Ironside daughter - vikings
12 ❂ DOZE ❂
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O amanhecer cinzento estava em seu auge juntamente com o grasnar de corvos espreitando-se nas longas e abundantes árvores da floresta. O vento gélido lhe acariciava o rosto fazendo-o corar, com isso ela puxou mais seu negro capuz que já encontrava-se erguido e continuou seu praticar com dois machados de curtos cabos. Havia se levantado cedo, pois o sono não tinha lhe visitado durante a noite. Não poderia conseguir um descanso apropriado enquanto seus pensamentos borbulhavam em sua cabeça. Sucedia-se tanto para pensar e tanto para considerar que simplesmente tinha de afastar-se um pouco de tudo, julgando de todos também. Sentiu-se satisfeita por estar hospedada na casa de Floki onde é afastada e praticamente oculta de viajantes ou peregrinos. Para chegar você tinha de caminhar e adentrar em espessa floresta.
Em um golpe firme cruzando ambos machados trinchando o ar, um clarão ligeiro lhe chamou atenção. Ele se iluminou através das folhas das árvores e espantou os corvos dos ramos trazendo um fragor. Siggy ergueu seu olhar para o céu vasculhando-o desconfiada, mas não havia nada além do costumeiro cinza. Ela voltou seu observar a frente, então ergueu os dois machados uma outra vez voltando-se ao praticar. Não tinha o feito desde antes de sua saída a Hedeby, sempre muito solitariamente. Siggy não sentia-se a vontade de praticar com os outros guerreiros, pois não apreciava a atenção que sempre recebia por ser neta de Lagertha. Quando lhe foi dado a liderança de um ataque pela primeira vez, tinha apenas quinze invernos vividos, naturalmente todos os guerreiros tiveram dúvidas de suas capacidades, pois era apenas uma menina, mas a jovem tinha um grito de autoridade na batalha que rapidamente eles a obedeciam e assim venciam impiedosamente. A garota também possuía um instinto indomável quando entrava no campo da batalha, era como se fosse tomada por algo. Poucos anos se passavam e nada havia se alterado, pois em conflitos Siggy era uma besta, mas sem suas armas em mãos, encontrava-se sempre com o semblante sossegado e com sua voz sempre mansa. É claro que ao chegar na vila onde nascera e onde seu pai vive, as coisas mudaram. Siggy sentia-se sempre agressiva e muito inquieta. De muito isto lhe desagradava.
A exaustão lhe veio ao corpo, então sentou-se próxima a uma árvore com grosso musgo lhe subindo o tronco. Sua respiração antes acelerada começou a lentar-se e tudo que ouvia ao seu redor eram os corvos de volta nas árvores. Siggy percebera que por onde caminhava sempre havia corvos ao redor. Eles pareciam sempre atentos e agitados, como em um diálogo conturbado. Talvez fosse apenas sua imaginação, de qualquer maneira sempre considerou-se muito observadora, mas talvez esteja vendo coisas além do real. Siggy desviou-se dos corvos e levou seu observar para suas mãos. As feridas estavam seladas por uma grossa camada de pele queimada, como fizera Floki na noite em que Ragnar a trouxera. A hospitalidade de Floki e Helga era mais que admirável, pois sentia-se grata por pessoas que jamais vira e com certeza não se acharia igual por muitas estradas.
Floki tinha sua fama de grande construtor de barcos, mas ele lhe afirmara que possuía muitas outras habilidades. Siggy não duvidou, ele lhe parecia um homem cheio de pensamentos construtivos, com toda certeza era difícil manter-se desocupado. Já Helga era um tanto diferente de seu marido. Não possuía a inquietude e conversas empolgadas, mas sua genuína gentileza e dedicação tinha dado a Siggy um bom sentimento. A mulher possuía grande cuidado com sua casa, não mais do que para com Floki. Os olho dela sempre estavam nele com um sincero sentimento de afeto. Siggy jamais tinha visto um olhar assim, de uma mulher para um homem. Isso a fez pensar na proposta de Ubbe. Talvez o olhar sobre ela devesse ser assim, não de apropriação, mas de cuidado e admiração. Refletindo mais atentamente sobre, não lhe veio arrependimento de tê-lo rejeitado. Porem, o sentimento de que mais acontecimentos estavam por vir, pois era claro que seu jovem tio Ubbe não desistiria muito facilmente. Talvez Siggy tenha lhe despertado um desejo maior do que o que fora recusado. Saber disto não lhe trouxe felicidade, mas sim um tanto de chateação.
—- Eu sabia que estaria aqui.- disse uma voz familiar aproximando-se. -- Minha menina sempre gostou de se isolar.
Lagertha estava com vestimentas de viajem, fora a primeira coisa que Siggy notara. sua avó sempre vestia-se impecavelmente e para toda ocasião ela dedicava-se a aparentar superioridade. Siggy levantou-se rapidamente deixando seus machados ao chão e caminhou para ela ansiosa. Havia algo que tinha de esclarecer com Lagertha.
—- Ubbe e Sigurd não irão a expedição ao mediterrâneo, agora me diga que não fará algo contra eles.- Lagertha nada respondeu. Estava mais que acostumada com as repentinas perguntas de Siggy e suas carrancas. -- Eles são filhos de Ragnar, você não pode simplesmente matá-los.
Lagertha cruzou seus braços sobre o peito com sua paciência nitidamente desvaindo-se. Ela notou que sua neta estava muito inquieta.
—- Como devo tomar a vila matando a rainha e mãe deles com ambos a defendendo?- perguntou brevemente Lagertha com seu tom sereno. Siggy a observou e logo entendimento lhe veio, pois conhecia bem as expressões e tonalidades de sua avó.
—- Você já sabia que eles não iriam.- afirmou a jovem.
—- Sim, sabia.- admitiu Lagertha, fazendo Siggy revirar seus olhos . -- E eu quero você comigo nisto, na tomada e após ela. Você é minha filha, meu sangue e aqueles que me seguem devem vê-la ao meu lado. Nós duas demonstramos força a eles.
—- O que exatamente espera que eu faça?- perguntou Siggy irritada. -- Quer que eu vá lá e enfie um machado na cabeça deles?
—- Não me venha com deboches. Você é jovem, mas já passou por muita coisa que a deixaram esperta o suficiente para articular uma estrategia de tomada.
—- Eu não quero participar disso. Você mentiu para que eu viesse até aqui e agora quer ajuda para conquistá-la.
—- Se eu soubesse que minha mentira lhe levaria a ter uma insana ideia de navegar para o Oeste, eu jamais teria lhe trazido. Essa viagem é uma perda de tempo. Ninguém quer juntar-se a Ragnar se não um bando de velhos e vagabundos cansados. Ele diz querer vingar-se, mas ele não se importa com as pessoas do nosso povo que morreram naquele assentamento. Ele apenas quer abrandar sua culpa e agora está arrastando você que nem a conhece e seu filho que jamais participou de uma batalha. É ridículo!
Siggy desviou seu olhar de Lagertha tentando não dá-la razão.
—- Apenas desista desta ideia de tomar Kattegat e de matar Aslaug. Isso trará vingança e aborrecimentos.- pediu a sua avó suplicante. Porem, no fundo sabia que seria algo inútil a discutir. Quando Lagertha tinha algo em sua mente, não havia nada a se fazer para convencê-la do contrario.
—- O que há de errado com você?- perguntou Lagertha em tom reprovante. Siggy voltou a olhá-la imediatamente. -- Esta nessa vila não faz nem boas semanas e agora me vem agindo como se fossem uma família feliz e unida. Eles não são sua família, eu sou.
Siggy se aproximou de sua avó irritadiça.
—- Qual o seu plano, governar Kattegat com o guerreiro velho? Achei que o quisesse morto.- Lagertha nada lhe respondeu. Siggy soltou um pequeno riso em desagrado. -- Que ingenuidade minha, fingindo odiá-lo, deve ter sido difícil para você, já que o ama depois de tantos anos e de tudo que sofrera. Eu realmente achei que você o mataria ao vê-lo.
Lagertha lhe enviou um olhar severo a Siggy. Esse era mais um exemplo do relacionamento de ambas. Realmente tratavam-se como mãe e filha, com os carinhos e os confrontos.
—- Não fale comigo neste tom desaprovador. Nós já fomos mais manipuladoras que isso e você não me vê colocando tal coisa em julgamento aqui.
—- Manipulamos situações, isso é verdade, mas ambas concordávamos. Você me contava tudo que planejava, mas quando viemos para cá, simplesmente deixou de fazê-lo. Este lugar transforma você, mãe. Não consegue ver?
—- Kattegat não me transforma, Siggy, ele só aflora o que eu devo ser. Você reinará comigo neste lugar, não voltará para Hedeby.- O rosto de Siggy transformou-se em choque. -- Não ficará mais exilada por causa de Bjorn. Este lugar é seu também e ninguém vai tirá-la ou afastá-la daqui novamente. Tudo isto acabou.- Lagetha se aproxima de Siggy e a prende por seus ombros. -- Você será grande, filha. Farei de você a melhor e mais temida guerreira de nosso povo e além dele.
Siggy examinou os olhos de Lagertha com confusão em seu semblante.
—- Do que está falando?- o aperto de Lagertha se aprofundou em Siggy. -- Está soando como uma louca.
—- Louca?- Lagertha solta um pequeno riso de triunfo. -- Quando perdi a última criança em meu ventre eu achei que seria o fim. No entanto, quando eu a trouxe comigo para criá-la a esperança do meu legado florou novamente. Você não saiu de mim, mas é minha filha.- os olhos de Lagertha tornaram-se sombrios e havia uma forte convicção. Ela solta Siggy de repente e se apruma em sua roupa. -- Mas agora voltarei para Hedeby, preciso me preparar. Aqui...- ela afastou sua capa de sua cintura revelando a bainha de uma longa espada. -- Suas serpentes gêmeas, devem lhe servir nessa viagem idiota.
Siggy pegou as espadas lentamente e com seu rosto em um sorriso.
—- Obrigada.- disse com uma voz meiga.
Lagertha deu de ombros, mas deu um passou para Siggy e a abraçou.
—- Eu te amo, mesmo me trocando por Ragnar.- Ela afastou-se apenas um pouco para olhá-la. -- Faça boa viajem e volte para mim.
Siggy assentiu e logo lhe ofereceu um sorriso a Lagertha, que a mesma voltou a abraçá-la firmemente.
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Havia se passado uma semana desde a partida da grande frota de Bjorn Ironside rumo ao mediterrâneo, porém agora o porto ainda tinha grande movimento de pessoas. Carregamentos de mercadorias e preparativos para a partida de Ragnar. As velas de tecido escuro com um corvo solitário bordado eram carregadas para o único barco que havia conseguido. Ivar encostava-se em uma pedra e observava a tripulação de seu pai. Homens velhos e mulheres inexperientes, claramente os únicos que aceitaram seu suborno e honraram com a palavra de sua presença. A visão de tal tripulação era miserável, pensou Ivar. Ainda assim não lhe tinha tirado o bel-prazer de navegar para a Inglaterra. Havia feito todos os preparativos para a viagem dias antes. Forjou espadas, escudos e armaduras. Nada poderia dar errado, pois estava lhe parecendo extremamente certo que uma viajem memorável estava para acontecer.
—- Ivar! Ivar!- Lhe chamava uma voz desesperadamente. Ele rapidamente a reconheceu, olhou para onde estava vindo e viu sua mãe inspecionando todas as direções com aflição. Horror e perdição estava em seus olhos.
—- Mãe.- respondeu Ivar acenando brevemente. Aslaug virou-se em sua direção bruscamente ao ouvi-lo, pareceu aliviada em vê-lo e tentou reunir seu fôlego que havia perdido, pois claramente havia corrido até o porto em busca de Ivar.
—- Você não pode ir.- disse ela esbaforida.
—- Do que está falando?- perguntou ele ao ajudá-la a sentar na pedra que estava apoiado.
—- Haverá uma tempestade.- disse ela esgueirar-se até onde o jovem estava. -- Tudo terminará em desastre.- seu rosto carregava uma penosa aflição.
Ivar desviou seus olhos de sua mãe e ficou em silencio por um breve momento. Ele suspirou encarando suas mãos. De toda a sinceridade, aquilo era a última coisa que queria ouvir de sua mãe.
—- Você viu isso?- perguntou ele com o olhar distante. As visões de sua mãe sempre se concretizavam, isso era certo, mas ainda assim Ivar tinha uma pequena esperança de Aslaug ter se enganado.
—- Sim, eu vi isso.- ela respirou lentamente. -- Você vai se afogar, eu vi isso.- Aslaug toca o braço de Ivar com suplica. -- Não pode ir.
Com seu toque de pena e seu pedido, Ivar inquietou-se.
—- Pare de me dizer o que fazer, mãe.- pediu Ivar um tanto aborrecido. Ele se ergue mais para perto de Aslaug para olhá-la em seus olhos. -- Minha mãe, durante toda a minha vida você me sufocou.- começou ele. -- Tem prestado atenção demais em mim. Por que? Por que o Ivar? Por eu ser um aleijado.- suas próprias palavras doíam em si. Ele sabia que estava dizendo nada além de sua realidade. Convivia com a mesma por toda a vida, condenado a arrastar-se como uma serpente na terra. -- Pobre Ivar...- Aslaug deixa escapar suas lagrimas silenciosas enquanto observa seu filho. -- Agora o pobre Ivar tem a chance de provar o seu valor aos deuses e eu não deixarei que tirem isso de mim.
Aslaug soluçou ao ouvi-lo, suas lagrimas encharcavam seu rosto. A dor de perdê-lo era arrasadora.
—- Você vai morrer, Ivar.- disse ela em dor.
—- Eu não me importo em morrer.- Aslaug por um segundo se choca, mas o sorriso gentil de Ivar para ela lhe aquece. -- Mãe, eu amo você.- Ele lhe dá um beijo na mão com ternura. -- Mas um único dia com meu pai sendo um viking, vale toda uma vida de piedade.
Mãe e filho trocam seus olhares. Aslaug beija o topo da cabeça de Ivar com peso em seu coração. Não poderia mais voltar atrás, já estava decidido.
—- Então vá.
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