Notas iniciais
Cheguei! Eu sei que vocês estavam ansiosas, mas guenta que tenho uma coisinha pra falar: Nesse capitulo "tocam" duas músicas, a primeira delas (e mais importante) tá com link nas notas e embutido no nome da música durante o cap, eu aconselho fortemente a ouvirem a partir do momento que ela for citada no texto (vocês vão saber quando lerem), ela também está na playlist da fic no spotify, na mesma versão que eu escolhi pra tocar aqui, então sério, dá outro clima pra cena em questão, se vocês ouvirem junto a partir do ponto em que ela for citada. É isso, boa leitura!

Se Bucky Barnes pudesse escolher, jamais teria colocado os pés naquele bar, na verdade talvez ele sequer tivesse saído de casa naquele sábado. Ir a qualquer lugar em que as pessoas lhe conhecessem como Soldado Invernal parecia um pesadelo dentro de sua própria mente, no entanto, ali estava, no Soldier’s, cercado de pessoas que certamente sabiam muito sobre seu passado negro...

E até que não estava sendo tão ruim.

Depois de algumas horas, algumas cervejas que não tiveram nenhum efeito, por causa de seu metabolismo modificado, e de algumas partidas de sinuca, podia dizer que estava quase confortável ali. Quer dizer, estava se esforçando para não parecer um neurótico que acha que todos estão olhando e falando de si.

Na verdade, naquela altura da noite, Bucky tinha certas dúvidas se as pessoas sabiam mesmo quem ele era e o que ele tinha feito, porque ninguém parecia incomodado com sua presença ou preocupado que ele pudesse, de uma hora para outra, virar um assassino incontrolável com sede de sangue.

Talvez Sam estivesse certo e fosse paranoico.

— Ah pelo amor de Deus, Bucky, tira isso da cabeça. — Wilson insistiu pelo que devia ser a decima vez naqueles últimos cinco minutos, desde que Bucky tinha retornado do banheiro. — Não tem motivo pra ficar disfarçado aqui dentro.

— Eu não estou disfarçado. — Se defendeu, arrumando a mesa de sinuca. — E tem um monte de cara usando bonés aqui dentro.

— É, mas esses caras não estão perto de mim estragando meu estilo. — Sam retrucou e Bucky honestamente não conseguia entender a implicância repentina com o boné.

O que tinha mudado naqueles últimos minutos para que ele simplesmente não parasse de falar disso, sendo que sequer tinha reparado no boné nas últimas horas?

Bucky ignorou o pedido, assim como tinha feito com todos os outros e se preparou para dar a tacada, inclinando-se um pouco sobre a mesa, segurando o taco na posição certa...

— A menos que esse seja seu bonézinho da sorte e você esteja com medo de tirar e perder pra mim. — Sam debochou, antes que Bucky terminasse o movimento.

Ergueu os olhos e encarou Wilson que tinha um sorriso suspeito no rosto. Por fim Bucky resolveu aceitar a provocação, tirou o boné e o jogou em uma das cadeiras na mesa que ocupavam, voltando para dar uma tacada perfeita, que lhe garantiu uma bela vantagem naquele início de jogo.

Encarou Sam em desafio, recebendo nada mais que um revirar de olhos como resposta.

— Devia tirar a jaqueta também... — Ele apontou analisando Bucky dos pés à cabeça.

— Joga logo, Sam. — Bucky retrucou impaciente.

O boné não era grande coisa, mas a jaqueta ainda era essencial, mesmo que a camisa por baixo dela fosse de manga comprida o braço de vibranium ficava perfeitamente delineado nela. Seria abusar muito da paciência de todos os soldados ao redor.

— Então... — Sam se curvou para dar uma tacada que não pareceu sair como planejado. — Você não chegou a mencionar se tem alguém importante na sua vida agora...

— De novo isso? — Bucky suspirou, analisando a mesa para achar o melhor posicionamento.

— Mas tem? — O outro insistiu com um sorriso suspeito.

Certamente era sobre a garota no bar, Bucky pensou sem muito ânimo. Não tinha nada errado com ela, ele apenas não estava interessado nesse tipo de coisa, não mais.

Talvez em outra época tivesse sorrido para a moça e dito algum gracejo, mas essa época tinha ficado para trás...

— Não tem ninguém. — Bucky respondeu apenas, se concentrando em seu jogo.

— Nem a garota do celular? — Sam perguntou e Bucky errou a tacada completamente.

Ergueu os olhos, a respiração alterada, a mente se enchendo de perguntas e probabilidades. Como ele sabia que era uma garota no celular?

Sam abriu um sorriso totalmente culpado e deu alguns passos para trás, como se já calculasse uma rota de fuga.

— O que você fez, Wilson? — Bucky perguntou, tentando não soar tão ameaçador, o que certamente não deu certo.

— Eu não tenho culpa se você não bloqueia o seu celular. — Sam se defendeu, erguendo as duas mãos em rendição.

Bucky sentiu que hiperventilava, apoiou as mãos na mesa de sinuca e a madeira rangeu sob o aperto do vibranium, fazendo com que ele lembrasse de onde estava...

Não devia ser nada demais. Sam leu umas mensagens. Só isso. Certo?

— O que você exatamente você fez? — Tornou a questionar, tentando manter o autocontrole e a sensatez.

— Relaxa, não pedi a garota em casamento por você... — Sam riu, como se fosse nada demais. — Só convidei ela pra vir aqui no bar.

— O que?! — A voz alterada de Bucky atraiu alguns olhares e ele conteve o desejo assassino que corria em suas veias.

Se limitou a pegar o celular no bolso, vendo que Sam se mantinha a uma distância segura, do outro lado da mesa de sinuca.

— Ela não sabe quem eu sou. — Silabou, quase falando consigo mesmo. — E todo mundo aqui sabe...

Não havia nada nas mensagens. Provavelmente Sam tinha apagado, o que era ainda pior, porque Bucky não fazia ideia do que responder para que Savannah não viesse.

— Você precisa mesmo relaxar, ninguém vai dizer nada. — Sam opinou e Bucky sentiu vontade de socar a fuça dele.

— Ela vai saber quem você é, assim que olhar pra você... — Retrucou irritado, considerando saltar sobre a mesa e matar Sam.

A última coisa que queria era Savannah naquele meio, era que ela soubesse quem ele era...

Que tipo de reação ela teria? Ela nunca vai me perdoar por isso... Foi a primeira coisa que a mente de Bucky lhe respondeu,

— Cara eu nem bem sou um vingador oficialmente e eu uso óculos de proteção o tempo todo, dá pra contar nos dedos quem me reconhece na rua. — Sam se defendeu e a mão esquerda de Bucky se fechou pronta para um soco.

É o Sam, ele não fez por mal... teve que lembrar a si mesmo, tentando se acalmar. Sam não tinha culpa. Sam não era um assassino soviético fazendo amizade com garotas inocentes, Bucky era, ele próprio era quem devia ter entendido seu lugar no mundo e ficado bem longe de Savannah.

— Desculpa, eu não sabia que ela era assim tão importante pra você. — Sam pareceu preocupado pela primeira vez.

— Cala a boca. — Fui tudo que Bucky conseguiu dizer, passando a mão direita pelos fios castanhos, enquanto procurava o número de Savannah.

Podia dar uma desculpa qualquer. Os dedos tremiam de encontro a tela, não sabia por que estava tão nervoso e por que sua respiração não acalmava de forma nenhuma... mas não teve tempo para respostas, porque no momento em que estava prestes a tocar no botão verde confirmando a ligação, sua visão periférica captou o local todo ser iluminado por fios ruivos tão conhecidos.

Savannah... Seus olhos seguiram para ela como metal que segue um imã, mas não foi apenas a atenção de Bucky que ficou presa na figura feminina que tinha acabado de entrar no Soldier’s...

Usava um jeans azul desgastado em lugares estratégicos, muito bem ajustado a cada curva; botas negras que terminavam acima do joelho, saltos altos, couro; assim como a jaqueta enfeitada com taxas e botons de todos os tipos, mas Bucky já a conhecia o bastante para saber que o tecido era sintético; por baixo disso uma blusinha solta de um material que tinha certo brilho contra a luz, era curta o bastante para que a tatuagem de raposa pudesse ser vista conforme ela andava. O cabelo ruivo balançava em ondas despojadas, enquanto Savannah vasculhava o lugar com seus olhos castanhos-esverdeados, que estavam marcados com maquiagem escura aquela noite.

Bucky podia observá-la andando pelo resto da vida, porque era... uau, ele não saberia descrever. Nunca a tinha visto tão incrivelmente linda, como o próprio fogo oscilando em chamas hipnóticas.

— Não esquece de respirar, Bucky. — Sam sussurrou bem ao lado dele.

Se lembrou que estava com raiva do “suposto” amigo, e então esse pensamento simplesmente se foi assim que os olhos de Savannah encontraram os seus e ela curvou os lábios fartos em um daqueles sorrisos-sol.

Cortou a distância entre eles, arrumando a alça da bolsa e do estojo do violão em seu ombro, Bucky voltou a ficar tenso, a cada passo mais perto ele via que a atenção e curiosidade das pessoas estava neles.

Talvez devesse tirá-la dali, arrastá-la pra fora o mais rápido possível, para bem longe de tudo que pudesse lembrar seu passado. E de que adiantaria? Não podia fugir pra sempre... Talvez fosse melhor que ela descobrisse e tudo aquilo acabasse de uma vez.

Porque Bucky sabia, ele soube desde o primeiro dia, que aquela amizade entre eles não tinha nascido pra durar...

— James... — Ela parou a menos de dois passos dele, os olhos brilhantes e o sorriso de sol nascente, como uma promessa de que tudo ficaria bem.

E Bucky quis acreditar nisso, quis viver uns últimos minutos de ilusão.

— Savannah... — O nome saiu de seus lábios como um elogio.

E devia ser... “Você está tão Savannah hoje”, devia ser o melhor elogio de todos.

Bucky tentou procurar algo para dizer, mas as palavras pareciam perdidas no fundo de sua garganta. O que devia dizer? Costumava saber como falar com garotas...

Felizmente Sam pigarreou e se aproximou, antes que o silêncio ficasse constrangedor demais.

— Oi. — Cumprimentou naquele tom amigável e descontraído que tinha normalmente. — Eu sou o Sam, amigo do.. James.

Ele deu um olhar de canto para o Sargento quando disse o nome, mas Bucky estava mais preocupado com a reação de Savannah ao dar de cara com o Falcão. No entanto ela não esboçou nenhum tipo de surpresa, muito pelo contrário, pareceu sequer reconhecer o herói.

— Savy. — A ruiva se apresentou e eles trocaram um aperto de mão. — Muito prazer.

Sam mostrou a mesa onde ela podia deixar as coisas e Savannah se afastou deles alguns passos.

— Pra você é “Bucky”. — Barnes corrigiu, parando na frente de Sam. — E eu ainda vou dar o troco por isso.

— Você que manda, Sargento. — Wilson bateu uma continência exagerada e Bucky revirou os olhos, dando as costas para então caminhar até Savannah.

— É bem legal aqui... — Ela comentou, depois de deixar as coisas em uma cadeira, passando a admirar os detalhes da decoração. — Não conhecia.

— É de um amigo do Sam. — Bucky respondeu, seguindo cada passo dela, como se alguém pudesse simplesmente aparecer do nada e dizer “sabia que esse é o Soldado Invernal?”.

Savannah tinha acabado de virar para Sam, e ele se aproximou alguns passos.

— Abriu faz pouco tempo... — Comentou, explicando algumas particularidades do lugar para a jovem, enquanto Bucky olhava ao redor.

Todos eles pareceriam ter voltado aos seus próprios assuntos, esquecidos de Savannah ou Bucky, ninguém cochichava pelos cantos dizendo “pobre menina, não sabe onde está se metendo...”

Se permitiu respirar fundo então, talvez não precisasse arrastar Savannah dali, talvez Sam estivesse certo e ninguém fosse falar nada... Além disso ela parecia tão feliz, tão interessada na história do lugar, Bucky se sentiria um criminoso se dissesse que tinham que ir embora e tirasse aquele sorriso dos lábios dela.

Talvez pudesse correr alguns riscos para vê-la feliz.

— Então, de onde vocês se conhecem? — Sam perguntou, encostado na mesa de sinuca, bebendo um gole de sua cerveja.

— Somos vizinhos. — Savannah respondeu, tirando os olhos das fotos de soldados na parede.

Bucky se preparou para que a pergunta fosse retribuída, era o momento de Savannah querer saber de onde ele e Sam se conheciam... Mas essa pergunta não veio e nem qualquer outra que fosse complicada de responder.

— O que vocês bebendo? — Ela se virou e sorriu para os dois.

— Cerveja. — Sam respondeu. — Quer que eu pego alguma coisa pra você?

— Pode deixar, eu pego. — Savannah moveu a mão no ar e seus olhos focaram em Bucky. — Outra?

Ele assentiu e a viu se afastar em direção ao balcão, sem conseguir tirar os olhos dela.

— Agora eu entendi a vantagem de morar naquela espelunca. — Sam bateu no ombro de Bucky duas vezes. — Nada mal hein!

— Não seja idiota. — Se desfez do toque, voltando a atenção para o amigo. Se é que dava pra chamar de “amigo”. — Não tem nada acontecendo.

— Eu não disse que tinha... — Sam riu, nada afetado pelo humor de Bucky. — Mas já que não tem nada acontecendo e você não parece interessado que alguma coisa aconteça, eu posso tentar a sorte, certo?

O sorriso de lado que Wilson deu denunciou sua armadilha boba, ele ainda estava bancando o cupido, tentando causar ciúmes.

— Á vontade... — Moveu os ombros como se fosse nada demais. Não achava que Sam fosse tentar nada de verdade, e mesmo que tentasse, Savannah não era propriedade de ninguém, Bucky não direito de impedir nada.

Tentou não se perturbar com esse pensamento, assim como tentou não alimentar o próprio ego quando Savannah voltou e lhe entregou a garrafa de cerveja, parando ao seu lado, e lhe presenteando com um daqueles sorriso-sol, enquanto o que ofertou a Sam era apenas um sorriso comum.

— Sabe jogar sinuca, Savy? — Wilson perguntou, enquanto circulava a mesa para continuar a partida.

Ela procurou Bucky com o olhar primeiro, então moveu os ombros:

— Mais ou menos...

Isso abriu margem para que Sam iniciasse uma aula de sinuca, falando das regras e dos movimentos, enquanto Bucky ficava calado encostado na mesa e Savannah ouvia, ora concordando ora apenas procurando pelos olhos azuis e mantendo a atenção neles por pelo menos três frases de Sam.

Trocaram um sorriso em certo momento, Bucky e ela, ele um tanto tímido e Savannah o verão ardente que era sempre, como se estivessem em um mundo à parte que ninguém mais podia alcançar. Foi quando Bucky realmente se deu conta da verdade: gostava muito mais de Savannah Devenport do que devia gostar...

— Entendeu? — Sam perguntou, atraindo a atenção da jovem e fazendo Bucky voltar a realidade.

Savannah moveu a cabeça positivamente, mesmo que certamente não tivesse escutado metade do que foi dito.

— Então toma... — Ele entregou um dos tacos pra ela, com um sorriso. — Bucky sabe dar umas boas tacadas. Ele vai te mostrando como faz, já volto.

E foi isso, ele simplesmente saiu em direção ao banheiro, lançando uma piscadela nada discreta para Bucky.

Então esse era o plano do ilustríssimo Falcão, Herdeiro do manto de Capitão América? Sério? Uma aula de sinuca? Bucky só não riu disso porque Savannah estava bem ali na frente e seria estranho...

— Assim? — Ela se curvou um pouco sobre a mesa e segurou o taco, enquanto sorria para Bucky.

Ele assentiu devagar, porque Savannah era linda demais para que conseguisse pensar em qualquer outra coisa naquele momento... A viu dar a tacada — uma perfeita tacada de efeito, que mesmo Bucky teria dificuldade em dar — lançando pelo menos metade das bolas direto nas caçapas.

— Achei que só soubesse jogar mais ou menos. — Ele acusou, não contendo um sorriso de lado e ela deu de ombros.

— Não gosto de me gabar. — Riu, dando alguns passos na direção de Bucky. — Mas trabalho em bares, lembra? Impossível não saber jogar.

Ela se encostou na mesa e Bucky vez o mesmo, depois de escolher o lado em que não deixaria o braço de vibranium perto dela.

— E por que não disse isso para o Sam? — Questionou, mesmo achando graça em toda aquela coisa de cupido ter dado muito errado.

— Ele estava muito empolgado falando sobre as regras, não quis cortar o barato dele. — Savannah deu de ombros, movendo o rosto para que seus olhos encontrassem os de Bucky. — Assim como não quis, quando ele me mandou mensagem do seu telefone.

Então ela sabia?

— Oh... — Fui tudo que ele conseguiu dizer, afinal sequer tinha conhecimento do conteúdo daquelas mensagens. — Eu... Me desculpa, se ele disse alguma coisa que...

Savannah riu, como se tudo aquilo não fosse nada demais, tirou o telefone do bolso traseiro e desbloqueou a tela, mostrando a mensagem completa para Bucky.

— Eu te conheço, você com certeza colocaria ponto de interrogação no fim de uma pergunta. Você escreve muito certo. — Ela apontou os detalhes. — E jamais me mandaria um emoji desses.

Bucky não sabia o que dizer, queria matar Sam pelo emoji sorrindo de canto com cara de criminoso tarado, mas ao mesmo tempo queria agradecer, porque era impressionante e adorável que Savannah o reconhecesse por um detalhe tão pequeno.

— E você veio mesmo assim... — Ele constatou, surpreso com esse fato.

— Digamos que eu estava com saudades do meu namorado falso e queria ver qual era o habitat natural dele. — Savannah respondeu, erguendo os olhos para Bucky novamente.

— Eu estava com saudades de minha namorada falsa também... — Ele devolveu, mesmo sabendo que não devia flertar com ela daquela forma, então desviou os olhos. — Mas esse com certeza não é meu habitat natural. É só o Sam que é muito convincente.

— Ele é legal. — Savannah declarou, alcançando a própria garrafa de cerveja e dando um gole nela.

— Não tanto a ponto de eu dizer isso em uma mensagem. — Bucky devolveu e os dois riram juntos.

É, Sam era legal, talvez ele não merecesse morrer afinal de contas...

Além disso Bucky pensou no jeito perfeito de ter sua vingança, porque quando Sam voltou, Savannah venceu dele três vezes seguidas na mesa de sinuca.

— Vocês dois me engaram... — Wilson acusou, enquanto Savannah comemorava pedindo outra rodada de cerveja.

— Você mereceu. — Bucky devolveu, notando que era incapaz de parar de sorrir.

— Vou deixar essa passar. — Sam moveu os ombros e ergueu a garrafa. — Um brinde ao rei e rainha da sinuca. Admito que perdi não posso ser foda em tudo, tem que ficar alguma coisa pra vocês meros mortais.

A próxima hora seguiu naquele clima divertido, foi quase um alivio para Bucky ver que Sam podia falar de muitas coisas que nem chegavam perto de assuntos “proibidos”, na verdade ele passou a primeira meia hora discutindo Marvin Gaye e dizendo que Savannah devia ensinar “o vizinho chato” a ter um gosto melhor para música, — e com “melhor” ele certamente quis dizer “atual”.

Mas Bucky não se importou com isso, na verdade tudo que conseguiu pensar no momento foi que, se Savannah fosse lhe ensinar a ter qualquer tipo de gosto musical teriam que passar mais tempo juntos e isso não parecia ruim...

Um pouco depois dessa conversa, Terry passou pela mesa para ver se precisavam de alguma coisa. Era um homem falante, gostava de contar histórias, tinha um sorriso fácil e um bom-humor contagiante, Bucky o admirou por sua fibra, um homem que tinha perdido as pernas na guerra e estava reconstruindo a vida.

— Isso é um violão? — Ele apontou para o estojo preto pendurado na cadeira.

— É sim, é o meu bebê, Red. — Savannah respondeu, mostrando o instrumento para o dono do bar.

— Vamos lá, fala agora “nossa você deu um nome para o seu violão?” — Sam murmurou para Bucky em uma imitação péssima.

— Cala a boca. — Devolveu, lançando um olhar repreensivo para o amigo

— E você toca? — Terry continuou a falar com Savannah, alheio a conversa dos outros dois.

— Mais ou menos. — A ruiva moveu os ombros e Bucky negou algumas vezes com um sorriso ladino, pelo visto ela tinha mania de dizer “mais ou menos” para coisas que fazia muito bem...

— Toca alguma coisa pra gente, então. — Terry incentivou animado, apontando para o pequeno palco. — Faz um tempo que eu quero ver se esse equipamento ainda funciona pra colocar alguma atração ao vivo aqui.

Savannah pareceu incerta, seus olhos seguiram para Bucky primeiro e ele sorriu, movendo a cabeça como se dissesse para ela seguir em frente.

— Vai lá, mostra o seu talento! — Sam foi bem mais efusivo.

Savannah se levantou então e contou com a ajuda de Terry para arrumar o equipamento de som.

Antes mesmo que puxasse um banquinho para se sentar, com o violão vermelho apoiado no colo, ela já tinha a atenção da plateia. E como não teria? Ficava perfeita ali, quase como se tivesse nascido pra isso.

Ela testou a afinação do violão, como se estivesse pensando no que tocar, seus olhos castanho-esverdeados focaram em Bucky, um longo momento como se houvesse algo muito importante passando na mente dela...

— Então... Essa é um clássico, alguns dizem que é a canção de amor mais bonita de todos os tempos. — Savannah riu de canto e encarou a plateia por um segundo. — Eu sou muito suspeita pra falar qualquer coisa sobre isso, primeiro porque eu adoro Elvis. — Algumas pessoas mostraram seu entusiasmo com assobios e outras com palmas. — E segundo porque... — Os olhos castanhos-esverdeados seguiram para Bucky, piscaram devagar, então ele foi presenteado com um sorriso-sol, antes que ela desviasse o rosto para a plateia. — Bom, o segundo motivo é um segredo.

Savannah riu de canto quando a plateia se manifestou.

— Essa é “Can’t Help Falling in Love”, do Elvis Presley. — Ela declarou, começando a dedilhar o violão, voltando os olhos para Bucky, como se tivesse intenção de cantar especificamente pra ele...

Homens sábios dizem
que apenas os tolos se entregam
Mas eu não consigo evitar
me apaixonar por você

Eu devo ficar?
Ou seria um pecado?
Se eu não conseguisse evitar
me apaixonar por você?

Como um rio que corre
certeiramente para o mar
Querido, algumas coisas estão
destinadas a acontecer

Então pegue a minha mão
Pegue minha vida inteira também
Porque eu não consigo evitar
me apaixonar por você...

Porque eu não consigo evitar
me apaixonar por você.

Quando a plateia explodiu em palmas e assobios, o coração de Bucky já estava aos saltos fazia tempo, desde a primeira estrofe, havia algo naquela música, na letra talvez, que tinha arrepiado todos os pelos de sua nuca... Ou talvez fosse a forma como Savannah tinha cantado; olhando pra ele o tempo todo, como se fosse algum tipo de declaração de amor...

O que obviamente não era, aquilo era apenas a presença de palco e o talento de Savannah que fazia com que Bucky tivesse aquela impressão, provavelmente todas as outras pessoas dentro do bar tiveram o mesmo sentimento que ele.

Além disso era apenas uma música, a letra que parecia tocar dentro de Bucky não tinha um significado real, ou tinha?

Parou por um segundo, assustado, nunca pensou que sentiria algo daquele tipo por ninguém que não fosse Steve, mesmo assim, de alguma forma, era totalmente diferente do sentimento que havia nutrido a vida toda pelo melhor amigo.

Talvez a música fosse real... Talvez não conseguisse evitar se apaixonar por Savannah...

— Obrigada... — Ela agradeceu à plateia que aplaudia e se curvou levemente.

— Canta mais! — Alguém gritou lá do fundo.

— É. Mais uma! — Outro apoiou. E logo eram dezenas de vozes pedindo por um bis.

Savannah sorriu, os olhos brilhando e as bochechas coradas, como se não houvesse outro lugar no mundo onde ela desejasse estar, não foi difícil para Bucky entender o quanto ela amava aquilo, assim como não foi difícil admitir para si mesmo que seu gosto musical a partir daquele momento seria exclusivamente “Savannah Devenport”.

Quando começou dedilhar outra vez, ela anunciou “Royals” de alguém chamada “Lorde”, uma música mais animada, que pelo que Bucky entendeu falava sobre se divertir mesmo sem dinheiro como todas as outras pessoas.

— Ela é boa... — Sam comentou, batendo palma no ritmo da música com o resto do pessoal.

Bucky concordou com um movimento de cabeça, sem conseguir tirar os olhos de Savannah, que tinha se levantado e provava que sua presença de palco era contagiante.

Sam parou de bater palmas então e ficou mais sério.

— E ela é boa pra você também... — A declaração fez com que Bucky virasse o rosto para Wilson. — Eu tentei te trazer aqui hoje pra ver se você relaxava um pouco e se encontrava o seu lugar com o pessoal. Mas agora eu vi que você já achou o seu lugar e a sua pessoa.

— Acho que você já bebeu demais hoje, Sam.... — Respondeu com um revisar de olhos, mas no fundo ficou constrangido com o comentário.

— Eu não estou bêbado, Bucky. — Sam retrucou voltando a bater palmas. — Eu sei o que estou falando.

No fundo Bucky desejou que o amigo estivesse certo, porque está por perto de Savannah lhe fazia bem, mas a verdade é que sabia que fosse o que fosse, tinha os dias contados... Porque quando ela descobrisse tudo, as coisas mudariam para sempre.

A música acabou e apesar dos pedidos Savannah não tocou outra, mas também não voltou para a mesa, porque Terry se aproximou dela e os dois começaram uma conversa que deixou Bucky um tanto tenso.

— Você nunca pensou em contar pra ela? — Sam perguntou do nada, também observando os dois. — Deixar que ela descubra sozinha pode ser péssimo...

— Não começa, Sam. — Bucky respondeu, porque não queria pensar em coisas que ele já sabia que eram verdade.

— É só uma pergunta... — Wilson ergueu as mãos em rendição. — O que você vai fazer? Esconder a verdade pra sempre?

Bucky não queria ser confrontado com aquelas perguntas, não queria dizer que na realidade já sabia de tudo aquilo e só estava esperando o fim eminente de sua amizade com Savannah. Não queria admitir que tinha deixado as coisas irem longe demais e agora a realidade lhe apavorava, porque tinha feito a grande besteira de se apaixonar por ela... Afinal era isso que tinha acontecido, certo? Bucky Barnes estava apaixonado por Savannah Devenport.

— Pra sempre é muito tempo. — Foi tudo que ele disse, tentando conter o tom amargo.

— E você não quer a Savannah na sua vida por muito tempo? — Sam devolveu, fazendo com que Bucky se sentisse ainda pior.

Claro que queria... Queria Savannah Devenport em sua vida por quanto tempo fosse possível, e mesmo todo o tempo possível talvez não fosse o bastante.

Tiveram que parar a conversa, porque ela se aproximou com Terry, tinha um daqueles sorrisos que podiam iluminar o bairro inteiro no rosto.

— Advinha só? — Praticamente saltitou para o lado de Bucky. — Sou uma moça empregada agora.

— Eu não podia perder um talento desses! — Terry riu, parando ao lado da mesa com sua cadeira de rodas.

— Não é? — Sam se envolveu na conversa e lançou um olhar nada discreto para Bucky. — Quando na vida que você ia encontrar outra Savannah por aí?

Savannah estava feliz, voltou a se sentar perto de Bucky, toda sorrisos e risadas, enquanto Terry oferecia uma rodada de bebidas por conta da casa, para que comemorassem.

Uma parte de Bucky estava feliz por ela, é claro, mas havia aquele algo urgente batendo em seu peito como um alerta, afinal tinham evitado informações comprometedoras por uma noite, mas com Savannah trabalhando ali, com certeza alguém contaria tudo sobre o Soldado Invernal muito mais cedo do que o esperado...

— Nossa acho que já deu minha hora. — Sam lançou, olhando o celular.

— Mas está tão cedo ainda. — Savannah rebateu e parecia ter energia o bastante para ficar acordada a madrugada inteira.

— Eu tenho mesmo que ir, mas o Bucky te faz companhia, não é? — Ele lançou um olhar para o amigo.

Bucky apenas assentiu, mas no fundo estava querendo esganar Sam Wilson, porque aquele certamente era outro planinho de cupido. Ele podia ter simplesmente oferecido uma carona para que todos fossem embora juntos.

Savannah pareceu satisfeita com a sugestão e qualquer coisa que Bucky tenha pensado em dizer depois disso ele engoliu, porque se ela queria ficar e parecia satisfeita com a companhia dele, então é claro que ficaria com ela.

— Tchau, Sam. — Ela levantou para se despedir. — Foi um prazer te conhecer. Temos que fazer mais vezes.

— Bom, algo me diz que a gente vai se ver muito ainda. — Wilson lançou dando um sorriso falsamente inocente na direção de Bucky.

Se despediu do amigo em seguida, Bucky murmurando ameaças de morte e Sam um “não me decepciona, cara”, que rendeu apenas um revirar exagerado de olhos. Depois passou no balcão e pagou a conta, se despedindo do restante do pessoal antes de ir.

Quando ficaram apenas Savannah e Bucky, ela se sentou um pouco mais perto e os dois pediram uma porção de fritas e uma rodada de refrigerantes ao invés de cervejas.

— Então você vai trabalhar aqui agora? — Bucky perguntou, enquanto esperavam o pedido.

— Só as sextas e sábados. — Savannah respondeu sem esconder sua felicidade. — Terry não quer se comprometer com mais que isso por enquanto, pelo bar ser novo.

Ele assentiu devagar, sem ter muito sucesso em disfarçar a tensão em seus olhos.

— O que foi? — Savannah moveu as sobrancelhas, o analisando com atenção. — Você não acha que é boa ideia?

— Não cabe a mim dizer isso... — Bucky devolveu e ambos pararam de falar para receber os refrigerantes.

— Você é meu amigo, James. — Savannah pegou a latinha e não conseguiu abrir, apenas estourou o lacre. — Eu gostaria de ouvir sua opinião.

Bucky respirou fundo, seria hipocrisia dizer que queria Savannah trabalhando ali, tão perto da verdade que ele estava decidido a esconder, ao mesmo tempo seria egoísmo expressar uma opinião contraria a isso, afinal ela tinha sido mandada embora de um serviço que não parecia muito seguro, além disso havia gostado muito do Soldier’s.

A segurança e a felicidade dela valiam mais para Bucky do que qualquer desejo próprio.

— É um bom lugar e eles são gente descente. — Ele sorriu, mesmo que tivesse certeza que aquele era o começo do fim de qualquer coisa que houvesse entre eles. — Você vai ficar bem aqui, Savannah.

— Eu também acho. — Ela concordou empolgada e voltou a atenção para a própria latinha que continuava fechada. — Além disso, quando o escroto do meu ex-padrão ligar me querendo de volta, vou ter o prazer de mandar ele tomar no cu.

Bucky riu do jeito como as palavras foram ditas, então abriu a própria lata de refrigerante e a trocou com a fechada, lidando com essa quando Joanne chegou com as fitas e atraiu a atenção de Savannah...

— Vamos jogar? — A ruiva convidou Bucky, apontando a mesa de sinuca.

— Com certeza, vai ser bom ter um jogo justo, porque o Sam é péssimo nisso. — Ele aceitou, se levantando e começando a arrumar a mesa.

Jogaram quatro partidas, falando sobre amenidades... ou melhor, Savannah falava e Bucky ouvia, tinha vontade de contar histórias sobre os amigos também, sobre como era jogar sinuca com o Comando Selvagem ou quem sabe algumas piadas de sua época, coisas que nunca poderia contar para as garotas dos anos 40, por serem consideradas indecorosas, mas que tinha certeza que fariam Savannah rir.

Porém não podia conversar sobre os momentos bons de sua vida, sem que isso gerasse perguntas sobre os momentos ruins... Então preferia ouvir ao invés de falar...

— Acho que me contento com um empate. — Declarou, ao final da segunda vitória de Savannah.

— Eu também... — Ela apoiou o taco na mesa. — Vamos embora?

Concordaram e recolheram as coisas na mesa, incluindo as comandas com o que haviam consumido. Joanne recebeu os dois com um sorriso e começou a fechar a conta.

— Eu pago. — Bucky avisou, tomando a frente.

— Nem pensar. — Savannah discordou, tentando passar por ele. — Eu vou...

— Quem convida paga, essas são as suas regras, lembra? — Ele ergueu o indicador direito em riste, impedindo Savannah de entregar o cartão.

— Mas quem me convidou foi o Sam... — Ela devolveu, balançando as ondas ruivas, enquanto Bucky ria da pose dela.

— Você jamais poderia provar isso em um tribunal, Boneca. — Ele brincou, e só quando os olhos avelã se estreitaram surpresos, foi que Bucky percebeu como tinha acabado de chamá-la.

Merda, procurou algo pra dizer em seguida, mas eles foram interrompidos pela voz de Joanne.

— Vocês são tão fofos. — O comentário parecia ter sido dito sem pensar e a jovem ficou toda vermelha quando recebeu o olhar dos dois.

— Eu também acho. — Savannah moveu os ombros como se Joanne não tivesse dito nada de constrangedor. — Mas isso é porque eu passei três vezes na fila da fofura. James passou uma só. — Ela mediu Bucky de cima a baixo como se pensasse. — Tudo bem, talvez ele tenha passado duas vezes...

Os três acabaram rindo, e Bucky não pode deixar de pensar que, por coisas como aquela, era tão fácil ficar perto de Savannah, ela encarava todas as situações da forma mais leve possível...

— Eu vou chamar o Uber. — Ela declarou, pegando o celular, logo depois de terem se despedido de Joanne.

Bucky sabia o que era um “Uber” porque tive que pesquisar quando Savannah citou isso outras vezes. Ainda era estranho para ele que tantas pessoas entrassem no carro de total desconhecidos e ainda pagassem por isso.... Mas naquele momento Bucky não pensou em segurança, ele pensou que se chamassem um carro, aquela noite terminaria ainda mais cedo.

— Por que a gente não vai andando? — Sugeriu, quando deixaram o Soldier’s e ele viu que fazia uma noite agradável.

— Está falando sério? — Savannah pareceu surpresa com isso.

— Não é tão longe. — Bucky moveu os ombros como se não fosse nada demais.

— Tudo bem. — Ela concordou erguendo as mãos. — Mas se eu ficar cansada de ser maravilhosa em cima desses saltos, você vai me carregar.

Bucky riu e meneou a cabeça de um lado para o outro, escolhendo de que lado ficar, assim mantinha o braço de vibranium longe dela, enquanto caminhavam. Pediu que entregasse o estojo com o violão e o colocou nas costas, para que ela não tivesse que levar peso extra.

— Igualzinho um Rock Star. — Ela brincou, o admirando por um segundo. — Vou te colocar em cima do palco junto comigo, aposto que atrairia público.

— Eu não acho que precisa de ajuda pra isso. Você brilha sozinha, como o Sol. — Bucky respondeu e recebeu um sorriso constrangido em resposta. Droga, estava flertando de novo.

Nos próximos minutos, entre uma conversa e outra, Bucky ficou pensando como seria quando não tivesse mais aquilo, quanto tempo levaria até que alguém revelasse o que ele tanto temia para Savannah?

— Eu costumava andar tudo isso aqui junto com um amigo quando era mais novo. — Ele falou de repente, tentando fugir dos próprios pensamentos.

Savannah o encarou por alguns segundos, provavelmente surpresa, afinal Bucky nunca dizia nada sobre o passado, então deu um daqueles sorrisos leve.

— Você gosta muito de andar... — Ela constatou, continuando a conversa em tom casual.

— Não era questão de gostar, às vezes não tínhamos nem o dinheiro da passagem, então andar era a solução. — Bucky deu um sorriso nostálgico ao lembrar de Steve parando em cada esquina para recuperar o fôlego.

— Isso sim é progresso, agora você tem um Harley. — Savannah apontou, mexendo no cabelo quando pararam para esperar o sinal fechar para os carros.

— Pois é, e eu teria trazido ela, se o Sam tivesse avisado que ia embora do nada. — Ele respondeu, meneando a cabeça enquanto os dois atravessavam a rua.

Estavam no quarteirão do prédio e Bucky sutilmente foi diminuindo a velocidade dos passos, para que não chegassem tão rápido.

— Ele deve ter montado o plano de cupido de última hora, dê um pouco de credito para o coitado. — Savannah comentou, caindo na risada.

Bucky devia ter ficado admirado por ela saber, mas a verdade é que Sam não tinha sido muito discreto... O que não devia surpreendê-lo era a forma bem-humorada como ela lidava com situações como aquela, mas aquilo sim o surpreendia sempre

— Você é muito perspicaz, não é mesmo? — Ele apontou, já sendo capaz de ver a faixada do prédio.

— É um dom. — Savannah respondeu movendo os ombros. — Mas você foi cruel, sabe? Podia ter contado pra ele que já estamos namorando oficialmente faz um tempo, pouparia o trabalho que ele teve em juntar a gente.

Riram os dois, a coisa de “namorados falsos” tinha virado um tipo de piada interna que Bucky se sentia estranhamente confortável em compartilhar com ela.

— Disse a garota que esconde os talentos natos com “mais ou menos”. — Ele retrucou, se referindo ao jogo de sinuca e ao talento de Savannah para cantar.

— Eu tenho que conservar um ou outro mistério ao meu redor, se não me torno desinteressante. — Ela brincou e eles foram parando conforme chegavam na marquise externa do prédio.

— Isso seria impossível... — Bucky respondeu, sabendo que era a pura verdade, ao mesmo tempo em que pensava que o assunto do “mistério” seria uma boa forma de começar conversas reveladoras.

Os olhos castanho-esverdeado pararem nele então, e Bucky soube que aquela era a oportunidade perfeita para contar a verdade sobre si mesmo.

— Savannah... — Começou, antes que ela desse o último passo que separava os limites do prédio e da calçada.

Era isso, era só dizer: “Falando de mistérios... Tem uma coisa que eu não te contei sobre mim... Eu sou o...” Bucky não conseguiu terminar a frase nem mesmo dentro da própria mente, as palavras não saíram de sua garganta.

Diria a verdade e depois? Não suportaria ver a decepção naqueles olhos cor de avelã, não suportaria que Savannah lhe visse como o assassino que ele era. Não podia falar. Não conseguia. Era covarde demais pra isso.

— James...? — Ela chamou o nome em expectativa.

E tudo que Bucky conseguia pensar é que provavelmente era uma despedida, porque depois daquela noite, quando se vissem outra vez, Savannah de certo já saberia toda a verdade, alguém no Soldier’s comentaria, se não fosse sobre o próprio Soldado Invernal, seria sobre o ilustre Falcão. E ela saberia finalmente.

Era então a última vez que aquelas íris castanhas-esverdeadas lhe olhavam daquela forma... Por que talvez Savannah não o repudiasse, porque ela não era assim, ela era boa demais pra isso, mas as coisas mudariam certamente.

E se era a última vez, então talvez ele pudesse...

Assim que o pensamento surgiu na mente de Bucky, ele ergueu a mão direita e tocou o rosto de Savannah com a ponta dos dedos, arrumou os fios ruivos que voavam com a brisa fraca e ambos deram um passo para mais perto um do outro.

Sim, talvez ele pudesse beijá-la uma primeira e última vez, apenas para guardar essa doce lembrança em sua mente, junto de todas as memórias tortuosas que tinha...

Escorregou os dedos pela bochecha de Savannah e tocou-lhe o queixo, sem que ela oferecesse qualquer resistência, quase como se ansiasse por isso, tanto quanto Bucky. Ela entre abriu os lábios e respirou por eles, enquanto impulsionava o corpo na ponta dos pés, porque mesmo de salto a diferença de altura entre eles permanecia.

Bucky moveu o rosto na direção dela, os olhos ainda presos um no outro... Já podia sentir o hálito quente de encontro ao seu, quando a sirene de um carro de polícia soou, fazendo com que levassem um susto e se afastassem.

— Boa noite... — Dominic Castillo encarou os dois através do vidro aberto de seu carro.

Estava no banco do motorista, vestido à paisana e com um veículo de passeio sem símbolo da polícia, por mais que uma sirene solitária estivesse fixada no teto do carro.

— Algum problema? — Savannah pareceu nada satisfeita em ver o homem ali, enquanto Bucky desconfiou imediatamente.

— Ronda de rotina. Pra pegar desavisados. — Ele moveu os olhos de Bucky para Savannah devagar. — Você disse pra eu ficar de olho nas atividades suspeitas, eu estou.

O Soldado não gostava da forma como o policial lhe encarava, tinha um alerta em sua mente naquele momento, mas Bucky tentava convencer a si mesmo que era apenas paranoia.

— Uau, funcionário do mês. — Savannah ironizou, batendo uma única palma. — Merece até um tapinha nas costas.

Ficou explícito na expressão de Castillo que ele não tinha gostado nada do que tinha ouvido.

— Segundo a lei, você já estaria na cadeia por tanto desacato. — Ele lançou, mas sem qualquer tom de irritação na voz.

Savannah estava pronta para retrucar, mas Bucky segurou a mão dela.

— Não vale a pena... — Sussurrou, pedindo calma com um olhar.

Claro que jamais deixaria que aquele policial tocasse nela, muito menos que a levasse presa, mas bancar o assassino soviético pra cima de um oficial da lei parecia um péssimo jeito de terminar aquela noite. Torceu para que não tivesse que chegar a isso.

— Vocês parecem muito amigos... — Dominic comentou, olhando de um para o outro, deixando claro que não tinha intenção de parar de incomodar.

Ele tinha uma coisa com Savannah, claramente. E isso começou a irritar Bucky, mais do que era sensato irritar.

— Algum problema com isso? — Retrucou, e ouviu um pouco do sotaque soviético escorrer de suas próprias palavras. Merda.

O policial não respondeu de imediato, apenas encarou Bucky por um longo momento, então fixou sua atenção em Savannah.

— Você sabe quem ele é? — A pergunta fez com que todos os músculos do Soldado congelassem e travassem.

Savannah não respondeu. Dominic pegou algo no porta-luvas e desceu do carro com um arquivo em mãos.

— Eu achei que conhecia de algum lugar da última vez que vi, demorou um pouco, mas eu finalmente lembrei. — Entregou os papeis na mão de Savannah... — Só tive que fazer uma pesquisa rápida.

Poucos arquivos de polícia; muitos recortes de jornal; coisas sobre a bomba que Zemo tinha plantado; sobre Bucky fugindo do governo na Roménia; e reportagens de antes disso, de Washington e mais. Era impressionante o quanto de material ele tinha conseguido juntar...

— Soldado Invernal. — Dominic disse as suas palavras para Savannah e Bucky sentiu algo dentro dele se partir em mil pedaços diferentes. — Assassino treinado, responsável por tantas mortes que sequer dá pra contar...

Sabia que um dia aconteceria. Sabia que a verdade viria cedo ou tarde, mas nunca imaginou que seria daquele jeito... Se sentiu um fugitivo de novo, perdido, sozinho, sabendo que era culpado de tudo e de muito mais.

Sequer teve coragem de baixar virar o rosto na direção de Savannah, já sabia que era o fim da única coisa boa que tinha acontecido com ele em muito, muito tempo...

Notas finais
Link da música que a Savy canta: https://www.youtube.com/watch?v=ot_PSoyJqKk "Como se tornar o personagem mais odiado de uma história - um tutorial by Dominic Castillo" E agora é que são elas, não é? Mas espera que tem muita coisa além desse fim... 1º Bucky sorriu o tempo TODINHO, e chamou ela de BONECA, não tenho estruturas pra isso gente eu sou iludida demais por esse homem. 2º Savannah cantando pra ele (porque óbvio que foi pra ele) e ele se dando conta que a letra também expressava o que ele próprio sentia é disparado meu momento preferido até agora (cês pensam que eu sou coração peludo, porque faço os personagens sofrerem, mas eu amo um romance fofinho gente, esse é meu segredo) E por ultimo (porque senão eu falo até amanhã aqui) Conheçam o boy de vocês igual a Savannah conhecesse o dela, só isso mesmo. E agora, hein? Como vocês acham que a Savy vai reagir? O próximo capitulo se chama "Verdades" Beijos e até breve PS: Sam sobreviveu, mas algo me diz que os dias do Dom estão contados, porque se não for pelas mão de algum personagem, vai ser pela mão de vocês kkkkkkk