Inverno Ardente
11 Gus
Notas iniciais

— E ás vezes eu não sei se posso mais fazer isso... — O homem declarou, sem encarar os outros ao redor dele. — Eu soquei um homem que só queria uma informação. Ele tocou meu ombro e eu agi antes de pensar...
Seu suspiro veio pesado e longo.
— Às vezes é como se eu ainda estivesse lá, como se eu saísse da guerra, mas a guerra nunca saísse de mim... — Ele continuou, erguendo o olhar e encarando os companheiros. — Vocês entendem isso?
Todos concordaram, sem qualquer exceção.... Mesmo Bucky Barnes, parado a uma distância segura e discreta do grupo, também concordou, sabia exatamente como era se sentir preso dentro de uma situação, no caso dele não era a guerra em si, e sim o gelo, a morte e o sangue.
— E o que faz nesses casos, Zack? — Sam Wilson perguntou, com uma calmaria invejável.
— Eu pedi desculpas e me tranquei em casa pela próxima semana, é o que eu sempre faço, até que você foi lá me buscar. — O homem chamado Zack respondeu e Sam se levantou de sua cadeira, para se apoiar no encosto dela e encarar os outros na roda.
— A fuga é um comportamento padrão, a gente pensa constantemente que se afastar das pessoas é o melhor, tanto pra elas quando para nós mesmos... Mas a verdade é que isso apenas mantém nosso cérebro focado no problema. — Sam começou a discursar e Bucky sabia que era um indicativo que a reunião estava no fim. — Precisamos seguir em frente, nos isolarmos não é a resposta, nosso cérebro precisa entender que tudo está bem agora e que aquela situação, por mais horrível que tenha sido, ficou para trás. Não digo que é tarefa fácil, não é.... É lento e às vezes doloroso superar nossos traumas, mas se tivermos um sistema de apoio forte eles vão estar lá para nos dar forças quando não pudermos ser fortes sozinhos, por isso é tão importante buscar ajuda profissional e não afastar as pessoas.
Sam se moveu e Bucky fez o mesmo para não ser visto.
— Nossos amigos e família são muito importantes dentro do processo de cura...
Bucky deu alguns passos para trás, aquilo não era muito diferente do que já tinha ouvido Wilson dizer nas duas últimas semanas em que havia começado a ir até ali. Nunca chegou a entrar na sala de fato e nunca permitiu que fosse visto pelos outros, mas tinha que admitir que gostava de ir até lá e ouvir o que todas aquelas pessoas tinham para dizer.
Sam comandava o grupo para os veteranos, mas aquele não era o único grupo de apoio dentro do espaço, na verdade havia um daqueles para praticamente tudo, menos para supersoldados mantidos no gelo por várias décadas. Bucky não entendia por que tinha passado a gostar de ir até ali e ouvir as pessoas... sequer sabia se isso lhe fazia bem ou mal, mas o fato é que ia todos os dias e ficada do lado de fora de qualquer que fosse a reunião do momento.
Podia ter contado a Sam, podia entrar e se sentar com aquelas pessoas, mas não sabia se estava pronto pra isso ainda...
Por isso deixou o local tão discretamente quando tinha chegado. Virou a esquina e já estava ao lado da moto quando seu celular vibrou no bolso traseiro. Um sorriso involuntário surgiu no rosto de Bucky quando ele viu uma notificação de Savannah na tela.
Depois da noite de chuva no telhado os dois estavam um pouco mais próximos, não que tivessem se encontrado pessoalmente, Savannah tinha ficado atarefada com o serviço e com o fato de estar gravando uma demo naqueles últimos dias, mas ela tinha passado a mandar mensagens e logo aquilo virou uma constante entre os dois.
Começou com Savannah mandando vídeos de gato e aos poucos as conversas eram mais extensas, porque ela gostava de falar de tudo, dos amigos, das músicas e de qualquer outra coisa... Bucky teve que descobrir o que eram memes, mesmo que raramente entendesse os que Savannah mandava.
Gostava de receber mensagens dela, mesmo que não fosse tão prático digitar com uma só mão, afinal a luva não funcionava no touchscreen e, mesmo quando não estava com a peça de couro, parecia que os dedos de vibranium quebrariam a tela do celular a qualquer momento. Por isso ele acabou descobrindo que era mais fácil mandar áudio e o melhor de tudo, se mandasse áudios para Savannah ela geralmente respondia com áudios também.
E Bucky adorava ouvir a voz dela... mesmo que nunca fosse admitir isso para ninguém.
Então o histórico de mensagens deles era um compilado de vídeos engraçados de gatos ou qualquer outro animal, dezenas de mensagens de Savannah falando sobre a própria vida e dizendo que eles tinham que comer pizza ou subir em telhados qualquer hora, e Bucky basicamente mandando fotos de Alpine. Porque adorava tirar fotos da gatinha e Savannah parecia amar cada uma delas.
A mensagem em questão era um vídeo curto e um áudio. Bucky viu o vídeo primeiro; era um pequeno ratinho de pelúcia que se movia por uma superfície plana, o áudio explicou o que era:
— Olha só o que eu achei, em uma feirinha aqui perto do Forest Park. — Savannah parecia animada — Tem como dar corda e vem com catnip dentro. Vou comprar. Acha que a Alpine é muito nova pra ficar chapada?
Ela riu no fim do áudio e ele sorriu sem perceber... Savannah mandava muitos áudios rindo e, às vezes, durante a noite, Bucky os escutava de novo e de novo, como se fossem um tipo de mantra ou oração.
Algumas pessoas tinham o costume de acender a luz para espantar os terrores noturnos, mas Bucky Barnes simplesmente ouvia os áudios de Savannah rindo...
Não era a primeira vez que tinham uma conversa sobre catnip — a famosa erva de gato — Savannah adorava os vídeos em que os bichanos estavam eufóricos por causa da erva, e vivia falando disso.
Bucky achou incrivelmente adorável que ela se lembrasse de Alpine daquele jeito e podia até ter dito que Savannah não precisava comprar nada, mas a verdade é que se ela comprasse o brinquedo, os dois teriam que se ver... E talvez quisesse muito vê-la, nem que fosse por um curto momento.
— Acho que o tempo passa diferente para os gatos... Ela já deve ser adolescente agora, até age assim quando me encara com aqueles olhinhos adoravelmente assassinos. — Ele respondeu, gravando um áudio. — Além disso, o que de pior pode acontecer além da Alpine destruir meu apartamento, não é mesmo?
Ainda era estranho fazer piadas, mesmo que tivesse notado que vinha fazendo algumas com certa frequência quando mandava áudios para Savannah. Ela tinha esse tipo de efeito nele.
A resposta chegou alguns segundos depois.
— Ótimo, vou levar. — O áudio dizia, e Savannah parecia falar com Bucky e outra pessoa ao mesmo tempo, provavelmente o vendedor. — Mas e aí, está fazendo o que de bom?
— Nada, estou voltando pra casa... — Bucky gravou, enquanto subia na moto.
Não precisava perguntar o que ela estava fazendo, afinal prestava atenção em seus áudios e há dois dias Savannah tinha dito que estaria com August para um dia de compras.
August Jones — ou simplesmente Gus como ela chamava — era um dos amigos de Savannah, namorado de TJ, Bucky tinha ouvido a ruiva falar dele algumas vezes. Estudava moda na Universidade de Nova York e morava no Queens com os tios, depois de ter sido expulso de casa pelos pais.
Bucky se lembrava de ter perguntado que tipos de pais expulsariam o próprio filho e Savannah respondera que aconteceu depois que ele se “assumiu”. Obviamente Bucky não entendia o sentido da palavra na época, mas depois de começar a conversar frequentemente com Savannah ele teve que se “atualizar” das coisas e dos termos que ela usava mais.
Felizmente foi útil que Sam tivesse dito o básico sobre como usar o google, assim Bucky pode fazer suas próprias pesquisas. Descobriu que “se assumir” ou “sair do armário” eram termos usados para quando alguém revelava suas orientações sexuais.
Na noite em que esteve no apartamento de Savannah, ele pensou que as coisas fossem mais simples no presente, mas pelo visto o preconceito com quem não seguia o padrão era muito grande ainda, embora cada vez mais pessoas aceitassem que existia mais de uma sexualidade.
Bucky descobriu que havia uma grande comunidade para pessoas não-heterossexuais, o tipo de coisa quase utópica que ele jamais sonharia existir nos anos 40, porque naquela época ou você era normal ou era abominado pela sociedade...
Eram muitos termos e gírias novos, ele ainda não conseguia entender totalmente, mas foi bastante libertador descobrir que não tinha nada errado consigo, que milhares, quem sabe até milhões, de pessoas também gostavam de mais de um gênero ao mesmo tempo. E existia um nome para isso: Bissexual.
Foi interessante descobrir aquela palavra e se sentir normal no único ponto em que nunca tinha se considerado normal a vida toda...
Havia uma sigla extensa que englobava todas as sexualidades, vários rótulos e definições. Bucky já tinha sentido vontade de perguntar a Savannah com qual das letras ela se identificava, mas achou que fosse invasivo demais perguntar.
Uma hora ou outra ela acabaria falando...
Outra mensagem chegou antes que Bucky ligasse a moto:
— Eu estou com o Gus. — Savannah falou no áudio e Bucky achou engraçado ela pensar que ele não tinha gravado essa informação. — Viemos comprar algumas coisas pra montar um figurino novo pra mim e... — Ela fez uma pausa brusca. — Mas que porra!
Então o áudio cortou.
— Savannah? Tudo bem? — Bucky mandou outro logo em seguida.
Ouviu o anterior novamente e ficou com a impressão de que havia algo muito errado. Sua mente começou a trabalhar rápido criando situações nada boas e o sangue passou a bombear depressa por suas veias.
A resposta não chegava, ela sequer visualizava a mensagem. Bucky tentou ligar mais ninguém atendeu.
— Merda!
Colocou o capacete e ligou moto, sequer pensando antes de pegar a avenida para o Forest Park, afinal era onde Savannah tinha dito que estava.
Acelerou ao máximo, cortando o trânsito e furando os faróis vermelhos com agilidade. Não se importou em deixar o Soldado assumir seus instintos, ignorou totalmente o fio de sensatez em sua mente que dizia que talvez não fosse nada.
Era como se pudesse sentir o perigo iminente em suas próprias veias, sabia que não estava tudo bem. Ou talvez fosse o maldito TEPT que tanto ouvia Sam falar nas reuniões dos veteranos. De qualquer forma, naquele momento não importava, Bucky só precisava se certificar que Savannah estava bem.
Quando os pneus cantaram no asfalto e a moto finalmente parou do outro lado da praça. Bucky já tinha os olhos vasculhando cada canto do lugar, mas os fios ruivos de Savannah não estavam em parte alguma.
As pessoas iam e vinham entre as barracas da feira noturna, rindo, tomando sorvete ou comendo qualquer coisa que cheirava apenas a gordura no olfato de Bucky.
— Onde você está, Savannah? — Ele murmurava quase pra si mesmo, andando em passos apressados no meio de toda a movimentação da praça.
Avistou a barraca do vídeo em uma das fileiras e parou ali na frente, tentando controlar a urgência em cada movimento.
— Tinha uma garota aqui agora pouco, ruiva, baixinha, muito bonita, ela... — Ele começou a descrever e o velhinho responsável pela barraca sorriu.
— Ah sim, ela estava aqui. Mas parece que o menino que estava com ela encontrou uns amigos. Foram por ali. — Ele apontou o outro lado da avenida e Bucky mal agradeceu antes de se virar.
Bucky não tirou um momento para ponderar a palavra “amigos” na frase, não pensou que talvez não fosse tão ruim, apenas caminhou para o lugar indicado apressadamente.
Já estava do outro lado da rua quando ouviu um grito que fez tudo dentro de si congelar.
Savannah!
Todos os outros sons se foram, o Soldado Invernal deixou de ver qualquer coisa a seu redor que não fosse o caminho de onde vinha a voz dela.
Cem metros e uma pequena curva a direita. Estavam em um beco escuro, afastados do movimento da avenida. Eram quatro, todos do tipo garoto branco e rico, roupas caras e cabelos bem cortados.
Dois deles chutavam um garoto no chão, — que certamente era August — o terceiro filmava tudo em um aparelho de celular de última geração e o outro tentava conter Savannah, que se debatia e gritava.
Bucky estava há alguns passos do beco, quando Savannah deu uma cotovelada violenta em seu agressor e ele a soltou por impulso. Ela o chutou no meio das pernas e tentou se virar para avançar nos outros dois, mas foi puxada pelo cabelo pelo do celular e acabou imobilizada contra a parede. A garganta era apertada pelo idiota com o celular, que parecia se divertir com a situação.
Enquanto os outros dois continuavam chutando Gus e proferindo todo tipo de xingamentos e humilhações o primeiro se reestabeleceu rapidamente e avançou na direção de Savannah com um pequeno canivete em punho.
— Eu vou ensinar você a ser uma menina boazinha, belezinha. — Ele riu e em resposta a ruiva cuspiu na cara dele.
Fui tudo rápido demais. Em um segundo canivete estava na direção do rosto de Savannah e no outro a lâmina estava no chão, pois a mão do garoto estava presa pelo punho de vibranium do Soldado Invernal.
O grito que cortou o ar abafou o som dos ossos se quebrando, quando Bucky apertou os dedos do idiota sem qualquer cuidado. O jogou para o lado como se fosse um boneco de pano e sequer lançou um segundo olhar enquanto o maldito se encolhia em um canto.
A próxima coisa a virar pó sobre o punho de vibranium foi o aparelho celular do segundo agressor. Bucky o segurou pela gola da camisa cara, ao mesmo tempo em que Savannah se via livre e corria até Gus, já que os outros dois haviam se afastado do rapaz para avançar no Soldado Invernal.
— Gus... — Bucky pode ouvir a voz doce de Savannah, enquanto desviava facilmente de um golpe — Você está bem?
Um dos garotos idiotas recuperou o canivete no chão. O braço de vibranium de Bucky segurava o rosto de um deles contra os tijolos da parede lateral. Ele sequer estava lutando com os panacas, era mais uma luta contra si mesmo para não destroçar cada um deles.
Com a mão oposta ele lidava com os outros dois. O garoto na parede gritava e chorava, implorava um pedido de desculpas que só servia para irritar o Soldado ainda mais. Com uma facilidade irrisória Bucky derrubou outro, estão apoiou o pé na jugular dele para mantê-lo no chão.
O último tentou atingi-lo com o canivete, o que obviamente não deu certo, pois lâminas eram uma das especialidades do Soldado Invernal... Em um piscar de olhos o objeto já estava girando com destreza entre os dedos de sua mão direita.
Com uma agilidade impressionante, Bucky soltou os dois garotos e encurralou o último na parede, a lâmina fez o caminho limpo e certeiro para o olho direito do agressor... O Soldado Invernal queria ver sangue.
Mas Bucky deteve o movimento um segundo antes que de fato tocasse íris do garoto idiota.
— Vybirat'sya! — Ordenou com a voz fria e demorou alguns segundos para perceber que tinha acabado de falar em russo. Sua intenção era dizer “Saiam”, mas não tinha planejado fazer isso em outra língua.
No entanto os malditos agressores não precisaram entender a palavra, eles estavam apavorados o bastante para saírem, se apoiando uns nos outros. Covardes malditos.
Bucky teve que respirar fundo para conter a própria fúria, porque não queria deixar que aqueles merdinhas saíssem ilesos daquilo... Mas não podia simplesmente matar os quatro naquele beco, por mais que merecessem.
Só voltou realmente a si quando a voz de Savannah lhe despertou.
— A gente tem que te levar pro hospital. — Ela falava com o amigo.
Bucky se perguntou quanto de toda aquela violência os dois teriam visto na penumbra do beco, mas nenhum deles lhe encarava naquele momento e ele não sabia se podia se aproximar. O que devia dizer?
— Não, eu estou bem. — Gus respondeu, enquanto se levantava, apoiado em Savannah. Ele não parecia bem. — Não gosto de hospital você sabe, Savy.
Savannah não respondeu, mas a forma como soltou o ar pelo nariz foi o bastante para que Bucky soubesse que ela não tinha gostado do que ouviu.
Ela ainda estava virada para August e Bucky ansiava pelos olhos castanho-esverdeados. Precisava olhar no fundo deles para saber se as coisas ainda eram iguais, ou se tinha feito algo que estragou aquilo pra sempre.
— Valeu, cara. — Gus foi o primeiro erguer a cabeça na direção de Bucky. — Tenho que aprender uns golpes desses, talvez da próxima vez eu apanhe menos.
O garoto riu, ou ao menos tentou, já que fez uma careta de dor, antes que o som em sua garganta se tornasse uma risada de fato. Bucky não entendia como ele conseguia manter o bom-humor depois do que tinha acabado de acontecer.
Então Savannah finalmente moveu os olhos em direção aos azuis, as íris castanhas estavam mais verdes por causa das lágrimas ainda acumuladas nelas, a preocupação e medo estavam ali tão claros quanto um céu sem nuvens.
Ela está com medo de mim, é claro que está, como não estaria depois de tudo isso? Foi a primeira coisa que Bucky conseguiu pensar e trincou os dentes de ódio de si mesmo.
Mas Savannah tocou seu braço direito com carinho, observando seu rosto atentamente.
— Você está bem? — Ela perguntou e só então Bucky entendeu todos os sentimentos no olhar castanho-esverdeado...
Ela está preocupada comigo... Ele não soube como reagir a esse pensamento, porque era quase engraçado, afinal ele era o Soldado Invernal e aqueles idiotas agressores sequer tinham ficado perto de tocar nele e, ao mesmo tempo, era adorável que Savannah arrumasse um tempinho para se preocupar com ele em uma situação como aquela.
Moveu a cabeça de forma positiva e notou que Gus cutucou a amiga — não tão — discretamente.
— Ah, esse é o... — Ela começou, como se tivesse acabado de lembrar que devia apresentar os dois.
— Bucky... — Ele próprio completou, antes que Savannah dissesse “James”, ela podia guardar o apelido pra si mesma apenas.
— O famoso... — August declarou em um tom engraçado — Eu sou o Gus, prazer em te conhecer.
Trocaram um cumprimento rápido e Bucky se moveu para ajudar Gus a andar para fora do beco, ainda não tinha entendido o “famoso”, mas resolveu deixar isso de lado, porque haviam coisas mais importantes para perguntar.
— O que aconteceu? — Questionou e Savannah deu um suspiro pesado.
— O de sempre, alguém decidiu que eu sou um merda e não mereço viver. — Gus tentou mover os ombros enquanto ria, mas apenas arfou de dor. — Eu sou um garoto preto e queer, não me encaixo em nenhum padrão, ser o saco de pancada de homofóbico e racista é meio que minha configuração padrão.
Bucky não conseguiu acreditar que ele de fato riu do que tinha acabado de dizer. Não era engraçado. Era terrível.
— Não tem graça, Gus. — Savannah repreendeu. — Já falei que esse seu humor duvidoso tem um limite.
— É humor-negro, Savy. Eu sou negro. Então é meio que meu lance. — August rebateu e Bucky achou outra piada de péssimo gosto.
— Eu já disse que não tem graça. — Savannah reforçou e parecia um tanto irritada. — Isso é sério, e você trata como piada.
— E o que você quer que eu faça, Savy? — Ele devolveu e dessa vez não havia qualquer humor em sua voz. — Quer que eu chore? Eu já cansei das lágrimas toda vez que alguém diz algo terrível, toda vez que alguém me soca e toda vez que agem como se eu não fosse digno de viver nessa merda de país. Quer que eu vá na polícia? Eles olham pra minha cara e a primeira coisa que pensam é que me envolvi em uma briga de gangues ou que fiz por merecer, metade deles me daria um tiro na cara se pudesse...
Gus arfou desconfortável, Bucky entendeu que era bem mais que a dor física ali, era algo que ele nunca entenderia plenamente, mas que mesmo sem entender tinha o poder de fazer seu estômago de puro ódio daquela situação toda, não era justo.
— A gente luta e protesta, mas na prática o mundo ainda tem muito mais ódio que amor e a merda das leis nunca funcionam de verdade. — Gus continuou e o desgosto em sua voz era palpável. — E eu estou cansado de chorar por isso. Estou cansado de ir ao hospital e aos policiais. Então sim eu vou fazer piada da minha desgraça com um monte de sarcasmo e humor-negro mesmo. Não posso controlar o ódio deles, mas posso não deixar estragar ainda mais meu dia.
Bucky queria dizer alguma coisa, queria fazer alguma coisa, mas aquele problema parecia muito maior que ele.
Savannah por sua vez tinha olhos tão tristes que era de partir o coração. Mesmo ela, que sempre tinha algo bom e esperançoso pra dizer ficou sem palavras.
— O carro está ali. — Gus apontou e foi para lá que os três seguiram em um silêncio que parecia estrangular a garganta de Bucky.
August entrou primeiro, se ajeitou no banco do passageiro como pode e entregou a chave para Savannah.
— Agora sei porque meu namorado não perde uma oportunidade de falar de você... — Ele sorriu para Bucky através de janela. Quase como se a situação anterior não tivesse acontecido. — Muito prazer a propósito e valeu por bancar o Vingador.
Bucky engoliu em seco. Com certeza não era um Vingador... Ainda estava sem-jeito, pensando no que dizer, quando o celular de Gus tocou. Através da tela quebrada o nome “Bebê ❤” ainda podia ser visto.
August respirou bem fundo, então sorriu de canto.
— Acho que vou ter que contar a verdade... — Ele riu daquele jeito meio irônico meio sarcástico e então revirou os olhos e Bucky se afastou para dar alguma privacidade.
Savannah estava encostada no capô, os braços cruzados e os olhos perdidos em um ponto fixo.
— Você está bem? — Bucky perguntou, parando ao lado e se certificando de assumir o lugar que manteria seu braço de vibranium longe dela.
Savannah moveu a cabeça em negativa, sem de fato olhar para Bucky.
— Nem sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado... — Ela murmurou com a voz tremendo. — Eles o coagiram a ir para o beco e eu só... eu não podia ficar parada ali.
Não foi difícil para Bucky visualizar a situação, eles tinham um canivete afinal, com certeza usaram isso para intimidar August. Ele podia ter dito que Savannah devia ter buscado ajuda primeiro, mas nada disso ajudaria naquele momento.
— Ele diz que não se importa, ele banca o forte, mas eu sei que é só uma forma de se proteger... Não tem como não se abalar com uma coisa dessas. — Savannah lamentou com um suspiro profundo, então Bucky fez a única coisa que podia e segurou a mão dela.
Isso fez com que os olhos castanhos se movessem em sua direção.
— Obrigada. — Ela deu um sorriso quase apagado e entrelaçou os dedos nos dele.
— Eu estava por perto e pareceu que você estava com problemas no último áudio. — Explicou, mesmo que Savannah não tivesse feito pergunta nenhuma. Ela nunca fazia.
Outro sorriso quase triste e silêncio, ambos podiam ouvir algumas palavras soltas de Gus, mas isso era tudo. Bucky procurou algo para dizer, porém não encontrou nada que de fato fosse ajudar.
Sabia que tinha que soltar a mão de Savannah, mas não sentia qualquer vontade de fazer isso naquele momento e ela também não parecia preocupada em se afastar, muito pelo contrário, se aproximou ainda mais e encostou a cabeça no ombro de Bucky.
Ele ficou aliviado por ter escolhido o lado certo para se sentar, porque jamais poderia deixar que um contato daquele tipo acontecesse com o braço de vibranium...
— Eu com certeza não vou conseguir convencer o cabeça dura a ir no hospital. — Savannah comentou contrariada. — Espero que o TJ tenha mais sorte, e o convença a ir na polícia também...
Ela nem bem tinha falado isso e um carro de polícia virou a esquina. Bucky sentiu a tensão se espalhar por seu corpo instantaneamente. Não tinha um bom histórico com autoridades.
— Ah, é claro, agora a polícia aparece, que pertinente. — Savannah se afastou um pouco e também não pareceu nada contente em ver o carro se aproximando devagar.
Logo as mãos dos dois não estavam mais unidas e havia um forte facho de luz, vindo de uma lanterna, no rosto dela.
— Devenport... — O policial no banco do passageiro a olhou de dentro do caro. Ele a conhecia...
Bucky pode ver o nome na placa de identificação: Dominic Castillo. Era um homem latino que devia ter algo entre trinta e quarenta anos, tinha cabelo negros cortados baixo e um cavanhaque bem feito.
Savannah não respondeu, na verdade pareceu ainda mais irritada. Cruzou os braços e desviou o rosto, com isso a lanterna seguiu para dentro do carro.
— O que aconteceu com você, garoto? — O policial questionou depois de analisar a aparência de Gus.
Bucky ficou ainda mais tenso, assim que a história fosse contada ele estaria bem no meio de uma investigação policial...
— A vida aconteceu, policial. — August respondeu casualmente, sem dar qualquer indício de que falaria qualquer coisa sobre a agressão ou sobre os agressores.
— Só isso? — O policial estreitou os olhos desconfiado.
Savannah olhou por cima do ombro e talvez olhos desatentos perdessem isso, mas ela e Gus tiveram um tipo de conversa rápida e muda em um segundo. Bucky notou com clareza, os policiais não...
— Você ouviu o meu amigo... — Ela se voltou para o homem no carro e deu de ombros. — Foi só a vida.
Dominic Castillo não pareceu satisfeito com isso, então focou pela primeira vez a luz em Bucky, o analisando por um longo momento.
— Como é o seu nome, senhor? — Questionou, e o olhar em seu rosto era suspeito o bastante para que Barnes pensasse que podia ser descoberto a qualquer momento.
— Bucky. — Respondeu a contragosto e a luz permaneceu em seus olhos mais tempo que o necessário.
— Bucky? — O policial repetiu em tom de deboche. — Que tipo de nome é “Bucky”?
— Achei que seu trabalho fosse prender criminosos e não julgar o nome das pessoas. — Savannah cortou, antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa. — Então, estamos sendo acusados de algum crime, ou...?
— Já chega, Dom. — O outro policial falou, e estava prestes a dar partida de novo.
— Espera. — Dominic pediu, passando a lanterna nos olhos dos três outra vez. — Tem certeza que está tudo bem, Devenport?
— É claro que não está tudo bem. — Savannah retrucou irritada — Ryan Porter ainda está por aí. Indo e vindo como uma mosca varejeira e batendo na mulher dele a cada volta. — Ela desencostou do carro sem qualquer medo de encarar o policial de cima. — Devia estar preocupado com isso, ao invés de encher a paciência de gente que está apenas parada na rua.
Dominic respirou muito fundo e abaixou a lanterna. Bucky não sabia se era prudente falar daquela forma com um policial, mas Savannah não estava errada...
— Não fala comigo assim, sabe que eu posso te prender por desacato à autoridade, certo? — O homem jogou de volta, mas foi em um tom neutro, quase calmo.
— Claro, o agressor traficante fica livre e eu sou presa, isso é muito a cara da nossa sociedade de merda. — Savannah não recuou em nada.
— Você sabe que eu não posso fazer nada sem provas, Devenport. — Dominic respondeu um tanto na defensiva. — Eu sou a primeira pessoa a querer o Porter pagando por cada crime, afinal já prendi ele uma vez e sei bem que esse tipo de cara não muda.
Bucky entendeu como os dois se conheciam e não pode deixar de pensar que Dominic Castillo estava pegando bem leve com Savannah, porque qualquer outro policial a teria autuado por desacato bem ali.
— Beverly tem que prestar uma queixa formal. É a lei. — Ele reforçou, então seus olhos seguiram para August. — Alias todo mundo que sofre qualquer tipo de agressão tem que prestar queixa, só assim os agressores são pegos.
Perspicaz. Bucky constatou, vendo que o policial tinha percebido que havia algo não dito ali e que parecia se importar com isso, diferente do policial atrás do volante, que claramente só queria ir embora...
— Vamos nos lembrar disso. — Gus respondeu educadamente. — Obrigado, policial.
A lanterna seguiu para o rosto de Bucky outra vez. Foi um longo momento de analise antes que a luz fosse desligada.
— Vocês sabem onde me encontrar... — Dominic lançou, então fez um gesto para que o parceiro seguisse.
Não demorou muito e o carro não estava mais no campo de visão de nenhum deles.
— Não precisa odiar ele, Savy. — Gus comentou de dentro do carro. — O cara só está fazendo o trabalho dele, considerando todos os policiais da região, Dom até que é legal.
Savannah cruzou os braços contrariada.
— Eu não odeio ele. — Respondeu sendo nada convincente. — Meu desgosto é por policiais em geral, eles são todos idiotas. Além disso, se gosta tanto dele, por que não disse o que aconteceu?
— Nem começa, Savy. — August se limitou a retrucar e Savannah revirou os olhos. — Vou pensar sobre ir na polícia ou não, mas depois, quando eu já estiver em casa.
Gus deu a conversa por finalizada e Bucky desencostou do capô do carro.
— Melhor vocês irem. — Ele olhou de um para o outro e parou em Savannah.
— Você veio de moto? — Ela perguntou, olhando ao redor, provavelmente procurando o veículo.
— É, está logo ali. — Bucky respondeu, apontando a direção. — Até depois.
No fundo queria ir junto, só para se certificar que Savannah e August chegariam bem, mas não podia dizer aquilo sem soar estranhamente invasivo. Podia?
— James? — Savannah chamou, quando ele tinha dado meia dúzia de passos.
— Savannah... — Se virou para ela em expectativa.
— Você pode me seguir? — Era justamente o pedido que queria ouvir. — Se não estiver muito ocupado, ou...
— Claro. — Assentiu, cortando o resto da frase dela e ganhou um sorriso em resposta.
Seguiram para o Queens então, Savannah guiando o carro na frente e Bucky de moto logo atrás. Quando pararam em frente a uma casa de janelas escuras TJ já estava lá, parecendo aflito e muito preocupado.
Bucky e Savannah foram cumprimentados rapidamente, a atenção era toda de August, como tinha que ser, é claro.
Logo os tios do rapaz surgiram na porta e se mostraram tão preocupados e cuidadosos quanto TJ. Bucky foi chamado para entrar também e o fez ficar um tanto sem-jeito, pois não sabia como reagir...
Os Jones eram um casal de meia idade, ambos já tinham passado dos quarenta. Eram atenciosos e educados os dois. Depois que a história foi contada sem muitos detalhes por August, agradeceram tanto a Bucky que ele ficou ainda mais constrangido.
Savannah, ele e o senhor Jones acabaram na sala, enquanto a senhora Jones e TJ seguiam com Gus para o quarto, afim de tratar de qualquer ferimento que ele pudesse ter.
Assim que ficaram sozinhos o senhor Jones suspirou, pareceu tão cansado e abatido que era como se fosse o próprio pai do menino. Nas paredes haviam diversas fotos de família, Gus e seu estilo único estavam em algumas, mas na maioria havia uma garota de cabelos cacheados e olhos caramelados.
— Por que foi que ele apanhou dessa vez? — Senhor Jones perguntou para Savannah e seu tom tão quebrado dizia que de fato não era a primeira vez que algo daquele tipo acontecia. O que só deixava tudo ainda mais terrível... — Homofobia ou racismo?
— Os dois... — Savannah respondeu, tão chateada quando o próprio senhor Jones.
— Esse é um mundo muito cruel pra pessoas como o Gus... — Ele moveu a cabeça de um lado para o outro em um misto de tristeza e talvez um pouco de raiva. — Ser negro nesse país já é um grande risco, mas assumir as diferenças com tanto orgulho, como o Gus faz, é mais perigoso ainda. Eu me preocupo tanto com ele, mas não sei como ajudar...
Bucky se sentiu um tanto sufocado, era uma realidade terrível e injusta. Algo que ele não tinha visto tão de perto nem mesmo nos tempos de guerra. Eram sempre histórias sobre judeus massacrados pelos alemães, mas nunca teve contato com as vítimas dessas atrocidades.
Via os soldados nas trincheiras, mas o que ocorria no centro do território inimigo eram quase como histórias de terror...
— Você o aceita como ele é. Abriu as portas da sua casa e os seus braços pra ele, é bem mais do que o pai dele fez. — Savannah respondeu e ofereceu ao tio de August um de seus sorrisos de nascer do sol.
Bucky ainda não conseguia se conformar com o fato de um pai ter expulsado o próprio filho de casa. Era revoltante.
— Meu irmão cometeu a maior injustiça e o maior pecado da vida dele, um dia ele vai se arrepender por isso... — Senhor Jones pareceu muito convicto. — Eu jamais seria capaz de fazer algo assim com a Michelle.
— Onde ela está falando nisso? — Savannah perguntou e Bucky imaginou que estivessem falando da adolescente nas fotos.
— Ela está aqui perto, na casa da May Parker. Estudando com os amigos para o Decatlon Acadêmico, eles vão ter uma competição em breve. — Senhor Jones sorriu e ficou claro o quanto tinha orgulho da filha.
O sobrenome “Parker” soou um tanto familiar para Bucky, pensou já ter ouvido em algum lugar, talvez de Steve ou no enterro de Stark, mas era apenas uma impressão e se foi assim que a senhora Jones entrou no cômodo.
— Gus disse pra vocês dois irem lá... — Ela pontou a direção dos quartos.
Bucky pensou em desconversar, em dar uma desculpa qualquer dizendo que tinha que ir embora, afinal ele era um estranho completo ali, mas Savannah tocou seu braço tão docemente, em um tipo de convite e ele apenas a acompanhou, incapaz de negar qualquer coisa que ela pedisse, mesmo que nenhuma palavra tivesse sido dita...
O quarto de Gus tinha uma de personalidade própria, exatamente como o dono, nas paredes havia todo o tipo de desenhos de roupas e acessórios e haviam objetos de decoração muito interessantes por toda a parte.
Gus estava encostado na cama com TJ ao seu lado, os dois parcialmente abraçados de um jeito tão confortável e natural que Bucky só não sorriu com isso porque seria estranho dada a situação. Tinha sonhando ter algo assim com Steve algumas vezes...
Era como se ali, naquele quarto, naquela cama, nada de ruim pudesse atingir os dois rapazes.
— Como você está? — Savannah perguntou, dando alguns passos para dentro do quarto, como se estivesse perfeitamente familiarizada com o ambiente. Bucky ainda estava encostado na porta.
— Sendo mimado e paparicado. — Gus respondeu apenas, agindo como se nada de ruim tivesse acontecido.
Ali na claridade do quarto era possível ver que ele tinha alguns roxos no rosto e que dois curativos tinham sido feitos em sua pele.
Savannah, TJ e Gus engataram uma conversa sobre fazer a denúncia e era interessante para Bucky notar que mesmo que Savannah não gostasse de policiais, ela ainda aconselhasse o amigo a confiar nas autoridades...
— Eu nem agradeci direito, Bucky. — Gus falou diretamente com ele em certo momento. — Obrigado mesmo.
— Eu só fiz o que qualquer um faria. — Deu de ombros um tanto desconcertado, não estava acostumado com agradecimentos.
— Ninguém faz esse tipo de coisa, cara. Nem os Vingadores. Eles estão sempre mais preocupados com ameaças globais, alienígenas, robôs ou qualquer coisa do tipo. — TJ lançou de forma casual. — A gente corre o risco de apanhar na rua o tempo todo, somos discriminados e assassinados aos montes e a maior parte das pessoas com poder de fazer algo sobre isso parece ter outras prioridades.
Silêncio, a verdade nua e crua trazia um clima pesado. Bucky queria dizer que estavam errados, que os Vingadores se importavam e que fariam alguma coisa, mas não seria inteiramente verdade, certo?
Sim, com certeza a maior parte deles, talvez todos, se importariam com uma injustiça daquelas, mas na prática, no dia a dia, de fato eram as ameaças maiores que ganhavam atenção...
— Pelo amor de Deus gente, que cara de enterro, ninguém morreu, não. — Gus declarou, quando viu todos calados por tempo demais. — Querem ver um filme?
Savannah sorriu, porém negou em um movimento curto.
— Não posso, tenho que tocar hoje ainda. — Ela respondeu e se virou para Bucky. — Você me dá uma carona, James?
O pensamento de colocar Savannah na garupa da moto fez o coração de Bucky errar três batidas sem motivo algum.
— Claro. — Respondeu, preocupado com a dinâmica daquela proximidade.
O braço de vibranium era um lembrete constante de que deviam se afastar, mas ao invés disso era como se estivessem cada vez mais próximos... E Bucky não conseguia achar isso tão ruim como deveria.
Savannah e Gus trocaram mais algumas palavras rápidas sobre a denúncia, sobre ir no hospital e sobre os figurinos que estavam no carro, e teriam que ficar ali para serem customizados.
— Vai cuidar dele? — Savannah perguntou para TJ, parada na porta do quarto antes de saírem do cômodo de fato.
— Com todo amor e carinho do mundo. — O loiro respondeu, abraçando o namorado e dando um beijo leve nele.
— Eu sou muito privilegiado, cara. — Gus riu e era tão interessante ver que ele conseguia manter aquela visão, mesmo depois do que tinha acontecido naquele dia.
Se despediram depois disso, com Bucky tendo que prometer que voltaria outra hora pra ver alguns filmes com eles.
Ao descerem as escadas, também se despediram dos tios de August, logo depois de Savannah pedir um capacete emprestado para o Senhor Jones.
Já na porta, a senhora Jones beijou os dois lados do rosto Savannah carinhosamente, então se aproximou de Bucky.
— Deus te abençoe, meu filho. — Desejou, com um sorriso maternal. — Muito obrigada outra vez.
Então olhou para os dois por um momento e sorriu, como se soubesse de algo que Bucky com certeza não sabia.
— Que bom que você encontrou alguém bom e bem forte pra namorar, menina, porque você se mete em muita confusão pra defender as pessoas, precisava mesmo de alguém pra proteger você, enquanto você protege os outros — Ela declarou do nada e Bucky sentiu o rosto queimar. — Faço muito gosto.
Savannah riu apenas e a senhora Jones se despediu antes de entrar em casa, sem dar qualquer chance de nenhum dos dois desmentirem aquilo. Não que Savannah parecesse preocupada em esclarecer nada, e não que Bucky se encontrasse em condições de dizer qualquer coisa... Estava praticamente em estado de choque.
Subiu na moto ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer ali... Eles sequer pareciam namorados, ou pareceriam?
— Viu só? Você é oficialmente meu namorado agora, James, e vai ter que me defender das minhas encrencas. — Savannah riu como se fosse uma grande piada, enquanto subia na moto. Felizmente sem encostar no braço de vibranium. — Você está muito ferrado, porque eu tenho um grande talento pra me meter em problemas.
— Mas você só se mete nos problemas que valem a pena. — Bucky foi honesto, forçando sua mente a tratar a coisa de “namorados” como piada também. As pessoas daquele século faziam piadas estranhas. — Todo mundo devia ser como você, Savannah.
Ela sorriu enquanto ele dava a partida, Bucky pode ver pelo retrovisor, então sentiu um arrepio correr seu corpo, assim que as mãos femininas tocarem sua cintura... Quando a moto ganhou as ruas o calor de Savannah parecia envolvê-lo.
Era diferente de andar sozinho, parecia... certo. E isso era tão confuso para Bucky, afinal não era certo não, era errado estarem tão próximos, talvez fosse até perigoso, Savannah estava literalmente a um toque de distância do braço de vibranium e de perguntas que Bucky não queria responder.
Ela não gostaria das respostas.
Todavia naqueles minutos, enquanto cortava o Queens para voltar pra casa, Bucky afastou todos os pensamentos e apenas desfrutou do momento. Porque afinal, desde os anos 40 queria pilotar uma motocicleta com uma garota bonita na garupa e nunca pode fazer isso...
Foi até um pouco frustrante chegar em casa tão rápido e ver tudo acabar.
Savannah desceu da moto e ambos pararam na marquise.
— Olha... — Ela colocou a mão no bolso do casaco e entregou um pequeno embrulho para Bucky. Era o gatinho recreado com catnip. — Deu tempo de comprar. Me manda os vídeos depois, estou precisando de coisas fofas hoje.
— Obrigado. — Bucky sorriu de forma genuína. — Tenho certeza que a Alpine vai gostar.
Ganhou um sorriso-sol em retorno, mas teve um certo gosto agridoce, afinal os dois teriam que seguir em direções opostas a partir dali.
Bucky se achou um tanto idiota por sentir aquela necessidade de orbitar ao redor de Savannah sem qualquer motivo aparente. Deu um passo para trás, pronto para se despedir, mas seus olhos captaram uma marca no pescoço dela e, antes mesmo que pensasse sobre isso, já tinha cortado toda a distância entre eles novamente.
— Você está machucada. — Ergueu a mão direita e tocou a pele de Savannah com cuidado, havia a marca roxa de dedos ali na garganta dela.
— Deve ter sido na hora da confusão. — Savannah moveu os ombros, mas não se afastou.
Bucky sabia que devia tirar a mão dela, que devia dar pelo menos três passos para trás, por segurança... Mas não fez isso, ao contrário, deu um passo para mais perto e subiu os dedos, alinhando os fios ruivos devagar, sentindo a textura da pele de Savannah na ponta do toque.
Ela não tirou os olhos dele um só momento, quase como se estivesse esperando para ver o que Bucky faria a seguir.
— Tem certeza que está bem pra ir trabalhar? — Ele perguntou, no fundo torcendo para que ela dissesse que precisava de outra noite no telhado, apenas para desfrutar da companhia dela por mais algumas horas.
— Eu tenho que ir... — A resposta dela foi quase um lamento. — Mas não estou bem, não consigo levar as coisas tão de boa como o Gus. Não consigo aceitar que o mundo seja assim... É revoltante.
Azuis e avelãs ainda estavam presos um no outro e os dedos d Bucky deslizavam pelo cabelo ruivo de Savannah bem devagar.
— Eu sei como é... Dá um ódio incontrolável ver coisas assim. — A voz dele não era mais que um sussurro, porém o assunto era sério. — Era para as pessoas terem parado de massacrar as diferenças depois da segunda guerra.
— Parece que os nazistas só mudaram o nome e o alvo. — Savannah devolveu no mesmo tom.
— Parece que os nazistas ainda merecerem um soco na cara. — Bucky declarou convicto e ela sorriu, um daqueles sorrisos de pôr do sol, quentes e calmos, que tinham um tipo de poder hipnótico.
Viu quando ela ergueu uma das mãos, então sentiu o toque dos dedos quentes em sua barba.
— Você é bom demais pra ser de verdade, James. — Savannah sussurrou e abriu um sorriso ainda maior. — Ainda bem que agora você é oficialmente meu namorado.
Ela riu, ficando na ponta dos pés para diminuir a diferença de altura entre os dois, Bucky se preparou para um beijo, na verdade ele desejou isso, e de fato aconteceu, só não foi da forma que ele esperava...
Ela deixou um beijo doce e lento no rosto dele. Tão lento que Bucky pode sentir perfeitamente o momento em que o canto de seus lábios roçaram nos dela. Então Savannah se afastou devagar, os olhos nele, ou talvez os olhos dele é que estivessem presos nos castanhos.
— Não esquece de me mandar o vídeo da Alpine. — Ela riu daquele jeito leve e natural. — Tchau, James.
— Tchau, Savannah... — Bucky respondeu, sentindo-se estranhamente vazio e solitário conforme ela se afastava.
Voltou para casa em passos lentos, havia uma guerra em sua mente, mas não era a guerra usual, era um debate entre razão e emoção, porque parte de Bucky sabia que se deixar envolver daquele jeito não era uma boa ideia, mas a verdade é que a outra parte já estava envolvida demais pra se afastar...
De fato, uma das primeiras coisas que fez quando colocou os pés em casa foi dar o ratinho para Alpine e gravar todos os vídeos possíveis. A gata ficou eufórica, quase colocou o apartamento abaixo, certamente gastou muito mais energia do que tinha, porque uma hora depois estava dormindo toda jogada na cama de casal, com o ratinho debaixo da pata.
Bucky cutucou a barriguinha dela com a mão direita, mas ganhou um olhar tão assassino em resposta, que desistiu de importunar a felina.
Mandou os vídeos para Savannah, — mesmo que soubesse que ela não responderia naquele momento — arrumou a bagunça que Alpine tinha feito e tomou um banho quente, algum tempo depois já estava na cama, olhando para o teto sem conseguir tirar os eventos daquele dia da cabeça.
Não entendia como ainda podia haver aquele tipo de injustiça tantas décadas depois da guerra, o mundo tinha sido invadido por alienígenas, metade da população havia virado pó e mesmo assim coisas tão retrogradas como o preconceito ainda existiam. Mesmo Bucky, que vinha de uma época em que comportamentos como aquele seriam considerados normais, não conseguia aceitar aquela situação.
Queria poder fazer alguma coisa.
Estava com esse pensamento em mente quando seu celular tocou, viu o nome conhecido na tela e atendeu no terceiro toque:
— Oi, Sam...
— Oi, Bucky. Pode falar agora? — Sam Wilson pareceu tenso do outro lado da linha.
— Aconteceu alguma coisa? — Bucky se sentou na cama, apreensivo pelo que viria.
— Não aconteceu... — A resposta veio um tanto inserta. — É que eu analisei aquelas informações que você me passou e realmente tinham coisas suspeitas, mas eu investiguei e não levou a lugar nenhum. Aquela mulher parece intocável. Reputação impecável.
A frustração de Sam não passou despercebida para Bucky.
— Significa que eu estava errado então? — Ele questionou, não sentindo tanta segurança assim.
— Na verdade eu acho que você estava certo. Pessoas muito limpas são suspeitas demais. — Sam retrucou impaciente. — Pedi a ajuda da Shannon nisso, talvez ela consiga ir mais longe que eu. Sem Stark, Steve e Natasha qualquer influência ou contato que tínhamos com o governo se foi. Eles eram importantes, principalmente Stark que tinha um jeito próprio de se meter nas coisas. Sem eles ficamos isolados... Vou deixar Shannon trabalhar, mas vou ficar de olho, qualquer movimento suspeito talvez seja hora de pedir ajuda ao T’chala.
Bucky suspirou, ter uma linha direta com o governo americano certamente seria de grande ajuda. Não era à toa que os Vingadores haviam se separado depois de Thanos, não tinham um líder ou um propósito em comum. Eram apenas pessoas com muito poder, mas sem grande influência. Mesmo T’chala talvez não fosse de grande ajuda, afinal ele era o rei de Wakanda, um estrangeiro. Ele e o loiro de Asgard talvez tivessem o mesmo tipo de apelo...
Precisavam de um Capitão América.
— Por que você nunca usou o escudo, Sam? — Bucky perguntou de repente e pode sentir o homem de outro lado da linha bufar.
— Sério, cara? De novo isso? — A resposta de Sam era um misto de tédio e irritação.
— Eu falo sério. — Bucky reforçou, sem o tom implicante de sempre, sem sarcasmo ou ironia, era uma pergunta séria.
— Não é assim que funciona, preciso de uma missão pra isso, quando chegar a hora, um dia, sei lá, daí eu uso. — Sam respondeu rápido, quase como se estivesse desconversando.
— Não é disso que eu estou falando. — Bucky retrucou, levantando da cama e andando pelo apartamento. — Não é só sobre segurar o escudo e fazer malabarismo com ele. É sobre o manto, sobre o legado. Por que não se apresentou como Capitão América?
— Porque eu não sou o Capitão América. — O outro retrucou com simplicidade. — O Steve era.
Bucky não concordou inteiramente com aquela afirmação, talvez porque conhecesse o Steve antes do soro, talvez porque estivesse lá quando o Capitão se tornou um símbolo, quando tirou todos aqueles soldados de uma base da Hidra. Porque, por mais que o governo tivesse tentado fazer do Capitão América um modelo antes disso — com filmes, danças, desfiles, discursos e músicas — o Capitão como o mundo conhecia nasceu nos campos de batalha.
E sim, Steve Rogers era o Capitão, mas o Capitão era maior que Steve, ele era uma ideia, um conceito...
— O Capitão América é um símbolo, Sam. É esperança e justiça. As pessoas precisam disso. — Opinou, colocando parte de seus pensamentos às claras.
— As pessoas precisavam de alguém como o Steve. Não acho que esse seja eu. Somos muito diferentes... — Sam comentou do outro lado e Bucky nunca tinha percebido tanta resistência naquele homem. — Eu sou um cara negro que veio do Harlem, eu nunca vou ter o mesmo impacto que ele, nem sei se o governo apoiaria isso.
Bucky não gostou do que ouviu, não gostou que pela segunda vez naquele dia a cor de alguém parecesse a única coisa relevante para decidir se essa pessoa era digna ou não de alguma coisa. Não devia ser assim.
— Steve era o Capitão América que o mundo precisava nos anos 40. Mas o mundo está diferente agora, portanto precisa de alguém diferente, precisa de você, Sam. Você é o cara certo pra esse trabalho. — Disse com convicção, sabia que Steve tinha feito a escolha certa. — E o governo que se foda.
Sam riu do outro lado da linha, antes de debochar:
— Você sofreu lavagem cerebral de novo, cara?
— Eu falo sério. As pessoas precisam do Capitão América. Elas de precisam de você. — Bucky reforçou, porque com Sam portando o manto talvez as pessoas tivessem o exemplo perfeito de que as diferenças não importavam.
Talvez garotos como Gus parassem de apanhar na rua.
— Tudo bem, eu acho que você foi substituído por uma versão robótica. — A risada que vinha do outro lado da linha apenas fazia Bucky revisar os olhos.
— Você é insuportável, Sam Wilson. — Ele lançou, voltando a se jogar na cama e incomodando Alpine com esse movimento.
— Nossa, Graças a Deus! — O tom de alivio de Sam era puramente falso. — Já estava aqui buscando os nomes de alguns aliados na agenda.
— Tchau, Sam. — Bucky revirou os olhos uma última vez e já tinha decidido a colocar um fim naquela conversa.
— Espera. Espera. — Sam pediu repentinamente. — Vamos sair esse fim de semana, pra fazer coisas de gente normal e ter uma vida social. Não ouse dizer “não” ou eu vou usar o escudo pra bater na sua cabeça.
— Pelo menos você finalmente usaria o escudo... — Bucky debochou, enquanto acariciava o pelo de Alpine, sem levar o convite a sério.
— Rá Rá Rá. Como você é engraçadinho, Bucky. Estou morrendo de rir. — A resposta de Sam escorria sarcasmo. — Pelo menos agora a gente sabe que você tem talento para o stand-up.
Bucky pegou um caderninho que deixava em sua cabeceira e anotou o termo “stand-up”, vinha fazendo uma lista de coisas que não conhecia ou entendia para procurar no google depois.
— Eu falei sério. — Sam reforçou. — E pelo amor de Deus, veste alguma coisa descente, você não é mais um fugitivo.
Pensou em retrucar, em iniciar um debate sobre todos os motivos pelos quais ter qualquer tipo de programa em público não parecia uma boa coisa, mas a verdade é que a vontade de implicar com Sam era mais forte que sua vontade de ficar falando sobre assuntos do Soldado Invernal, então ele disse apenas:
— Mas alguma exigência, Capitão América?
— Vai se ferrar, Bucky. — Ouviu a resposta, antes que Sam desligasse o telefone.
Riu sozinho, recebendo outro olhar assassino por atrapalhar o sono de Alpine.
Teria que pensar em uma desculpa boa o bastante para se esquivar de Sam depois... Ou talvez valesse a pena tentar ser normal por uma noite e ver no que dava.
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