Inverno Ardente
12 Soldier's

Sam Wilson estacionou seu carro na frente do prédio de Bucky as nove da noite. Não estava de bom-humor, isso porque Barnes tinha mandado uns dez áudios, primeiro querendo desistir e depois reclamando do horário, como se fosse um tipo de adolescente que tem hora pra voltar pra casa...
Ele desceu de Cory — seu Corolla azul — e encarou a faixada do prédio. Um péssimo lugar para morar. Era ridículo que Bucky vivesse ali, quando tinha todos os bens de Steve Rogers a seu dispor, e isso incluía o apartamento no centro, que se encontrava vazio, já que Sam imaginou que Barnes venderia ou ao menos alugaria o imóvel e por isso tirou todas as coisas de lá.
Ele não fez nada disso. Não usou o dinheiro, não ocupou o apartamento e também não fez nada com ele. Era quase um milagre que estivesse usando a moto.
Não, não era um milagre... era progresso. Sam sabia que Bucky estava progredindo a pequenos passos, o que era impressionante já que ele se isolava de tudo e todos.
Era algo lento, mas considerando todas as coisas que Barnes tinha vivido era bem melhor do que qualquer um imaginaria... Sam se perguntava como isso estava acontecendo, porque já tinha visto muitos veteranos e, sem estimulo, apoio e terapia, eles não costumavam fazer progresso.
E Bucky estava se saindo muito bem, sabia que ele vinha comparecendo as reuniões, mesmo que nunca entrasse e mesmo que fizesse questão de nunca ser visto.
Se fosse em qualquer outro momento jamais teria notado um supersoldado soviético à espreita, porém Sam tinha feito progresso também, havia aprendido muito com Steve e Natasha, estava mais atento ao que acontecia ao redor, por isso sabia que Bucky vinha aparecendo às reuniões há algumas semanas.
Pensou em dizer que sabia, mas talvez isso se tornasse contraproducente para a evolução de Bucky. Ele era como um animal arisco, se aproximaria mais quando estivesse pronto.
Mesmo assim Sam queria ajudar de alguma forma, por isso tinha combinado aquela noite com Bucky, o levaria para um bar onde o pessoal costumava se reunir, talvez ele se sentisse mais à vontade para fazer parte do grupo de fato, se conhecesse um pouco melhor os membros.
O plano era simples: Bucky precisava de amigos, Sam podia apresentar alguns...
Trancou o carro e deu alguns passos em direção a marquise, foi quando notou que um casal vinha discutindo pela rua, andando naquela direção.
— Eu quero que você vá embora... — A mulher dizia, apressando o passo. — Já chega pra mim, Ryan. Eu não quero criar o Mike nesse ambiente, com você e suas bebedeiras. Para de me seguir.
— É a minha casa também! — O homem esbravejou, enquanto seguia a moça. — E é meu filho. Eu posso arrancar esse moleque de você se eu quiser.
A mulher parou, Sam a viu tremer, ele só não sabia se era de medo ou de raiva.
— Não ouse ameaçar meu filho, Ryan. — Ela enfrentou o homem com o tom firme. — Eu juro que denuncio você!
— Hey, calma. Você entendeu errado o que eu disse, linda. — O cara chamado Ryan segurou o braço da mulher de uma forma nada delicada — Eu só quero você de volta, por isso eu falo essas coisas idiotas às vezes.
Ela tentou se soltar, ele não permitiu.
— Não me importo. Eu não quero mais nada disso. — A mulher estava prestes a chorar. — Por favor me solta.
— Ninguém vai te amar e proteger como eu, você sabe disso, não sabe? — O canalha jogou com um sorriso manso. — Eu sou o seu homem e você é minha mulher, somos nós dois contra o mundo e se você me per...
— Com licença? — Sam se aproximou deles. — Desculpa interromper a conversa de vocês.
Sorriu amigável e isso fez com que o idiota chamado Ryan se retraísse e soltasse a moça.
— O que você quer? — O tom agressivo do homem em nada assustou Sam.
— Você mora aqui? — Ele ignorou Ryan e se dirigiu a mulher, que pareceu muito confusa, mas assentiu devagar. — Um amigo meu mora aqui, só que eu não sei exatamente onde, será que você pode me ajudar?
Era mentira, tinha apenas que mandar uma mensagem para Bucky, afinal ele tinha se adaptado muito bem ao celular.
— A gente está ocupado, cara. — Ryan se intrometeu e Sam sorriu.
— Relaxa amigo. Não vai demorar. — Ele bateu a mão no ombro do idiota e apertou um nervo especifico ali.
Ryan entendeu o recado, percebeu que Sam não permitiria que ele se aproximasse da mulher outra vez.
Sam não sabia quem eram, se tinham algum vínculo afetivo ou não — talvez fossem casados, era o que parecia — de toda forma não permitiria que aquele cretino coagisse a moça por nem mais um segundo. Conhecia um episódio de violência psicológica quando via um e não esperaria virar violência física para agir.
— Conversamos depois. Mas pensa no que eu te falei... — Ryan declarou, afastando a mão de Sam com um gesto rude e seguindo para a direção oposta.
A mulher e Sam ficaram sozinhos ali, há apenas alguns passos da marquise, ela cruzou os braços desconfortável, mas ele deu um sorriso amigável ao se afastar alguns passos.
— Eu sou Sam. — Ele se apresentou e só recebeu um olhar desconfiado em resposta.
— Como chama o seu amigo? — Ela questionou se afastando dele ainda mais.
— Bucky. — Ele respondeu, respeitando o espaço que havia entre eles. — Ele é alto, tem o cabelo comprido e...
— Eu sei quem é. — A moça cortou. — Apartamento 32A.
Ela apontou o local e saiu na frente, Sam a seguiu escada a cima, nada incomodando com o jeito arisco, afinal ele era um total estranho ali que tinha acabado de se intrometer. Assim como sabia reconhecer um relacionamento tóxico quando via um, ele também entendia que a vítima nem sempre estaria pronta para admitir que tinha um problema e que precisava de ajuda, por vezes qualquer pessoa que tentasse intervir seria vista como intrusa.
Além disso ele era, para bem ou para mal, homem, então ela fazia certo em não confiar.
— Muito obrigado, senhora...? — Ele deu a deixa para que a moça dissesse seu nome.
Ela o olhou por cima dos ombros, tinha orbes negras como um céu sem lua, piscou algumas vezes e ao invés de responder apontou uma das portas.
— É aqui que seu amigo mora. — Declarou apenas e sequer esperou antes de avançar pelo corredor.
— Ah... Será que posso te deixar meu cartão? — Sam perguntou, abrindo a carteira.
— Por que? — A mulher parou a uns dez passos dele.
— Eu sou assistente social. — Explicou, estendendo o cartão para ela. — Nunca se sabe quando alguém pode precisar.
— Eu não preciso. — Ela retrucou, parada no mesmo lugar de braços cruzados.
Sam sorriu de modo simpático e natural.
— Imagino que não precise mesmo, mas a gente nunca sabe quando um amigo ou um vizinho pode acabar com problemas e sem saber pra quem ligar. Esse mundo é meio louco. — Ele deu de ombros como se não fosse nada. Não podia obrigar ninguém a procurar ou pedir ajuda, mas podia deixar sempre uma linha de comunicação aberta. — A gente nunca sabe quando alguém pode precisar de ajuda e eu gosto de fazer a maior rede de contatos possível.
A moça assentiu devagar e deu alguns passos na direção dele, mas o fez com cautela. Pegou o cartão e se afastou.
— Obrigado de novo e tenha um bom dia. — Sam sorriu, acenando em despedida e recebeu um menear de cabeça antes que a moça se virasse e seguisse pelo corredor sem dizer mais nada.
Ficou ali até que ela entrasse, se sentindo péssimo por não poder ajudar mais. Esposas que sofriam em relacionamentos abusivos eram casos complicados, sequer eram a especialidade de Wilson, ele lidava com veteranos e antes disso, antes de se alistar, logo no começo da carreira, lidava com adolescentes em um centro comunitário.
O que mais via nessa época eram crianças traumatizadas por viverem o relacionamento dos pais por tabela. Mães sofrendo e filhos acumulando raiva da vida. O mundo não devia ser assim...
Ainda estava com esses pensamentos em mente quando ergueu o punho para bater na porta, mas ainda bem que não fez isso imediatamente, porque Bucky tinha acabado de girar a maçaneta e seria uma daquelas cenas típicas de série de comédia.
— Você está atrasado... — O ex-Sargento resmungou e Sam revirou os olhos.
— Isso não é uma missão, Bucky. A gente pode se atrasar quando está saindo com amigos. — Ele viu a pequena bola de pelos branca colocar a cabeça pra fora e encará-lo com os olhos azuis enormes. — Essa é a gata?
— Alpine. — Bucky revelou e Sam tinha que admitir que o nome combinava com a felina.
— Olá, garota... — Se agachou para passar a mão no pelo da gata, mas ela o ignorou quando seguiu o dono de volta para dentro do apartamento.
Bucky passou a dar instruções a Alpine, dizer onde ficaria a comida e a água, que não pretendia demorar e coisas assim. Sam é claro caiu na risada.
Afinal jamais perderia uma oportunidade de irritar o Soldado Invernal.
— Você sabe que ela não é um bebê, e que ela não entende o que você fala, certo? — Jogou recebendo um olhar nada amigável de Bucky.
— Claro que entende. — Ele respondeu, praticamente empurrando Sam para fora e fechando a porta.
Wilson mediu o outro dos pés à cabeça. Bucky usava jeans escuro, uma camiseta vinho e uma jaqueta de couro por cima, luvas na não de vibranium e boné nos cabeços compridos. Nada diferente do normal...
— Você vai assim? — Apontou contrariado e Bucky apenas deu de ombros com se não visse absolutamente nada errado nisso. — Sabe, o Steve dizia que você era muito bom com as garotas. Mas estou começando a achar que ele era tão ruim que qualquer coisa parecia bom.
— A pior parte é que eu não posso discordar totalmente disso... — Bucky deu um sorriso que era um misto de tristeza e nostalgia e saiu andando na frente.
Sam sabia que falar de Steve era doloroso, mas evitar o assunto não traria qualquer progresso. Fugir de um nome não era superar o luto, ele sabia bem, afinal tinha evitado dizer o nome de Riley por um bom tempo. Foi só quando começou a tratar a perda como um processo natural da vida que as coisas ficaram mais fáceis de superar.
Seguiu Bucky pelo corredor e assim desceram as escadas juntos.
— Você conhece a vizinha do fim do corredor? — Sam tocou no assunto porque afinal estava mesmo preocupado com a moça. — Eu a vi discutindo com o marido lá em baixo.
— Beverly. — Bucky revelou o nome dela. — O Ryan voltou então...
O Soldado soltou o ar dos pulmões de forma contrariada e Sam ficou um tanto surpreso por ele conhecer a situação dos vizinhos. Sempre tinha pensando em Bucky como alguém que foge das outras pessoas...
— Eu interferi e o mandei embora sutilmente, mas não acho que vá durar muito. — Revelou, sem entrar em detalhes da briga que tinha acabado de presenciar lá embaixo.
— Ela não quer prestar queixa, mesmo tendo um filho pequeno. — Bucky lamentou, e a irritação no fundo de sua voz era perceptível. — E sem isso, mesmo que ele tenha sido preso antes...
— A polícia não pode fazer nada. — Sam completou e recebeu um aceno positivo de cabeça em resposta.
— É frustrante. — Barnes suspirou e no fundo Sam estava feliz por ele se importar daquela forma com as pessoas.
Isso era bom. Era progresso. Falava muito sobre quem Bucky era sem toda aquela merda da Hidra.
— Vou falar pra um contato meu da polícia ficar de olho. — Sam declarou, enquanto pegava o celular no bolso traseiro. — Se ele já foi preso antes, talvez encontrem outro motivo pra prender agora.
— Isso seria bom... — Bucky concordou e fizeram o restante do caminho até o carro, com Sam mandando a mensagem.
Talvez ter a polícia rondando fizesse Ryan se afastar e desse a Beverly um pouco de paz. Não era muito, mas era o que estava ao alcance de Sam naquele momento, afinal tinha que agir dentro da lei.. Mesmo que muitas vezes não concordasse com a forma como a lei era feita.
E no fim, era por esse motivo que não serviria para erguer o manto do Capitão América, como podia levar o “América” no nome se não concordava com a maior parte dos políticos do país? Como levar a bandeira no uniforme, quando tudo que ela fazia era esconder o que havia de errado nas ruas? Sam não sabia como conciliar as próprias convicções com o legado que Steve Rogers tinha deixado.
Ele esperava um dia saber, mas até lá o escudo ficaria guardado.
— Esse carro não é muito velho? — Bucky observou o Corolla por alguns segundos e o questionamento fez com que Sam erguesse os olhos irritado.
— Você é bem mais velho que a Cory e eu não estou reclamando, estou? — Jogou de volta e viu um sorriso debochado se abrir no rosto do Soldado.
— “Cory”? — Ele repetiu, fingindo que segurava o riso. — Você colocou um nome no seu carro?
— Você quer mesmo falar de comportamentos considerados estranhos? — Sam retrucou apontando a roupa de Bucky e ganhou um olhar enviesado como resposta.
Entraram os dois no carro e Sam deu a partida, pegando uma saída lateral e deixando os limites do Brooklyn, embora o destino fosse próximo.
— Aonde vamos? — Bucky questionou, e já havia perguntado algumas vezes por mensagem, mas Sam preferiu desconversar para que ele não mudasse de ideia.
— É o bar de um amigo. — Disse, omitindo parte da verdade.
— Eu não sei se é uma boa ideia... — Bucky olhava pela janela e parecia impaciente. — Não gosto de multidões.
Claro que Sam sabia que tinha que ser paciente.
— Relaxa, não tem movimento lá não, é bem de boas, ele abriu faz pouco tempo, ainda está tentando fazer dar certo, achar uma forma de atrair o pessoal... — Moveu os ombros, como se não fosse nada demais. — É por isso que a gente vai, temos que apoiar os amigos.
Bucky não pareceu muito convencido, mas ao menos não retrucou nem reclamou mais, então cerca de quinze minutos depois Sam já estava estacionando na frente do lugar.
Era um típico bar americano, ambiente escuro, bancos de madeira em frente ao longo balcão, além das mesas no salão. Havia três espaços para jogar sinuca, alguns painéis para dardos e um pequeno palco montado, onde músicas gravadas ecoavam das caixas de som.
A diferença do lugar era sua proposta, começando pelo nome “Soldier’s”, e seguindo para a decoração: com quadros de vários batalhões, medalhas e algumas armas descarregas expostas nas paredes.
— Eles são veteranos... — Bucky acertou em cheio, assim que Sam começou a ser cumprimentado por algumas das pessoas do local.
— São, sim. — Wilson não negou a verdade. — A proposta do bar é essa.
A reação de Barnes foi menos arisca do que o esperado, mesmo assim ele pareceu repentinamente acuado. Escolheram uma mesa perto da sinuca, um pouco mais no canto e afastada do pessoal.
— Tery fez quatro incursões. Só parou quando perdeu as pernas, agora toca o bar com a filha. — Explicou acenando para o homem calvo na cadeira de rodas, que ficava no tablado elevado atrás do balcão.
Os olhos de Bucky não negaram seu compadecimento. Ele tinha empatia pelas pessoas, e isso era um ponto muito positivo, afinal alguém que tinha passado por tanta coisa como ele, podia perder esse tipo de capacidade.
— Merdas acontecem o tempo todo... — Sam moveu os ombros. — Mas a gente tem que seguir em frente mesmo assim.
Bucky assentiu sem muita vontade, como se quisesse apenas dar o assunto por encerrado. Sam notou que ele se fechou mais, avaliava cada pessoa que se aproximava para cumprimenta-los, embora todos fossem amigáveis.
— Eles sabem quem eu sou? — Perguntou encarando um trio que tinha assumido lugar em uma das mesas de sinuca.
— É segredo? — Sam questionou em um tom natural.
Sabia que Bucky não gostava de falar no assunto, mesmo assim não tinha como esconder quem era para sempre, aceitar o passado fazia parte de construir um futuro.
Barnes e Rogers sempre seriam nomes conhecidos no exército, então sim, muitas daquelas pessoas sabiam quem Bucky eram, assim com o sabiam sobre Sam ser o Falcão. Esse tipo de coisa pode passar despercebida para pessoas que não estavam naquele meio, e talvez fosse fácil esconder dos vizinhos e dos colegas de trabalho, mas não tinha como esconder de todo mundo para sempre...
Bucky não podia fugir de quem tinha sido um dia, não podia apagar o Soldado Invernal, então só restava aceitar que era parte de seu passado e entender que não o definia e assim se cercar de pessoas que entendessem isso também e que o aceitassem como ele era.
— Olha, eu sei que não é algo que você não gosta de falar para as pessoas, mas por isso mesmo é mais fácil quando elas já sabem. — Sam declarou neutro, tentando fazer daquilo um assunto leve. — Não seria muito pior fazer amizade com alguém que não sabe, e ter que contar isso uma hora ou outra?
Ele sorriu, mas Bucky desviou os olhos de uma forma estranhamente desconfortável.
— Eu posso nunca contar... — Murmurou, mexendo no cardápio como se houvesse mesmo algo interessante ali.
— Você não acredita mesmo nisso, não é? — Sam estreitou os olhos para aquela postura. — Você não pode só esconder metade de si mesmo das pessoas, Bucky, pelo menos não das pessoas que forem se tornar importantes na sua vida.
Para Sam parecia muito mais simples que Bucky não saísse do meio, porque ali ninguém trataria o passado dele como algo tão estranho. “Merdas da guerra.” Era o que diziam uns aos outros e era o que diriam a Barnes também.
— Além disso aqui é um lugar seguro. Eles são gente boa, pode confiar... — Declarou, oferendo a Bucky um olhar firme.
Ele assentiu devagar, mas demorou muito tempo para que Sam sentisse que Bucky ficou minimamente à vontade ali.
A noite foi passando e Sam tentou focar em assuntos amenos, competiram na sinuca, beberam, ele falou para Bucky sobre filmes e músicas... Mas não parecia que o Soldado estava de fato encaixado naquele ambiente.
O que era estranho, afinal que melhor lugar para um soldado do que entre os seus?
Sam começou a pensar que estava tentando a abordagem errada, talvez o que funcionasse para os outros veteranos, não fosse funcionar para Bucky. Mas se cercá-lo de amigos que o entendiam não fosse o bastante, então o que seria?
Continuou com esse questionamento em mente, enquanto perdia outra rodada de sinuca, nunca devia ter aceitado competir contra um supersoldado com a mira impecável.
— Você está roubando. — Resmungou, virando sua garrafa de cerveja.
— Só porque você está perdendo não significa que eu esteja roubando. — Bucky respondeu, se curvando para dar outra tacada perfeita. — Eu não tenho culpa que você não pensou que já existia sinuca nos anos 40.
Sam fez uma careta de desgosto. É, sequer tinha passado por sua mente que Bucky podia ser um bom jogador de sinuca... E foi então que ele percebeu uma coisa: talvez a chave para que Barnes se enturmasse fosse focar em seus anos antes da guerra...
E desses Sam tinha uma boa noção, afinal Steve falava muito do melhor amigo. Então só teve que pensar em algo que definisse Bucky naquela época e logo teve a resposta perfeita: Garotas.
Steve costumava dizer que Bucky era bom com as moças e tinha muitas pretendentes, embora nunca se firmasse ou tivesse algo sério com nenhuma.
Era isso. Tudo que Barnes precisava era flertar um pouco.
Sam esperou que terminassem mais uma rodada e pediu duas cervejas, mas dessa vez não para Tery.
E logo uma moça se aproximou com a bandeja, sorridente e simpática. Sam não sabia qual era o tipo de Bucky, mas a garota em questão era bonita, cabelos negros, olhos escuros... Ela era perfeita.
— Obrigado, Joanne. — Sam agradeceu, quando ela entregou as cervejas. — Esse é o meu amigo, Bucky.
Ao ouvir seu nome, Barnes ergueu os olhos, parando de arrumar a próxima partida de sinuca.
— Essa é a Joanne, filha do Tery. — Sam apresentou e os dois trocaram um olhar rápido.
— Muito prazer, Bucky. — Joanne saudou amigável e o Soldado apenas assentiu educadamente antes de voltar ao que fazia.
Não era o que Sam esperava.
Joanne se afastou de volta para o balcão e Sam se aproximou de Bucky.
— Ela não é bonita? — Perguntou insinuativo, mas tudo que o Sargento Barnes fez foi murmurar uma afirmativa automática, focado em sua tacada.
— Eu estava aqui pensando... — Sam começou, quando era sua vez de jogar e com isso atraiu a atenção de Bucky. — Você já... sabe? Desde que voltou?
Seu tom não deixou dúvidas sobre qual era o assunto...
Um vinco se formou entre as sobrancelhas de Bucky, mas ele pareceu se dar conta das intenções de Willson aos poucos, já que seus olhos seguiram para Joanne e então voltaram para Sam.
— Entendi... — Ele moveu a cabeça devagar. — Você está dando uma de cupido.
Bucky soltou um riso amargo.
— Acho mesmo que você precisa conhecer umas garotas novas. — Sam moveu os ombros como se fosse nada. — Criar alguns laços pode ser muito bom. Se é que me entende.
— Acho que você é quem precisa “criar laços”, Sam. — Bucky retrucou, dando um gole na própria cerveja. — Assim vai ter o que fazer ao invés de ficar cuidando da minha vida.
— Isso foi rude. — Wilson devolveu, enquanto dava sua tacada. — Além disso, eu tenho meus rolos esporádicos...
Bucky se limitou a revirar os olhos e focou em ganhar outra partida, quer dizer, ele quase ganhou, porque recebeu uma mensagem e isso o fez ficar totalmente disperso.
Sam não tinha certeza por causa da luz do lugar, mas teve a impressão que viu o Sargento sorrir...
— Com quem você está falando? — Perguntou, intrigado com aquele comportamento nada usual.
— Ninguém. — Bucky deu de ombros e colocou o celular o bolso.
Mas o aparelho não ficou ali por muito tempo, seja lá quem fosse nas mensagens Barnes ficava ansioso por ler a resposta.
Sam já estava tão curioso com isso, que sequer achou graça em ganhar as duas últimas partidas, por causa da desatenção de Bucky. E sim, ele sabia muito bem que a curiosidade matou o gato, mas não era algo que dava pra evitar...
Voltaram a sentar e Bucky foi ao banheiro, deixando o aparelho sobre a mesa. Sam queria mesmo dar uma boa olhada nas mensagens, mas desistiu disso porque era uma invasão de privacidade muito grave e porque quebrar a confiança de Barnes daquele jeito podia ser péssimo.
Mas quando aparelho tocou e o nome “Savannah” acendeu na tela, Sam disse a si mesmo que não era crime algum atender. Já estava com o telefone na mão, mas a chamada caiu, ele notou que era uma ligação por aplicativo e imaginou que a pessoa tinha feito sem querer, provavelmente batido o dedo na tela.
Podia ter colocado o celular de volta no lugar, mas ele não tinha culpa que Bucky não colocava nenhum tipo de trava de segurança na lockscreen... Pelo menos foi isso usou de desculpa, quando a tela de mensagens abriu “sozinha”.
“Savannah” não tinha uma foto de perfil, quer dizer, tinha, mas era um violão vermelho que não fazia sentindo para Sam, ele só conseguia pensar que tinha essa garota que era realmente capaz de chamar a atenção de Bucky Barnes.
Passou os olhos nas mensagens, sabendo que certamente isso custaria sua vida....
Mas e aí, o que está fazendo de bom hoje?
Espera. Eu adivinho.
Foi dormir com as galinhas de novo?
Não tem, graça, Savannah.
Além disso, você errou.
Estou no bar com um amigo.
Minha nossa você me enganou!
Pensei que você não tinha vida social.
Bom... então parece que invertemos os papeis
você vai ficar com a vida noturna
e eu vou pra casa dormir cedo hoje
Achei que estivesse trabalhando.
Eu estava...
Mas fui mandada embora
por jogar bebida em um cliente idiota.
Você está bem?
Claro, nada com o que eu já não esteja acostumada...
Coisas normais do meu dia a dia.
Tem certeza que está bem?
Absoluta, sério ❤ não se preocupe com isso
Para de falar comigo e vai curtir sua noite.
Sam sorriu, a preocupação de Bucky com a menina era evidente mesmo naquelas frases curtas, o Sargento claramente estava afim dela... Ele não sabia como se conheciam, e nem se de fato já tinham se visto pessoalmente, mas achou que talvez um empurrãozinho pudesse ajudar.
— Uma noite de sexo não vai fazer mal nenhum para o humor dele. Sei que o idiota vai acabar me agradecendo depois... — Murmurou para si mesmo, enquanto teclava uma mensagem para a garota.
Já que você vai ter que voltar pra casa,
porque não vem pra cá
estou em um bar chamado Soldier’s
vou te mandar o endereço...
Tem certeza?
Achei que estivesse com um amigo...
Eu estou, e ele é muito legal
Mas não é você...
Sam pensou algumas vezes e de fato enviou em emoji de sorriso ladino, — estava basicamente dando tudo mastigado para Bucky — então mandou o endereço e por sorte a menina foi decidida e mandou um “tá certo. Até já então”, a tempo para que ele pudesse apagar todas as mensagens e colocar o celular de volta no lugar.
Talvez tivesse sido uma péssima ideia, por esse motivo não contou a verdade para Bucky logo que ele voltou e se sentou novamente.
Claro que contaria tudo, em um momento mais apropriado, quando os dedos de vibranium estivessem o mais longe possível...
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