Notas iniciais
ntão... Aqui estamos pela última vez. Ainda não sei bem o que dizer, então vou deixar pras notas finais. Por enquanto apenas escutem "Adore You" do Harry Stiles junto com o capitulo se quiserem link nas notas) E, pela última vez aqui em INVERNO ARDENTE, Boa leitura!

— 1 ANO DEPOIS —

O perfume de incenso e mirra se espalhava pelo ambiente de forma amena e agradável, aqui e ali as velas acessas davam ao quarto uma claridade tremulante e etérea... Sobre um tapete persa aos pés da cama as duas jovens tinham as pernas cruzadas; a ruiva contorcia os dedos ao redor de uma xícara fumegante de chá preto com gengibre canela e um toque de conhaque; já a de cabelos castanhos, aquela que havia preparado o chá, tinha os olhos nas cinco cartas de tarot cigano recém-dispostas sobre o tapete.

Savannah Devenport respirou fundo, soprando sua bebida quente antes de dar o primeiro gole. Não que realmente precisasse soprar, já que jamais se queimaria, era apenas força do hábito.

— Tem certeza que é uma boa ideia? — Questionou baixinho, com medo de quebrar o clima construído com muito cuidado por sua amiga bruxa, ou melhor, feiticeira.

— O que poderia dar errado? É apenas tarot. — Wanda Maximoff ergueu os olhos, as sobrancelhas levemente franzidas.

Se conheciam há pouco menos de um ano as duas, suas culturas, crenças e hábitos totalmente diferentes não tinham sido empecilho para que uma amizade criasse fortes laços entre elas. Wanda era um tanto fechada de início, mas Savannah tinha talento de sobra para conquistar pessoas assim, e logo todas as barreiras da Feiticeira Escarlate derreteram sob o Sol da personalidade radiante da Raposa Flamejante.

As duas acabavam fazendo muitas coisas juntas e naquele dia Savannah finalmente havia concordado em deixar Wanda ler sua sorte no tarot. Era um costume cigano, parte da tradição étnica de Maximoff que fora criada em Sokovia desde criancinha, mas na verdade era Romani, sua mãe presava muito o costume de seu povo e tinha transmitido tudo aos filhos, principalmente para Wanda.

— Sei lá, vai que descubro uma coisa terrível que eu não devia ter conhecimento ainda. — Savannah encolheu os ombros e sorveu outro gole de chá, sentindo o conhaque esquentar seu corpo.

— Não acha que você é um pouquinho traumatizada? — Wanda opinou, sorrindo de canto e ganhou outro dar de ombros casual.

— Eu não gosto de brincar com magia.

— Isso é leitura da sorte, não é magia exatamente. — A Feiticeira explicou e Savannah se limitou a respirar fundo e fazer um gesto para que continuassem.

Wanda se concentrou novamente, os dedos graciosos, mesmo com as unhas pintadas de preto, dançaram no ar e a energia escarlate de seus poderes envolveu uma das cartas revelando sua figura sinuosa e inconfundível.

— Ai meu deus, viu?! — Savannah apontou, esquecendo totalmente do clima e do tom baixo. — Serpente! Isso é ruim, muito ruim!

— Você é a cigana aqui por um acaso? — Wanda retrucou em censura, a ruiva não teve outra alternativa a não ser negar com um movimento breve. —Então me deixa abrir as outras cartas. Esse tipo de leitura não é sobre elas isoladas, é sobre o grupo todo.

Savannah respirou fundo de novo, esperando que uma nova carta se revelasse. Sim, estava com medo, nos últimos tempos sua vida andava tão perfeita que era quase um sonho. E sonhos eram irreais... cedo ou tarde todos tinham que acordar.

Havia enfrentado mais batalhas do que poderia imaginar naquele último ano, os Vingadores estavam unidos novamente e isso parecia um imã de problemas, sempre havia um vilão chato pra impedir, mas não era nada grave ou grande. Além disso não era pessoal, Lucia e Freakmann estavam presos e sob controle e tudo estava bem, a coisa mais próxima que tiveram de um problema real naquele último ano fora o governo enchendo o saco com o tal Acordo de Sokovia, com o Sam assumindo o manto de Capitão América e com uma dezena de pequenas coisinhas que não chegaram a ser uma dor de cabeça realmente, isso porque Tony Stark e Natasha Romanoff resolveram tudo.

Quem é que ficaria contra os salvadores do mundo?

Além disso o próprio Presidente teve que ser mais colaborativo quando Stark ameaçou sua reeleição, disse que se o homem não colaborasse ele próprio se candidataria e isso sim deixou o politico assustado. Tony Stark na presidência, seria uma coisa interessante de se ver...

Mas, fora as coisas do dia a dia, nada poderia ser mais perfeito. Savannah vivia a melhor época de sua vida — com seu amado Sargento, é claro — e temia que isso acabasse por estar brincando com a sorte.

Wanda, no entanto, apenas moveu os dedos no ar uma vez mais e virou outra das cartas.

— Viu? Pássaros... — Ela apontou com um sorriso calmo no canto dos lábios.

— E o que isso significa? — Savannah questionou ansiosa, será que era algo sobre os pássaros comerem as serpentes e evitarem o perigo.

— Que você tem um relacionamento harmonioso de parceria e respeito e que... — A Feiticeira Escarlate apontou a segunda carta e então voltou para a primeira. — ...existe cumplicidade e satisfação no âmbito sexual.

— Ah, isso é mesmo... — A ruiva assentiu devagar, sendo incapaz de reprimir um sorriso.

Como uma serpente e um pássaro tinham virado aquela interpretação? Savannah não fazia ideia, mas não podia negar que era totalmente verdade, principalmente porque sua vida sexual estava melhor que nunca.

— Não precisa me contar os detalhes. — Wanda cortou, antes mesmo que Savannah pensasse me abrir a boca.

Continuou a virar as três cartas restantes, uma após a outra; a criança; o sol; e a lua. Franziu as sobrancelhas então, encarando as imagens como se visse algo mais do que seus desenhos.

— O que? — Savannah já não aguentava mais de ansiedade. Será que era algo horrível?

— Se lembra daquele desenho que você me contou? — Wanda mudou totalmente de assunto.

— Sim, eu e James enrolados como yin e yang, super destinados. — A ruiva fez um gesto displicente, sem entende o propósito daquela pergunta.

Havia citado o desenho meses atrás, tinha surgido casualmente em uma conversa e não era segredo, então não havia motivos para esconder.

— Já pensou que o desenho pode não ser sobre vocês dois? — Maximoff questionou, com os olhos ainda presos nas cartas de tarot.

Savannah franziu as sobrancelhas de forma confusa. Claro que era sobre eles. A Raposa Flamejante e o Lobo Branco, James tinha, até mesmo, assumido essa alcunha oficialmente.

— Sua mãe tinha uma irmã gêmea com poderes opostos aos dela, não foi o que você me contou? — Wanda continuou falando, como se estivesse trilhando um raciocínio próprio do qual a outra jovem no cômodo não compartilhava.

— Sim, mas não eram sobre fogo e gelo. — Savannah respondeu.

— Sabe que a coisa de gêmeos geralmente passa através das gerações certo? — A Feiticeira Escarlate ergueu os olhos, e o brilho neles dizia que fizera uma descoberta e tanto.

— ‘Tá me dizendo que eu tenho uma irmã ou um irmão secreto?! — A ruiva lançou em choque completo. Vai ver Dominic estava certo e sua vida fosse um drama mexicano...

Wanda revirou os olhos e jogou todo o ar para fora dos pulmões de uma só vez enquanto negava, quase incrédula que Savannah tivesse levantado aquela hipótese.

— Gravidez. É isso que diz suas cartas. E ainda apresenta um tantinho de oposição... Então... — Mostrou as figuras no tarot. — Eu não me espantaria se você tivesse gêmeos e eles tivessem poderes opostos. Fogo e gelo. Bucky pode ter escolhido a alcunha de Lobo Branco, mas ele não tem poderes de gelo, não é?

Savannah sentiu um arrepio frio lhe ouriçarem os pelos do braço, lembrou de sonhar com bebês uma noite daquelas, mas não quis dar mais essa munição para Wanda. Já bastava de brincar com a sorte e o destino por um dia...

— Você está me assustando, acho que eu quero acender as luzes agora. — Ela se levantou do chão com um pulo, deixando o chá de lado e praticamente correndo até o interruptor.

— Não sabia que não queria ter filhos... — Maximoff comentou enquanto recolhia as cartas.

— Você quer? — Savannah devolveu de forma simples, enquanto fechava os dedos e apagava todas as velas do ambiente de uma vez só.

— Você não? — Wanda devolveu, saindo do chão para se sentar na cama.

Desde o pedido feito à Estrela Cadente, o relacionamento da Feiticeira Escarlate com Visão seguia firme e discreto, embora fosse sabido que volta e meia o “Visy” pedisse conselhos amorosos para alguns dos colegas. Por algum motivo, James havia se tornado a pessoa preferida dele pra isso, talvez porque o Sargento não se prezava a perguntas íntimas e inoportunas, coisa que Tony era perito em fazer. O envolvimento de Wanda com um Androide era alvo de muitos questionamentos, mesmo a própria Savannah não sabia de pormenores práticos, era biologicamente possível que o casal tivesse filhos?

No entanto não parecia uma pergunta relevante, afinal, mesmo que Visão tivesse retornado sem a joia da alma no centro da testa, Wanda certamente era poderosa o bastante para fazer algo a respeito de impedimentos biológicos — Savannah na verdade duvidava que houvesse algo que a Feiticeira Escarlate não fosse capaz de fazer — e mesmo que essa solução se mostrasse inviável, tinha muitas formas de ter um filho além das tradicionais...

— Nunca parei pra pensar nisso. — A ruiva sentou-se também, arrumando o corpo de forma confortável entre as almofadas macias e divagando sobre o assunto. Foi impossível não sorrir. — Imagina duas crianças com a carinha do James, que adorável? Mas acho que provavelmente um deles puxaria a mim e o outro a ele. Podiam ser uma menina e um menino...

— Pra quem nunca tinha pensado nisso, você está pensando bastante na coisa toda. — A risada leve de Wanda se espalhou pelo quarto.

— Culpa sua! — Savannah bateu nela suavemente com as costas das mãos, enquanto acabava por rir também. Sim, sua imaginação tinha ido bem longe. — Por isso todo mundo diz que você é uma bruxa.

— Ninguém diz que eu sou uma bruxa. Só você. — Maximoff acusou, encarando a amiga com ar superior.

— Isso porque todo mundo tem medo da Vingadora mais forte, vulgo Feiticeira Escarlate. — Devolveu como se fosse a coisa mais óbvia de todas. E de fato era mesmo.

Wanda era muito pacifica no geral, mas se ela realmente quisesse... bom ninguém fazia ideia da extensão de seus poderes, nem mesmo Stephen Strange, e ele tentara descobrir por um tempo...

— E você devia ter medo também. — A Feiticeira advertiu, mas Savannah não deu qualquer credibilidade a isso.

— Eu não preciso, sei que você me ama demais... — Se gabou presunçosa e sua risada se espalhou pelo cômodo enquanto Wanda revirava os olhos e se esforçava para permanecer séria. O que obviamente não deu certo por muito tempo.

A conversa descontraída das duas foi interrompida pelo som de algo espatifando no chão, o barulho havia ecoado pelo corredor e fez com que ambas deixassem o quarto para seguir naquela direção.

Todos tinham um aposento no complexo, embora a maioria deles também tivesse uma casa em outro lugar. Como revezavam em turnos, segundo ordens de Natasha Romanoff, era bom que tivessem seus próprios quartos enquanto estavam aguardando alguma missão...

O barulho viera de uma das salas de reunião, algumas pastas e cadeiras estavam no chão.

— Foi ele! — Scott Lang apontou em um rompante, quase como se tivesse sido pego cometendo um crime, seu dedo em riste indicava o oposto da sala, um jovem trajando vermelho e azul tentava esconder as teias grudadas em seu braço na mesma euforia desesperada que os olhos do Homem Formiga mostravam.

Os dois estavam aprontando de novo. Não era novidade.

— Meninas! — Peter Parker abriu um sorriso aliviado. — São só vocês, pensei que fosse a Romanoff.

Isso explicava o desespero.

— Savy, Wanda... Como vai o mundo dos adultos? — A voz feminina veio do fundo da sala, a figura de cabelos negros sorriu para as duas.

— Hope... — Savannah acenou, se aproximando da colega com Wanda em seu encalço, enquanto os dois estabanados tentavam arrumar a bagunça que tinham feito. — Achei que estavam em missão.

— Resolvemos tudo mais cedo que o esperado. — A Vespa deu de ombros.

Geralmente eles eram divididos para trabalharem em trios, formações escolhidas por Romanoff, embora ficasse claro que ela era bastante generosa quando não separava aqueles que tinham ligação mais estreita.

Savannah se encostou na mesa enquanto Wanda puxava uma das cadeiras e se sentava para ouvir Hope relatar sua última missão. Nesse meio tempo, Peter e Scott entraram em outra discussão sem sentido, como se os dois, e não apenas o Homem Aranha, fossem adolescentes.

Peter tinha passado por alguns probleminhas há cerca de um ano, um maluco armara pra ele e enviara um vídeo com sua identidade secreta para um jornal. Tony havia resolvido isso, com a ajuda inesperada de uma Abby totalmente surtada; as coisas tinham mudado muito desde então, não só para Abigail que se tornara oficialmente o “contato dos heróis na mídia”, mas para todos, com o anuncio da volta de Tony e com Natasha assumindo e reformulando a iniciativa Vingadores, chamando pessoal antigo, abrindo a porta para novos e focando no acompanhamento de jovens prodígios, que um dia também seriam heróis. Muitos membros monitoravam os novatos remotamente via internet, em um treinamento que não se tornaria de campo até que eles terminassem seus estudos. Era também uma forma de impedir que o Governo ou agências de índole duvidosa os alcançasse antes e usasse suas habilidades em projetos escusos.

Era uma boa técnica, proteger as crianças para que não sofressem o que a própria Viúva Negra e tantos outros ali haviam sofrido. Por isso Natasha era a líder, ela pensava em tudo.

Alguns nomes como Riri Willians, Kamala Khan, Kate Bishop e Miles Morares estavam ganhando destaque entre os treinees e era esperado que um dia se tornassem grandes Vingadores...

— Será que se eu falar com a chefe ela me muda de equipe? — Hope resmungou, movendo a cabeça de forma crítica enquanto observava seus dois parceiros ainda discutindo.

Savannah não sabia se era engraçado ou preocupante que às vezes Peter parecesse mais adulto que Scott Lang.

— Eu topo! — Wanda concordou de imediato. — Seria ótimo trabalhar sem meus dois parceiros brigando o tempo todo.

Era de conhecimento geral que a terceira parte do trio liderado pela Feiticeira Escarlate não fosse muito com a cara do Visão, que no caso era a segunda parte da equipe...

— Seria perfeito, mas a estraga prazeres ali nunca deixaria o Sargentinho dela. — Hope apontou para Savannah e as duas mulheres encararam a ruiva de forma acusatória.

— Não tenho culpa se o namorado de vocês não é tão perfeito quanto o meu. — Ela se defendeu, erguendo as duas mãos.

— Joga alguma coisa na cabeça dela, por favor. — A Vespa pediu para a Feiticeira Escarlate e as três acabaram rindo.

— Além disso a gente tem a A-Force. — Savannah tentou argumentar, e logo Scott e Peter estavam parados ao lado delas se metendo na conversa.

— Eu sempre quis saber porque a gente não tem uma equipe só de garotos também... — O Homem Aranha declarou de forma inocente, enquanto Lang gesticulava com fervor para que ele se calasse imediatamente.

— É porque se não tiver nenhuma mulher pra controlar vocês, a coisa desanda. — Hope rebateu o parceiro de equipe.

— Ah... mas isso não é verdade, é? — Peter tentou rebater, porém sua afirmação soou mais como uma dúvida, principalmente depois que ele parou para pensar por alguns instantes e deve ter lembrado de todas às vezes que deu merda porque não havia uma mulher presente.

Scott abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Hope já tinha erguido o dedo em riste para interrompê-lo, como se soubesse exatamente o que ele diria:

— Sabe que Ultron foi construído por dois homens, não é?

Wanda ergueu uma sobrancelha em concordância, afinal ela conhecia muito bem essa história, e os dois rapazes não tiveram outra alternativa a não ser concordarem calados.

— Boa tarde, gente. — Uma presença se fez notar na entrada da sala de reuniões. Sam Wilson trajava roupas normais, boné azul e óculos escuros, dois itens que ele foi tirando conforme se aproximava. — Qual o tema de discussão?

Savannah sempre achou aquele “disfarce”, que ele vinha usando cada vez mais para andar em público, uma coisa sem qualquer utilidade, podia até funcionar quando ele era o Falcão, mas a verdade é que o Capitão América não passava despercebido com tanta facilidade...

Naquele último ano Sam vinha mantendo o manto com exímio zelo, o Governo tentou interferir, verdade, mas Wilson tinha o apoio do público, e isso acabou fazendo com que os políticos abaixassem a cabeça por livre e espontânea pressão.

Honestamente Savannah achou uma pena que os idiotas tivessem desistido tão fácil, ela adoraria uma desculpa pra colocar fogo no congresso “sem querer”, provavelmente levaria uma bronca do conselho, mas paciência... Teria valido a pena.

Ah sim, havia um conselho, que era o pessoal que Natasha reunia em situações importantes, ela gostava de ponderar vários pontos de vista antes de tomar decisões que podiam afetar um grande número de pessoas. A própria Romanoff presidia o conselho, Tony Stark, é claro, tinha uma cadeira, assim como Bruce Banner, por serem membros dos seis Vingadores originais. Clint abrira mão da cadeira dele porque não pretendia sair da aposentadoria, e Thor havia deixado a dele para Valkyria — para a felicidade de Natasha, que achava a rainha de Asgard uma adição muito mais útil que o Deus do Trovão.

Sam havia conquistado uma cadeira também, não por ter herdado um legado de Steve, mas porque se mostrara digno disso naquele último ano. Carol Danvers era a sexta adição do conselho, que fechava com a sétima cadeira pertencente ao rei T’Chala, embora ele deixasse Okoye cuidar das decisões estratégicas, e só se envolvesse em questões diplomáticas.

Em caso de uma infração de qualquer membro, esse teria que enfrentar os sete figurões, que eram lendas ali na base, no entanto Savannah ainda achava que valeria a pena... Todo mundo já quis queimar o congresso pelo menos uma vez na vida, nem podia ser chamado de anarquia, era basicamente um serviço para a humanidade, talvez os políticos dos outros países entendessem o recado...

— Estávamos discutindo como vocês homens estariam perdidos sem nós mulheres. — Ela deixou seus sonhos flamejantes e utópicos de lado para focar em Sam, mas a verdade é que seus olhos castanhos-esverdeados foram atraídos para os azuis que tinham acabado de entrar na sala.

— Concordo totalmente. — James declarou, provando que tinha ouvido parte da conversa do corredor.

Savannah sorriu, o ar da sala se tornando mais leve e todas as cores mais intensas conforme seu Sargento se aproximava, tirando as luvas e as guardando no bolso da jaqueta escura. Ele e Sam tinham saído para alguma coisa naquela tarde depois de uma reunião do grupo de apoio, algo sobre ingressos para o basquete que Wilson queria comprar e arrastou Barnes junto, afinal o trio não estava de plantão naquele dia, mesmo Savannah não precisaria estar ali, mas gostava de passar um tempo com Wanda.

James deu um de seus sorrisos de canto, absolutamente lindo, com os fios castanhos revoltos e a roupa casual. Seu olhar tinha brilho, Savannah podia sentir a felicidade emanar dele, quase como se vibrasse através de seu próprio corpo. Sempre pensava que não havia como amar aquele homem mais do que já amava, no entanto toda vez que olhava para ele encontrava algo que intensificava ainda mais aquele sentimento...

Ela sorriu também, daquele jeito que fazia apenas com ele e para ele, algo que James dizia ser um sorriso-sol, apenas mais um de seus romantismos diários, apenas mais um detalhe que Savannah amava. Era comum, como naquele momento, que os olhos dos dois se encontrassem e tudo ao redor deixasse de existir, como se eles vivessem em uma realidade paralela e compartilhassem de um segredo só deles.

James cortou a distância e tocou o rosto de Savannah, curvando-se para beijar-lhe o canto dos lábios, porque apesar de seu romantismo latente não era dado a demonstrações públicas de intimidade. Talvez uma discrição que tenha sobrevivido com ele desde os anos 40.

— Honestamente vocês me enojam. — Hope cortou o clima com a sutileza de uma serra elétrica.

Savannah respondeu a importunação da Vespa com uma careta e James se limitou a dar um sorriso tímido, enquanto se acomodava ao lado da ruiva com a casualidade de quem já tinha ouvido provocações como aquela várias vezes e não se importava de verdade.

— Devíamos pedir pra chefe deixar as garotas ficarem juntas, assim nós ficaríamos juntos. — Scott retomou a conversa, apontando para todos os rapazes na sala, incluindo os recém-chegados.

— Será que ela vai deixar a gente montar um trio de quatro pessoas? — Peter devolveu empolgado, afinal não era segredo pra ninguém ali que ele adorava ser colocado nas mesmas missões que o Capitão América e o Lobo Branco.

Ele não gostava muito de trabalhar com a Raposa Flamejante no entanto, isso porque sua timidez falava mais alto e ele conseguia pagar o triplo de mico. O que era muito engraçado. Depois Peter ficava o caminho inteiro de volta implorando para que Savannah não contasse nada daquilo para MJ ou Gus, e a ruiva sabia que esse era o grande problema; ela era a pessoa que podia queimar o filme dele com a Michele e esse era o maior medo de Peter Parker: enfrentar vilões, incêndios e ameaças globais, tudo bem; arriscar perder a namorada, jamais.

— Você devia falar com a chefona. — Scott sugeriu, continuando aquela conversa e apontando para Sam.

— Eu? — Wilson apontou para si mesmo com as sobrancelhas franzidas. — Por que?

— Porque você é o Capitão América e ela gosta mais de você. — Peter rebateu, deixando claro que concordava com o ponto de vista de Scott.

— Gosta nada, me colocou pra fazer missão com os grudinhos ali. — Sam apontou para Savannah e James de forma displicente.

— Disse o cara que está rodeando a mesma mulher faz um ano e ainda não fez nada sobre isso... — O Sargento debochou em um tom afiado, ganhando um olhar nada amigável em retorno.

— Minha nossa! E eu pensando que tinha sido lerdo com a MJ... — Peter comentou, porém pareceu arrependido quando a atenção de Sam focou nele, por isso logo se calou.

Era um tanto impossível guardar aquele tipo de segredo naquela base, então todos ali sabiam da existência de Beverly, embora fosse de consenso geral que ela era a “garota do Capitão América”, nenhum deles — além de Savannah e James — parecia desconfiar que Sam vivia um relacionamento puramente platônico com Bev; eram amigos, estavam sempre juntos, apoiavam um ao outro, tudo que Mike fazia Wilson acabava envolvido... mas não passava disso.

Savannah desconfiava, por exemplo, que os ingressos para o jogo que Sam havia comprado eram para levar Mike e Bev...

— Eu estou respeitando o momento dela, além disso você é a última pessoa no mundo a poder falar alguma coisa, quer ver? — Ele rebateu, encarando James com um ar superior, e então focando na ruiva ao lado do Sargento. — Savy, quanto tempo ele levou pra te beijar mesmo?

— Uma eternidade... — Savannah respondeu de forma simples, e logo olhos azuis indignados a encaravam. Ela sorriu para James do jeito mais inocente que conseguia: — O que? É verdade...

O rosto bonito de Barnes se moveu em uma expressão que era um misto de desdém e desgosto.

— Mas foi menos de um ano... — Resmungou na defensiva.

— Joga alguma coisa na cabeça dele, por favor? — Sam pediu diretamente para Wanda.

— Vocês sabem que eu não sou controle remoto, não é? — A Feiticeira rebateu e todos na sala acabaram rindo.

Enquanto continuavam aquela conversa que era um misto de discussão, bagunça, birra e risadas, Savannah encarou Sam Wilson... Sim, era verdade que um ano havia se passado sem que ele nunca tivesse tentado nada mais que uma amizade e flertes soltos com Beverly, mas a ruiva sabia, em primeira mão, que aquilo era de extrema importância para a amiga.

Estar envolvida em um relacionamento que não exigia nenhuma recompensa física fazia com que Beverly recuperasse sua confiança aos poucos, Sam estava se saindo muito bem ao respeitar o tempo dela. Era óbvio para todos que eles eram mais que amigos, era visível o quanto eram bons juntos, era lindo ver Wilson interagir com Mike e ser a figura paterna que o garoto precisava, contudo, acima disso, era a dedicação dele que tinha feito com que Bev se sentisse valorizada, respeitada e segura, isso era o mais importante.

O futuro casal daria o próximo passo uma hora ou outra, não havia motivo para ter tanta pressa...

— Bom dia, crianças, alguma novidade? — O burburinho se extinguiu no exato instante que a figura de cabelos rubros entrou na sala acompanhada de perto por Visão.

Natasha Romanoff tinha presença, impunha respeito apenas com o andar, todos se aprumaram imediatamente e começaram a fazer o relatório de suas missões. E não, ninguém ousou pedir para mudar de equipe...

A Viúva Negra era capaz de botar medo com um simples olhar.

Visão deu um sorriso discreto para Wanda, mas continuou absolutamente focado em sua tarefa de assistente da chefe. Se Savannah tivesse que descrever, diria que ele era um grande puxa-saco, mas sabia que Visy sequer tinha ideia do que aquilo significava e que sua prestatividade para com a Iniciativa Vingadores era sincera e cheia de boas intenções.

— Que bom, acho que já estou a par de tudo que preciso. — Romanoff declarou, depois de ouvir a todos com atenção. — Vou pedir para que uma equipe de apoio vá ajudar a colocar ordem no lugar antes que Dom me envie uma dúzia de mensagens reclamando disso. Estão dispensados.

— Dominic tem seu telefone particular? — Sam pareceu surpreso com a informação, ganhando um olhar quase assassino da Viúva Negra.

— Informação irrelevante. — Ela deu de ombros cortando o assunto. — Dispensados.

Wilson deu uma risadinha de canto, como se soubesse de bem mais do que as palavras diziam, e aos poucos todos eles foram deixando a sala de reuniões. Um dos trios estava de plantão, mas as outras equipes poderiam fazer o que quisessem em seu tempo livre. Savannah estava começando a imaginar ótimas formas de terminar aquele dia.

— Na verdade... Devenport? — A voz de Natasha fez com que parasse e desce meia volta.

Enquanto os outros seguiam e James parava ali na porta, Savannah voltou alguns passos, esperando que a chefe lhe desse mais ordens. No geral era fantástico trabalhar com Natasha Romanoff, o jeito dela de gerenciar tudo era impecável, e não haviam reclamações, pelo menos não da parte da Raposa Flamejante...

— Tenho uma reunião com Charles Xavier semana que vem, queria que fosse comigo. Falaremos sobre o acordo que vai revelar os Mutantes ao mundo e do apoio dos Vingadores junto ao Governo. — Romanoff disse simples e direta, enquanto se encostava na mesa.

Se conheciam há quase um ano e Savannah sempre ficava um tanto “boba” quando estava perto demais da Viúva Negra, mas quem é que podia culpá-la, não é mesmo?

— Claro. — Assentiu de imediato, tentando manter a pose profissional. Não era um pedido estranho, já que desde o princípio Savannah acabou se estabelecendo como uma ponte natural entre os chamados “X-men” e os Vingadores. — Podíamos chamar a Wanda, faz algum tempo que o professor Xavier quer conhecê-la.

— Está querendo levar uma terceira pessoa para o nosso encontro, Devenport? — Natasha brincou e riu de canto, como se soubesse perfeitamente que Savannah tropeçaria na própria pose.

— Está tentando roubar minha namorada assim na cara dura, Romanoff? — James lançou, com os braços cruzados, encostado na entrada da sala.

Savannah prendeu um sorriso com os dentes e tentou não ter um mini-ataque, duas perfeições disputando atenção dela, mesmo que fosse de brincadeira, era demais para seu ego.

— Barnes... — Natasha cantarolou compassiva, como se falasse com uma criança inocente. — Se eu tivesse qualquer intenção de roubar sua namorada, você já não teria namorada nenhuma.

O rosto inteiro de James se fechou em uma expressão contrariada e Savannah acabou não conseguindo conter uma risada. Natasha riu também, não era segredo que ela gostava de alfinetar o Sargento de vez em quando...

Savannah na verdade ficava muito feliz e lisonjeada de ser o alvo daquela amigável disputa falsa.

Romanoff focou casal de forma mais neutra e usou o tom prático que tinha como líder.

— Eu escolhi a Savy porque, pelo que eu sei, Erik Lehnsherr estará lá também. E já que todos o conhecem como “Magneto”, presumo que seja um manipulador de metal, logo... — Ela apontou para o braço de James. — Você não vai ser de muita ajuda caso ele se torne um problema. Mas a Raposa Flamejante sim, já que qualquer tipo de magnetismo perde a forma quando exposto ao calor.

— Você sempre pensa em tudo? — O Sargento jogou de volta, e não era difícil ver que havia se impressionado com a linha de raciocínio.

— É o meu trabalho. — Natasha deu de ombros casualmente. — Mas vou te dar um crédito por ter pensado em me trazer de volta, então te deixo ficar com a garota... talvez.

Ela piscou para Savannah enquanto James revirava os olhos em desgosto levemente fingido.

— Minha sugestão também foi lógica. — A Raposa Flamejante desconsiderou a guerrinha particular da qual era o centro e focou na missão que teriam pela frente. — Wanda pode mexer coisas com a mente e ela é muito poderosa, pode ser um bom trunfo caso as coisas saiam do controle.

Savannah não havia conhecido Erik ainda, volta e meia passava no Instituto, mas o máximo que sabia sobre o antigo amigo de Charles Xavier era o que um ou outro aluno falava, as opiniões eram muito opostas, alguns o achavam um visionário, outros um anarquista. Tudo que ela podia fazer era se preparar para o pior, mesmo que Xavier tivesse garantido uma reunião pacífica. De um jeito ou de outro eles lidariam com isso, no fim sempre encontravam um jeito de restaurar a paz.

— Gosto do jeito que você pensa. — Romanoff declarou satisfeita. — Te vejo na sexta. Pode ir, eu mesmo falo com a Wanda.

— Sim, senhora. — Savannah respondeu e finalmente pôde deixar a sala, com James em seu encalço.

— Podia pelo menos fingir que não tem uma paixonite por ela... — Ele resmungou, quando se afastaram o bastante pelo corredor. Ela riu do ciúmes bobo que seu Sargento tinha.

— É “crush” que se fala. E pelo amor de Deus, é a Natasha, quem é que não tem um crush nela? — Jogou de volta, no melhor de seu humor.

— Eu! — James apontou para si mesmo e Savannah caiu na risada com a ironia daquela afirmação tão categórica. Era muito evidente que se os dois tivessem se conhecido em qualquer outro momento seriam o casal perfeito...

Na verdade, considerando os multiversos do qual Bruce Banner tanto falava, com certeza em um deles Bucky Barnes e Natasha Romanoff eram tipo o casal mais foda de todos. Isso em outro universo é claro. Ali onde estavam, Savannah tinha segurança que James era seu e de mais ninguém...

Tocou o braço dele para dizer algo nesse sentido, mas sua frase ficou perdida no momento quando algo rápido demais praticamente os atropelou no meio do corredor, lançando o Sargento alguns metros para o lado, como se tivesse lhe empurrado de propósito. Savannah viu o vulto dos cabelos platinados e logo havia um rapaz na frente deles, com o sorriso mais cretino da face da terra.

— Oh... Não me viu chegando? — Pietro Maximoff debochou, agarrando a mão de Savannah e depositando um beijo ali, todo galante, antes mesmo que James pudesse pensar me reagir. — Senhorita...

Sorriu para a ruiva e escapou alguns metros antes que o braço de vibranium lhe atingisse.

— Juro que vou matar você, Pietro! — O Sargento praticamente rosnou, com um olhar assassino que corroborava com suas palavras.

Não era segredo pra ninguém que, se havia algo no universo capaz de irritar James Barnes ao limite, esse “algo”, era Pietro Maximoff.

— Teria que me pegar primeiro, vovô. — O irmão de Wanda debochou, abusando de sua super velocidade para irritar ainda mais o Lobo Branco.

Savannah se limitava controlar a vontade de rir.

— Eu posso quebrar suas pernas enquanto você dorme, seria muito difícil correr sem elas. — James ameaçou e era como um vislumbre do Soldado Invernal. Pietro tinha um dom para irritar as pessoas, com certeza.

— Alguém já te disse que você tem que trabalhar essa sua agressividade? — O rapaz debochou, escapando quando o Sargento estava prestes a lhe alcançar.

Savannah achou que já era o suficiente, era melhor preservar o coração do namorado para momentos mais importantes... e mais quentes.

— A gente já trabalha isso, Pietro, na cama, bem devagarzinho... — Jogou tão provocativa quanto ele, sabia exatamente como irritar o amigo.

Sim, apesar das farpas, do deboche e das ameaças, todos eles eram amigos, arriscariam a vida um pelo outro se fosse preciso, mas obviamente nunca perderiam a piada.

Pietro parou onde estava, cruzando os braços claramente afetado com a alfinetada de Savannah. A super velocidade era o trunfo perfeito para pregar peças, mas também era o melhor foco de bullyng, todo mundo sabe que algumas coisas é melhor fazer devagar.

— Por isso que ninguém gosta de ficar perto de vocês. — Ele resmungou feito uma criança mimada, antes de sair corredor afora sem se despedir.

James encarou o rastro invisível com tanto afinco que Savannah realmente desconfiou que ele daria uns tabefes em Pietro se pudesse.

— Se eu soubesse que meu desejo traria esse chato de volta eu nunca tinha feito. — O Sargento declarou por fim, com um revirar de olhos dramático e exagerado. — Pior efeito colateral de todos.

Sim, Pietro era, assim como o Visão, um efeito colateral não planejado do pedido para a Estrela Cadente, mas enquanto Visy tinha sido apenas falta de pensar melhor para saber que seria óbvio seu retorno, o garoto Maximoff era uma feliz coincidência. Clint tinha feito dele um Vingador, portanto, Pietro também se beneficiou do pedido.

James podia estar reclamando naquele momento, mas Savannah tinha certeza que no fundo ele estava feliz com aquele retorno, assim como estava com todos os outros.

— Mentira, você tinha feito sim. — Ela declarou, envolvendo o braço dele para que continuassem andando. — Além disso a Wanda adora... menos quando ele e o Visão começam a brigar...

Pietro era o terceiro membro da equipe da Feiticeira Escarlate e, se havia alguém no mundo que ele realmente gostava de azucrinar era o pobre Visão, alguns podiam até mesmo dizer que era um ciúmes exacerbado demais para um irmão sentir por sua irmã...

— Você não era tão ciumento assim no começo, sabia? — Savannah jogou casualmente, com um sorrisinho de canto, sabendo muito bem que o problema de James com Pietro era exatamente aquele.

— Por que no começo ninguém se empenhava tanto em roubar minha garota. A coisa está piorando muito com o tempo. — O Sargento devolveu, tão casual quanto ela.

— Sua garota? — Repetiu, parando ali onde estavam.

Era um tanto ridículo que ainda sentisse o coração esquentar toda vez que James se referia a ela daquela forma.

— Não é? — Ele parou também, colocando o braço ao redor da cintura de Savannah e a puxando para perto de si, fazendo com que os corpos se chocassem e deslizando as mãos para dentro dos bolsos traseiros do jeans que ela usava.

— Não sei... — A voz feminina cantarolou em um sussurro languido. — Diz de novo pra eu ter certeza.

James aproximou o rosto, escorregando o nariz pela bochecha de Savannah, para então soprar baixinho:

— Você é minha garota, Boneca.

Azuis e avelãs se encontraram por um instante, antes que o sorriso dela fosse coberto com um beijo que não permaneceu suave por muito tempo. Enquanto os dedos de vibranium se infiltravam nos fios ruivos, James puxou o corpo de Savannah com a mão livre, e logo a prensava contra uma das paredes.

As pernas trêmulas, respiração ofegante e coração disparado eram coisas que a ruiva sempre pensou que sumiriam com o tempo, no entanto todas as vezes que James lhe beijava eram sempre tão impactantes quanto a primeira vez. Isso nunca mudaria.

O som de alguém limpando a garganta insistentemente fez com que o Sargento se afastasse dela no mesmo instante.

— Por favor, arrumem um quarto. — Tony Stark revirou os olhos de maneira exagerada e dramática.

James arrumou a roupa e Savannah cruzou os braços com o mesmo revirar de olhos que o Homem de Ferro. Dada a direção da qual ele vinha tinha acabado de chegar na base, usava um de seus ternos azul acinzentado e óculos escuros que tirou do rosto naquele instante.

— Acho impressionante que toda vez que eu apareço aqui vocês dois estão agarrados. — Ele declarou naquele tom meio debochado, meio desinteressado que tinha usualmente.

— Pra um velho aposentado você aparece muito por aqui, na verdade. — Savannah retrucou afiada.

Apesar de não sair em missões e não ficar voando por aí em suas armaduras, não era segredo pra ninguém que Tony Stark tinha protótipos prontos para qualquer batalha, além disso ele lidava com outros tipos de coisas; como aconselhamento em crises e mentorias dos novatos. Além de ter uma superproteção especial com Peter Parker. Então sim, por mais que sempre alegasse que estava na aposentadoria, ele estava na base tão frequentemente quanto qualquer um deles.

— Me chama de velho, mas namora um centenário, enfim, a hipocrisia. — Stark jogou de volta, usando um vocabulário que era atual demais para sua idade.

Savannah teve que segurar para não rir, ela e Tony adoravam implicar um com o outro mutuamente, suas interações acabavam sempre em risadas ou alfinetadas irônicas, para desespero de Barnes.

— James pode até ser centenário, mas se compararmos as performances eu tenho certeza que ele... — Não conseguiu terminar, porque foi puxada sutilmente para trás e teve que se calar quando o Sargento quase atropelou suas palavras.

— Também é muito bom te ver, Tony. — Lançou claramente constrangido, não só por ter sido flagrado em um momento inapropriado, mas também pelos comentários quase explícitos demais de Savannah.

Stark assentiu em um cumprimento simples, encarando James de cima abaixo por alguns instantes.

— Não acredito que ainda está usando essa tecnologia ultrapassada... — Apontou para o braço de vibranium, com o qual sempre achava um jeito de encrencar. — Já disse pra me ligar que eu e minha equipe construímos outro bem melhor.

— Você e sua equipe, vulgo TJ e Gus, que foram roubados aqui da base. — Savannah soltou, fingindo um acesso de tosse para jogar as verdades.

O traje do Capitão América e o desempenho durante a crise com a bomba em Manhattam tinham tinha feito com que Thomas Jefferson e August fossem convidados para integrar o time técnico da iniciativa, com cargos em áreas diferentes, é claro, mas ainda assim trabalhando em conjunto algumas vezes. Isso durou alguns meses, até que Tony aparecesse e roubasse os dois para um trabalho integral na Torre Stark, o que obviamente eles não negariam nunca.

Na prática o trabalho era o mesmo, e o salário com certeza era pago pela a mesma pessoa — o Recursos Humanos das Indústrias Stark — ainda assim na Torre eles tinham mais oportunidade para desenvolverem outros tipos de projetos, não apenas os ligados à iniciativa.

Savannah estava imensamente feliz pelos amigos, no entanto é claro que ela tinha que pegar no pé de Tony sobre isso. Algo que ele sabia muito bem como retribuir a altura...

— Aceite que seus amigos gostam mais de mim que de você, Fagulha. — Stark devolveu superior e voltou a focar em James: — Eu posso colocar umas funcionalidades legais no seu braço.

— Isso é alguma competição entre você e a Shuri de novo, não é? — O Sargento respondeu, visivelmente desconfiado.

E não era pra menos, afinal, desde que Tony havia conhecido a princesa de Wakanda, — depois de uma visita ao país, sob convite do próprio Rei T’Chala — ambos tinham um tipo de disputa de cientistas, trabalhando em projetos parecidos. Obviamente que a população no geral saía ganhando, porque eram sempre coisas que colaboravam com o desenvolvimento sustentável dos países, uma parceria produtiva e inspiradora, que era exemplo até na ONU, mas que tinha um fundo um tantinho egocêntrico, um queria simplesmente vencer o outro.

Se Tony fizesse James aceitar um “upgrade” no braço que Shuri havia projetado, com certeza ganharia uns pontos naquele joguinho...

— Você sabe que é um velho de meia idade competindo com uma menina, não é? — Savannah alfinetou, mas isso não afetou Stark em nada.

— Nada disso! — Ele fez um gesto displicente com a mão esquerda. — Eu sou uma pessoa genial, competindo com uma pessoa genial. Gênero e idade não importam para nossos intelectos.

— Nerd... — A ruiva tossiu, ganhando um revirar de olhos. — Além disso eu acho que a Shuri é bem mais inteligente que você...

James encarou Savannah como se ela tivesse acabado de proferir uma blasfêmia contra um Deus raivoso. A verdade é que ele muitas vezes ainda pisava em ovos perto de Tony, e isso significava ficar em cima do muro em assuntos como aquele, mesmo sabendo a verdade óbvia. No entanto, Stark não pareceu nada ofendido com aquela afirmação, apenas comprimiu os lábios e encolheu os ombros.

— Talvez... Provavelmente até... — Ele admitiu quase como quem não se importa. — Mas inteligência não é tudo, sabe? Se fosse, ela teria pensado que não podia fazer um braço de vibranium sem dedos que vibram.

Savannah foi incapaz de conter a risada, principalmente porque ela mesma já tinha pensado nessa piadinha tosca, porém a guardara para si. James, no entanto, piscou algumas vezes visivelmente confuso:

— Pra que eu ia querer dedos que vibram?

— Pra patroa, claro. — Tony rebateu, respondendo à pergunta de forma óbvia, porque afinal era mesmo evidente para que uma “particularidade” daquelas serviria.

— O que a Natasha tem a ver com isso? — O Sargento devolveu ainda mais confuso e Savannah não conseguiu ter outra reação a não ser estapear a própria testa em um gesto de incredulidade.

A gargalhada carregada de deboche de Stark se espalhou pelo corredor e ecoou por toda parte.

— Espero que a performasse realmente compense... — Ele apontou para James enquanto se dirigia a Savannah. — Porque o cérebro claramente ainda está no gelo.

— Tony! — A ruiva repreendeu, batendo displicentemente as costas da mão direita no braço dele.

James olhou de um para o outro e finalmente pareceu entender quem era a “patroa” que se beneficiaria dos dedos de vibranium. Ele engasgou com o próprio ar a ponto de ficar vermelho.

— Eu aposto que vocês se divertiriam. — Tony deu de ombros como se fosse nada demais. — Mas enfim, passem lá em casa pra almoçar qualquer hora, Morgan está com saudades.

Simplesmente deu a conversa por encerrada, como fazia quase sempre e se afastou do casal, no entanto algo o fez parar e voltar alguns passos.

— Espera. Só apareça na minha casa se lavar essa boca com sabão muito bem antes, Fagulha. — Apontou o dedo em riste para Savannah. — Ainda não conseguimos tirar a última “palavra divertida” do vocabulário da Morgan.

— Foi sem querer! — A ruiva se defendeu, erguendo as duas mãos em rendição. — E nem foi um palavrão, palavrão mesmo...

Costumava se controlar perto de Morgan, mas da última vez tinha escapulido uma palavrinha imprópria. Nada demais. Felizmente Pepper não estava usando sua armadura de Resgate, ou Savannah teria certeza que levaria uma daquelas rajadas de energia...

— Devia ensinar a lerdeza dos anos 40 pra ela. Rogers ficaria orgulhoso. — Tony apontou de um para o outro do casal, então deu meia volta outra vez. — Agora cadê aquele cabeça de teia, temos compromisso no MIT.

Assim que o milionário sumiu no fim do corredor, as orbes azuis de James pousaram em Savannah e ela sorriu toda sapeca.

— Acho absurdamente fofo o quanto você fica constrangido com coisas tão bobas as vezes. — Ela deu um beijo estralado nele e o puxou para que seguissem para a saída. — Nem parece que ontem de noite estava todo animado com aquela nossa ideia de...

Ele não permitiu que Savannah continuasse.

— Shiii.... — Soprou no ouvido dela, em um sussurro quase inaudível e bastante provocante. — Nenhuma audição curiosa precisa saber disso.

— Está dizendo que tem um lado seu que eu posso conhecer? — O tom insinuativo dela veio com um tantinho de humor.

— É exatamente isso que eu estou dizendo, Boneca... — James sorriu, aquele sorriso de canto que tinha efeitos mais quentes que o próprio fogo no corpo de Savannah. — Agora vamos pra casa, é o bastante de interrupção por um dia...

Ela riu enquanto seguia o Sargento para o estacionamento. Algo lhe dizia que o dia acabaria muito bem.

✪ ✪ ✪ ✪ ✪

O Brooklyn estava ensolarado, mesmo que um vento gelado soprasse forte, principalmente ali na Ponte. Bucky agradeceu internamente porque o trânsito não estava caótico naquele dia, ter um carro era bom por causa da comodidade, mas nem sempre ir para a base com ele, ao invés de usar a moto, era prático, por causa do fluxo intenso.

No entanto havia saído com Sam pela manhã para comprar os ingressos do jogo em que Mike queria ir, então o carro pareceu melhor que a moto naquele dia...

Era interessante pensar em como as lembranças daquele bairro tinham mudado em sua mente, recordava de pontos de antes, dos anos 40, porém tinha aquelas novas memorias contemporâneas do lugar; como ali no ponto em que tinha encontrado Alpine, ou algumas ruas abaixo na pizzaria preferida de Savannah, havia seu antigo prédio mais para o centro e então seu novo apartamento em um local um pouco mais discreto e residencial.

Pra ser honesto não teria mudado de casa, teria rebatido a implicância chata de Tony Stark com o lugar mil e uma vezes, mas quando Sam aconselhou Beverly a se mudar um pouco mais para perto do bairro dele “por segurança”, Bucky passou a ponderar melhor sobre isso.

Nesse meio tempo é claro que Tony já havia tentado influenciar Savannah com suas ideias megalomaníacas de apartamentos enormes e tecnológicos no topo de sei lá onde. Felizmente sua garota era bastante sensata, mesmo assim o casal acabou concordando que, dado suas novas atividades heroicas, um novo apartamento seria mais seguro mesmo. Por isso acabaram se mudando, os dois, juntos, afinal seria inútil pagarem dois aluguéis sendo que dormiam na mesma cama toda noite.

Resolveram não aceitar a oferta de Stark, ambos concordaram que embora a ideia de terem um lugar próprio fosse tentadora e a oferta de Tony muito generosa, eles não se sentiriam confortáveis com isso... Pagariam o próprio aluguel.

Bucky deixou os pensamentos de lado, alternando o olhar entre a estrada e Savannah, o vento balançava o cabelo ruivo no ar, enquanto ele tinha a mão de vibranium no volante e a oposta pousada na coxa dela, a ouvindo cantarolar a música que vinha dos autofalantes, leve e relaxada, quase como se estivessem de férias.

Os olhos dos dois se encontraram e ela deu um de seus sorrisos-sol, aquele que Barnes tanto amava, e que sempre aquecia seu coração.

— Não parece preocupada com sexta... — Comentou, voltando a atenção para as ruas.

— Eu devia? — Savannah devolveu no mesmo tom, se ajeitando no banco para que se virasse um pouco na direção dele.

— Sei lá, Wolverine disse que esse Magneto não é muito fácil de lidar. — Deu de ombros, virando à esquerda no cruzamento.

— Wolverine? — Ela jogou de volta toda cheia daquele tom insinuativo.

Bucky se limitou a revirar os olhos e deu de ombros.

— A gente conversa sobre muitas coisas, ué.

Verdade que seu primeiro encontro com Logan Howlett fora bem estranho, mas depois os dois aceitaram que tinham se esbarrado em algum lugar, na guerra ou enquanto eram usados por agências secretas, então tinham desenvolvido um tipo de amizade quase desafiadora, que na verdade era bastante divertida. Tinham muita coisa em comum afinal.

— Nik vai ficar com ciúmes que arrumou outro amigo grandalhão. — Savannah riu, pegando o aparelho celular para trocar a música.

— Teve notícias dele? — Bucky perguntou.

Nik havia voltado para seu lar com seus irmãos, ele estava sempre à disposição caso precisassem, mas estava focado em integrar Leo e Vlad com a sociedade da melhor forma possível.

— Me mandou uma foto da praia hoje mais cedo, disse que estão curtindo as férias. — Savannah mexeu no aparelho rapidamente e o entregou a Bucky quando ele parou no sinal. —Pelo que parece a Latvéria tem um novo líder e isso acalmou os ânimos por lá.

Barnes encarou o amigo na imagem. Ele estava na praia, de caução e sem camisa, fazendo pose com dois dedos em forma de “V”, enquanto os dois irmãos estavam totalmente vestidos e com cara de quem odiavam tudo aquilo. Era uma foto engraçada, como todas as que Nik mandava periodicamente.

— Que bom, ele merece um pouco de paz na vida. — Devolveu o celular para Savannah. — Mas não tenta fugir do assunto, estávamos falando do tal Magneto.

Tudo o que Bucky sabia é que Wolverine não tinha boas impressões do cara, e estava confiando nesse instinto. Ou seja, estava preocupado com o encontro vindouro.

— Xavier não permitiria que Erik entrasse no instituto se fosse uma ameaça. — Savannah deu de ombros de forma simples.

Barnes achou que ela estava sendo tão condescendente com o homem desconhecido quanto Wolverine dizia que Charles Xavier era.

— Talvez ele não seja, para outros Mutantes, mas a Natasha é humana e você e a Wanda estão perto, mas também não são Mutantes. — Ele ponderou, a verdade é eu não ficava confortável em saber que Savannah iria sozinha. Ou melhor, sem ele.

Sabia que ela tinha toda a capacidade para se defender, e que naquele último ano ela tinha evoluído muito em seu treinamento, mesmo assim nunca deixaria de se preocupar, não importa qual fosse a missão... Ela havia auxiliado em um incêndio na semana anterior e ele não conseguiu respirar direito até tê-la nos braços, mesmo que tenha demorado menos de meia hora...

— Está preocupado com a Natasha, é? — Sentiu o empurrão de leve no braço direito, enquanto Savannah ria em deboche. — Quem é que tem um crush nela agora?

— Estou falando sério, Boneca. — Quis rir também, mas procurou se manter sério.

— Eu vou cuidar da Natasha e a Wanda vai cuidar da gente, vamos ficar bem, relaxa. — Ela devolveu apaziguadora e Bucky respirou fundo. Era só um jantar afinal de contas.

— Por que acha que Charles quer tanto conhecer a Wanda? — Focou em outro ponto do assunto.

Tinha escutado o Diretor do Instituto falar ao menos três vezes sobre como seria interessante se a senhorita Maximoff comparecesse ao jantar...

— Não faço ideia dos motivos pelos quais Xavier faz as coisas que faz. Mas... Sierra disse que ele tem uma teoria de que os poderes da Wanda são mutantes na verdade. — Savannah explicou neutra. O próprio Bucky já tinha ouvido esses burburinhos, mas achava bobagem.

— Pietro e ela são aprimorados pela Hidra. Tem algo a ver com as Joias do Infinito. — Explicou o que sabia sobre os gêmeos.

— Exato, mas eles sobreviveram. Pode ser porque desenvolveram poderes Mutantes que os protegeram nesse momento. — A ruiva deu de ombros.

Barnes não queria ser cético, talvez fosse verdade, talvez não, mas isso ainda não explicava uma coisa:

— E onde o tal Magneto entra nisso? — Questionou, porque afinal o fato de Xavier querer Wanda especificamente no jantar em que Erik Lehnsherr compareceria, depois de tanto tempo recluso, não podia ser coincidência.

— Não sei. — Savannah respondeu, encolhendo os ombros de forma simples. — Mas estou curiosa pra conhecer esse homem. Falam tanta coisa dele.

Bucky a encarou de rompante, sentindo aquele incômodo latente na boca do estômago.

— Ih, tá muito interessada, não acha?

Ela riu, porque era sua reação padrão para toda vez que ele demonstrava aquele sentimento.

— E você está com muito ciúmes, não acha? — Devolveu divertida e foi a vez de Barnes encolher os ombros.

— Não tenho culpa se está todo mundo tentando te roubar de mim. — Jogou casualmente, embora houvesse muito de honestidade em suas palavras, então se virou na direção dela, só para dizer com toda a convicção que tinha. — Você é muito apaixonante.

— Todo mundo? — Savannah repetiu, com um sorriso travesso e um tanto incrédulo.

Ela era incapaz de ver o encanto que exercia sobre todos ao seu redor...

Barnes se lembrou de todas as vezes que o bichinho do ciúmes havia lhe mordido durante aquele ano — muitas vezes — não era como se pretendesse afastar Savannah do mundo, pelo contrário até, amava vê-la interagir com as pessoas, ficava fascinado observando enquanto ela naturalmente se tornava o centro das atenções em uma conversa. Sua garota não era apenas linda, era também cativante, espirituosa, esperta, engraçada e sabia como se encaixar em qualquer lugar. E Bucky amava isso, no entanto também sentia ciúmes, não o tipo tóxico e doentio, apenas aquele sentimento agridoce, natural e simples.

Resolveu citar algumas vezes em que as pessoas ao redor tinham ficado muito tentadas a orbitar ao redor do Sol que Savannah era:

— Pois é, não tem só esse homem dono de uma ilha inteira e que aparentemente é um mentor de uma resistência mutante. Tem a Líder dos Vingadores, que por uma acaso é treinada pra seduzir qualquer um na face da terra; o garoto irritante e super rápido; teve aquela reunião em que a Valkyria e o Thor não desgrudavam de você também... Simplesmente a Rainha de Nova Asgard e o Deus do Trovão Bonitão, nada demais. E eu aposto que se Thor achar o irmão, que ele tem certeza absoluta que está vivo, vai ter outro asgardiano na sua cola...

Savannah caiu na risada, como se achasse um absurdo tudo aquilo, e em oposição, para Bucky era também um absurdo; um absurdo que qualquer pessoa no mundo não se apaixonasse por ela.

— O que? Não ri! Fico feliz que T’Chala adore você, mas não desse jeito, seria concorrência demais. Tá ficando difícil pra mim aqui, eu sou só um cara de cem anos com um braço de metal. — Se defendeu, usando o mesmo tom divertido que basicamente todas as conversas deles tinham. — Acho que vou aceitar os dedos que vibram que o Tony quer me dar, a concorrência está acirrada, preciso usar todas as armas disponíveis.

Riram juntos, claro que tinha uma pontinha de verdade nas palavras de Bucky, mas ele preferiu deixar estar...

— Disse o grande Lobo Branco que faz multidões suspirarem por onde quer que passa. — Savannah acusou, usando aquele mesmo tom descontraído. As vezes Barnes pensava que o relacionamento dos dois funcionava tão bem, exatamente porque ele tinha surgido de uma amizade. Podiam falar e se divertir com absolutamente qualquer coisa. — Pensa que não sei daquelas propostas de pousar nu? Abby me contou.

Bucky revirou os olhos, mas seria impossível disfarçar seu constrangimento. Era verdade, o convite existia, era de uma revista digital nova no ramo, eles haviam sido muito insistentes e procuraram o Lobo Branco — na verdade procuraram o Soldado Invernal — através de Abby, afinal ela era o contato mais conhecido com os heróis. Claro que Barnes recusou o convite descabido, e Abigail tinha prometido não contar para Savannah, mas ele devia saber que ela não conseguiria guardar aquele segredo...

— Eu nunca faria algo assim. — Ele se limitou a dizer, só pensar no assunto o deixava constrangido.

— Que pena, fãs choram pelo mundo todo agora... — É claro que Savannah acharia uma forma de fazer piada com o assunto. Por isso a amava. — Além disso, eu amaria umas fotos dessas. É para o meu TCC.

Bucky acabou rindo, todo o constrangimento indo embora. Era impossível ficar constrangido perto de Savannah, ela despertava o fogo dentro dele.

— Você não precisa de uma foto, pode ver ao vivo. — Retrucou, com um sorriso de canto que era quase uma promessa. — Deixo você estudar meu corpo para o seu TCC o quanto você quiser, Boneca.

Savannah prendeu o sorriso com os dentes e era como se chamas ardessem em seu olhar, isso por apenas um segundo, porque ela pareceu cair em si no instante seguinte.

— Não tenta me ludibriar com suas cantadas dos anos 40 levemente atualizadas, Sargento. Vamos deixar minha pesquisa e todo o sexo que vai surgir dela pra depois, e voltar ao foco. — Ela declarou, arrumando a postura e as risadas dos dois se espalharam pelo carro outra vez.

Era impossível ficar entediado ou triste perto dela, o clima era sempre aquele. Bucky não trocaria isso por nada no multiverso.

— Tudo bem, então. Qual era o foco mesmo?

— Todas as pessoas que tem um crush em você. — Savannah respondeu de forma prática. — Podíamos começar pelo Nik; também tem aquele garoto que vira gelo no instituto... Bobby; Tem também a Kitty e a Vampira, ouvi elas sussurrando um dia desses quando fui encontrar a Sierra, que era “uma pena o meu namorado bonitão não ter ido junto”. — Ela foi contando nos dedos. — Além disso a Nebula estava muito interessada em você. E a Capitã Marvel.

— Nebula queria roubar o meu braço para dar pro Rocket, tenho certeza, então não conta. — Bucky devolveu tentando não rir. — Nem a Carol, porque ela também estava muito interessada em você.

Encontros na base para alguma confraternização sempre geravam as melhores conversas. Quanto mais gente, mais divertida a coisa se tornava.

— É claro que estava... eu sou interessante pra caralho. — Savannah retrucou de imediato. — Admita, Sargento, somos o casal mais interessante do nosso circulo de amigos, por isso temos tantos pretendentes. Somos os crushs de geral.

— Só não somos mais interessantes que a capa do Doutor Estranho. — Barnes ponderou.

— Nada é mais interessante que aquela capa. — Os dois acabaram rindo juntos.

Era mesmo uma capa muito legal, Bucky tinha ouvido Rocket confabulando para roubar a peça, mas é claro que roubar de um mago como Stephen Stranger não era nada fácil...

— Mas não se preocupe, Sargento, você tem uma coisa que nenhum deles tem. — Savannah declarou quando os dois finalmente pararam de rir.

— Um braço de vibranium? — Bucky jogou de volta em um tom divertido.

— Meu amor. — Ela respondeu simples e direta, foi impossível não sorrir.

— E depois diz que não é romântica... — Ele aproveitou que tinha parado no sinal para deslizar os dedos pelo rosto de Savannah em um carinho suave.

— Eu nunca disse que não sou romântica. — Ela se defendeu, se fazendo de ofendida.

— Ah é, tem razão, fui eu quando você não aceitou minha aliança. — Barnes devolveu, lembrando do momento que ocorrera meses antes.

Estavam passando na frente de uma loja e Bucky viu um par na vitrine, mas Savannah não permitiu que ele comprasse.

— Você sabe que derreteria logo na primeira vez que eu usasse meus poderes... — Ela disse a mesma coisa que tinha dito na ocasião. — Eu nem posso usar o colar de Sol.

Bucky sabia que era verdade, que acessórios eram algo que Savannah tinha abolido totalmente, e que mesmo os celulares acabavam tendo vida bem curta porque ela esquecia que não podia estar com eles no bolso durante as missões. Gus passava boa parte do tempo confeccionando peças de roupa especiais por causa disso, e TJ jurava que em breve ele teria um aparelho resistente ao fogo, o desafio era o fogo de Savannah especificamente, ela podia aquecer como o próprio Sol, isso fazia com que qualquer metal acabasse derretendo se a Raposa Flamejante tentasse usar muito de seu poder.

E claro que Barnes entendia isso, mas não podia negar que adoraria ver os dois usando alianças iguais no dedo. Talvez fosse um tradicionalista.

— E você também não quis casar comigo. — Ele moveu os ombros como se fosse nada demais.

— Não foi assim que aconteceu! — Savannah se defendeu com o dedo erguido em riste. — Eu disse que a gente não precisava gastar dinheiro com a festa e cerimônia, a gente já mora junto, um papel não vai mudar isso, ou tornar mais oficial.

Certa, não era exatamente assim que tinha acontecido, não foi um pedido oficial nem nada, foi uma conversa noturna sobre o assunto apenas. O que Savannah não sabia era que Bucky na verdade estava sondando o terreno para um pedido.

Ela não tinha se negado, só simplificou tudo, como sempre fazia com qualquer coisa. E o Sargento amava como a vida podia ser fácil e leve ao lado dela, mas naquele ponto preferia que ela tivesse levado a coisa toda a sério.

Talvez o ponto fosse que a ideia de “para sempre” para Bucky viesse junto com a palavra “casamento”, e esse mesmo conceito não existia para Savannah. Por vezes ele se achava um tanto piegas por desejar tanto que houvesse um símbolo irrefutável do “para sempre” deles. Entendia que um papel assinado ou um pedaço de metal dourado não eram garantia de segurança, mas não podia evitar queria algo mais.

— Como eu disse, nada romântica. Sou um homem à moda antiga, você devia casar comigo. — Lançou com um mover de ombros. Era bobo, e claro que não brigavam por algo assim, porém ainda era uma questão...

— Eu sou uma mulher moderna que acha o casamento uma instituição falida. — Savannah devolveu de forma simples.

Bucky franziu as sobrancelhas, vendo uma certa contradição naquela afirmação:

— Não foi isso que você disse quando o TJ e o Gus se casaram...

— É porque são construções sociais diferentes. — Ela explicou, paciente como sempre era ao falar sobre aqueles assuntos. — Em alguns lugares do mundo nossos amigos ainda não poderiam se casar, nesse caso, para a comunidade LGBTQ o casamento por muito tempo foi um exemplo do quanto eles eram excluídos e desprezados pela sociedade hipócrita em que vivemos, casar pra eles é mais do que firmar o compromisso de que eles vão ficar juntos e se amar, é mostrar que eles tem orgulho de quem são, de que eles tem tanto direito de ser uma família quanto qualquer casal hétero. O casamento deles é um símbolo de resistência, luta e orgulho, algo que foi conquistado com suor e sangue. Mas pra uma mulher em uma união heterossexual o casamento foi, e às vezes ainda é, símbolo de opressão, submissão, diminuição de valores, para muitas ainda é uma prisão, não apenas financeira como burocrática. O contexto social faz a diferença. A tradição do casamento hétero é um símbolo do patriarcado disfarçado de romantismo, já na comunidade LGBTQ o casamento tem outro significado, entende?

Bucky acabou sorrindo, por vezes era fácil esquecer o quanto Savannah Devenport era politizada e o quanto as convicções dela faziam sentido, sendo um símbolo de resistência, mesmo que não parecesse. Ele nunca pediria que ela fizesse algo que a deixasse desconfortável.

Sim, presava tradições, mas podiam criar novas, algo que tivesse uma simbologia melhor, algo só deles.

— Além disso, eu não preciso de um papel pra me dizer que a gente se ama e vai estar do lado um do outro não importa a ocasião, no melhor e no pior. — Ela declarou de forma convicta, segurando a mão dele que estava sobre a coxa dela. — Mas a gente pode fazer uma tatuagem combinando se você quiser.

— Eu não acredito que você acabou de comparar um casamento com uma tatuagem. — Bucky acabou rindo, e Savannah o acompanhou nisso.

— Tatuagens duram bem mais do que alguns casamentos. — A resposta veio naquele tom divertido e Bucky franziu as sobrancelhas e parou um instante, agradecendo o farol ter fechado para olhar nos olhos avelãs por um momento.

— Bom, você não está errada... — Ponderou, pensando no conceito de uma tatuagem comparado ao simbolismo de um papel assinado.

— Eu raramente estou errada, Sargento. — Savannah se gabou, enquanto os carros voltavam a andar.

— Não, Boneca, você nunca está errada. — Barnes acelerou com um sorriso suave nos lábios.

Talvez fosse mesmo hora de criar uma nova tradição. Uma mais permanente que um simples papel, mais simples e mais intimista que uma festa que — considerando os amigos que eles tinham e a habitual excentricidade de Tony Stark — era algo comum demais para eles.

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Bucky virou à direita, para o extremo oposto da direção que devia seguir. Se lembrava de ver o que estava procurando por ali.

— O que você está fazendo? — Savannah questionou, franzindo as sobrancelhas ao ver a mudança evidente de rota. — Esse não é o caminho de casa.

— Vamos fazer uma tatuagem. — Ele respondeu alternando o olhar entre ela e a rua, deixando que um sorriso iluminasse seu rosto.

A observou piscar algumas vezes em uma mistura de surpresa e incredulidade, então voltou os olhos para a rua, parando em frente ao lugar que tinha visto uma vez, ao passar ali com Sam.

Savannah encarou a fachada do estúdio de tatuagem e pousou os olhos em Bucky, ainda mais admirada.

— Tá falando sério? — Ela questionou, no momento em que ele desligava o motor. — Isso é meio permanente.

— Eu levei mais de cem anos pra te encontrar, Boneca. — O Sargento declarou com convicção. — Não existe nada mais sério pra mim do que passar até o último segundo da minha vida com você.

Ela o presenteou com um daqueles sorriso-sol, com a animação brilhando em seus olhos castanho-esverdeados. Bucky sorriu também, descendo do carro e se encontrando com Savannah do outro lado, que tinha acabado de descer e observava a frente do lugar com atenção.

— A menos que... — Ele ponderou se estava forçando uma situação de forma repentina demais. Talvez ela estivesse brincando quando sugeriu.

No enquanto, sequer precisou terminar de expor sua dúvida, porque Savannah o interrompeu, dando um passo para trás e apoiando um dos joelhos no chão, em uma pose digna de um cavalheiro dos anos 40 cortejando sua amada. Uma inversão interessante de papeis.

— James Barnes, você aceita fazer uma tatuagem super permanente comigo? — Perguntou solene e os dois sorriram um para outro, enquanto as pessoas que passavam na calçada os olhavam de forma estranha ou confusa.

— Eu aceito fazer qualquer coisa absurdamente permanente com você, Savannah Devenport. — Respondeu, puxando-a do chão e envolvendo sua cintura.

— Então você pode beijar a noiva, Sargento. — Ela riu pouco antes que sua boca fosse coberta com a dele.

Entraram no estúdio ainda rindo, era um lugar pequeno, cheio de desenhos nas paredes, muitos deles inspirados em super-heróis inclusive. Aparentemente o tatuador estava ocupado com alguém na pequena sala privativa nos fundos, mas gritou que eles podiam ficar à vontade e olhar o portifólio que estava exposto sobre a bancada.

— E aí? O que a gente vai fazer? — Savannah questionou, foleando a pasta de artes com atenção.

— O yin e yang de uma raposa flamejante e um lobo branco, é claro. — Bucky sequer precisou pensar para responder. Não haveria nada mais simbólico que o desenho feito por alguém que Savannah amava e que, por coincidência, também previa o futuro. Não podia ser mais perfeito.

— Sério? — Ela pareceu incrédula por um instante e talvez um tanto receosa.

Barnes não entendeu a reação. Será que tinha algo errado?

— Por que? você não gostou da ideia?

Savannah respirou fundo e fechou a pasta que foleava, se encostando no balcão, encarando Bucky por um instante.

— É só que hoje a Wanda leu cartas de tarot pra mim e disse que... talvez o desenho da minha mãe não seja sobre nós dois. — Ela comprimiu os lábios um tanto incerta.

Bucky não gostou do que ouviu, toda a coisa do “Lobo Branco” era por causa do desenho, como assim não era sobre eles? Aquilo mudava alguma coisa? Significava que outra pessoa apareceria e estaria destinada a Savannah?

— E é sobre quem então?

— Crianças. — Ela respondeu e com certeza não era a resposta que Barnes esperava. —Gêmeos na verdade. Igual a minha mãe e a irmã dela que tinham poderes opostos.

Gêmeos retratados em um yin e yang até fazia sentido. Mas o que aquilo tinha a ver com eles dois?

— De que crianças você está falando? — Questionou bastante confuso, até que algo se acendeu em sua mente como fogos de artifício no ano novo. — Ah, meu Deus, você está grávida?!

— Não. Calma. Não. — Savannah o cortou rápido demais, colocando as duas mãos dele. Porque talvez a voz do Sargento tenha mesmo soado um tanto apavorada no meio da surpresa. — É só uma coisa que a Wanda viu nas cartas de tarot.

Bucky respirou fundo e assentiu devagar, levando alguns segundos para processar as emoções intensas que tinham tomado conta dele nos últimos momentos. Toda uma realidade havia se formado em sua mente em menos de um minuto...

— Seria muito ruim se eu estivesse? — Savannah questionou, analisando a reação dele.

— Está brincando? — Jogou de volta, achando a pergunta um tanto descabida, então tocando o rosto de Savannah com a mão direita. — Filhos são mais permanentes que tatuagens, Savannah, e é... eu nem sei que tipo de pai eu seria, e talvez eu estragasse tudo, mas com você? Qualquer coisa permanente com você soa como o paraíso pra mim. Inclusive, e talvez principalmente, filhos, na hora certa claro. — Beijou o topo da cabeça dela, enquanto sorria, a realidade que havia se formado em sua mente era das melhores. — Só deixou a coisa toda da raposa e do lobo ainda mais perfeita.

Se era uma tradição que queria, então nada melhor que aquele desenho, algo que falava deles, com certeza, mas também poderia se referir aos filhos que poderiam ter um dia. Era o mais perfeito e simbólico que poderia ser.

— Na hora certa parece ótimo pra mim também. — Savannah declarou e o sorriso em seus lábios doces era a prova de que os dois pensavam igual. — E a julgar pela forma como você trata a Alpine, eu acho quer você seria um ótimo pai. Provavelmente teríamos filhos muito mimados.

Bucky estava prestes a responder, mas foram interrompidos, o cliente e o tatuador entraram no ambiente e logo depois de receber por seu serviço o homem sorriu para eles.

— Como posso ajudar, crianças? — Tinha uma certa idade já, cabelos brancos e rosto enrugado, parecia um tanto incomum para um tatuador, mas a julgar pelos desenhos por toda a parte seu talento não podia ser questionado. Era um homem experiente.

E com certeza isso fez toda a diferença, afinal não havia uma representação visual daquilo que queriam tatuar, o homem teve que criar do zero, a partir das instruções de Savannah. Bucky não sabia se outra pessoa teria deixado aquela imagem tão perfeita.

Seria uma tatuagem muito bonita...

Conversaram um pouco para decidir o lugar do corpo em que fariam, concordaram que por ser uma tatuagem de casal o melhor era que fizessem no mesmo lugar. Escolheram a parte interna do antebraço, Savannah o lado esquerdo e Bucky do direito, dessa forma ele só teria que puxar a manga da camisa para fazer a arte e não haveria necessidade de mostrar o braço de vibranium.

Não sabiam se o senhorzinho dono do lugar os tinha reconhecido, mas se reconheceu, foi bastante discreto sobre isso...

Savannah foi a primeira, sentou-se na cadeira e deixou que o tatuador trabalhasse, ela tinha uma maior, então pareceu muito fácil. Só quando foi a vez de Bucky é que ele se deu conta do quanto era estranho ficar ali sentado enquanto alguém lhe furava repetidas vezes com uma maquininha.

Deixou que a mente vagasse então, passeando por aquela realidade que ele próprio havia criado momentos antes. Nunca havia pensado em como de fato seria ter uma família antes, nos anos 40 era simplesmente algo que ele sabia que teria que fazer, mas nunca imaginou como seria ter filhos... Mas com Savannah ele podia imaginar tudo isso.

Talvez esse fosse o ponto, com ela Bucky podia visualizar um futuro, porque ele realmente acreditava que tinha um. Depois de décadas, ele finalmente sentia que podia seguir em frente e ter uma vida que não era apenas baseada em sofrimento e compensação.

E era tudo por causa de Savannah... O Sol que um dia havia entrado em sua vida e clareado cada cantinho escuro de sua mente.

— Já que eu não sou o Charles Xavier pra ler sua mente eu vou ter que oferecer um dólar pelos seus pensamentos. — Ela sussurrou, ao se apoiar no encosto da cadeira atrás dele, para que apenas os dois pudessem ouvir.

— Um dólar? — Bucky riu da oferta, deixando a cabeça encostar na cadeira, assim poderia encarar os olhos avelãs. — Meus pensamentos valem tão pouco?

— Ah, me desculpa se eu não sou uma filha perdida de Tony Stark pra te dar uma fortuna. — Savannah devolveu bem humorada e os dois riram juntos, enquanto o tatuador estava totalmente focado em seu trabalho.

— Eu estava pensando nos nossos filhos... — O Sargento confidenciou. — Em como eles seriam, como eles vão chamar, essas coisas bobas.

— A gente não vai colocar o nome do Steve em nenhum deles, só pra você saber. — O dedo feminino se ergueu em riste, mas dava pra notar que Savannah prendia o riso.

Viver com ela sempre era leve e fácil. Como um dia de verão no parque.

— Nem pensei nisso. — Bucky se defendeu. — Não muito...

Riram juntos, o que fez com que o tatuador lhes chamasse a atenção, porque Barnes tinha que ficar parado.

Savannah voltou a se sentar na cadeira ao lado então, depois que os dois pediram desculpas para o senhor que estava realmente muito compenetrado em seu trabalho.

Bucky deixou que sua mente vagasse por nomes e por rostinhos infantis de duas crianças gêmeas, notando o quanto aquilo lhe parecia doce e divertido. Uma vida perfeita.

— Se for menina tem que ser Summer. — Declarou de repente, sabendo que não haveria nome melhor. Se Savannah era o Sol, então nada mais apropriado que uma criança que referenciava o “verão”.

— Eu gosto. — Ela sorriu, pensativa por um segundo, com o olhar tão cheio de esperanças e sonhos que Bucky praticamente podia sentir a felicidade doce de um futuro calmo correndo em suas veias.

Nunca pensou que um dia veria o futuro como algo tão promissor, nunca de fato havia esperado pelo que viria depois em sua vida, mas aquilo... aquilo era algo que valeria a pena esperar, e melhor que isso, construir.

— E se for menino devia ser Stefan. — Savannah declarou de repente, ganhando um olhar interessado de Bucky. — É o mais próximo de Steve que vai conseguir de mim.

Ele entendeu a composição do nome então, e pensou nisso por um segundo.

— Eu gosto de Stefan. — Admitiu, porque lhe soava muito bem aos ouvidos.

Sorriam um para o outro, como um pacto mudo, uma promessa não verbalizada de tudo aquilo que um dia teriam. Uma vida tão boa e feliz quanto a que já possuíam naquele momento.

Tudo aquilo que um dia James Buchanan Barnes quis, mas sequer sabia disso até de fato ter ao alcance de suas mãos...

Quando o tatuador terminou seu trabalho o casal examinou suas tatuagens plenamente satisfeitos.

— Isso é permanente o bastante pra você, Sargento Barnes? — Savannah perguntou, enquanto os dois se olhavam no espelho do lugar e o dono seguia para o caixa.

Bucky abraçou Savannah por trás, usando o braço de vibranium, e afundou o rosto em seus cabelos ruivos.

— Isso é perfeito pra mim, Boneca. — Sorveu o perfume dela deixando-lhe um beijo no ponto exato entre o pescoço e a clavícula. — Só falta a Lua de Mel.

— Eu acho que você já se lambuzou bastante nesse mel. — Savannah riu, virando de frente para ele e lhe tocando a barba com carinho.

— Não tem problema esse mel não enjoa. — Bucky devolveu, puxando-a para si e unindo seus lábios com a mesma reverência e convicção de quem assina um contrato.

— Eu te amo, James. — Ela declarou, assim que os dois se afastaram e seus olhos mostravam toda sua honestidade.

— Eu te amo, Savannah. — Ele respondeu com a paixão escapando por cada sílaba.

Não resistiram a trocar mais um beijo, e Bucky sabia que tinham que chegar em casa logo. Queria todo o Mel que podia ter, mas nesse caso o mel viria do Sol e não da Lua...

— Uma graça vocês dois. São recém-casados? — O tatuador questionou, assim que os dois pararam na frente do balcão para pagar pelo serviço.

— Exatamente. — Savannah confirmou e piscou para Bucky que sorriu, se dando conta que aquilo tinha acabado de ser uma versão só deles de uma cerimônia de casamento.

— Meus parabéns e muita felicidade para vocês. — O senhorzinho lhes sorriu simpático e entregou a notinha do cartão, junto com um panfleto de cuidados básicos com a nova tatuagem.

— Muito obrigada, Senhor...? — Savannah deixou a pergunta no ar, e só então Bucky se deu conta que eles ainda não haviam perguntado o nome do homem.

— Lee, Stan Lee. — Ele respondeu com outro sorriso.

Deixaram o pequeno estabelecimento então, enquanto Barnes olhava o panfleto que continha o nome e logo do estúdio logo no topo: “Marvel – Arts e Tatoos”.

— Ele tem talento. — Savannah comentou enquanto analisava o desenho em sua pele.

— Tem sim. — Bucky concordou, abrindo a porta do carro para ela. — Savannah... — Soprou o nome quando ficaram perto o bastante, como se fosse uma tradição antiga e só deles.

Pelo visto tinham construído muitas coisas apenas deles com o passar do tempo.

— James... — Ela devolveu no mesmo tom, oferecendo-lhe um de seus melhores sorriso-sol.

Já sentados um ao lado do outro, Bucky puxou a mão de Savannah e deixou ali um beijo terno antes de ligar o motor.

— E agora? — Os olhos castanhos-esverdeados buscaram os azuis cheios de expectativas.

— Agora... temos o resto das nossas vidas pra descobrir. — James Barnes sorriu.

— Eu gosto desse plano. — Savannah Devenport concordou.

Ambos estavam plenamente felizes e tudo estava bem.

FIM

Notas finais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=iquhBgM-Qv0 Tattoo: https://i.imgur.com/ghHqpHN.jpg Pois é... Altas referencias nesse fim, Pietro de surpresinha e eu confesso que deixei propositalmente plots paralelos com a portinha aberta, porque nunca se sabe quando a gente vai sentir saudade e vai querer voltar com um spinoff... E claro que Savky nunca teria um finalzinho tradicional, porque isso não combinaria com eles e principalmente não combinaria com a Savannah. Mas eu confesso que amei a forma como finalizei o plot deles (e sim eu quero fazer uma tattoo igual, porque sou dessas) ✪ ✪ ✪ Bom... Como diria Tony Stark: "parte da jornada é o fim", mas confesso que eu detesto despedidas, sei que muitas de vocês vão continuar comigo nas outras fics que eu tenho em andamento (não esqueci, juro) e e espero que algumas outras talvez apareçam de novo quando eu postar outra fic do Bucky ou do Sebs. No entanto pra esses personagens, esse casal e esse universo de Inverno Ardente é realmente uma despedida... Então eu tenho que agradecer imensamente a todas vocês que me acompanharam até aqui, por cada surto, comentário, favorito e mesmo cada uma das leituras, eu digo: muito obrigada de verdade por abraçarem essa história e ficarem comigo até o fim ❤❤ E é claro que não posso finalizar isso sem agradecer os personagens originais de Inverno Ardente. Eu costumo dizer que cada história me ensina alguma coisa, mas com certeza nenhum personagem me ensinou tanto quanto esses. Me sinto honrada de poder ter contado um pouquinho da vida deles, enquanto eles me mostravam essa realidade tão diferente da minha e tão comum para muitas outras pessoas. Obrigada, Dominic, Thomas Jefferson, Abby, August, Beverly, Sierra e, principalmente, obrigada Savannah, por me dar de presente essa história maravilhosa para compartilhar com as outras pessoas ❤❤❤❤❤❤❤ Eu acho que é isso... Obrigada novamente. Espero que nos vejamos em breve em alguma outra história ❤
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!