido e respirando forte. Então, ajeitei a postura, empinei o nariz, joguei a franja para o lado e saí da sala com passos decididos, porém graciosos.
Como uma rainha.
~ H.A ~
Pov's Daniel
Então é esse o gosto que fica quando você vê seu mundo desmoronando.
Fui em direção ao estacionamento e peguei a minha bicicleta, não podia mais ficar ali. Pedalei longos minutos, sem qualquer rumo, as vistas turvas pelas lágrimas. Eu não entendia como minha melhor amiga podia ser alguém assim. Não entendia como podia estar apaixonado por alguém assim.
Finalmente parei em um café pequeno, com mesas na calçada. Comprei um café preto e me sentei em uma dessas mesas, querendo muito estar morto. Quando alguém toca meu ombro.
— Quer me dizer o que foi aquilo? – disse Chris, a voz mansa e amigável, e eu quase caí no choro de novo.
— Ela mentiu sobre o tal Kevin. Eu fui tirar satisfações e ela agiu como se eu fosse louco por querer que ela fosse sincera comigo. E agora ela está sendo uma babaca. – Eu falo atropelando as palavras, retendo soluços rebeldes, o rosto transfigurado em dor. Então olho bem na cara dele, sentado na minha frente – Você sabia, não é, DeBrassio?
— Sim – ele fala, após respirar fundo. – Mas acredite que não teve um dia em que eu não tivesse dito a ela pra te contar. Mas ela não escuta ninguém – ele completa, com um revirar de olhos.
— Não duvido disso. Eu estou me sentindo péssimo. É horrível estar brigado com ela.
É impossível conter as lágrimas.
— Eu sei, querido. Mas ela tem que entender que está errada. Logo isso vai passar. – ele diz calmamente. Mas eu só começo a chorar mais forte.
Ele calmamente pega minha bicicleta e me guia até o parque, que está bem próximo. Ele me senta abaixo de uma árvore, e enquanto ele prende a minha bicicleta, eu afundo o rosto nos joelhos e soluço baixinho.
— O que realmente está acontecendo, Dan? Você não iria ficar assim por uma discussão besta. Ela te disse algo que te deixou assim? Ah, eu vou matar aquela filha da mãe!
— N-não, Chris. Não é isso. É que não falar com ela é tão... Logo agora que eu... E eu queria não me sentir assim sobre ela, mas... Ah, droga, eu vou acabar com essa amizade e... Eu só quero voltar ao tempo quando eu... E-eu... – e então eu caio mais uma vez no choro.
— O quê? Você precisa parar de chorar antes de... – então ele silencia. Ele me olha nos olhos e eu sei que ele já entendeu exatamente qual é o problema – Ah, minha santa. Você gosta dela, não é? – Eu nem preciso responder – Puta merda, Daniel. Você se mete em cada uma...
~ H.A ~
Pov's Kurt.
Tracy sai da sala sem dar a menor satisfação a ninguém. A sala fica repleta pelo som de silêncio, respirações pesadas e pensamentos confusos.
É com algum esforço que Santana verbaliza algo:
— Que diabos acabou de acontecer aqui?
Ninguém tem respostas.
— Eu vou atrás de Daniel. Com licença, sr. Evans, convidados. Sinto muito. – diz Christian, pegando atrapalhado suas coisas e saindo da sala. Sua escolha é compreensível, pois Daniel saiu aos prantos. Mas eu ainda estava preocupado com Tracy.
— Desculpe, Sam, mas precisamos ir para casa. Daniel pode estar indo para lá, e ele não está bem. – Disse Brittany, segurando carinhosamente a mão de Santana, que tremia ao olhar para a porta.
— Está tudo bem. Classe, estão dispensados. Amanhã compensaremos as apresentações perdidas, mas não há como prosseguir agora. Sinto muito, até amanhã.
Todos os alunos se retiraram. Nos despedimos de Sam e cada um seguiu seu caminho. Eu, Blaine e Rachel ficamos no corredor.
— Que merda foi aquilo!? – disse Rachel?
— Obviamente os resultados de uma briga feia. Muito feia. – balbuciou Blaine, inconformado.
— Mas quando é que eles brigaram? Tracy parecia ótima ontem. Não é possível que isso tenha começado hoje de manhã. – digo.
— Bem, temos que lembrar que ela é uma atriz razoavelmente boa para a idade, – disse Rach – então pode ter acontecido ontem... – ela nos olhou pensativa – Vocês deviam ir atrás dela. Ela normalmente se sente mais confortada por vocês. Se ela não lhes contar tudo, depois converso com ela “de garota para garota” e passo tudo para vocês.
— Tudo bem, então vamos indo. Vemos você depois, Rach – Blaine disse, dando-lhe um abraço. Em seguida, eu me despeço e sigo Blaine.
— Onde você acha que ela pode estar? – digo, olhando apreensivo para seu rosto, pois mal consigo raciocinar. Seu rosto está sério.
— Ela está com as chaves do meu apartamento. Suspeito que está no meu mini estúdio. Do contrário, só pode estar na casa do seu pai.
— Talvez ela estivesse querendo ficar só. Vamos primeiro ao seu apartamento.
— Faz sentido. Vamos lá. – ele me olha de canto de olho e sorri. É preciso concentração para não me derreter todo e conseguir retribuir o sorriso.
[...]
Chegamos ao seu apartamento e vamos direto ao seu mini estúdio. Era um compartimento pequeno, com alguns vilões, duas guitarras de Tracy e alguns equipamentos que ele usava para gravar demos. Tracy estava em pé, dedilhando uma das guitarras. Ela pareceu surpresa e contente em nos ver ali. Talvez porque estávamos juntos.
— Acho que a gente precisa conversar, pequena – Blaine disse, quase num sussurro, escorado no batente da porta.
— Tá bom – ela disse, guardando sua guitarra e nos seguindo para a sala. Sentou entre nós no sofá, e parecia totalmente contente em nos ver ali, sentados como uma família.
— Essa é a parte que você nos conta o que diabos aconteceu naquela sala mais cedo – digo.
— Tudo bem – ela diz, após respirar fundo – Eu fiz um amigo aqui, mas vocês não conhecem porque ele é de outra escola – ele diz, analisando nossos rostos. – E o Daniel não gosta dele, porque está com ciúmes, e então ontem a noite ele pirou porque eu tomei um café com esse amigo e agora não quer mais falar comigo. Ele armou aquilo na sala. Eu não entendo. – ela completou, abaixando os olhos.
Algo me dizia que tinha algo errado ali. Ela parecia estar escondendo algo, mas eu não tive tempo de fazer nada, pois Blaine já a estava consolando. Então deixei passar, por hora. Depois de um tempo, ela disse estar cansada e foi tirar um cochilo na cama do pai.
E eu fiquei com a pulga atrás da orelha.
~ H.A ~
Pov's Blaine
Tracy subiu para o quarto. Quando me dei conta, eu e Kurt estávamos sentados no sofá, com um balde de pipocas, assistindo à um filme.
— Você acha que ela foi totalmente sincera? – disse Kurt, a voz baixa como quando Tracy era um bebê e não queríamos acordá-la. A nostalgia ficou ali, causando certo incômodo no peito.
— Você acha que não foi? – Perguntei, no mesmo tom de voz.
— Você sabe. É sempre suspeito quando ela age como se não tivesse culpa de nada. Normalmente isso significa que ela tem alguma culpa.
— Você tem razão... Será que Rachel consegue fazer ela dizer algo? Talvez ela pense que a mãe vai entender o motivo do orgulho dela.
Ou até mesmo você, sr. Rei do Orgulho, penso.
— Talvez. Espero que sim. Sei que ela é minha filha, mas eu vi como Daniel estava. Se ele tem alguma culpa nisso, não posso ser conivente.
— Você está certo. Ela tem que entender que não é a rainha do universo.
Então o filme prendeu nossa atenção. Se travava de uma comédia escolar, e logo estávamos lembrando e rindo de coisas da época de escola. Kurt ria alto, e tentava inutilmente tampar a boca com as mãos e abafar para não acordar Tracy. Era tão bom poder estar ali confortavelmente com ele.
Não me lembro o contexto em que a conversa estava naquele momento. Não lembro o que o levou a dizer aquilo. Mas me lembro do momento em si tão claramente quanto lembraria se tivesse acontecido nessa manhã. De repente, ele se virou para mim e disse:
— Droga, Anderson, é por isso que eu amo você.
Silêncio. Não sei o que dizer. Ele se dá conta do que disse. Fica tão vermelho e vulnerável que fica dolorosamente parecido com o Kurt de 17 anos que eu conheci na Dalton. Minha respiração perde o ritmo.
— Ahn... Bem. Ah, Blaine, você sabe que isso nunca vai mudar, não é? Mesmo separados, mesmo que não seja mais da mesma forma que antes. Você ainda é meu melhor amigo, Bee. E eu amo você.
Quase um ano. Fazia quase um ano que eu não ouvia essas palavras da boca dele, e agora ele as dizia em alto e bom tom duas vezes seguidas. Foram precisos alguns segundos respirando fundo para responder.
— Eu também te amo, Kurt.
Fale com o autor