Invisível aos olhos
6 Capítulo 6
Notas iniciais
— Por que eu só estou vendo agora então?
— Assim que seus pais morreram e você voltou para o Canadá. A senhora Nyx te levou em um templo e colocaram um tipo de selo na sua visão. Você então não pôde nos ver, nem nos ouvir. Muito menos lembrar da nossa existência. – Isso não faz sentido. Eu não me lembro de antigamente, mas acho que ninguém lembra memórias tão antigas. — Agora você pode nos ver por causa...
— Por eu não ter morrido completamente, de novo. – Ambos concordam. – Mas eu sou humana, certo? – Acabo me preocupando sobre o fato de poder ter virado um monstro como a famíla de meu irmão.
— Isso. Mas consegue viver bem entre os dois planos. – Chander volta a parecer animado.
— Foram vocês que eu escutei ontem a noite? – Eles se olham e concordam. – Então... Isso não é um sonho, ou é?
Aquelas vozes falando sobre mim, sobre me perderem... Eles não tinham como saber que eu estava ouvindo. Mas pensar que isso deveria fazer sentido, é um absurdo.
— É a realidade. – Dizem ao mesmo tempo.
— Ok.
É só isso que respondo. Levanto e levo a panela até a cozinha. Lavo os copos que tem em cima da pia e os coloco no secador. Seco minha mão no paninho azul e vou ao banheiro. Lavo meu rosto e me olho no espelho. A dor na minha cabeça não para. Mesmo tendo melhorado quando eles pararam de falar daquele jeito. “Projeção”. Acho que foi isso que o Ceifador falou.
— É... Danda? – Olho para trás e vejo o menino. – Você respondeu “ok” e foi embora. Você está mesmo bem?
— Eu só estou me sentindo um pouco louca. Juntando isso com ontem à noite... Foi um pouco demais para mim.
— É... A gente escutou o que aconteceu na casa dos Petersons... – O homem de olhos vibrantes também fica atrás de mim e eu o vejo pelo espelho. – Nós não estávamos lá... Se estivéssemos, eu podia ter impedido de você se machucar, mas Chander disse que você estava muito animada para ver seu irmão e não quis ir.
— Eu não falei nada disso! – O pequeno cruza os braços, indignado. – Não ponha palavras na minha boca, Cê. Se não vou contar...
— Falou, sim. – O cabelo roxo dele cai por cima dos olhos, fazendo com que o homem passe a mão na testa para retirá-los. — Ele ficou com ciumes. Afinal, todos esses anos que Willian poderia ter ficado com você e não ficou... Chan ficava reclamando e gritando, no seu ouvido, que estava aqui. Mas nós só víamos você chorando... Por ter ficado sozinha... E não podiamos fazer nada.
— Hm... Se o seu nome não é Cê, qual é? – Olho por cima do ombro para o homem e me deparo com os olhos dele. – E por que seus olhos são assim? Todo ceifador tem esses olhos?
— Eu sou um Shinigami, para ser mais exato. Esse nome você nem ao menos tentou entender, então eu falei ceifador. Cê foi o apelido que você me deu. Eu envelheço, porém apenas se eu ficar nesse plano. Quando estou na minha realidade eu continuo com a mesma idade por muito tempo. É por isso que temos as nossas missões aqui. Meu verdadeiro nome é Said, mas eu prefiro que você me chame de Cê, como antigamente. – Ele coça a cabeça e me dá passagem.
Estar sozinha em casa, com certeza, seria mais confortável. Tudo aqui é agradável, mas pequeno e apertado.
— Entendi. “Cê” não é dificil de lembrar.
— Não é que seja normal, ou não, ter olhos assim. Desculpa, mas isso eu não quero explicar. – Os dois me acompanham pelo quarto. Que sensação horrivel de estar sendo seguida. Será que foi assim a minha vida inteira?
— Por que me chamam de Danda? É um pouco estranho. – Olho para trás e os dois estão com a mão na boca, mas dá para ver que estão tentando não rir. – O que foi?
— Foi você quem nos obrigou a te chamar assim. Quando você era apenas uma menininha, era bem mandona. Era um tanto quieta com as outras crianças, mas com nós dois... Você não calava a boca e dava ordens. Quantas vezes você gritou “não”, só por Chan te contrariar. Seu irmão achava que você falava com amigos imaginários...
— Mas eram vocês... – Lembro-me de Billy falar varias vezes sobre isso, no entanto não me lembro dos tais “amigos”. — Entendam que é bem difícil escutar isso tudo, do nada.
— Sério? Você está se saindo tão bem! Eu arriscaria que você desconfiava disso tudo.
Nego com a cabeça. Nunca fui ligada a fantasia. Lia um livro aqui, ou ali, mas para mim as melhores histórias eram as baseadas em fatos reais. Mas conhecendo esses caras, pode ser que as fantasias fossem baseadas em fatos reais.
— É verdade, irmã! Você não parece nem estar surpresa. – O pequeno menino pega na minha mão e eu sinto o quanto é gelada. Eu deveria sentir alguma coisa? Ele não deveria me atravessar? Seu cabelo loiro é um pouco, mas longo do que a maioria dos meninos da sua idade, e isso faz com que ele tenha a aparencia antiquada.
— Você sempre vai ser gelado assim... Quero dizer, quando eu te encostar vou sempre sentir esse calafrio? – Acho que só fui mais indelicada. Ótimo...
— Bem... Acho que você só está desacostumada. – Chan continua segurando a minha mão, então tenho que arrumar o material da aula de amanhã com uma mão só. – Você vai voltar para aquela casa?
— É... Acho que sim. Por quê?
— Preferimos que você fique aqui. – Said parece bem incomodado com isso. Ele coloca a mão na frente das minhas coisas, me fazendo parar de arrumar. – Tem certeza?
— Qual o problema?
— Ele está assim por que não conseguirá ficar despercebido dentro daquela casa. – Olho para baixo e vejo o menino dando de ombros. – Eu consigo me transportar fácil pelas paredes e ficar imperceptivel, mas ele só consegue ficar invisível. Ainda assim dá para qualquer sobrenatural notá-lo lá.
— Hum... – Tiro a mão dele de cima da mochila e a fecho. – Não estou indo por que quero. Meu irmão disse que...
— Eu sou seu irmão. – Chander parece irritado e isso me assusta, mas quando enfim olho seu rosto percebo que ele está triste, não está com raiva.
— Os dois são meus irmãos. Você é biológico, e ele não. Mas eu vou me considerar irmã dos dois, está bem? – Acho que assim ele não vai tentar matar Billy enquanto dorme. Ele concorda com a cabeça. – Ótimo.
— Mas o que eu estou querendo dizer é que lá dentro não vou poder te proteger sem que me vejam... Eu já não te sigo o tempo todo, mas pensei que ao menos poderia te vigiar enquanto dorme. – Isso é um pouco arrepiante, não?
— Cê é seu protetor desde que você nasceu... E sempre acha que você corre perigo. Se eu não tivesse brigado com ele por estar com você a todo instante, esse aqui entraria no banheiro contigo. – A gente passa pela porta, para o corredor.
— Espera. Duas coisas. Primeira, tem como um de vocês ficar visível para os humanos, para eu não parecer estar falando sozinha?
— Na verdade, possível é. Só que Chan teria que usar muita energia e eu não preciso mais fazer isso. Você já me viu e eu estou satisfeito. – Said vai olhando pelo chão e desviando o olhar de mim. – Tentava todo dia... Quem estava por perto até me via, mas você não. Só por terem colocado aquele maldito selo.
— Ok. Entendi. Serei a louca que fala sozinha até chegar lá. E segundo, você não entra no banheiro comigo, não é?
— Claro que não! – O homem parece levar um susto e dá um passo mais para o lado. Chander está rindo... Por que?
— Já entrou? – Viro meu rosto para olhar bem nos seus olhos. Assim que me vê, seu rosto fica bem vermelho. – Ai meu deus! Eu tinha quantos anos?
— Não vou responder a essa pergunta. – Ele coloca a mão dentro do bolso do casaco.
Eu não tinha percebido antes. Said está vestindo roupas de um cara normal, diferente do que eu pensava ser um ceifador, e Chander está usando uma blusa branca e bermuda beje. Olho para o lado e os dois parecem bem inquietos.
— Quando chegarmos lá... O que você vai fazer? – O pequeno esta chutando pedrinhas. Fantasmas não deveriam atravessar as coisas?
— É... Bem... Eu não tinha pensado nisso. – Ambos param de andar, então eu também paro. – Eu vou dizer que se eu terei que ficar naquela casa, você também têm? – É mais uma idéia do que uma resposta. Afinal, a história deles faz mais sentido do que a de Billy... — Entendo vocês cuidarem de mim, mas vocês não tem casa?
Acho que falei algo errado de novo, por que Said começa a andar na minha frente.
— Hum... Cê tem casa, mas... Como a avó dele o culpa por ter te perdido, ele não é muito bem vindo. Mas costuma voltar para lá, afinal ele não pode dormir sempre na sua cama quando você está na aula. – Ele faz isso? — Eu não tenho casa mais... Porém eu sou bem vindo a casa dele, por isso costumo ir para lá. Agora ele vai ter de fazer isso também, já que você estará na casa do seu irmão.
Acho que ele fica com raiva quando diz isso.
— Logo eu volto para minha casa, de qualquer forma. – Chego até o metrô, onde Said está esperando. – Eu vou dizer que cada um tem suas malas. – Dou de ombro.
— Ela acabou de nos chamar de mala? – Chander pergunta para ele, que dá de ombros. – Bem... Vamos ver onde isso vai dá.
— Cassandra? – Viro-me para Said e sinto como se ele pudesse ver a minha alma. – Você parece ficar chateada por ouvir do Chan coisas do nosso passado. – Ele segura a minha mão, com delicadeza demais. Como se pudesse me machucar com o simples toque. E então sorri – Então não se esqueça dessas palavras: vamos seguir formando novas memórias a partir de agora.
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