Inverno Ardente
32 Compensação
Notas iniciais

Sentiu as gotículas geladas lhe acordarem, quando seus olhos se abriam viu as estrelas acima de si, um céu límpido em uma noite clara de lua cheia, embora chovesse. Estava deitada na grama, percebeu isso logo que se levantou, o lugar parecia familiar, porém não conseguia reconhecê-lo de fato. Sua mente estava um pouco nublada na verdade, alguns acontecimentos embaralhados em sua memória de forma um tanto desconexa.
Respirou fundo então, sorvendo o ar puro como se não o fizesse há meses, o cheiro de terra molhada lhe invadiu as narinas e a chuva escorreu por seus cabelos ruivos de forma prazerosa. Sorriu, não soube bem o motivo certo, quase como se estar viva fosse o suficiente.
Ergueu o rosto e deixou que as gotas lhe beijassem como um amante há muito esquecido. Uma parte de sua mente ainda trabalhava em busca de coerência e verdade, mas a outra parecia satisfeita de estar ali, de existir apenas. Era um tanto catártico talvez.
Um fragmento lhe veio à mente, o olhar desesperado no rosto de um amigo, o frio em seu estômago, e o cair infinito.
Custe o que custar...
— Romanoff? — A voz conhecida lhe chamou e Natasha virou naquela direção a tempo de ver a figura masculina se aproximar.
Ele tinha os olhos fixos nela em um misto de confusão e surpresa, parecia desnorteado também. Trajava um terno azul acinzentado, já encharcado de chuva, o mesmo estilo que já o vira usar algumas vezes.
Mal teve tempo de processar sua presença, quando foi envolvida com um abraço inesperado. O baque daquele gesto tão atípico para aquela pessoa em particular fez com que a realidade se forçasse toda pra dentro da mente de Natasha Romanoff de uma vez só. Tinha se sacrificado para que Clint pegasse a joia da alma...
Tinha morrido em um planeta estranho.
Talvez isso explicasse aquele abraço tão incomum e particularmente longo. Aquela pessoa não era dada a abraços. Não ele...
Não Tony Stark.
Natasha se separou dele um tanto sufocada, perguntando em euforia e urgência:
— Funcionou?
Stark deu um passo para trás, quase um cambalear, quase como se tivesse sido atingido por um golpe certeiro. Romanoff viu a verdade alagar os olhos dele, enquanto lentamente a chuva diminuía até que secou por completo.
Tony respirou fundo, sorrindo de forma quase mínima, um misto de conformidade e melancolia.
— Funcionou, sim.
— Sério? Quer dizer que está todo mundo vivo? — Natasha não entendia a tristeza incomum que parecia pesar nos ombros do milionário conhecido como Homem de Ferro.
Qual era o problema afinal?
— Quase... — Ele respondeu, depois a encarou de forma compassiva e só então todas as peças pareceram se encaixar.
Ela tinha se jogado de um precipício pela joia, estava morta, e se Tony Stark se encontrava ali na sua frente, então ele também estava...
— Espera, você...? — Ela não precisou terminar a pergunta, o aceno de concordância veio logo. — Foi pra trazer todo mundo de volta?
Tony moveu a cabeça em negativa, apoiando o peso em uma das pernas e colocando uma das mãos no bolso da calça de forma displicente após de ajeitar o terno.
— Depois que você salvou o dia, o Bruce estralou os dedos e trouxe todo mundo de volta. — Explicou neutro, e nem precisou esperar Natasha perguntar o óbvio para continuar contando. — Mas o Thanos do passado apareceu com o exército inteiro pra azucrinar. Não tinha outro jeito então eu... — Moveu a mão direita e estralou os dedos no ar, usando aquele tom despreocupado e rápido que tinha normalmente. — Minha armadura não era tão forte quanto a radiação gama no organismo do Grandão aparentemente, então me dei mal. Ossos do oficio.
Natasha o conhecia bem pra saber que Tony escondia a maior parte de suas emoções por baixo daquela pose casual e de sua hiperatividade latente.
— Sinto muito, Tony. — Disse sincera.
Ela tinha se sacrificado por não ter nada a perder, mas Stark tinha.
— Custe o que custar, não é? — Ele respondeu com um mover de ombros.
— Custe o que custar.... — Natasha repetiu, olhando ao redor novamente.
Aquela familiaridade ainda estava ali, mas era como se algo faltasse.... Era um imenso espaço com nada mais que grama verde que parecia bem fresca, havia uma estrada a direita, totalmente deserta e, perto dela, um tipo de painel em concreto, quase como um memorial, cercado de flores e todo tipo de coisas assim. Era a única coisa que havia ali.
Aquilo não fazia muito sentido.
— Acha que fizeram estátuas nossas? — Tony questionou de repente, olhando no sentido oposto, onde havia nada mais além de grama. — Eu acho que a gente merecia. Você principalmente, porque eu teria deixado o Barton se jogar.
Ele riu da própria piada, mas Natasha se limitou a encará-lo daquele jeito condescendente.
— Ele tinha filhos pra criar... — Parou, sabendo que Tony também tinha.
E havia se sacrificado mesmo assim.
Ele vacilou por um momento, certamente pensando em Morgan e Pepper, mas não deixou que a tristeza tomasse conta de si.
— E você não, então tinha uma vida inteira pra viver ainda. — Retrucou em seu tom habitual, aquele de quem sabe tudo e não pode ser refutado, muito prático, muito Stark.
Caminhou para longe dela, dando passos de costas e parando ali no meio de tudo, chutando um tufo de grama que fez com que Natasha tivesse a impressão que aquilo fora colocado ali recentemente.
— Então esse aqui é o céu? — Tony abriu os braços como se mostrasse o grande nada do lugar. — Que decadência, não é mesmo? Podiam ter mandado pelo menos uns drinks. Não estou vendo nem as maçãs... Acha que tiraram depois do lance com Eva e a Serpente? Ainda bem que eu era ateu e nunca perdi meu tempo imaginando isso aqui.
Natasha riu de canto e negou algumas vezes, nada surpresa com o jeito que Stark tinha de lidar com as coisas.
— Talvez não seja o céu... — Encolheu os ombros tão prática quanto ele, apontando de um para o outro de forma ilustrativa: — Assassina Russa. Fabricante de Armas. Talvez o heroísmo não tenha sido suficiente.
Talvez fosse o inferno...
Não ficou surpresa ou decepcionada, ainda achava que tudo aquilo não fazia sentido, mas se estava morta então tudo bem, não precisava ficar problematizando tudo.
— Faz sentido. — Tony concordou, movendo a cabeça de um lado para o outro. — Nesse caso tenho que repetir com ainda mais ênfase, que decadência! O inferno não devia ser divertido? Festas, bebidas, sexo?
— O inferno serve pra te punir por ser uma má, pessoa, não pra te gratificar por isso. — Natasha rebateu com um revirar de olhos divertido.
— Sério? — Ele a encarou totalmente incrédulo. — Pois eu sempre pensei que só gente legal, moderna e descolada viria pra cá. É isso que as beatas e os velhotes das igrejas dizem por aí. Onde está a parada gay, poxa? Estou pronto pra gastar minha eternidade decorando as músicas da Lady Gaga. Além disso, eles me puniriam como? Me deixando entediado?
Natasha riu da crítica implícita naquele comentário, enquanto Tony aparentemente dançava para uma música que só existia em sua própria mente. Stark podia ser insuportável às vezes, mas pelo menos conseguia ser engraçado também, haviam pessoas piores pra ficar presa pela eternidade...
Ela continuou rindo de canto, mas seus olhos foram atraídos por uma claridade no fim da estrada, que vinha se aproximando aos poucos.
— Tony...? — Chamou, mas foi ignorada, enquanto o homem girava sobre os calcanhares e gritava no meio do gramado, olhando para o céu como se falasse como alguma divindade:
— Absurdo, exijo falar com um superior! — Ele mudou de ideia e abaixou a cabeça, voltando a gritar, mas dessa vez para o chão, como se houvesse algo, ou alguém, dentro da terra: — Cadê o gerente?! Eu quero minha suíte presidencial ao lado do Freddie Mercury!
— Tony!? — Natasha gesticulou enérgica, reconhecendo a fonte da claridade.
— Hum? — Ele resmungou, mas ainda estava virado de costas para o que Romanoff via.
— Quem mais morreu? — Ela questionou, reconhecendo outra figura masculina.
— Ninguém. — Stark disse de forma simples. — Bom, pelo menos eu espero isso...
— Então por que o... Rhodey acabou de descer de um carro, bem ali?
Tony seguiu o dedo que Natasha apontava, ambos focando os olhos na figura de Rhodes, que tinha parado em frente ao memorial e vasculhava toda a extensão do gramado como se procurasse algo ou alguém.
— Merda... — Stark soprou em frustração, e logo estavam caminhando em direção ao amigo que os viu em seguida.
— Não acredito! — Rhodes se aproximou o mais rápido que podia, dada sua mobilidade comprometida, os braços abertos e um sorriso enorme iluminando seu rosto. — Não acredito que funcionou mesmo!
Puxou Tony e Natasha de uma vez só, os esmagando em um abraço conjunto que era um tanto incômodo e bastante confuso. Mas o que caralhos estava acontecendo ali?
— Ah, tá bom, já chega, vai amassar meu espirito. — Stark se esquivou do amigo de longa data enquanto arrumava o terno.
— Seu espirito? — Rhodes repetiu confuso.
— Ah é... — Tony respirou fundo, fazendo uma expressão de pesar que era puramente fingida e então abrindo ambos os braços. — Surpresa! Estamos mortos!
Natasha revirou os olhos, retirava tudo que tinha dito sobre existirem pessoas piores para passar a eternidade...
— Não. Não estão. — Rhodes respondeu de modo simples, recebendo um tapinha amigável no ombro esquerdo.
Aquela resposta explicaria muita coisa na verdade, Natasha ponderou, mas não se posicionou na conversa, preferiu se manter calada até ter certeza.
— Ah coitadinho, está em negação ainda... Não se preocupe, assim que eu achar o responsável por esse lugar chato vamos começar a nos divertir. — Stark lançou em um meio deboche, olhando para Natasha como se os dois fossem cúmplices em alguma verdade universal da qual o pobre Rhodes estava por fora.
— O que aconteceu foi que...
— Olha só Rhodey a gente morre mesmo, cara. — Tony sequer deixou o amigo terminar. —Admita que você estava um pouco velho e...
Ele parou repentinamente, quando outro carro se aproximou, estacionando colado a calçada em uma manobra que fez os pneus cantarem. O som de saltos altos ecoou pelo asfalto quando a motorista desceu, os cabelos loiro-acobreados sendo soprados pela brisa. Stark parou de respirar, Natasha notou com clareza, os olhos escuros dele se encheram de lágrimas quando Pepper Potts sorriu emocionada.
Não, nenhum deles estava morto.
Tony estava no meio do caminho para abraçar a mulher que amava, quando a porta traseira se abriu e uma figura pequena e ágil atravessou o gramado gritando:
— Papai!
Morgan Stark se jogou nos braços dele antes que Pepper se unisse aos dois.
Natasha sorriu para a família que tinha acabado de se reunir e Rhodes parou ao seu lado satisfeito e emocionado, limpando uma lágrima teimosa com a manga da blusa.
De alguma forma estavam de volta...
— Foram as joias? — Ela perguntou, apostando na opção mais fácil e óbvia.
— Não. Steve devolveu todas elas. — Rhodes declarou neutro, ganhando um olhar confuso no mesmo instante.
Se não tinham sido as joias, então o que seria?
Natasha não teve tempo de formular a pergunta, porque os Stark se aproximaram e ela recebeu um abraço caloroso de Pepper e um aceno de Morgan, que parecia se agarrar ao colo do pai como se temesse que ele sumisse de uma hora para outra e por isso não dava indícios de que sairia dali tão cedo.
— Ah, é claro que o grande Capicolé ia fazer tudo certinho. — Tony revirou os olhos, provando que ouvira a conversa.
— Tecnicamente ele fez... mas na verdade Steve não o Capitão América atual... — Rhodes declarou neutro e recebeu olhares confusos dos amigos recém revividos. — Sam Wilson é.
— Tá bom, vamos desacelerar! — Tony ergueu um dedo em riste, enquanto mantinha Morgan em seu colo usando o outro braço. — A minha filha tá enorme e as novidades são muitas, o que foi que aconteceu aqui?
Rhodes riu e, enquanto caminhavam pelo gramado em direção ao memorial, ele narrou os últimos meses; como o mundo estava sem os Vingadores, como as pessoas estavam se virando depois do estalo e como Steve tinha ficado no passado quando devolveu as joias, se casado e voltando muito velho, apenas para passar seu icônico escudo para Sam Wilson...
Natasha pousou os olhos no memorial onde seu nome, o de Rogers e o de Tony eram destaque por heroísmo e bravura, aparentemente haviam dito para o mundo que o Capitão América — antigo Capitão América, na verdade — perecera no confronto contra Thanos.
Foi então que ela se deu conta do motivo pelo qual aquele lugar era tão familiar, era a antiga base dos Vingadores. Um local que, segundo os dizeres no memorial, fora destruído totalmente na grande batalha.
No chão, ao redor do painel de concreto, dezenas de flores, desenhos, cartas, presentes e lembranças, muitos deles especialmente para a Viúva Negra. Nunca imaginou que as pessoas gostassem tanto dela.
Passou os dedos sobre o nome do Capitão Rogers, sentiria falta dele com certeza, mas sabia que depois de tudo, ele tinha feito a escolha certa para si mesmo. Ele merecia aquilo.
— Já estava na hora do Steve se aposentar e ter paz mesmo. — Sorriu calmamente, conformada e talvez até satisfeita com como as coisas haviam terminado.
Não estava esperando uma segunda chance, no entanto, mesmo assim se sentia grata por isso.
— Já estava na hora daquele chato desencalhar, isso sim! — Tony debochou em seu tom habitual. — Picolé virgem de cem anos...
Ele focou os olhos no memorial também, mais especificamente no nome de Steve, então assentiu, apertando um pouco mais Morgan em seus braços. Agiu como se fosse nada, mas Natasha sabia que Stark estava orgulhoso de Steve, nos últimos cinco anos tinha pedido que o Capitão tivesse uma vida de verdade, ele finalmente tinha seguido esse conselho.
No fundo, Romanoff até desconfiava que Tony Stark sentiria falta de Steve Rogers... mas todos eles sentiriam afinal.
— Tudo bem, só que isso não explica como a gente está aqui. Não que eu esteja reclamando, mas... — O Homem de Ferro se virou para Pepper, deixando a pergunta no ar.
— Eu também não sei, Rhodes não contou ainda, só me avisou por telefone. — Ela respondeu neutra e os olhos cariam sobre o Máquina de Combate.
— Foi o Barnes. — A resposta veio simples.
Natasha franziu as sobrancelhas, aquilo era inusitado, certamente.
— O Desmemoriado? — Tony era a imagem da incredulidade — Como? Por que?!
— Acho que não é muito difícil entender o porquê... — Pepper opinou e, para alguém que não sabia de nada, ela parecia bem pouco surpresa com a revelação. — Eu o vi mais cedo, Tony, a culpa pode ser algo poderoso, principalmente pra quem tem a necessidade de fazer a coisa certa.
Natasha ponderou aquelas palavras, não havia interagido muito com Barnes, conversas soltas e quase monossilábicas, mas ela o tinha observado por tempo o bastante para conhecer aquele olhar no rosto dele, era algo que conhecia bem, a culpa e o arrependimento corrosivo; a necessidade de tirar a conta do vermelho...
A diferença é que o Soldado Invernal era uma arma controlada, a Viúva Negra não, era apenas doutrinada. Mas no fim, sim, Romanoff entendia o motivo de estarem vivos por interferência de Bucky Barnes.
— Não foi exatamente culpa dele. — Stark deu de ombros se fazendo de superior. Era evidente que lutava contra o próprio orgulho ali. — Eu entendo o conceito de lavagem cerebral, não sou um homem das cavernas.
Não, ele de fato não era, Tony Stark podia parecer intransigente e arrogante para a maioria, mas Natasha o via melhor que isso, por trás dos ternos caros e das armaduras chamativas, Tony era um homem que entendia a dualidade da vida, ele sabia que nem tudo era preto no branco, bom ou mau. Era muito reativo e emotivo, de fato; convicto de muitas coisas, orgulhoso demais talvez, porém realmente se preocupava com suas ações e pensava demais sobre elas, qualidades e defeitos que faziam dele um negociador melhor do que as pessoas imaginavam.
Gostaria que Steve tivesse notado isso na época do Tratado. Que era tudo sobre a imagem e a sensação de segurança que Tony queria passar para o governo, que ele próprio não seguiria aquele acordo incabível, que era apenas uma coisa de aparências para deixar os Colarinhos Brancos felizes depois de Sokovia, Ultron, e da bomba em Lagos. Mas Tony nunca era claro e aberto sobre seus sentimentos e seus planos, ao mesmo tempo que Steve nunca aceitaria mentir, mesmo que fosse pelo bem maior...
Diferenças explicitas que por algum tempo fizeram dos Vingadores uma ótima equipe, mas que resultou também na separação deles.
— Você tentou matar o rapaz, Tony... — A voz maternal de Pepper fez com que Natasha voltasse a focar na conversa.
— Mas foi só uma vez! — Ele apontou simples, como se aquilo fosse absolutamente normal. — E foi no calor da raiva e do momento. Não tenho sangue de barata. Vocês também não teriam.
Natasha não estava lá na fatídica ocasião, mas imaginou que assistir ao assassinato dos próprios pais, quando Tony tinha passado a vida toda pensando que eles haviam morrido em um acidente, não havia sido nada fácil...
Steve devia saber que guardar segredos, assim como Fury costumava fazer, não seria muito bom no fim das contas. No entanto, não tinha moral alguma para julgar o Capitão — não quanto já havia guardado tantos segredos perigosos na vida — ele certamente tinha seus motivos e cada um deles devia ser pertinente e íntegro na mente dele.
— Além disso, brigas acontecem o tempo todo, eu já dei uma coça no playboyzinho asgardiano e ele nem se lembra mais disso. — Tony encolheu os ombros como se fosse nada demais e ganhou alguns olhares incrédulos. Não era bem assim que Natasha conhecia a história do primeiro encontro do Thor com o Homem de Ferro, mas deixou estar. — Não me olhem assim, os dois namoradinhos centenários também quase me mataram e vocês não estão me ouvindo reclamar.
— Tudo que você fez até agora foi reclamar, Tony. — Natasha declarou, sabendo que o bilionário tinha até mesmo criticado o conceito de céu e inferno naqueles curtos minutos.
— Caramba, não acredito que senti falta disso... — Rhodes declarou com um sorriso enquanto balançava a cabeça.
Morgan ergueu o rostinho no mesmo instante, porque era como se crianças tivessem um radar para tudo que não deviam ouvir.
— Olha a língua, Rhodey! — Pai e mãe repreenderam o amigo e Natasha reprimiu um sorriso.
Quem diria que um dia Tony Stark se importaria com palavrões... Ou pelo menos fingiria se importar. Steve ficaria orgulhoso.
— Desculpa! — Rhodes ergueu as duas mãos em rendição.
Tony se limitou a negar alguns vezes e respirar fundo, jogando todo o ar para fora dos pulmões em seguida.
— Certo, não vou reclamar do presente do velhote desmemoriado. — Declarou neutro, como se desse o braço a torcer. — Mas ainda quero saber “como”.
— Pra ser honesto eu não sei direito. Ele só disse que tinha um pedido pra uma estrela cadente envolvido. — Rhodes parecia tão confuso quanto qualquer um.
Natasha encarou o gramado extenso por um tempo, repassou tudo que fora dito naqueles últimos minutos. Nunca pensou no que faria “depois”, toda missão era sempre a última para ela, nunca planejava o futuro realmente e não foi diferente quando decidiu voltar o passado.
Custe o que custar.
A verdade é que sempre esteve pronta para a morte e isso lhe impedia de pensar na vida, pela primeira vez era sobre o futuro, o “depois”, e queria fazer algo digno com isso.
— Acho que não importa “como”. — Ela declarou finalmente, ainda com os olhos no gramado. — O que importa é que estamos aqui, e o que vamos fazer com a nossa segunda chance. — Respirou fundo, sabendo exatamente o que queria fazer a seguir. — Eu vou precisar de um cheque, falando nisso, Tony.
— Tá pensando que eu sou caixa eletrônico é? — Ele debochou naquele tom sarcástico.
Natasha o encarou com olhos espertos e um sorriso ladino:
— Não... eu estou pensando que você é um “gênio, bilionário, playboy e filantropo”.
Tony a encarou quase ofendido por ter aquilo jogado em sua cara, mas por fim apenas ajeitou Morgan em seu colo e se deu por vencido.
— E esse dinheiro seria para quê exatamente?
— Reconstruir a Iniciativa Vingadores. — Natasha declarou decidida.
Tinha ouvido o que Rhodes falou sobre todos estarem separados e espalhados, queria a base de volta, um lugar onde pudessem se reunir e de onde pudessem monitorar tudo que acontecia no mundo. Queria estar pronta caso outra ameaça surgisse no horizonte.
— Acho que posso te dar meu autógrafo em algumas folhas em branco. — Tony respondeu como se fosse nada. — Depois... do shawarma.
— Eba! — Morgan gritou animada e eles todos começaram a caminhar em direção aos carros.
— Mas eu ainda quero saber exatamente que tipo de pedido milagroso foi esse. — Tony apontou, parando em frente ao veículo. — Eu sou um cientista, preciso entender como as coisas funcionam.
— Acho que isso você vai ter que perguntar diretamente para o Barnes. — Rhodes respondeu encolhendo os ombros como se não houvesse nada a fazer sobre isso.
Stark ponderou por alguns momentos então:
— É... eu vou fazer isso.
— Depois do shawarma. — Morgan pontuou, porque obviamente era uma garotinha com prioridades bem claras.
— Exatamente. — Tony concordou enquanto todos riram.
O bilionário olhou ao redor por um segundo, enquanto Pepper abria a porta do motorista.
— Onde está o Happy? Você não devia andar por aí sozinha... — Ele declarou com as sobrancelhas franzidas.
— Ele foi pra Londres ajudar o Peter, parece que tiveram que lidar com um tal de “Mystério”, ou algo assim... tenho meus assuntos, não posso ficar acompanhando cada vilão que aparece no mundo. — Potts declarou, prática como sempre era, assumindo seu lugar atrás do volante depois de acenar para Rhodes, já que iriam em carros separados.
— Ainda bem que alguém aqui já está acostumada e vai assumir esse trabalho... — Tony apontou para Natasha e piscou com um só olho. — Sabe que eu sou um aposentado em tempo integral agora, não é? Não me chame pra missões, o máximo de esforço que eu vou fazer é assinar os cheques.
Natasha revirou os olhos, tinha suas dúvidas de que Tony realmente conseguiria se manter longe, mas ele tinha feito isso nos últimos cinco anos, então quem sabe...
— Na verdade quem assina os cheques sou eu, Tony, a fortuna é minha agora, você morreu, lembra? — Pepper rebateu, colocando a cabeça para fora e dando um sorrisinho superior para seu antigo chefe.
Se é que Tony um dia foi patrão daquela mulher mesmo, porque para Natasha sempre pareceu o extremo oposto disso.
— Ah que ótimo, menos uma dor de cabeça na vida! — Ele declarou animado e satisfeito, colocando Morgan no chão para que ela entrasse no carro e falando com ela de forma empolgada: — Vamos te ter muito tempo livre, Maguna.
Depois de acomodar a filha no banco de trás, passou por Romanoff, batendo em seu ombro de forma amigável.
— Sempre soube que o futuro era feminino. — Disse apenas, antes de se sentar ao lado de Pepper...
Os Stark partiram logo depois, enquanto Romanoff se dirigia para o carro de Rhodes.
— Parece que você tem um projeto e tanto pela frente... — Ele opinou, também encarando o gramado vazio. — Vai precisar de ajuda? Eu estou velho, mas ainda não me aposentei.
— Com certeza eu vou precisar. — Natasha sorriu amigável. — Vou precisar de todo mundo.
Sim, tinha um longo caminho pela frente. Mas valeria a pena.
Uma nova formação dos Vingadores estaria reunida em breve...
✪ ✪ ✪ ✪ ✪
Era estranho sentir o Sol em seu rosto, vindo através do para-brisas, da mesma forma que foi estranho deitar ao lado de Pepper na noite anterior. Tony queria dizer que adormeceu assim que tiveram sua “sessão reencontro”, mas a verdade é que a viu ressonar levemente e se esgueirou para o quarto de Morgan no meio da madrugada.
Voltar a vida não tinha mudado um ponto crucial na personalidade de Tony Stark, ele ainda pensava demais, o tempo todo, simplesmente não era capaz de desligar a mente... E naquela noite em particular nada seria capaz de fazê-lo dormir.
Por isso se levantou as quatro da manhã e dirigiu até Nova York. Tinha pendências a resolver...
Enquanto esperou o Sol nascer entrou em contato com Happy, que primeiro pensou que era uma pegadinha e depois de uma chamava de vídeo finalmente colocou Tony a par de tudo. Estava em Londres ainda, Peter havia vencido o tal Mystério um pouco mais cedo no dia anterior e voltaria para Nova York com seus colegas de escola no primeiro voo da manhã. Aparentemente estava tudo certo, então Tony instruiu Happy a não dizer nada para o garoto ainda. Falaria com ele pessoalmente depois...
Precisava ver outra pessoa antes.
Encarou a fachada do prédio — se é que alguém de fato chamaria aquele lugarzinho mal feito assim — e decidiu que já tinha esperado o bastante. Soldados acordavam cedo, não é mesmo?
Arrumou o terno e colocou os óculos escuros, descendo do carro e atravessando um gramado mal cuidado para alcançar as escadas do lugar. Era Tony Stark, então conseguir o endereço fora simples. Só esperava não encontrar ninguém no caminho, já que sua figura era conhecida e ele devia estar morto.
Parou em frente a uma das portas e bateu duas vezes.
— Eu abro, deve ser a Bev. Ela e o Mike devem ter chegado agora e trazido a Alpine. — Ouviu a voz feminina e logo viu a maçaneta se mover.
Uma garota de uns vinte e poucos anos surgiu no batente, os cabelos ruivos presos de qualquer jeito e uma camiseta masculina cobrindo-lhe o corpo até a metade das coxas. Alguém aparentemente tivera uma boa noite...
Não era o que Tony esperava encontrar, mas os olhos castanhos-esverdeados pareceram bem mais surpresos que ele.
— Puta que pariu! — A jovem soprou.
— O que aconteceu? — A voz masculina veio logo depois.
Logo o homem surgiu na porta também, regata branca, braços de fora, incluindo aquele feito de metal negro. Bucky Barnes.
Os olhos azuis pareceram levemente surpresos de ver Tony ali, em seguida se tornaram indecifráveis. Ele puxou a garota um pouco para trás do próprio corpo em um movimento sutil.
— Foi isso que você pediu? Sério? — Ela questionou em um sussurro perfeitamente audível.
— “Isso”, gostaria muito de ser convidado pra entrar, porque sabe, “isso” estava morto, então não seria legal que alguém visse “isso” aqui no corredor. — Tony ironizou, tirando os óculos escuros e colocando as mãos nos bolsos da calça social casualmente.
Barnes encarou a ruiva por um instante curto e foi perceptível que eram tão entrosados que conseguiram conversar com um olhar. Tinha sido uma troca interessante, Tony sempre imaginou que o tipo preferido do Soldado fosse cabelos loiros, dentes perfeitos e peitoral definido... um pouco mais alto também.
A jovem sumiu do campo de visão e o Soldado deu um passo para trás, abrindo espaço para que Stark entrasse no apartamento. Era um lugarzinho pequeno e sem grandes atrativos, e isso só destacava ainda mais o homem alto e forte parado ali no meio do cômodo, com os braços expostos pela camiseta regata.
Tony percebeu que era a primeira vez que via Barnes depois de... de tudo. Ele estava um tanto diferente, o cabelo mais curto, a barba um pouco mais cheia, tinha um olhar menos melancólico também, e ele parecia no meio de algum momento descontraído, os pés descalços a calça de moletom e a regata diziam isso, além do pequeno café da manhã disposto na bancada...
No entanto, algo que não tinha mudado sobre Bucky Barnes era sua postura alerta e um tanto arredia, Stark podia sentir o clima tenso que emanava dele. Ou talvez fosse de si mesmo que toda aquela tensão emanava. Não podia dizer que estava confortável, não ainda, não honestamente. Olhar para o rosto daquele homem era estranho, formava um nó em sua garganta, mas não era mais como anos antes, não era ódio. Fora honesto ao dizer que sabia que a culpa do que acontecera com os pais não era de Barnes, que sua reação fora emocional e impulsiva, uma coisa de momento intensificada pela traição de Steve em não lhe contar.
Quando olhava para o Soldado ainda havia dor, mágoa e um tanto de arrependimento, coisas que eram muito mais sobre si mesmo do que sobre o outro. Era particularmente difícil estar ali, ainda mais naquelas circunstâncias.
Todavia Stark deixou assuntos mal resolvidos uma vez, com Steve, e isso não trouxe nada de bom para sua vida. Se dizia inteligente, então não podia cometer o mesmo erro duas vezes.
— Descansar, Soldado. — Disse tentando casualidade. — Estamos de boa, não precisa planejar maneiras de me matar.
— Eu nunca planejei maneiras de matar você. — Barnes devolveu, ainda na defensiva, mas na verdade foi bem mais palavras do que Tony esperava.
Stark pensou em dizer que na verdade Bucky tinha sim, não só planejado, como de fato tentado matá-lo quando atirou na cara dele, enquanto tentava fugir daquele prédio do governo, mas sabia que aquele era o Soldado Invernal e não queria começar tudo com o pé esquerdo. Entendia que Barnes estava falando da briga que tiveram naquela instalação da Hidra.
— Mas mesmo que você estivesse planejando, acho que não faria muita diferença... Aparentemente eu sou como um gato e tenho sete vidas. — Moveu os ombros de forma displicente. — Você não saberia nada sobre isso, saberia?
— Fiz um pedido pra uma Estrela. — Barnes respondeu, desviando os olhos para a garota ruiva que tinha acabado de entrar novamente no cômodo, vestindo roupas normais dessa vez e seguindo direto para a cozinha do outro lado da bancada.
Era um olhar interessante o do Soldado, o tinha visto ao lado de Steve, um tipo de lealdade cega, como se estivesse disposto a seguir Rogers para dentro de uma guerra sem pensar, mas quando se tratava da garota baixinha e ruiva... Barnes a olhava como alguém que olha para alguma divindade, como se fosse capaz de ir ao inferno por ela, e como se tivesse a certeza que ela o levaria ao paraíso.
Claramente apaixonado... Pelo visto a coisa de soldado velho, lerdo e eternamente virgem dos anos 40 era um lance apenas de Steve, Barnes era mais esperto que isso.
Tony se forçou a focar no que realmente importava, ainda não entendia completamente por que alguém — principalmente alguém que ele quase tinha matado uma vez — tinha gastado um desejo com aquilo. Mas preferiu focar no “como” primeiro.
— Se importa de explicar melhor? Sou conhecido pela minha curiosidade. — Tentou ser cordial e paciente, embora essas não fossem exatamente suas melhores qualidades.
— Na verdade você é conhecido por sua fortura, excentricidade e por ser o Homem de Ferro. — A ruiva se aproximou, trazendo duas xicaras de café e oferecendo uma delas para Tony. — Eu sou a Savannah, a propósito.
— Bom, Savannah... você não está totalmente errada. — Ele aceitou a bebida quente, vendo a jovem entregar a outra para Bucky.
— Acho que vai ser uma conversa longa, não é melhor se sentarem? — Ela sugeriu direto para o Soldado, tocando o braço direito dele com carinho, quase como se lhe passasse calma e conforto, pareciam muito íntimos.
Barnes apontou as cadeiras ao redor de uma mesa de madeira atrás de Tony. Não era sinônimo de conforto, mas paciência...
— Eu acho que a Beverly chegou, vou lá pegar a Alpine. — Savannah disse enquanto Stark se sentava.
Ele ainda viu a ruiva sussurrar algo para Bucky e então lhe tocar a barba carinhosamente, beijando-lhe o canto dos lábios antes de se virar para sair.
— Senhor Stark... — Cumprimentou enquanto passava por Tony e ele se limitou a erguer a xícara educadamente.
Assim que ficaram sozinhos Barnes puxou uma das cadeiras e se sentou também, um tanto tenso de novo. Será que aquele homem nunca relaxava?
— Ela parece uma garota legal... — Declarou casual, apontando para a porta por onde a ruiva tinha saído, tentando quebrar o gelo. Nem o Steve era tão difícil.
— Por que está aqui Stark? — Bucky foi direto, mas não grosso nem nada assim. Será que pensava mesmo que faria um pedido e simplesmente ficaria assim, ninguém tentaria falar com ele sobre isso?
— É exatamente isso que eu quero saber, Soldado. — Tony moveu as mãos de forma casual.
— E Bucky, Só Bucky. — Devolveu em correção. — Eu não sou mais o Soldado.
O Soldado, Tony não pôde deixar de notar a especificação, era sobre o Soldado Invernal.
— Entendi... poxa que pena, tinha ótimas piadas com “Soldado”, Bucky é chato. Pode ser Sargento? — Jogou de volta, casualmente desinteressado com era sempre, Barnes abriu a boca para responder, mas Stark ergueu um dedo em riste, impedindo: — Não. Não. Nem adianta tentar mudar mais, já escolhi, Sargento.
Viu o homem a sua frente respirar fundo e aproveitou aquele momento para tomar um gole de café, que por incrível que pareça estava bem quente.
— Eu fiz um pedido. — Barnes repetiu a mesma ladainha e Tony se esforçou para não revirar os olhos.
— Pode ser mais especifico? — Pediu, controlando seu tom e tentando ser diplomático.
— Tem pessoas com poderes...
— Como a Wanda? — Quando interrompeu, percebeu que Barnes não ficou muito satisfeito, mas não se importou com isso.
— Algo assim. — O homem prosseguiu de forma calma. — Eu conheci uma pessoa e ganhei um pedido.
— Ela? — Tony apontou a direção que Savannah tinha saído.
Uma namorada à la “Jeannie é um Gênio” devia ser muito legal.¹
— Não. A pessoa que eu conheci está morta agora. — Bucky pareceu muito chateado e Stark agradeceu não ter feito nenhum comentário engraçadinho em voz alta. — Ela me deu um pedido de presente e é por isso que você está de volta.
— Um único pedido? — Ele começou a ficar ainda mais surpreso com o desenrolar da explicação. — E não pensou em pedir outra coisa, tipo um apartamento novo?
Barnes lhe lançou um olhar contrariado, um pouquinho irritado talvez. Às vezes Tony esquecia que nem todo mundo tinha seu senso de humor...
— Por que eu? E eu não estou reclamando. Mas convenhamos que não faz sentido... — Preferiu prosseguir com a conversa. Era melhor não brincar com a sorte, vai que o Soldado resolvia desfazer o pedido... ou melhor, o Sargento. — A Natasha? Bom, isso eu entendo, mas eu? Por que não o Steve? Achava ele muito chato também?
De novo percebeu que tinha deixado escapar mais humor do que Barnes aceitava. Que cara mal-humorado, credo!
— Steve fez a escolha dele. Viveu uma vida plena e feliz, teve um desfecho pacifico. — Ele respondeu apenas, e seu tom conformado era quase decepcionante.
Tony sempre pensou que os namoradinhos centenários fossem super apaixonados e tivessem um lanche bem platônico porque Steve era lerdão. Achou mesmo que haveria um pouco mais de drama ao citar o Capitão Fujão... Se bem que a ruiva que Barnes tinha arranjado era um consolo e tanto, uma troca muito melhor na opinião de Stark.
— Então você resolveu fazer caridade? — Ainda tentou focar no assunto. Podia dizer que ele é quem era o filantropo ali, mas acho melhor maneirar nas doses de humor.
— Você sabe que não é caridade, Stark. — O Sargento disse sério, focando os olhos em Tony. A tensão veio com o peso de um elefante.
Era daquele clima que estava tentando fugir com suas doses cavalares de humor duvidoso. Não queria falar sobre o que tinha acontecido antes, não queria relembrar aquilo... Ou talvez só não quisesse sentir que tinha uma divida com Barnes. Mas tinha.
— Então é compensação? — Questionou, entrando no assunto do qual queria fugir. — Achei que tinha sofrido lavagem cerebral.
— Eu sofri. Não eram coisas que eu queria fazer, mas ainda assim eu fiz, eu machuquei pessoas, isso é irreversível, pedir desculpas ou aceitar que foi culpa minha não muda isso. — Barnes declarou e dava pra perceber que tentava se manter firme.
Tony o admirou um pouco por isso, por ele saber que um pedido de desculpas não mudaria muita coisa naquele caso. Talvez remexer na referida diretamente fosse até pior.
Seguir em frente implicava em parar de cutucar o ferimento e deixa-lo cicatrizar em paz...
— Então eu tinha um pedido e muitas vítimas, eu não sabia como consertar tudo, e foram décadas, pedir reparação pra todas essas pessoas podia ser catastrófico. — O Sargento continuou explicando. — Mas eu pensei em duas pessoas que eu podia compensar. Duas pessoas com mortes recentes, que ao voltarem não encontrariam um mundo diferente demais, e que acabariam ajudando outras pessoas como já haviam feito antes, assim eu me redimiria com o universo de alguma forma. Eu sei que é confuso, mas...
Ele parou e respirou fundo, como se não soubesse a forma de terminar aquela frase, mas Tony não precisava, no fundo entendia de compensação, de tentar fazer bem o suficiente para que todo o mal que veio antes simplesmente fosse sobrepujado por boas coisas. Era o que fazia como Homem de Ferro no começo, na tentativa de apagar seu legado bélico.
— Natasha já provou podia ter um impacto e tanto no mundo e eu a feri uma vez, já quase a matei se me lembro corretamente, talvez até mais que isso... Tenho vislumbres da sala vermelha, ela esteve lá, posso tê-la visto antes, podemos até ter interagido e posso apenas não lembrar. Eles mexem com a nossa cabeça. — Barnes prosseguiu, encarando a xícara de café ainda cheia, como se estivesse em uma conversa interna. — Enfim, ela se sacrificou por nós, pelo que eu sei, então achei que merecia isso, era mais que compensação nesse caso. Era justiça.
Realmente, se alguém merecia aquilo — uma segunda chance — era Natasha Romanoff, ela tinha se mantido firme naqueles cinco anos, tinha feito tudo que podia e na verdade era a que menos precisava se envolver ali. Era treinada para não ter sentimentos, mas talvez fosse a que mais se importava...
— E você...
— Eu sou o Homem de Ferro. — Tony completou com um dar de ombros.
Barnes ergueu os olhos então.
— Não foi por isso. Você sabe o que eu fiz... — Ambos se encararam em um segundo de silêncio constrangedor. Stark quis dizer que não era culpa dele, mas as palavras estavam presas em sua garganta. — Então eu conheci sua filha ontem e... Sei lá, os pais deviam poder criar suas crianças.
Tony entendeu perfeitamente o que aquilo significava, não era apenas sobre ele e Morgan, mas também sobre seu pai. Não era um pedido de desculpas, mas era um “porque”, o exato motivo que Pepper havia explicado.
Já devia saber que ela estava certa, afinal quando é que aquela mulher não estava?
— Eu pedi que os Vingadores mortos em serviço recebessem outra chance e voltassem a vida nos tempos atuais. Foi isso. Sem mudanças na linha do tempo, porque não pedi que eventos passados fossem anulados. — Barnes terminou finalmente e Tony assentiu devagar.
— Dois coelhos com uma cajadada só, esperto. — Declarou satisfeito. — Bom... curiosidade saciada.
Se colocou de pé e encarou o Sargento. Tinha uma dívida com ele, no entanto sabia que Barnes não via aquilo como favor algum, ele sequer tinha feito porque pensava que ficariam quites, fez apenas porque achou certo, porque pensou que devia, porque tinha a necessidade de consertar tudo, mesmo quando achava que não tinha conserto. Tony entendia isso com perfeição, porque era dessa forma que ele próprio agia algumas vezes. E respeitava isso.
— Obrigado... Bucky. — Estendeu-lhe a mão direita e viu os olhos azuis ficarem surpresos com isso.
Era hora de seguir em frente.
Barnes se colocou de pé e aceitou o aperto de mão, e foi como se os dois chegassem ao acordo mudo de que estavam bem, nada mais de raiva ou mágoa, nada mais de culpa...
Assentiu satisfeito e deu um passo para trás, pronto para ir embora, mas antes dando uma olhada em seu relógio de pulso, que obviamente era um sistema operacional inteiro, quase um minicomputador super potente com projeções holográficas se ele quisesse. Só então notou que havia uma dezena de alertas na tela.
— Ah, merda... — Soprou, sabendo que aquilo não podia ser bom.
— Problemas? — Barnes questionou, e Tony respondeu abrindo uma das notificações e a puxando em uma projeção holográfica...
Era um tipo de matéria no programa jornalístico de J. J. Jameson. No começo parecia bom, nada demais, era sobre o Aranha derrotando o Mystério, o problema foi que de repente a reportagem se tornou uma denúncia de assassinato, como se o Cabeça de Teia tivesse mesmo capacidade de matar um homem, e ainda por cima revelou a identidade do herói.
Aquilo era jogo sujo, estava na cara!
— Parece que o garoto está encrencado... — Barnes declarou negando algumas vezes, como se também tivesse visto a farsa claramente. — Bem que Abby disse que esse J.J. Jameson é um idiota.
— Achei que ela chamasse Savannah... — Tony respondeu, estranhando a mudança de nome, enquanto usa cabeça já estava trabalhando a mil pensando em uma solução para o caso de Peter.
Revelar a identidade secreta de um garoto era sacanagem.
— Abby é uma amiga jornalista. — Bucky explicou e isso foi como o gatilho perfeito para um ótimo plano. Stark ainda levava jeito.
— De confiança? — Perguntou, encarando o Sargento.
— Totalmente.
— Ótimo, vou precisar de ajuda pra desfazer essa bagunça. — Decidiu logo que seguiria seu plano. — Me passa o...
Não terminou de falar, isso porque a porta se abriu em um rompante e logo cabelos ruivos esvoaçaram para dentro do cômodo.
— Quantas pessoas você trouxe de volta? — Savannah questionou urgente, com um celular na mão direita e um gato branco na esquerda.
— O Stark e a Natasha Romanoff, só.
— Natasha Romanoff? Só?! — A ruiva jogou de volta e Tony pensou que o pobre Bucky ouviria poucas e boas pela expressão surpresa da jovem, mas ela apenas respirou fundo, colocando o animalzinho de estimação no chão e se aproximando do Sargento para lhe entregar o celular enquanto revirava os olhos. — Então por que a Shuri está me ligando surtada dizendo que um “Visão” apareceu vivo em Wakanda e ela precisa falar com uma tal de Wanda Maximoff urgente?
Barnes franziu as sobrancelhas totalmente confuso, mas Tony riu, entendo rápido demais o que tinha acontecido ali.
— Parece que seu pedido acabou gerando umas consequências inesperadas. — Apontou casualmente. — Mais uma boa ação na sua lista. Boa sorte com isso. Eu vou resolver esse problema aqui. — Apontou o relógio. — Mas manda o Visy me ligar.
Acenou para o casal enquanto saía porta a fora, tinha muito o que fazer e contactaria a tal Abby do seu próprio jeito. Quando tudo desse certo aquele Jameson estaria sem emprego e aquela confusão toda seria vista como uma grande notícia manipulada e a identidade de Peter estaria segura outra vez...
Sim “quando”, porque era só uma questão de tempo, era o Homem de Ferro afinal, não havia nada que não pudesse fazer.
E chegou mesmo a pensar que a aposentadoria seria calma...
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