Issues - Short fic
6 ISSUES - Início de explicações plausíveis.
Notas iniciais
ISSUES — O início de uma explicação plausível.
EUA — Califórnia, UCLA
Maio, 2019
Relacionamento à distância. Nunca acreditei piamente que poderia dar certo, mas… Jace e eu estávamos dispostos a tentar. O último ano foi incrível. Lembranças que eu carregaria pelo resto da minha vida, não apenas em memórias, mas arquivos salvos em um pendrive que eu mantinha na minha gaveta de músicas na minha casa em Portland.
Portland, o lugar que chamo de casa que deixei temporariamente para me aventurar na Califórnia, enquanto estudo literatura. É claro, não é um curto percurso para me aventurar a fazer frequentemente, porém é possível fazê-lo de vez em quando. Jace está cursando administração por insistência dos pais na Universidade de Washington. O que aumenta um pouco a distância entre nós, entretanto, fazemos o possível para nos encontrarmos sempre que possível.
Jace não parece muito feliz quando fala da faculdade, eu o conheço, mesmo que não assuma diretamente eu sei… Ele está trabalhando por meio período três vezes na semana em um restaurante em Washington e toda vez que comenta sobre o local é como se gritasse que é aquilo de ele deveria estar fazendo: culinária. Mesmo que o serviço prestado seja como garçom, ele me contou que o chefe o deixa observar e às vezes permite que ele auxilie em algumas coisas, e isso parece ser o suficiente.
A saudade não muda quando se trata dos meus melhores amigos. Isabelle está passando um ano com Magnus e Alec em outro estado. Aprendendo o máximo que pode sobre confecção, estilo e tendências graças a um trabalho temporário. Um ano de total imersão no mundo da moda antes de entrar na faculdade, fazendo o que ama bem de pertinho querendo ter certeza de que é aquilo que deseja fazer. Embora tenha sido aprovada, decidiu postergar o ingresso na universidade, adiando para o ano seguinte.
Enquanto Simon está estudando próximo a mim na Califórnia, temos planos de começarmos a morar juntos em Mid City, o meio termo entre a UCLA e a Universidade do Sul da Califórnia onde ele está cursando produção musical. Por enquanto, nós dois estamos vivendo nos alojamentos próximos às nossas respectivas faculdades. Lewis deixou a Curse Paradise, os meninos decidiram continuar juntos e o fizeram prometer que ele usaria tudo que aprendesse para ajudá-los futuramente. Foi um momento bonito, engraçado e triste simultaneamente.
Jace me abraçou ao me ver chorar quando eles se apresentaram “uma última vez” antes que tudo terminasse oficialmente. Riu beijou minha cabeça dizendo que ficaria tudo bem. O queria por perto nesse instante. A distância não é insuportável, nós nos vimos recentemente então é como se por alguns instantes ela desaparecesse. Alguns dizem que piora com o tempo, mas… Estamos bem, por ora ao menos.
Sinto sua falta :(
Queria que você estivesse aqui pra’ falar sobre
tudo usando esse seu otimismo cego.
Li sua mensagem mais uma vez antes de responder. Aqueceu-me o coração saber que não sou apenas eu que sente saudades.
Sinto sua falta.
Estou com saudade dos seus abraços.
Quando você vem me ver?
Ou quando eu posso te visitar?
Tá tudo uma bagunça por aqui.
Semana de provas.
Que tal na próxima?
Nem dá, amor
Na próxima semana tem projeto pra minha turma.
Tudo bem, a gente dá um jeito.
(>>>)
Outubro, 2019
Nós demos um jeito.
Junho, julho e agosto foram ótimos. Não está no orçamento de jovens adultos comprar passagens mensalmente para se ver, porém, o universo nos favoreceu com passagens baratas e disposição para dirigirmos até o outro, mas, além de tudo, as férias de verão chegaram. O que nos levou de novo à Portland, onde nós podíamos ficar juntos sem muitos esforços.
Contudo, as aulas voltaram e um novo período começou e é nítido que Jace está definitivamente sob um período de muito estresse, fazendo com que isso recaia sobre mim. A faculdade está indo bem, embora não seja o curso que ele deseja fazer, ele não é mau aluno e se esforça para pelo menos assimilar algo. Entretanto, não é fácil manter a faculdade e um emprego, principalmente quando não é o que você gostaria de estar fazendo.
Logo, toda essa frustração chega a algum lugar, em nós. É quase como se todas as áreas da vida dele estivessem pegando fogo e ele quisesse terminar de pôr tudo abaixo descontando em uma das únicas coisas estáveis no momento. Não acho que seja intencional, porém… É cansativo.
Ele está com ciúmes. Novamente.
Nos últimos meses Jonathan se mostrou uma pessoa bem insegura em relação ao nosso relacionamento, e todos esses sentimentos geram discussões sem a menor necessidade.
— Quem é esse cara, Clarissa!? — mostrou o celular com raiva. A foto postada no instagram há três dias exibia Zander e eu abraçados enquanto bebíamos algo em um restaurante mexicano com outras pessoas do mesmo curso que nós dois.
— É meu amigo! — falei exasperada — Já te falei sobre ele, por que você não me escuta?! — perguntei enquanto o observava andar pelo quarto.
— Eu te escuto. — disse áspero — O tempo todo! Eu te escuto falar sobre ele e o quanto ele é incrível, e quão longe eu estou e o quão perto ele está. — pareceu desapontado, permanecendo em silêncio logo depois. Sua mão passou pelo rosto de maneira rápida enquanto suspirava.
É compreensível. Errado porém, compreensível. Jonathan está com ciúmes de Zander e com a constatação silenciosa que permeia o ar nos mantivemos em completa quietude por um período de tempo. Busquei ar para que pudesse me acalmar e poder tranquilizá-lo.
— Nada disso importa, Jace. — me aproximei calmamente — Você é meu namorado — encostei meu dedo em seu peito, escorregando minha mão pelo seu ombro — É de você que eu gosto — encarei seus olhos, tão, tão bonitos que me fazem perguntar diariamente como seria possível tamanha beleza em alguém. Os olhos que me fizeram sentir saudade e que agora parecem profundamente angustiados. — Só de você — posicionei minhas palmas em sua face ficando na ponta dos pés para que pudesse depositar um beijo rápido em seus lábios. — Eu não me importo com o quão longe você está, porque no final eu estou com você, não estou? — Jonathan suspirou e assentiu, suas mãos tomaram minha cintura me levantando apenas alguns centímetros para que eu pudesse beijá-lo, pensei que fosse ser algo simples, porém seus braços me envolveram em um abraço, repeti o movimento pondo minhas mãos em seu pescoço envolvendo-o — Eu gosto de você — sussurrei.
E por alguns instantes foi como se tudo se resolvesse, porque eu lembrei de como nós éramos e tive certeza, mesmo que por alguns instantes, que as coisas não estavam diferentes. Que ainda éramos nós mesmos e que resolvemos nossos problemas como costumávamos fazer, do jeito certo. Do nosso jeito.
“Dia 70 — Ciúmes desnecessários
(Início do relacionamento), 2018
— Não é nada demais… — mordi a ponta do dedão, me afastando
— Claro que é “algo demais” você parece estar puta comigo. — bufou, mexendo nos cabelos nervosamente. — Só quero poder consertar as coisas… Você tá me evitando! — disse soando bravo — De novo! E dessa vez nós estamos namorando!
— Desculpa, tá? — fui rápida.
— Você pode me dizer o que está acontecendo? Pelo amor de Deus? — questionou. O silêncio ocupou o lugar. Meu coração batia descompassado pelo nervosismo, pensava se deveria dizer a verdade. Não era algo muito grande, mas doía assumir a verdade. Não pensava que sentiria ciúmes, mesmo que seja um sentimento completamente “natural” a origem dele deixava-me intrigada.
Jonathan olhava-me esperando minha reação e uma resposta que sanasse suas dúvidas. Talvez fosse completamente infundado considerando que agora Camile estava comprometida com outra pessoa, mas a insegurança era latente. Há cerca de uma semana, nossos beijos se tornaram mais ardentes que o comum, e em algum momento completamente impróprio comecei a me perguntar até onde o nosso relacionamento estava sendo semelhante com o anterior de Jace.
Perdurei com o silêncio por mais alguns instantes até soltar relutante:
— Eu tô com ciúmes Jace. — fechei os olhos envergonhada — Não daqueles normais. Aqueles ruins e sem fundamento, eu tô com raiva de mim, aí eu pensei em me afastar pra’ ver se passava.
— Ciúme? — pareceu confuso — De quem?
— Camile.
— A namorada do Sebastian? — franziu a testa. Nem eu mesma era capaz de acreditar naquilo, questionava-me como algo antigo desse tipo poderia me afetar depois de tanto tempo.
— A sua ex! — respondi como se fosse óbvio.
— Que é a atual do seu primo. — insistiu
— Tá’ vendo? Não faz sentido. — a frustração dominou o meu corpo — Não quero me sentir assim, mas ela foi a sua primeira namorada. — bufei, afastando-me mais ainda, encostando-me na parede.
— E você é minha namorada, agora. É de você de quem eu gosto — andou em minha direção, segurando minhas mãos que pendiam soltas ao lado do meu corpo — Só você. — deu-me um beijo rápido.
— Eu fico me perguntando se nós estamos repetindo tudo, se tudo que está fazendo agora você já fez antes. — confessei, constrangida. Talvez assumir a verdade fosse melhor naquelas circunstâncias — Eu não quero me sentir assim, insegura — respirei profundamente sentindo a aflição em meu peito — É uma sensação péssima.
Jonathan acarinhou nossas mãos, e em seguida as soltou e pôs seus braços ao redor da minha cabeça, encostando seu queixo no topo. — É de você de quem eu gosto — repetiu — Só você”
(>>>)
Novembro, 2019
Jonathan e eu estávamos tentando manter o diálogo para evitarmos discussões maiores. Há duas semanas quando Chloe, uma veterana, flertou com ele enquanto nós estávamos no telefone, nós conversamos. Conversamos quando ele assumiu estar frustrado e cansado. Quando concordamos em não nos vermos mês passado porque estávamos extrapolando o dinheiro que tínhamos. Até mesmo quando ele disse que não nos veríamos no feriado de thanksgiving, que ele não me visitaria na Califórnia e que eu não poderia vê-lo em Washington porque estava muito ocupado. Conversamos todas as vezes que foi necessário, mas hoje não é um desses dias.
Porque Jace deveria estar em Washington e não aqui na minha frente, na Califórnia.
— Você estava com esse cara, de novo! — Jace está nervoso, é nítido. E é por isso que não há diálogo, um racional ao menos.
Dado que tratava-se de uma surpresa, eu não soube que ele estaria aqui. Jonathan quis me surpreender vindo até aqui, pronto para que nós saíssemos para jantar e fôssemos à Portland comemorar o feriado com nossas famílias. A UCLA anunciou que encerraria o funcionamento na hoje, terça-feira, dando tempo para que os alunos se organizassem e já estivessem em casa a tempo, e ele sabia disso. Claro que sabia, tudo deveria estar mentalmente programado.
Contudo, os planos foram aos ares quando eu não cheguei no horário previsto. Afinal, eu estava com Zander resolvendo alguns detalhes do nosso projeto sobre “A importância da expressão literária durante os períodos de Guerra”, e disso ele não sabia. Quando meu amigo me deixou em casa há meia hora meu namorado já estava aqui há duas horas, com um prato de comida, agora fria, que comprou para mim.
Ele me perguntou com quem eu estava, e eu fui honesta, não quis mentir para que ele ficasse desconfiado, mas não adiantou. Enquanto eu comia, mesmo que sem vontade, Jonathan lançava diretas passivo-agressivas sobre o horário que cheguei e um stories nosso, o qual Zander e eu estávamos lado a lado abraçados, até que resultasse nisso: mais uma briga.
— Isso de novo? — questionei cansada — Jace, ele é meu amigo. O que você quer que eu faça?
— Eu não sei! Talvez você deva mudar de amigos. — sugeriu irônico.
— Eu não acredito nisso, Jonathan! Você é inacreditável!
— Eu sou inacreditável? Eu?! — bufou — Eu venho até a Califórnia pra te ver e quando venho você está agarrada com outro cara!
— Agarrada? — perguntei aumentando o tom — Agarrada?! Puta que pariu. Agarrada!? — frisei a palavra, surpresa com a maneira com que ele se referiu à uma simples fotografia — Eu não estou nua no colo dele. Não estou nem ao menos vestida no colo dele. Qual o seu problema? Eu estou aqui! Com você!
— Eu venho até aqui pra nós irmos para casa juntos e você me deixa aqui esperando!
— Eu não sabia que você estava vindo, inferno!
— Claro que não sabia! Caso contrário não estaria com ele até tarde, nunca que você teria me deixado saber sobre isso!
— Olhe como você está! A maneira que você está agindo é vergonhosa e sem cabimento algum.
— Vergonhosa? Vergonhosa e sem cabimento? — repetiu — Você espera que eu não reaja sobre você e seu amiguinho que é sem cabimento. Você me trocou por ele…
— Eu não fiz isso… — mas antes que eu pudesse concluir fui interrompida.
— Eu fiquei aqui! Como um otário te esperando...
— Eu não pedi para que você viesse até aqui! — gritei, e me arrependi no mesmo instante que as palavras saíram da minha boca e cruzaram seu rosto, a decepção foi nítida em seu rosto. O cenho franziu por milésimos e ele se recompôs o mais rápido que pôde — Jace, eu…
— Quer saber? Foda-se, Clarissa — passou por mim enquanto segurava a própria mala. — Eu vou pra casa então.
— Jace! Jace. Volta aqui! — corri atrás dele.
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Dezembro, 2019
Winter Break
Durante o feriado de thanksgiving nós já estávamos bem. Exaustos porém bem. Depois daquela discussão passamos a noite em um hotel de beira de estrada. Jonathan realmente tentou voltar para Washington naquele dia. Não sei quais eram seus objetivos naquele final de semana, pois a princípio seus planos eram que fôssemos juntos para Portland comemorar o Dia de Ação de Graças, mas eu sei que ele estava voltando para a Universidade após nosso desentendimento.
Eu chorei de nervosismo, raiva e tristeza. Chorei tanto que no dia posterior após a discussão tive dor de cabeça. Daquelas que só passam após três analgésicos, contudo, remédios nunca foram meu forte. Então optei por tomar apenas um, mesmo que estivesse morrendo de vontade de engolir a cartela de comprimidos inteira.
Naquele dia, ver como Jonathan saiu andando tão rápido e sem olhar para trás partiu meu coração em milhões de pedacinhos. Corri atrás dele pelas escadas do prédio, embora eu falasse com Herondale, Jonathan não me respondia e nem ao menos parecia me escutar. Entrei no carro com ele, mesmo que Jace não quisesse e insistisse para que eu saísse. Porém, eu apenas cruzei os braços e esperei que as coisas se acalmassem.
Depois de uma hora na estrada indo a lugar nenhum, Jace parou em um motel qualquer. Não transamos. Nunca foi o objetivo da parada, na verdade. Só queríamos descansar. Meu rosto estava inchado e não estávamos completamente equipados para o inverno, nós precisávamos parar.
Com certeza foi uma das noites mais estranhas e desconfortáveis do nosso relacionamento. Porque pela primeira vez, eu não me senti bem estando vulnerável perto dele. Antes de nos deitarmos eu me perguntei como eu deveria agir. Foi desconfortável porque eu não sabia como agir, e triste porque estávamos cada vez mais distantes do que éramos. Falando cada vez mais e ouvindo menos.
E eu não quero continuar assim.
— Jace, eu não aguento mais.
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