Issues - Short fic
7 ISSUES - Palavras jogadas ao vento voltam para você.
Notas iniciais
Dezembro, 2019
Winter Break.
Ah! As férias de inverno chegaram finalmente e com isso Portland está de volta a minha vida. O Winter Break dura entre duas a três semanas, um tempo para calmaria e repor todas as energias que a faculdade arranca diariamente de cada estudante desesperado pelo diploma. Começam em dezembro e terminam no início de janeiro após o término das comemorações de Natal e Ano Novo, e indicam o início de um novo período.
Não acho que mudanças tão drásticas ocorram durante o Winter Break, em comparação ao que acontece durante a Summer Vacation. Pois após as férias de verão, as pessoas já conseguiram os diplomas, novos alunos iniciam o ano letivo e nós descobrimos o paradeiro de muitos alunos que geralmente se casam, viajam, são transferidos ou trancam a faculdade por algum motivo.
Mas, dessa vez, uma grande mudança ocorrerá, para mim ao menos, sem que estejamos ao menos perto das férias de verão. Desde o dia de Ação de Graças tudo está diferente, ao menos na minha cabeça. Sinto como se algo não estivesse no lugar certo. E durante cada dia desse mês eu tive medo que a parte errada dessa equação fôssemos nós.
Jace e eu.
Não consigo parar de pensar na maneira que estamos agindo ultimamente. Brigas e mais brigas. É claro, bons momentos existem, porém, nós nunca fomos do tipo que precisa de uma discussão, então elas sempre foram raridade em nosso relacionamento, e todas as vezes que aconteceram foram resolvidas de forma rápida. Mesmo que antes de começarmos a nos relacionar eu sempre apontasse o temperamento de Herondale, esse nunca foi um problema.
Contudo o medo tornou-se um problema, um dos grandes na verdade. Não tenho medo de Jace, claro que não. Porém, tenho medo de termos estragado algo muito bonito: a nossa amizade. Medo de não estarmos vivendo a experiência de estar na faculdade porque estamos presos um ao outro. Medo de que futuramente o arrependimento nos assole e tenhamos para sempre a memória infeliz de tempos que poderiam ter sido graciosos, entretanto, que se tornaram um grande desastre..
Medo de nos transformarmos em algo que não nos orgulhamos.
Medo de que no fim não possamos nem nos encarar.
São esses os temores que me rondam. Tenho medo de que meus ciúmes ou os ciúmes dele arruinarem a possibilidade de vivermos em paz como costumávamos fazer antes de complicarmos tudo. Quando éramos apenas amigos e não tínhamos enfiado tantos sentimentos em um relacionamento simples.
No momento em que eu acreditei que Herondale estivesse em um caso com uma garota da turma de marketing, Anne, não foi algo muito bonito de se ver. Porém nós contornamos a situação, conversamos sobre e fomos honestos. Mas, quando Jace mostrou as mesmas inseguranças, eu não consegui agir da mesma maneira. E me senti mal por isso depois por não ter sido a pessoa que ele precisava que eu fosse naquele instante.
A Clarissa compreensiva que colocaria as mãos em seu rosto e diria “É de você que eu gosto, seu bobo” como fiz tantas vezes, era dela que Jonathan precisou no momento em que acreditou que Zander Jenkins e eu teríamos um caso. E não de alguém cheio de ressentimentos que não queria entender o que se passava na cabeça dele. Jonathan precisava de carinho, algo que não dei a ele de primeira.
Zander, um rapaz negro de pele clara e olhos castanhos que cruzou meu caminho logo no primeiro dia de aula, foi simpático e super gentil, e meu único conhecido “próximo” por duas semanas até que eu conhecesse seus amigos e fizesse os meus próprios. Jonathan nunca havia dito uma palavra sequer a respeito Sempre pareceu bem OK com a situação, além de parecer gostar dele, contudo, de uns tempos para cá Jace e eu começamos a discutir e curiosamente o nome de Zander estava envolvido.
Eu deveria ter percebido.
Deveria ter percebido que algo não estava certo. Deveria ter percebido porque o amo. Porque estamos juntos há algum tempo. Eu queria ter percebido, porque Jonathan o faz sempre que há algo de errado. Nunca imaginei que ele pudesse estar se sentindo mal com a presença de Zander na minha vida, ou que eu gerasse tamanha desconfiança em nosso relacionamento. Jamais quis que ninguém se sentisse dessa forma, principalmente ele.
Nós já fomos amigos, daqueles que riem por nada, que saem juntos sem motivo, que visitam a casa um do outro só para fazer companhia, porque todos sabem que há uma amizade muito bonita por trás. E agora, nós somos um casal, porque em algum momento o sentimento extrapolou, e notamos que era algo além da amizade, mesmo que eu me recusasse a aceitar no início.
É claro, não é como fosse possível existir um relacionamento amoroso sem diálogo e companheirismo. Acontece que Jonathan e eu tínhamos tudo para ter um relacionamento equilibrado e funcional, porque nos conhecíamos antes de namorarmos, mas, por alguma razão isso não vem acontecendo. E eu tenho medo que quando isso acabe nós nunca mais sejamos os mesmos e tenhamos destruído algo que era muito bonito.
Não simplesmente porque não estamos mais juntos, e sim, porque haverá muita mágoa e ressentimentos que poderiam ter sido evitados. Herondale tem medo que eu esteja o traindo. E eu temo que isso além de nos fadar ao fracasso, elimine a possibilidade de sermos amigos futuramente. Pois a ideia de não tê-lo por perto me machuca e me fere mais ainda cogitar que ele possa nunca mais querer olhar na minha cara.
E eu preciso fazer algo para que isso não aconteça. Tomar uma atitude antes que seja tarde demais, antes que estejamos afundados em mágoas e sentimentos guardados porque não temos coragem o suficiente para expressá-los. Preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo que isso signifique terminar o que temos.
Eu preciso fazer isso de uma vez.
Antes que nós estejamos cobertos de arrependimentos e lembranças ruins como as do dia de ação de graças.
(
Dia de ação de graças
Um mês atrás
“Eu estou me sentindo cansada. Quero chorar, dormir por muito tempo e fingir que nada disso aconteceu. Jonathan dirige sem olhar para mim, encara a estrada fixamente. Há cerca de 20 minutos estamos em um completo silêncio. Ele já reclamou o suficiente, pediu que eu saísse inúmeras vezes. Disse que voltaria para Washington e passaria o Thanksgiving sozinho.
Jace nunca agiu dessa maneira. Nunca teve tantos ciúmes. Eu já acreditei que fosse pela faculdade que está fazendo, mas… Nada justifica a maneira que ele se comporta.
É como se estivéssemos juntos pela memória do que costumávamos ser.
Será?
Sei que pode ser tudo coisa de momento a ocorrência desse pensamento, pois não temos apenas momentos ruins. A grande maioria é incrível, porém essas discussões estão me deixando cansada. Sinceramente, nunca pensei que fôssemos chegar a esse ponto.
Eu amo meu namorado.
Mas, ele parece não saber disso. E eu me pergunto quando deixei de manter isso em evidência. Amor não sustenta um relacionamento, reconheço isso. Contudo, a comunicação não costumava ser um problema entre nós. Porém, agora parece que está em um déficit absurdo. E um amor sem diálogo está fadado ao fracasso.
Já discutimos o suficiente em alto e bom som. Estou magoada e cansada. Mas, ainda insisto em falar mesmo que saiba que não surtirá efeito.
— Eu não sabia que você estava vindo, Jace. — repeti pela milésima vez.
— É claro que não sabia! Caso contrário não teria ficado até tarde com aquele cara. — seu tom esbanja sarcasmo.
Ácidos, é a palavra para nos descrever nesse instante. Estamos falando baixo, em comparação a “conversa” que tivemos há alguns minutos. Há um grande ressentimento no ar. Sei disso, mas ele não pode agir como se eu fosse a grande culpada.
— Então! Você poderia ter me dito. Eu voltaria para casa, nós poderíamos jantar juntos como o programado e viajar um pouco durante a noite.
— Eu não quero mais conversar, Clarissa. — arqueei as sobrancelhas.
— Conversar? Você não conversou comigo na última meia hora. Você gritou! Gritou comigo e jogou suas opiniões pra cima de mim. — bufei — Conversar é o caralho. Conversar foi a última coisa que você fez.
— Eu não quero mais conversar, Clarissa. — repetiu. — Eu só quero chegar em algum lugar e descansar.
— Okay. — cruzei os braços insatisfeita. Talvez fosse melhor ficar quieta dessa vez. Estávamos andando há um bom tempo, a estrada estava vazia pelo horário e o último hotel de beira de estrada que vimos foi a quilômetros atrás. Jace, provavelmente, faria o retorno em breve para que pudéssemos voltar e parar em algum lugar.
Minha cabeça está começando a doer. Discutir nunca foi o meu forte. Meu corpo logo dá indícios que está cansado e precisando de uma pausa. Sempre foi assim. Segurei minhas emoções ao máximo e deixei que a adrenalina reduzisse, contudo após permitir que meu corpo se acalmasse e racionalizar o que aconteceu até ao atual momento, sinto como se estivesse prestes a chorar. Porém, respiro fundo desejando afastá-la.
Jonathan parece inquieto, talvez devido ao silêncio que se estabeleceu mesmo que fosse escolha dele. Talvez pela possibilidade de estarmos perdidos. Talvez até minha presença o deixe incomodado.
Alguns minutos mais tarde chegamos a um hotel de beira de estrada. E Embora estejamos brigados, alugamos apenas um quarto. Não trocamos uma palavra, Jonathan apenas sai e me deixa sozinha enquanto toma banho, felizmente para ele, poderá vestir roupas limpas, visto que está com bolsas de viagem. E eu terei que me contentar com as peças que já estão em meu corpo.
Estou sentada na cama, abraçando as próprias pernas e me sentindo sozinha. Não é um sentimento agradável ou reconfortante. É como se falar exigisse mais esforço do que o normal e o corpo pesasse toneladas. Suspiro profundamente e enxugo as lágrimas que insistem em descer pelo meu rosto.
Ajeito meu corpo, não quero ser vista assim, e mexo no telefone por alguns minutos na tentativa de espairecer. Jonathan sai do banheiro e eu entro logo em seguida. Há um roupão e uma tolha limpa à disposição, além de uma pasta de dente e sabonete, sei que os últimos são provavelmente de Jace. Abro um sorriso triste sabendo que ele trouxe essas coisas na expectativa de que viajássemos juntos e fizéssemos o que estamos fazendo agora, é claro que em outras circunstâncias.
Não há muito o que fazer. Tomo um banho rápido e uso o creme dental para escovar os dentes com o dedo. Felizmente o aquecedor do quarto está funcionando, caso contrário não acredito que eu fosse ter a coragem necessária para entrar no chuveiro. Saio enrolada no roupão. Ele nem se mexe ao escutar a porta abrir, está sentado no lado oposto ao que eu estava e parece não me ver.
No lado em que eu estava há uma samba-canção, que eu sei que ele usa como shorts, uma camisa de mangas cumpridas e uma calça moletom. Meu coração aquece um tantinho. Não sei se quero vestir sua camisa, não sei se é uma boa ideia. Porém, as peças restantes com certeza serão usadas. Volto ao banheiro mais uma vez e me visto, relutando um pouco ao pôr a camisa, porém a colocando por fim. Ele se importou comigo.
Mesmo que ainda não me olhe, eu sei que ele se importa. Penso em agradecer após sentar no meu lado da cama, estamos de costas um para o outro, e não sei se devo dizer algo mais além do primordial “obrigada”. Mas antes que eu possa pensar em algo, a cama se movimenta e sua voz surge de repente, fazendo com que eu o olhe imediatamente.
— Você teria voltado pra casa? — me surpreendendo. Sua voz está baixa e ele não me olha nem por um segundo, mesmo que agora seu corpo esteja virado em minha direção. Uma interrogação gigante surge na minha testa. Do que ele está falando? — Com ele? — concluiu a última parte com o certo pesar.
— Como é? — escolho uma posição melhor para que possa vê-lo.
— Você teria ficado por lá com ele? — pausou — Se… Se você não tivesse me visto, ele… ele teria entrado?
— O que ele faria lá, Jace? — ri em ironia. Mas minha cabeça começou a trabalhar indicando que não era exatamente aquilo que ele queria dizer. Senti raiva da insinuação e certo desapontamento ao ter que responder. — Você só pode estar de sacanagem. — bufei.
— Responda a pergunta, por favor. — ao contrário de mim ele não parece incomodado com a pergunta, muito menos estressado como hoje mais cedo no carro. Apenas cansado, como se estivesse segurando por muito tempo. Como se fosse algo que ele precisa muito saber.
— Você quer saber se eu teria passado a noite com ele? — silêncio absoluto. — Você quer saber se eu teria transado com ele? — e mais uma vez não obtive resposta. Meu coração pesou com a acusação. — Você quer saber se eu teria transado com o Zander? É isso!? — aumentei o tom de voz — Responde! — dói. Uma acusação dói no fundo do meu peito. Porque eu sei que uma dúvida como essas não surge da noite pro dia, ela é semeada e demora para se florescer dessa maneira. É uma dúvida que te corrói por dentro e te consome e quando você se dá conta é quase certo, mesmo que seja apenas na sua cabeça, que há um par de chifres nela.
Passei por isso há certo tempo, mas nós conversamos por um longo período até que nós resolvêssemos o conflito. Hoje, infelizmente, não estou com a maturidade necessária para manter um diálogo, não vou assumir a postura que eu gostaria de ter. Ao invés disso só consigo me sentir confusa e um tantinho magoada, e incapaz de apresentar a racionalidade necessária.
— Eu preciso saber, Clarissa. Por favor. — ele parece ressentido, mas me importar com isso não me impede de sentir raiva da acusação
— Você… Você acha que eu já te traí com ele? — questiono desacreditada e recebo o silêncio mais uma vez como resposta. — Como você acha um… Por quê? — minha voz embarga. A raiva está dissipando dando lugar a tristeza.
Eu não quero chorar.
E eu não vou.
— Por favor, responda. — seu tom está em um sussurro. — Eu preciso saber. — seus olhos finalmente encontram os meus e é como se facas estivessem em meu peito. Jonathan parece sensível. Não quero me sentir mal com a situação, não quero me sentir mal por ele, afinal, há alguns minutos era ele quem fazia que eu me sentisse dessa maneira e não mostrou compaixão alguma.
Porém, estávamos exaltados e mais preocupados em falar a escutar. Mais preocupados em estarmos certos ou distantes um do outro para que pudéssemos pensar ao invés de nos resolvermos. Isso realmente aconteceu, afinal, Jonathan foi embora. Virou as costas sem pensar duas vezes. Não me ouviu. Eu não o ouvi.
E talvez, apenas talvez, não seja completamente justo julgá-lo pela maneira que ele agiu mais cedo e crucificá-lo agora. Justamente em um momento que ele parece vulnerável. Jonathan e eu somos diferentes, tomamos decisões de formas completamente distintas, porém, acho que somos capazes de reconhecer que esse é um daqueles momentos quando nós resolvemos as coisas. Quando conversamos e entendemos que apesar das diferenças o que nos mantém unidos é o que temos em comum: o sentimento que nutrimos um pelo outro.
E mesmo que Jonathan tenha me chateado mais cedo é inegável que vê-lo dessa forma me magoa igualmente.
— Por favor, Clarissa. — não me movo, apenas o observo. — Eu preciso saber.
— E eu preciso saber o que te faz pensar assim. Por… Por quê?
— É uma pergunta simples. Sim ou não. Por que você não responde?
— Não, não é uma pergunta simples. Pois eu gostaria muito de saber de onde você tirou a certeza que estou fazendo sexo com outra pessoa.
— Eu sabia que não deveria ter perguntado nada. — levantou frustrado.
— Não. — decido responder, mesmo que não esteja bem em afirmar o que pra mim é óbvio — Nós nunca nem nos beijamos se é o que quer saber. Satisfeito? — ele não deveria se envergonhar das perguntas que quer me fazer, nem ao menos se sentir inseguro com elas.
— Eu… Precisava saber. — sentou-se mais uma vez — Eu precisava.
— Por quê? — esperei que ele me respondesse, porém alguns minutos se passaram até que eu obtivesse minha resposta.
— Porque eu sei que ele está aqui. Enquanto eu não. E eu acho que não estou mais sabendo lidar com isso.
— Você está aqui agora. — pontuei tentando de alguma forma tranquilizá-lo.
— Você tem certeza que nada nunca aconteceu entre vocês? — insistiu mais uma vez no mesmo questionamento. Meus olhos arregalam antes que eu o responda.
— O quê?! Jonathan, eu acabei de dizer que não. O que eu preciso fazer para você entender que não. Nada nunca aconteceu entre nós. Por que é tão difícil de acreditar? — levantei e olhei em sua direção.
— Relacionamentos à distância não costumam dar certo.
— E daí? — muitos já nos disseram isso, porém nós insistimos em continuarmos juntos, contudo acho que não é esse o ponto — Relacionamentos à distância não dão certo e isso consequentemente me faz trair você? Mas que porra, Jace!? De onde você tirou isso!
— Eu não sei! O.K? — levantou-se também — Os caras da faculdade vivem dizendo que você está aqui sozinha com outras pessoas e…
— E isso faz você pensar que eu estou com outro? Você prefere acreditar nos “caras da faculdade” a acreditar em mim?
— Eu… Sinto muito — tenta andar em minha direção mas eu sinalizo para que ele pare com um gesto.
— Nós andamos por quilômetros dentro daquele carro. — minha voz embarga — Quilômetros, Jace. Você disse coisas que eu nunca diria pra você. Tudo isso por que os “caras da faculdade” acham que você está fazendo papel de otário enquanto eu estou aqui na Califórnia transando com a metade do Campus? Porque, bem, com certeza é o que eu estou fazendo. Não é mesmo? — ri enquanto as lágrimas descem pelo meu rosto.
— Você está sempre com o Zander, eu pensei que já pudesse ter acontecido alguma coisa e você não tivesse me contado. — ele parece estar nervoso, ótimo, agora somos dois.
— Então você deveria ter perguntado a mim! Pra mim Jace! — aumento o tom de voz — E não tirar conclusões e tornar cada aproximação mínima com ele um inferno. Porque foi isso que aconteceu nos últimos meses.
— Me desculpe. — foi isso que ele disse. Apenas isso. Duas palavras. Apenas duas palavras. — Eu não sabia.
— E você, Jace? — ignorei o pedido de desculpas — Já que eu estou te traindo aqui na Califórnia. Você está me traindo em Washington? — questionei retoricamente. Mas pelo olhar que recebi temi que a resposta fosse afirmativa. — Por que com certeza “os caras da faculdade” devem ter uma opinião sobre isso também. — me direcionei a porta do quarto saindo. Ouvindo os passos de Herondale atrás de mim. — Qual dos dois você é, Jace? O fodão que trai a namorada e que deixa ela fazer o papel de otária ou o babaca que é fiel à ela? — minha voz saiu confusa, embargada e repleta de deboche.
Eu preciso pensar.
Esfriar a cabeça e me tornar um ser racional mais uma vez e nesse momento eu não sou a pessoa mais racional do mundo. Por isso quando escuto Jace pedindo para que eu espere, a única coisa que eu digo é: — Não me siga!
E eu acho que durante todo esse tempo minha voz nunca soou tão firme.
(>>>)
26 de dezembro
Quando pedi para encontrar Jace eu estava decidida, determinada e muito convencida que eu faria o que pretendia. Porque eu fiz questão de reviver a memória do thanksgiving, quis pegar aqueles sentimentos que me faziam ter certeza que o fim já tinha chegado para nós dois, e transformá-lo em um término.
Mas no momento em que o vi minha cabeça ignorou o que eu deveria fazer. Ao vê-lo sorrir para mim ao abrir a porta, enquanto usava um suéter vermelho e verde do Grinch, foi como se eu esquecesse qual o meu propósito. Meu coração falhou e eu só conseguia pensar em como eu queria passar esse natal agarrada com ele. Dando beijinhos e recebendo carinho, intercalando entre ver muitos filmes de natal com a mistura familiar Lightwood/Herondale/Lewis/Fairchild e conversar com meus amigos.
Quis mais um natal ao seu lado. E me doeu saber que seria o último que faríamos isso como casal. Última vez que ele me beijaria embaixo do visco e diria que me amava. Última vez que ele colocaria um laço na minha cintura ao estarmos sozinhos e dizer que eu era um dos maiores presentes que ele recebeu.
A última vez que estaríamos juntos como casal.
Contudo, Jonathan não sabe das minhas intenções. Por isso não entende ao me ver chorar em vários momentos daquela noite de natal. Não entende o por que eu o abraço tão forte e peço para que apenas fiquemos juntos mais um tempinho antes que ele vá para casa. Ele simplesmente não entende. Mas ele me segura forte ao seu lado o tempo todo. Mesmo que não compreenda o motivo de tamanha melancolia que partia de mim.
“Eu amo você. Não desista do seu sonho.”
Eu disse inúmeras vezes durante a noite de natal após dar à ele de presente panfletos de inscrições de escolas de culinária, livros de receitas, um avental e um cartão escrito à mão. Muitas palavras bonitas, muitas decisões tomadas durante o processo de escrita, muitos sentimentos redirecionados e uma sensação de perda imensurável.
Eu amo você independente de qualquer coisa.
Eu amo você independente de agora.
Eu amo você.
Eu quero dizer agora ao olhá-lo tão aflito sentado na própria cama. Estamos sós. Estou de pé à sua frente. O resto da família está na casa dos Lightwood aproveitando o tempo juntos enquanto eu não paro de me questionar se eu deveria estar fazendo isso. Enquanto eu me pergunto se o que estou fazendo é certo.
— O que foi, Clary? — questiona segurando minhas mãos. Seu tom é tão tenro e carinhoso que é como um soco na boca do estômago. Por que eu estou fazendo isso?
Minutos se passam até que eu tenha coragem de desvencilhar nosso toque e ter coragem de falar algo. Ele percebe que algo não está bem no momento em que desfaço nosso toque, mas se mantém em silêncio — Jace, eu não aguento mais. — as palavras saem em um sussurro e eu não tenho mais coragem para olhá-lo, então apenas decido olhar para outro lugar, meus pés — Eu acho que… Acho que nós dois não estamos funcionando.
— O quê?! Clarissa… — ele se levanta, fazendo com que eu recue. Por favor, não deixe isso mais difícil. — Mas, nós estávamos bem. Nós estamos bem. — ele busca minhas mãos mais uma vez e eu mantenho a aproximação.
— Exatamente. Eu não quero esperar um momento em que nós estejamos com raiva e ressentidos para dar um fim no que temos.
— O que aconteceu? — parece confuso. Algumas palavras saiam, mas eram cortadas e substituídas por outras até formarem um simples: — Por quê?
— Eu… eu acho que nós já tentamos demais. Não temos mais jeito.
— Não temos mais jeito? Como assim? Você está desistindo? Por que?
— Porque eu não quero olhar para trás daqui alguns anos e pensar que eu poderia ter evitado perder você.
— Me perder? Do que você está falando?
— Eu quero ser sua amiga. — não são as escolhas mais precisas de palavras. Porém não é mentira. A feição de Jonathan muda drasticamente e ele parece surpreso. — Não agora. Por que eu sei… Eu sei que vamos precisar de um tempo. Eu vou — ressaltei me esforçando para manter a voz firme — Mas, eu quero ser sua amiga. — ele não disse nada. Eu me mantive em completa quietude, me esforçando ao máximo para não começar a chorar naquele instante.
— Você quer ficar com outra pessoa, é isso, não é? — pôs a mão na testa saindo de perto de mim
— O quê!? — aumentei o tom confusa e nervosa — Eu não disse isso. — por que ele insiste em acreditar que há outra pessoa?
— Você quer ficar com aquele garoto da sua faculdade, se não… — o interrompi antes que ele continuasse:
— Pare com isso! Não ouse! — me aproximei com o dedo em sua direção — Não ouse insinuar algo desse tipo. — respirei fundo tentando conter o aperto no meu peito. Doí como o inferno admitir que não há como continuar, ainda mais suportar a hipótese levantada por ele sobre uma traição, mais uma vez. Será que ele não confia em mim a esse ponto? Será que as conversas nos corredores da faculdade o fizeram acreditar que isso aconteceria — Você não acha que já suspeitou demais? Desconfiou demais?
Silêncio é tudo o que eu recebo em troca.
— Você não está cansado? — respiro profundamente enquanto gesticulo — Você não está cansado de estar preocupado? — meu coração martela tão forte no peito que poderia ser audível para muitos, é como se minha respiração estivesse presa na garganta.
— Você não me ama mais?
— É claro que eu amo você! — me aproximo, porém recuo no mesmo instante.
— Então por que você está fazendo isso com a gente?
— Por que eu não aguento mais lidar com os seus ciúmes e com a sua desconfiança. — fui honesta sentindo o peso das minhas palavras refletidas na expressão dele — Não aguento mais lidar com os meus! — as lágrimas cederam e desceram por minhas bochechas — Que inferno! — passei a mão pelo rosto de forma brusca me movendo em direção à uma extremidade do cômodo encostada na parede — Eu não quero mais olhar para as fotos do seu Instagram e passar uma hora visitando o perfil dos seus amigos. Ou me comparando com as garotas da sua faculdade pensando que você poderia estar com elas. Eu sinto como se eu fosse enlouquecer, e eu não aguento mais.
— Eu… eu sinto muito. Eu não queria… — veio em minha direção enquanto passava a mão pelo próprio rosto, um sinal de angústia e nervosismo comum que ele sempre apresentou — Não queria te fazer se sentir dessa forma, eu…Não sabia e…
— E você não tem que se preocupar. — ri enquanto as lágrimas escorrem inevitavelmente pela minha face — É a sua vida. Você precisa viver a sua vida. Nós dois estamos tão preocupados um com o outro que estamos pensando em abrir mão das coisas que queremos fazer. Jace, isso é loucura! Nós temos dezenove anos, não é para ser tão difícil. — quando ele não diz nada eu continuo:
— Não quero olhar para trás daqui seis anos e pensar que além de não termos conseguido seguir em frente como casal. Saber que não somos mais amigos porque destruímos tudo. Porque nós nos sufocamos. E acabamos com o que tinha de bom entre a gente. Eu não quero que as mágoas e ressentimentos nos impeçam de sermos próximos no futuro.
Eu não acho que conseguiria viver com isso.
— E quem disse que isso iria acontecer? — tentou se aproximar, mas eu o parei com um gesto.
— Ninguém precisou. — passo a mão bruscamente pelo rosto tentando enxugá-lo — Mas eu não quero perder você.
— Você já está. — suas palavras me atingem como mais um soco na boca do estômago que rouba todo meu ar.
— Você verá que eu estou certa, Jace.
— Você tomou essa decisão sozinha!
— Tem razão! Eu tomei. — meu tom aumenta gradativamente — Nós estamos longe um do outro, como os seus colegas disseram. Quanto mais disso nós vamos aguentar? Quanto mais tempo você dá até que você desconfie de mim mais uma vez? Ou que eu sinta ciúmes das pessoas que você conhece e guarde todos os meus pensamentos para mim, mais uma vez? Hm, Jace? Diga-me! Quanto mais!
— Nós poderíamos dar um jeito!
— Isso vai acabar com a gente, Jonathan! Nós somos jovens, relacionamentos são fáceis nessa idade. Deveriam ser pelo menos. Nós estamos tão preocupados com a gente que não estamos vivendo a experiência da faculdade.. Eu não quero que você deixe de fazer as coisas que quer pra me agradar. E não quero deixar de fazer o que eu desejo pensando na maneira em que você vai reagir. — respirei fundo — Eu estou a quilômetros de distância. Você está a quilômetros de distância. E eu não sei se aguento mais um minuto disso. — conclui cansada, me dirigindo à porta.
— Você disse que nós poderíamos fazer dar certo. Você disse! “A distância não precisa ser um problema” — recordou das minhas palavras — É engraçado a maneira que você muda de opinião. Sempre foi assim, não é mesmo? Você disse que me amava ontem. Isso mudou também? — a voz esbanjou ironia.
— Não. — é tudo o que eu digo antes de virar as costas e procurar a saída.
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