Notas iniciais
Abrigada pela paciência, pelos comentários de carinho e motivação! Até o próximo capitulo!

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As brisas frígidas mantinham-se inexistente e as calmas ondas atingindo as pedras que forrava o início de praia, ecoavam seu som enquanto Lagertha assistia Ragnar caminhar lentamente até ela. Em passos levemente mancos, ele mantinha seus olhos nos dela mesmo distante. O guerreiro herói de uma nação, pioneiro em expedições pelo Oeste e afins não demonstrava nada da tal glória no momento. Suas vestimentas de couro negro gastas e largas, tais antes lhe cabiam perfeitamente nos músculos jovens, pois agora sobrava-lhe tecido. Parecia-lhe ter emagrecido muitos quilos a Lagertha, perguntando-se também por onde Ragnar estava vagando por todos esses anos. Onde quer que tinha se refugiado, com certeza dificuldades passara. Quando ele enfim chegou em uma distancia conveniente, porém a earl não possuía um olhar amigável, apesar de seu coração sempre se abalar com a presença do único homem que amou, mas também a traiu. Olhares silenciosos foram trocados, até que Ragnar demonstrou um tanto de impaciência, pois obviamente tinha preparativos para uma viajem.

—- Eu gosto de olhar para você, mas já nos despedirmos após ter negado juntar-se a mim, pois agora não tenho tempo. Diga o que se passa nessa cabeça.- pediu Ragnar com humor.

Lagertha respondeu com um minúsculo sorriso, mas logo se desfez do mesmo modo que veio.

—- Por que está metendo Siggy nesta sua ideia de vingança?- perguntou ela com tom impositivo.

Ao ouvi-la Ragnar solta um pequeno riso, logo suspira ao olhá-la.

—- Então isto tem a ver com nossa neta que você tomou para si. Certamente perdeu bastante do seu tempo de earl ensinando-a a lutar.

O semblante de Lagertha não havia se abalado com o comentário, querendo ou não, era uma verdade. A mulher sempre tratou que Siggy treinasse mais do que as guerreiras e guerreiros de sua vila. Fez com que a menina aprendesse o idioma saxônico trazendo o interprete Sinric e lhe pagando caro por seu longo tempo. O homem era um viajante, fazê-lo permanecer em um só lugar era algo árduo, mas Lagertha sempre fora uma mulher convincente. No entanto, ela não esperava que a menina aprendesse rapidamente a fluência. Tal conhecimento Lagertha queria que a garota mantivesse em segredo, pois em algum momento ela usaria em seu beneficio.

—- Ela é mais que uma neta pra mim, Ragnar. Ela é minha filha, eu a criei.- Explicou Lagertha, claro que sem demonstrar sequer um pouco de sentimento. Ela não precisava que Ragnar a entendesse, porém tal coisa tinha de ser dita de uma vez.

Os olhos de Ragnar se espreitaram, por um momento ele paralisou seu olhar em Lagertha, então quedou-se para a areia abaixo de seus pés.

—- Não me diga que ele a ignorou por todos esses anos?!- disse Ragnar com tom umedecido de desgosto.- ele voltou a olhar Lagertha que tinha seu olhar ferrenho. Quando tratava-se de Siggy, a mulher agia de jeito protetor, porém beirando em posse. Siggy aos seus olhos e coração era sua filha, ninguém tiraria isso de si, nem mesmo Ragnar. -- Eu a ouvi dizer que não tinha pai, mas imaginei que fosse coisas de jovem com chateações. O pai dela mesmo quando criança adorava resmungar.

—- Ela fora exilada por ele desde Paris. Tive de criá-la ou então se perderia por completo aos cuidados de Aslaug. Eu a trouxe até Bjorn com esperança de se estabelecer um laço, mas ambos se encontraram sem eu estar por perto e ele quase a matou.- Ragnar ouvi Lagertha sem alterar-se. -- O corte e os hematomas em seu rosto foram obra de Bjorn. É lamentável dizer, mas acho que ele a odeia e a menina não tem culpa de nada.

Mais um sorriso Ragnar esboçou, contudo rapidamente desapareceu dando lugar a um semblante sério e com descontentamento.

—- Um homem de verdade não odeia seus filhos, sendo assim eu digo que lamentável é que ele não seja um até hoje. Pode possuir riquezas e guerreiros que o seguem, mas continua agindo como uma criança.- Ragnar praticamente cuspiu as palavras ao vento. -- Ele tem o privilegio de possuir uma filha, elas são bênçãos dos deuses.- concluiu ele, agora com dor em seu rosto e voz.

A lembrança de Gyda não havia lhe deixado, pois fora sua única filha e a mais querida entre todos os filhos que tivera. A menina era seu coração, sua morte ainda é algo que não pôde aceitar facilmente. Lagertha entendeu o sentimento de Ragnar em suas palavras, ela entendia melhor que ninguém, pois a dor também lhe pertencia.

—- Este é o motivo de tê-lo chamado aqui mesmo após nossa enfim conversa. Quero pedir a você que dispense Siggy.

Os olhos de Ragnar se espremeram com o dito de Lagertha. A mulher vestia longas peles acima do vestido que colocara para a viajem de volta a Hedeby. Seus cabelo sempre trançados e banhados com joias. Lagertha está longe da fazendeira que um dia fora, pois a visão de Ragnar para com ela estava sendo de riqueza e muita nobreza. Ela tinha o respeito de todos, o coração de muitos homens e a beleza que parecia não vir a desvanecer.

—- Não quer que ela vá?- perguntou Ragnar deixando sua paciência. O vento finalmente trouxe sua presença, consigo o leve soar dos homens no porto da vila, já em preparativos para a viajem de Ragnar.

—- Não.- respondeu Lagertha com autoridade. Mas por um mero segundo Ragnar sentiu sua voz vacilar. Ele suspirou e começou a se virar para se apartar da mulher

—- Então mande-a não ir.- respondeu sem muito interesse. Lagertha sem demora avançou passos até ele.

—- Isso não funcionou.- respondeu em tom alterado. -- Ela é teimosa e independente demais.

—- Com isso tem minha resposta. Se a menina já sabe o que quer eu não preciso fazê-la escolher.- O som de um suspiro de Lagertha pelas costas de Ragnar. — Não pode impedi-la, earl Lagertha. Se você que a criou deveria saber melhor do que eu.

—- Sendo assim, já que não me ajudará, prometa que ela retornará viva.- pediu Lagertha, agora sem sua fria expressão e sem o tom de superioridade que sempre tratava de carregar.

Ragnar virou-se e observou os olhos da mulher, ele pôde ver o implorar silencioso no azul. O guerreiro conseguiu enfim entender que Siggy não era neta para Lagertha, o laço entre as duas apresentava-se denso demais para tal. Ele não deixou de lembrar de sua primeira filha, pois os olhos de Lagertha tinham agora o pesar do dia de sua perda. Tristeza lhe veio, pois mais uma vez a mulher estava a mercê de uma mágoa pelos deuses e por ele.

—- Eu não posso prometer isso.- disse Ragnar. -- Queria muito poder.- findou em um sussurro.

O homem apartou-se de Lagertha, pois não poderia mais olhá-la. Ambos haviam compartilhado muitas dores e claro que a sombra da traição poderia não ser mais a última delas. Ele levaria a filha de Lagertha para longe de seus olhos sem a certeza de um retorno.

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O céu nunca esteve tão silencioso, nem mesmo havia pássaros voando e as nuvens cinzas governavam a amplidão para onde quer que olhasse, como de costume. A porta da casa vazia fechou-se atrás de si e seu caminhar para longe dela começou. Seus olhos estavam adiante do caminho rumo ao centro da vila, mas sua curiosidade lhe levou a desviar-se apenas um pouco, agora em direção ao barco que havia sido deixado por Floki na beira do início de mar, próximo a casa. Ele dissera a Siggy que o barco estava aguardando uma ocasião especial, sendo assim não o levaria pelo mar do Mediterrâneo. Siggy já considerava uma expedição ao lugar onde o seu povo jamais pisará especial, mas algo nos olhos de Floki quando lhe dizia isto lhe convencera de sua decisão. Porém agora, ela pôde agradecer internamente por ele não o ter levado.

Siggy aproximou-se do barco e logo a carranca do dragão lhe fitou os olhos. Era como se ele a chamasse para uma batalha ferrenha. A garota não pôde se conter, quando percebeu já estava a bordo. O cheiro de carvalho vindo do casco lhe invadira as narinas, trazendo-lhe excitação. Siggy estava sozinha, mas sua mente libertou imagens de guerreiros a sua volta prestes a partir. A embarcação era diferente de qualquer outra que já vira. Seu cumprimento era imponente e a estrutura claramente fora pensada em cada detalhe, como cada borda entalhada e cada madeira esculpida. Ela caminhou em direção ao leme com um remo formado colocado lateralmente no bordo de sotavento. Imaginou os ventos enchendo a vela quebrada e zarpando para uma batalha pelos mares. Estar no controle de uma embarcação a qual abaixo de seus pés se encontrava, lhe dava a sensação de liberdade, estimulo e sendo mais ousada até mesmo de poder. Um pequeno sorriso sorrateiramente formou-se em seus lábios enquanto a garota se afastava do leme e fez seu caminho para fora do barco. Já era hora de deixar a fantasia para trás e viver enfim a realidade. O dia de sua grande viajem havia chegado, não poderia mais perder tempo. Em um pulo animado Siggy desceu da navegação e começou a correr, pois a ansiedade não lhe permitia caminhar. Ela atravessou o bosque, o campo até que finalmente chegou no centro da vila. Sem tempo a perder, fez o trajeto até o porto de Kattegat, onde lá começaria sua jornada.

A jovem teve de desviar-se de muitas pessoas no porto da vila. Havia carregadores para todos os lados e comerciantes vendendo ali mesmo suas mercadorias. Uma grande mistura de especiarias pairava pelo ar e ordens em gritos eram tudo que se podia ouvir. Siggy enfim havia chegado, seus pés sessaram ao avistar o barco. Ele estava mais adiante, agora em passos lentos. Não era o mais vistoso e de longe sendo intimidador como o barco de batalha que estava minutos atrás sonhando em navegar, porém já lhe bastava. O velho barco a levaria para o Oeste, nada mais importava. Em suas mãos estava a bolsa de couro escuro e grosso, carregando frutas e alguns pães tostados. Aptidão para cozinhar estava ausente na vida de Siggy, mas ela trouxera os pães mesmo assim, com leve amargor do queimado e torcendo para que alguém dividisse os seus com ela. Sua vestimenta era de couro negro, Siggy não poderia perder a oportunidade de entrajá-la. As Espadas descansavam em suas costas e seus machados curtos em seu cinto. Ainda não conseguira encontrar um escudo para si, pois queria desta vez representar seu nome e não o de Lagertha, como sempre tivera orgulho de carregar um escudo com o símbolo da Earl. O escudo de um viking tinha muito o seu valor além do primórdio da defesa, também carregava uma história de batalha, com isso demonstrava sua respeitabilidade dentre os guerreiros. Siggy carregava uma experiência em batalhas obtidas pelos arredores de Hedeby, contudo não era algo memorável de se demonstrar como duras pelejas nas terras de outro país. Nem de longe a garota recebera algum espólio regado a grandes peças de ouro.

Quando finalmente chegou ao lado do barco, avistou Ragnar checando os preparativos. Siggy olhou em volta e observou a tripulação que seu avô havia conseguido. Assim como Lagertha lhe dissera, apresentaram-se velhos guerreiros, vagabundos e algumas mulheres aparentemente sem experiência em viagens e batalhas. A visão era degradante, com isso Siggy sentiu uma névoa de arrependimento por ter decidido deixar Lagertha em uma preparação de obstinada batalha de tomada.

Ao ver Siggy, Ragnar pareceu aliviado, como se uma esperança havia lhe aparecido. Ele sorriu para ela e a jovem não deixou de retribuir, porém um tanto acanhada. Claramente não era a tripulação que Siggy confiaria aventurar-se em mar aberto para terras tão distantes como as do Oeste. Ela deixou a preocupação de lado e finalmente embarcou. Ragnar tinha tudo pronto, Siggy pôde ver, ele tocou seu ombro carinhosamente ao aproximar. A garota caminhou para um canto do barco, onde ali deixou sua bolsa e aconchegou seu lugar. Após fazê-lo, olhou em volta da embarcação, vendo que somente dois barcos simples os acompanhariam. Ela deixou isto de lado quando seus olhos não encontravam o jovem Ivar. Ela não o havia visto desde a noite do sacrifício, parecia que o rapaz manteve-se ocupado durante os restantes dos dias. Levou seu observar para o porto, varrendo-o em busca de Ivar. Ao dar-se conta do que estava fazendo lhe veio um sútil sentimento de reflexão. No entanto, a garota não queria prender-se a isto e logo abandonou rapidamente.

Siggy arrastou seu encontrar a Ragnar que mantinha-se inquieto, andando de uma lado para o outro. Ele parecia ter pensamentos preocupados e ansiosos pairando em sua cabeça. Aslaug surgiu próxima ao barco, ao seu lado Ubbe, Sigurd e Hvitserk. O olhar de Ubbe esbarrou com o de Siggy, mantendo-se inabalado. Ela não se desviou dele por um breve momento. O azul dos olhos do rapaz eram tão brilhantes que a garota podia vê-los cintilar de onde ele estava. Um azul algente e familiar, mas com aquecer inevitável no olhar. Quando percebeu um pequeno sorriso no canto da boca de Ubbe, Siggy apressou-se a desviar. A garota percebeu o encarar de Aslaug em si, Siggy a cumprimentou em leve acenar de cabeça, mas logo perceberá que a rainha de Kattegat não apreciava tal cumprimento desleixado, pois de volta recebera um cair de olhar com insuficiente emoção.
Entretanto, Aslaug fora ignorada ao perceber de Siggy em Ragnar que havia parado de andar e tinha seu olhar atrás da mulher esguia e seus filhos. O soar de metal colidindo bruscamente com a madeira úmida do porto fez com que todos olhasse para trás de si. Era o jovem Ivar, abaixo de seus braços os apoios feitos de metal que seguiam até seus pés, porém os mesmos se arrastava conforme ele ia em diante. Siggy e os outros ao redor o observavam, ela podia sentir o esforço de Ivar a cada movimento, mas o inevitável era que parecia doloroso. Suas pernas arrastavam-se e também eram apoiadas no chão para dar impulso muito tortamente. Aslaug tinha um sorriso de orgulho nos lábios, mas os irmãos de Ivar demonstravam olhares vazios.

No entanto, o olhar de Ivar estava determinado. Suas vestes eram de couro negro assim como de Siggy e Ragnar. Em suas costas estava uma espada que bambaleava a cada movimento desengonçado do rapaz e tinha um machado amarrado em uma de suas pernas. Ainda assim, ele não parou até que chegasse a prancha onde poderia embarcar. A madeira era estreita e com relevos de tiras, ao descer seu observar, Ivar percebera isso, mas não se acovardou com o desafio. Seus olhos ergueram-se até Siggy, a garota não desviou o olhar do dele. De alguma maneira, Siggy estava incentivando-o sem dizer uma palavra. Ela não sabia se Ivar queria seu apoio ou estava querendo provar algo.

Ivar colocou o primeiro apoio na prancha e foi aproximando-se do barco. Ragnar observava o filho a cada centímetro com seu olhar atento. Porém, o inevitável ocorrera. Um dos apoios de Ivar deslizou na ponta da prancha, fazendo-o tombar bruscamente. Seu rosto caiu contra a madeira, seus apoios ficaram pendurados em seus braços. Ubbe deu um passo em direção a Ivar, mas Aslaug imediatamente o parou. Siggy mantinha-se perto de Ragnar, que desviou o olhar de Ivar virando-se e indo até a entrada do barco. O constranger e a pena estava ao redor de Ivar. Siggy avistou o encarar de todos no rapaz, não poderia detestar mais. Os mesmos olhares sempre recebera durante toda sua vida em Hedeby. Todos sabiam de seu exílio, considerava uma sortuda por Lagertha a ter acolhido como um animal abandonado. A pena e o subestimação era tudo que ela podia ver nos olhos encarando-do, mas agora os mesmos estavam em Ivar. No entanto, Sigurd mantinha um sorriso ao ver a dificuldade do irmão, coisa que Siggy notara rapidamente, pois o mesmo não escondia. Contudo, Ivar começou a rastejar-se com todo o peso que carregava sem hesitar. Ragnar o esperava embarcar observando seu esforço. Quando enfim chegou ao final da prancha ele encarou os olhos do pai, que inclinou-se até ele.

—- Apresse-se. Temos uma maré para pegar.

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O balançar do barco estava constante e as batidas do mar em seu casco soavam enquanto Siggy mirava no azul vazio sem vestígio das docas de Kattegat. A garota mais uma vez olhou a sua volta dentro do barco, tudo que lhe veio aos olhos foi a imagem de velhos homens de olhares cansados, tendo também poucos jovens muito alheios remando com pequena motivação. Em moderada distancia de si, Siggy avistou Ivar agarrado a uma borda do barco. Ele estava isolado, seus olhar estava baixo. Mesmo parado era evidente sua inquietude. Siggy notara que o rapaz estava-a evitando, nem mesmo dirigiu-lhe a palavra até o presente momento. Ela levantou-se de seu lugar e começou seu trajeto desviando-se dos homens sentados até chegar em Ivar. Os olhos dele não foram até ela. Ele mantinha seus braços em volta de uma madeira que firmava a ponta do barco. Siggy o observou por um instante e percebeu que Ivar estava alvoroçado.

—- O que está fazendo?- perguntou ela a Ivar. O rapaz não se atreveu a olhá-la, tudo que saiu de sua boca fora um gruído. Por alguma razão, Siggy não desistiu. -- Ivar?

Ele finalmente levou seus olhos a Siggy, parecendo não saber que era ela que proferia. Seus rosto estava com profunda expressão de temor, com isso Siggy se suavizou. Ainda não havia visto tal coisa em Ivar, sendo assim lhe veio um grande receio e com ele a curiosidade de saber o que estava perturbando-o. Ela aproximou-se um pouco mais, porém o rosto de torceu-se bruscamente. Ele ergueu-se apenas um pouco deixando sua cabeça para fora do barco, onde ali mesmo deixou todo seu dejejum. Siggy olhou para trás de si, com intuito de certificar que ninguém havia notado, mas Ragnar estava de pé atrás dela. Ambos encaravam Ivar esperando-o parar de expelir e tossir. Ao fim, ele olhou Ragnar e por último Siggy.

—- Tenho medo de água.- confessou Ivar. O canto interno das sobrancelhas de Siggy se elevaram ao ouvi-lo. Ela sentou-se aos pés de Ivar com uma inevitável ternura. Ele não merecia algo bom dela, disto ela sabia, mas não quis conter.

—- Existem muitas maneiras piores de morrer do que afogado. -disse Ragnar, não duramente. Pai e filho trocaram olhares, mas logo Ivar estava vomitando outra vez. Ragnar tocou o ombro de Siggy, deixando-os e voltando para a ponta do barco, atravessando entre a tripulação.

A garota observou Ivar com palavras entaladas na garganta, mas tudo que saiu foi

—- Não precisa ter medo, é apenas água.- Tentou Siggy confortar Ivar. Ele voltou a ela, um tanto comovido com as palavras, mas não lhe eram suficientes.

—- Você não entende.- começou Ivar. Ele vigiou atrás de Siggy onde estava a tripulação e em seguida voltou a olhá-la. -- Saí de Kattegat com uma promessa de morte.- disse ele quase em um sussurro. Siggy aproximou-se mais de Ivar com os olhos atentos.

—- Alguém quer te matar?- perguntou ela no mesmo tom. -- Quem?

Ivar revira os olhos ao ouvi-la.

—- Não foi isso que eu quis dizer, garota.- responde Ivar. Ele agarra-se ainda mais ao suporte e a encara. -- Minha mãe, ela viu que haveria uma grande tempestade.

O olhar de Siggy foi-se para o céu, mas não havia um sinal sequer da tal tempestade. Na verdade, o sol estava brilhando acima deles mais forte que o costume.

—- Ela viu?- perguntou. Ivar suspirou antes de focar seus olhos novamente em Siggy, pois ele estava cada vez mais agitado. Olhando para os lados, mas evitando o céu.

—- Minha mãe tem visões e elas se cumprem. Ela viu que eu me afogaria na tempestade.

Siggy claramente achava que seria uma brincadeira infeliz de Ivar, mas o olhar que ele estava lhe fez esquecer. O queixo do rapaz estava cerrado e seus olhos fundos de preocupação. Logo, Siggy começou a levá-lo a sério. Ela encarou as mãos de Ivar que nos nós dos dedos estavam brancos, quase roxeados.

Relutante internamente, Siggy estende sua mão a Ivar. Ela não sabia se ele aceitaria, era uma aposta, tola aposta, mas ali estava. Ivar encarou a mão estendida, logo olhou para Siggy.

—- Pode segurar minha mão, a pobre madeira já está espremida de tanto que você a aperta.- Ao contrário do achar de Siggy, Ivar não hesitou no pegar de sua mão. Um vergonhoso sorriso veio na garota, que ela rapidamente tentou desfazer. A mão de Ivar estava quente e ele segurava em Siggy firmemente, não deixando de olhá-la em silencio. A garota firmou seu observar em Ivar com palavras que nunca saíram de sua boca.

Siggy adormeceu, sua mão ainda estava entrelaçada com a de Ivar e seu rosto estava caído nas pernas do rapaz, mas ele estava mais que acordado. O balançar do barco subitamente estava constante e barulhento. Com isto, Siggy acabou acordando, seus olhos foram a Ivar, que tinha os seus erguido ao céu. Ela seguiu sua visão e o que lhe esperara era o azul claro iluminado do sol, estava sendo engolido por um manto de nuvens cinzentas. As velas do barco estavam amarradas e o vento banhavam-nas ferozmente. Siggy voltou-se a Ivar, seu rosto estava revestido de medo ao encará-la. A primeira gota caiu no rosto de Siggy, ela a enxugou, no entanto nada seria o suficiente. Com a gota solitária outras vieram com extrema rapidez e peso. O céu de imediato parecia estar despencando acima de suas cabeças. O tempo foi não tardio, até que o desespero da tripulação fosse absoluta. O mar agitava o navio sem piedade, com isso sacudia quem quer que estivesse a mercê. Ivar tentava se segurar com dificuldade, pois as ondas não lhe davam alivio. Siggy buscava ajudar com as velas, ela gritava ordens aos tripulantes assim como Ragnar. Com tudo, de nada parecia funcionar, pois a fúria da tempestade estava rondando-os. Com dificuldades Siggy conseguia enxergar, pois havia tanta água e os céus estavam obscuros cheios de crueldade. Mas ainda sim, ela pode ver o rosto de Ragnar, ele sabia que se continuasse daquela maneira o barco não resistiria. Ele procurou por Ivar, assim como Siggy, pois ouviram seus xingamentos. O rapaz continuava agarrado com desespero, foi então que Ragnar tentou chegar até ele, com muita dificuldade, pois o barco estava em constante movimento e com muitas jorradas d'água das ondas que esmurrava o casco do barco. Seggy seguiu Ragnar até Ivar.

—- Ivar!- gritou Ragnar. -- Solte isso!-Ivar relutou se debatendo, pois Ragnar tentava soltá-lo, mas ele não conseguia soltar, o medo havia lhe dominado por completo. Ragnar buscou Siggy em seu observar e a chamou para ajudá-lo. Ambos tentavam arrancar Ivar com seus berros de negação. Por fim Ragnar o jogou sobre os ombros e o carregou, tendo o rapaz se debatendo e xingando. Siggy observava a cena, mas com sua luta de conseguir ficar de pé, ou sem se machucar com o movimento brusco do barco.

—- Leve-o até o mastro!- gritou Siggy. Ragnar lhe entregou um expressão de que havia pensado a mesma coisa. Ela em quedas e levanto chegou até eles. Ragnar agarrou as cordas que prendiam as velas e começou a envolver Ivar. Os gritos do rapaz atormentavam Siggy, pois a lembrança do que ele havia dito a ela estava agora em sua mente. Ragnar mal conseguia manter-se de pé, e veio-lhe dificuldades para amarrar Ivar. Siggy imediatamente agarrou as cordas e ajudou o guerreiro a prender Ivar para que ele não se perdesse pelo barco ou que não fosse jogado ao mar. Ragnar deixou Siggy com Ivar e procurou segurar-se. Ivar berrava no rosto de Siggy, que ainda tentava prender seu corpo no mastro. Seus ouvidos estavam cheios de ruídos, batidas e gritos de Ivar. Quando finalmente conseguiu prendê-lo, ele continuava seu desespero. Ela segurou o rosto do rapaz com ambas as mãos e o fez olhá-la diretamente.

—- Você não vai morrer.- disse ela. Ele se calou, mas nitidamente segurava seus gritos na garganta. Seus olhos foram atraídos pelos gritos da tripulação, então a sua aflição aumentou. -- Olhe pra mim.- Ivar não conseguia encará-la, pois a confusão que estava se formando no barco era desoladora. -- Olhe pra mim!- o grito flechou os ouvidos de Ivar que o fez finamente olhá-la. -- Você não vai morrer!- repetiu ela em um convincente grito.

O rapaz tinha seus olhos vidrados nos de Siggy, compartilhando um silencio no meio do pandemônio. Ela pôs a mão sobre o peito de Ivar onde havia um grosso nó da corda. As ondas aumentavam, e Siggy perdia mais o equilíbrio a cada movimento, no entanto ambos não tiravam os olhos um do outro. Ivar começou a se acalmar perdendo-se no azul dos olhos de Siggy, mas não durou muito. Pois desta vez, os ventos aumentaram em tamanha intensidade que fez outro mastro se partir ao meio, tendo sua metade caindo em direção a Siggy. Quando os olhos da garota enfim perceberam já era tarde. Siggy fora atingida fortemente pelo mastro partido, o baque a fez bater suas costelas no barco, com isso acabou sendo derrubada para fora dele.

—- Siggy!- gritou Ivar com todas as forças que tinha em sua grave voz. A garota já não estava mais em vista, nem mesmo podia-se vê-la no negro mar. Ragnar correu para onde Siggy havia caído, mas nem mesmo uma mecha de seu cabelo estava a vista. Ivar gritava o nome de Siggy a plenos pulmões sem parar. Ragnar tampou sua boca, assim que ele se calou com sua respiração forte o guerreiro foi-se tentar a remar junto com os outros para controlar o barco. Mais ondas enchiam o barco com suas águas, agora levando parte da tripulação. Ivar ainda tentava buscar algum sinal de Siggy, mas não encontrava nenhum. Seu peito e estomago se apertaram em imaginar o pior, mas a realidade estava ali, ainda assim ele não conseguia conformar-se. O barco continuava no controle do mar. Muitos homens já haviam se perdido nele assim como Siggy. Ivar voltou-se a gritar, pois o pavor da morte de Siggy e seu iminente afogamento era tudo que lhe restava. Porém, ele se calou mais uma vez ao ver a gigante onda se formar, quase tocando os céus. Ragnar encarou a onda vindo em direção a navegação e ali virou-se para olhar seu filho uma última vez. Ivar só conseguia berrar com a confirmação da visão de sua mãe.

A onda finamente veio, virando o barco e invadindo todo ele. Ivar se viu sendo engolido pelo mar, nem mesmo conseguiu ver seu pai entre os homens arrastados para a morte. Tudo que ele sentiu fora o peso do mastro e o aperto das cordas se desfazendo, logo o mar estava acima dele deixando-o cair em escuridão completa.

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