Notas iniciais
Mais um capítulo!!!! Espero que gostem!

Ele não havia mentido. Apesar de não gostar dessa nova vida que estou tendo que viver, Amon disse uma coisa que eu não havia percebido sobre mim. Eu realmente não noto as pessoas a minha volta. Costumo só andar com meu objetivo em mente e esqueço de todo resto. Amon realmente estava em muitas aulas do meu dia, porém, dessa vez, não me olhou, nem chegou perto. Prime seria a primeira a notar, caso ele desse um passo. Melhor para mim. Escolho um bom lugar no vagão vazio do metrô e vou para o trabalho.

Eu não ligo de ser garçonete, já que os clientes são divertidos e o trabalho não é tão pesado. Meu maior problema é o fato de ter de usar um uniforme estilo cosplay de empregada. A dona da cafeteria veio do Japão e disse que esse tipo de trabalho tem muita fama. Não que todos os restaurantes sejam assim, eu tenho certeza que não são, mas quando tem algum é bem movimentado.

Eu não me orgulho muito do trabalho que tenho, tanto que quando disse ao meu irmão que eu ia trabalhar disse apenas que era em uma cafeteria. Como não sou boa cozinheira, ele deve suspeitar que meu trabalho é de garçonete, mas não vestida desse jeito. O emprego em si é bom, e o dinheiro está sendo ótimo para pagar as contas de luz, água e o meu apartamento em geral.

— Cassie, são dez para as três! Por onde andou? – A gerente da cafeteria entra na parte dos empregados trazendo uma bandeja vazia. – Vá se trocar! O seu turno já vai começar. – Ela da a volta e entra na cozinha. Hoje está bem agitado pelo visto.

Elisa sempre usa uma roupa diferente das nossas. Inves de usar uma roupa de empregada preta e branca, ela usa uma azul e branca. É assim que mostra que somos de níveis diferentes.

As três horas viram quatro, depois cinco. Então percebo que estou sentada na cozinha, sem fazer nada. Já acabou o trabalho. São oito horas da noite. As ruas ainda estão cheias e o metrô está um pouco mais vazio do que de manhã. No entanto, ir para casa agora significa ver os garotos... Vê-los significa lembrar do que aconteceu e...

— Ah! – Que raiva! — Eu só queria voltar para a minha paz de antes.

— Que houve, Cassie? Está tudo bem? – Minnie é a cozinheira. Na verdade eu não sei o nome verdadeiro dela. É por isso que me chamam de Cassie. O nosso nome de trabalho costuma ser um apelido “bonitinho” para os clientes chamarem. Nunca gostei disso. — Ainda não foi para casa?

— Não, e não é nada. Obrigada por se preocupar. – Levanto e vou até os armários. Troco de roupa e pego a minha bolsa. – Tchau, Minnie. Qualquer problema pede para a gerente me ligar.

Assim que ela se despede, eu saio pela porta de funcionários. Se eu tenho que ir para casa, eu vou. Mas para a minha.

Minha casa é mais próxima daqui do que a de Billy. Só preciso andar umas dez quadras que eu chego. Dez quadras. Meu corpo está doendo... Por que hoje parece demorar mais? Espero o segurança abrir o portão e subo para o último andar do prédio. Com último, eu quis dizer segundo. Coloco a chave na fechadura e entro em casa. Lar doce lar.

— Olha! Ela chegou! – Diz uma voz perto da varanda. — Ela parece cansada, não é?

— Quem está ai? – Entro devagar e pego uma panela que tinha em cima da pia da cozinha. – Oi? Quem está ai?

— Acho que ela está no telefone. – Diz outra voz. Essa me é familiar.

Perto da varanda tem um menino e um homem. Eles estão olhando para mim, mas continuam conversando como se eu não estivesse aqui. O pequeno tem cabelos loiros até um pouco acima dos ombros e como ele está rindo, não consigo ver seus olhos. O homem tem cabelo escuro, mas pela falta de luz parece com azul ou roxo. Seus olhos são azuis. Mas não como os olhos de Amon. O desse homem parecem brilhar. Eu não sei explicar. É como a água de uma fonte, mas... Eu não sei. É hipinotizante.

— Quem são vocês e o que fazem aqui? – Aponto a panela na direção deles e ambos olham para trás e depois de volta para mim.

— Não parece que ela está nos vendo? — Diz o menor, olhando do homem para mim.— Mas isso seria impossível...

— Está nos vendo, Danda? – Danda? O homem dá alguns passos para frente e eu fico estática. Não consigo me mexer, mas diferente do que aconteceu com Amon, eu não estou tremendo de medo. — Você está olhando bem para mim. — Ele acena a mão na frente dos meus olhos e eu pisco.

— Minha nossa! Será que é possível? – Garotinho deve bater no meu queixo. Ele anda até o meu lado e mexe na panela. – Ela não nos atacaria com uma panela.

— É claro que atacaria. – Dou um passo para trás e aponto a panela de novo. Tentando parecer mais corajosa do que estou sendo. – Não deêm mais nenhum passo.

— Isso significa? – O menor vai para o lado do homem e começa a pular. Na realidade, parece bem feliz. — Eu estava morrendo de saudades, Danda! – Ele corre até mim e se taca no meu pescoço. Seus braços são frios e faz meu corpo todo tremer.

— Se ela está mesmo nos ouvindo... Como antes... É melhor pararmos de projetar a voz. – O homem se ajoelha em apenas um joelho e abaixa a cabeça, assim como já vi nos filmes. – Desculpe-nos, Danda, nossa voz devia estar incomodando seus ouvidos.

— Por que estão me chamando desse nome? Quem são vocês? – Assim que pergunto o menino loiro se solta o meu pescoço e fica do lado do homem de cabelos escuros.

— Você não lembra da gente...? – O pequeno parece a ponto de chorar. – Tem certeza?

— Eu... Olha... Ando passando por várias situações estranhas atualmente. Se vocês puderem sair da minha casa...

Eles se encaram por um momento e parecem estar pensando. Ambos sentam no chão e cruzam as pernas. Tento fazer contato visual, mas os dois estão olhando para o meu chão de madeira.

— Ei! Estou falando com vocês! – Cutuco o homem com a panela, porém ele continua imóvel.

— Não vamos embora.

— Pois é! Sabe à quanto tempo estamos tentando falar com você? E você diz que nem lembra da gente. – O pequeno parece estar se contendo para não chorar. – E eu pensava que nós eramos melhores amigos. Que você se importava comigo. Mas eram só palavras...

— Mas o que? – Meu Deus! Eles estão me confundindo com alguém... — Olha...

— Talvez se nós dissermos quem somos... – O loirinho olha para o homem que afirma com a cabeça.

— Por favor, nos dê alguns minutos do seu tempo. – Ele abaixa a cabeça esperando a resposta.

— Está bem. – Se fosse só esse homem eu já teria chamado a polícia faz tempo... Mas o que fariam com o menininho. — Fale.

— É... Como eu começo... Nos comecemos desde quando você era menor. Você não tinha tem um dia completo quando eu te vi pela primeira vez. Era um dia chuvosso e frio... E então você apareceu chorando. Estava berrando e acordou toda a vila comercial.

— Vila comercial?

— Isso! Isso! – Eu só repeti o que você falou... – Então eu estava te encaminhando para a pós vida, a fila estava grande... Tinham muitos velhinhos por lá. Então coloquei você no seu lugar para que voltasse para cá logo. E então você abriu os olhos e parou de chorar. Segurou firme a minha roupa e me puxou. – Agora o homem finalmente olha nos meus olhos e isso me faz sentar na frente deles. – Eu descobri que na verdade, você estava ali por acidente. Você não tinha morrido de verdade.

— É! – O pequeno chega um pouco na frente. – Eu estava do lado da sua mãe aquela hora. Parece que você estava sufocando com o pano de quem te tirou da barriga dela. Foi triste! Ninguém tinha reparado até eu virar você e você respirar!

— E então você estava lá comigo, e aqui com Chan. Eu consegui ver algo em você... A sua alma estava viva então tive que te levar para o concelho. Eles disseram que se eu colocasse você exatamente onde te encontrei, você voltaria ao normal. E foi o que fiz. Eu consegui acompanhar você, quando o portal abriu e desde então eu estive com você.

— Então... Eu morri quando eu era um bebê? – Minha cabeça está doendo. Isso só pode ser fruto da minha imaginação. – E você é o que? Um fantasma?

— Não! Ele é o seu Ceifador! Eu que sou um fantasma. – O menino parece contente de novo. Seu sorriso é enorme e agora consigo ver seus olhos. Opacos e vazios. — Meio que você virou uma missão inacabada dele. Então, quando chegar realmente a sua hora é ele quem vai te levar.

— Qual é o nome de vocês? — Acho que eles sabem quem eu sou, mas eu não sei.

— Sou o Chan! Eu sou seu irmão. – O garotinho coça a cabeça. – Seu cabelo era loiro como o meu, mas quando você voltou a vida... Ele estava escuro. Assim como seus olhos. Papai também tinha cabelos loiros. – Meu nome é Chander e o seu nome é Cassandra. Na verdade é uma homenagem para mim... Eu morri dois anos antes de você nascer... Mamãe ficou tão feliz quando soube que teria uma menina.

— Espera. – Mas que... – Não estou mais entendendo.

— É Chan. Acho que você complicou um pouco as coisas. – O homem tenta segurar minha mão, mas eu tento chegar para trás, me arrastando no chão. – É... Eu tinha um nome, mas você sempre me chamou de Cê. Você não entendeu que meu nome não era Ceifador... Isso é apenas uma classificação. Chan era para ter vinte e sete anos agora. Mas por ser um fantasma, ele vai ficar assim para sempre.

— Por que você é um fantasma? Por que eu vejo um fantasma?

— Ela não liga por me ver... – O homem fala baixo, mas para si mesmo do que para mim.

— Eu não segui a luz, como dizem. Mamãe estava chorando tanto... E aí, depois, você nasceu e ela morreu... Então, senti que era minha obrigação te proteger. E estou aqui até hoje. Por ser um fantasma eu escolho quando alguém pode ou não me ver. No entanto, só se não for humano. E você é humana. Então quando você segurou meu dedo e o apertou, eu fiquei bem feliz.

— Pelo que entendemos agora, você foi capaz de o ver por ter quase morrido completamente.

— Não existe isso. – Eu interrompo o Ceifador. – Ou você está vivo ou morto. Não tem como morrer de uma forma incompleta.

— O que eu quis dizer é que você foi para o mundo dos espirítos sem de fato morrer. Sendo assim você conseguia ver nosso mundo. Você conseguia me ver também. – Ele parece um pouco incomodado. Sua frustação não faz o menor sentido para mim. – Quando você se mudou para os Estados Unidos, nós também viemos. Humanos não podem ver seres sobrenaturais, ao menos que eles deixem. No seu caso, você podia.

— Por que eu só estou vendo agora então?

Notas finais
Comentários são bem vindos!!!