Notas iniciais
B-A e H_A: Então gente, escrevemos essa fic pra mostrar que nós podemos escrever uma coisa séria.. x3 Jack: Há, deixa eles verem o bônus no final B-A e H_A: Quieto Jack. e-é

1 — Brompton Cocktail

Doutor, eu estou morrendo, estou me sentindo comprimido

E tão desumanizado

Eu perdi a minha luta final para a doença, eu sinto que é aqui que isto acaba

Eu preciso que aquela injeção entre em minha veia

A minha mistura Brompton Cocktail

Tarde da noite, ele mirava o nada em meio a penumbra do quarto. A veneziana sobre a pequena janela ao seu lado estava entreaberta, deixando o vento frio do começo do inverno escapar para dentro e cair sobre seu corpo seminu. Não era nada que o incomodasse, ainda estava suficientemente aquecido pela noite com Michelle.

Sua insônia tinha outro motivo.

“Consciência pesada? Afinal eu tenho uma, não é?”

Levantou-se da cama e recolheu a cueca do meio das roupas espalhadas pelo chão, então se ergueu para ver o corpo feminino coberto apenas pelo lençol branco. Um anel dourado brilhava muito fracamente na mão direita de Michelle. Como poderia casar com ela sem contar a verdade? Será que ela entenderia?

Aceitando que o sono não chegaria tão cedo, tateou a cômoda a procura da carteira de cigarros, mas a lembrança repentina do conteúdo da última gaveta o fez parar. Num movimento automático se abaixou para abri-la e pegar o bloco de cartões postais unidos por um elástico, todos de diferentes lugares.

Ainda segurando os cartões, pegou os cigarros e o isqueiro zippo de cima da cômoda e se dirigiu a porta, parando a meio passo quando Michelle se remexeu murmurando algo. O coração pulou no peito. Outra coisa que ela não sabia era que ele recebia aqueles cartões. Quando verificou que ela ainda dormia, fechou a janela e as venezianas. Estava ficando frio demais para ela.

O apartamento era simples. Com três cômodos, a sala e a cozinha eram divididas apenas pelo móvel onde ficava a TV. Um lugar minúsculo se comparado aos lugares em que já havia morado, mas era tudo o que seu salário como barman poderia pagar, e também era verdade que estava satisfeito com isso.

Sentou-se na mesa ao lado da geladeira, acendeu o cigarro com isqueiro e retirou o elástico do bloco, escolhendo um cartão aleatoriamente. A foto mostrava a Basílica de São Pedro e atrás algumas palavras na letra familiar.

“Roma é Linda!

Sei que você nunca foi muito religioso, mas tenho certeza que também ia gostar. Sempre teve bom gosto para coisas bonitas.

Beijos, Jessye.”

Sorriu sem querer e passou para o cartão seguinte. Mostrava o Templo de Atenas recortado contra um céu muito azul e uma data de meses depois do último.

“Ah Brian!

Às vezes, eu imagino o que você diria se estivesse aqui ao meu lado, mas entendo por que não está. E além do mais estou conhecendo pessoas muito interessantes.

Saudades, Jessye.”

Ele parou dando mais uma tragada no cigarro. Seus olhos castanhos se fixaram na mão direita em que ainda mantinha o isqueiro zippo prateado dado por seu pai há muitos anos e também onde estava o anel de noivado. Lembrando do passado e vendo aqueles cartões...

“Será que eu não devia ter ido?”

—_______xxx________

Synyster fechou o casaco no corpo enquanto andava pelas ruas sujas de Nova York. As calças jeans não eram o suficiente para protegê-lo do frio àquela hora. O céu era de um branco leitoso e o ar estava cada vez mais gelado.

“Logo vai nevar...”

Algum tempo depois, encontrou a fachada da boate, as palavras RADIANT ECLIPSE reluzindo com um brilho fraco no alto da parede pintada de preto. Fez a curva no beco ao lado e abriu a entrada para os funcionários. O aquecedor do ambiente foi um grande alívio, mas ainda teve esfregou as mãos tentando recuperar a sensibilidade nos dedos.

Quando terminou de pôr as coisas no armário, vestiu a camiseta preta do uniforme e atravessou a porta para entrar no ambiente da boate.

Como na fachada, tudo era preto e prata. Havia um palco no canto mais afastado depois da pista de dança, sofás estofados de couro nos cantos e também em pequenas plataformas elevadas, protegidas por grades reluzentes de aço com mesas ao centro. Com mais alguns passos chegou ao bar que ficava na parede exatamente oposta as portas de entrada e verificou os itens atrás do balcão de mogno pintado de preto.

A parede atrás do balcão era forrada por um espelho que refletia as prateleiras repletas de garrafas. E esse era detalhe que Synyster mais gostava. Olhando discretamente por ali podia observar o movimento mesmo de costas e ninguém conseguia pegá-lo de surpresa. Foi assim que viu Matt se aproximando para se acomodar em um dos bancos de aço com assentos estofados de couro.

— Chegou cedo, cara. — a voz macia e levemente rouca ecoou no espaço vazio.

— Não dormi bem e a Michelle saiu cedo pro trabalho. — deu os ombros, servindo dois copos de uísque — Não tinha nada que me prendesse na cama.

Matt sorriu exibindo as covinhas na bochecha. Era um homem bonito e os olhos verdes só aumentavam sua popularidade com o público feminino da boate. Se desejasse e não fosse fiel à Valary, não passaria sozinho uma noite sequer.

— Sabe que você é o dono do bar, não é? — Synyster perguntou colocando um copo de uísque sobre a superfície elevada de fibra de vidro do balcão, em frente ao amigo.

— É algo difícil de deixar passar.

— Então por que nunca usa um terno ou algo assim?

Matt vestia jeans, tênis, camiseta preta e um moletom da mesma cor. Nada que sugerisse sua posição de chefia a alguém que não soubesse.

— Por que me sinto melhor assim — ele ajeitou o capuz do moletom —, mais confortável.

— Então poderia dispensar os funcionários do uniforme. — tomou um pouco do uísque — Pra democratizar, sabe?

Ele fixou os olhos em Synyster enquanto esvaziava o próprio copo.

— Quando você for o dono, vai poder vestir o que quiser.

— Boa tentativa, Syn. — Valary disse enquanto se aproximava passando os braços pelo pescoço do marido — Meu amor, já contou a novidade pra ele?

— Não, esqueci.

Valary se inclinou para beijá-lo e Synyster não pôde evitar uma sensação estranha. Michelle era irmã gêmea dela e embora as duas tivessem personalidades diferentes— e de nunca terem o mesmo cabelo — ele tinha que lembrar a si mesmo sobre a diferença entre elas de vez em quando.

— O Jimmy vai casar.

O barman parou a meio movimento de levar o copo à boca e ergueu as sobrancelhas para a morena.

— Com a Leana?

— Porra! — Matt se impressionou — Depois de tanto tempo, com quem mais seria?

— Verdade. Eu só... Tomei um susto.

— Acho que a Leana também. — Valary se sentou ao lado de Matt — Aliás, ela marcou um jantar de casais em homenagem a isso. Você a Michelle estão intimados a ir.

— Tenho certeza que ela vai adorar a ideia, nós vamos.

— Vou dizer pra Leana. — ela sorriu — Pode fazer o de sempre pra mim, por favor?

— Esse é o meu trabalho — Synyster respondeu, deixando o copo de lado.

Os três ficaram conversando enquanto as horas passavam e o bar ia se enchendo. Depois de algum tempo, Matt foi para o escritório junto com a esposa. Costumavam ficar lá todas as noites, fazendo a imaginação de Synyster voar pelo que acontecia lá dentro.

Não demorou para que a música começasse a embalar o burburinho das conversas e para que, entre um drinque servido e outro, ele visse papeizinhos e guardanapos com números de telefone e o desenho de lábios sensuais marcados com batom voarem para parte de dentro do balcão. Seu corpo bem definido chamava a atenção assim como tatuagens em seus braços, expostas pela meia manga da camiseta. Algumas mulheres diziam que tinham curiosidade para saber até onde iam os desenhos.

Não era à toa que Michele tinha tanto ciúme.

— Coca com limão, por favor. — a voz familiar fez com que erguesse os olhos do drinque que preparava — Porque nós dois sabemos que eu sou fraca pra bebida.

Por um momento achou que fosse uma alucinação já que a lembrança dela havia se tornado algo nítido em sua mente nos últimos tempos. Mas não se lembrava de já ter visto os cabelos castanhos claros tão compridos, e nenhuma alucinação tinha aquele sorriso fácil que, quando era sincero, se espalhava até os olhos muito azuis agora um pouco escondidos pela boina.

— Jessye! — exclamou sorrindo — Há quanto tempo garota!!

— Ah é que eu...

— Querido, e o meu drinque? — a cliente que aguardava a bebida em suas mãos interrompeu sem o menor constrangimento fazendo sua velha amiga abrir a boca admirada.

Era uma mulher bonita com certeza, e sabia disso. Os dedos delineavam a linha do decote discretamente, sem dúvida para chamar sua a atenção e ele viu que Jessica notou o truque. Quando serviu a bebida na taça e a deslizou sobre superfície transparente, ela fez questão de tocar sua mão na haste. Mãos macias.

— Agora que já pegou o que queria, pode mostrar o primeiro sinal de educação da noite nos dando licença? — Jessica perguntou com um humor que só ele conhecia e que o fez abafar o riso.

“Que será que ela vai aprontar?”

A cliente mirou Jessye por cima, tarefa que não foi complicada já que o salto a deixava pelo menos quinze centímetros mais alta. Mesmo assim, não houve nenhum sinal de hesitação nos olhos azuis.

— Eu ainda não peguei tudo que eu queria. — respondeu com malícia.

— Nem vai pegar por que esse aqui tem dona! — falou um tom acima, fazendo algumas cabeças se virarem paras duas. — Ou você está tão desesperada que precisa correr atrás dos maridos das outras?

Synyster quase engasgou ao ver mulher comprimir os lábios numa linha fina e lançar um olhar furtivo às pessoas que prestavam atenção antes de virar as costas, engolindo a raiva e o constrangimento.

— Cinco anos e você não mudou nada. — comentou ao ver o ar risonho de Jessica ao se voltar novamente para o balcão.

— Já você — ela deu uma olhada em volta —, está bem mais mudado do que eu esperava.

Ele serviu a coca com limão que ela havia pedido.

— Como me achou?

— Fui até o endereço pro qual eu enviava os cartões e me disseram que você trabalha aqui. É estranho te ver assim.

— Por quê?

— É que eu nunca te imaginei como barman. Talvez gogo boy, mas nunca barman.

— Eu também nunca pensei nisso, mas entendo de bebidas e streep tease no mesmo nível. De qualquer jeito minhas habilidades estão sendo aproveitadas.

Jessica riu baixo, mas logo depois franziu as sobrancelhas bem feitas. Ameaçando manchar a lã azul do casaco que usava, ela apoiou quase metade do corpo sobre a fibra de vidro do balcão. Sem saber o que fazer, Synyster apenas se aproximou para ouvi-la cochichar:

— Mas o que você está fazendo aqui? Não é por necessidade, afinal você...

— Shh — ele tapou sua boca com a mão antes que terminasse a frase — Ninguém sabe.

Jessica arregalou os olhos a ponto dos cílios longos quase tocarem as sobrancelhas enquanto o encarava. Algumas pessoas observaram quando um toque suave da garota sobre o pulso de dele foi o suficiente para que ele retirasse a mão de sua boca.

— Nem a sua noiva?

Brian recuou erguendo uma sobrancelha.

— Como você sabe? — a resposta ficou óbvia quando ela indicou o anel em sua mão direita.

“Sempre atenciosa...”

— Jessica Howard? — uma das clientes perguntou tocando o ombro da jovem para fazê-la se virar e derrubar a coca no chão sem querer — É você aquela ricaça que aparece nas revistas toda hora?

— Bem, err...

— É ela sim. — um homem confirmou se aproximando mais do que deveria para deixar a garota confortável.

Foi um reflexo defensivo. Num instante Brian já estava segurando a amiga pelos dois braços puxando seu corpo por cima do balcão, tomando cuidado para que ela não derrubasse os objetos que havia lá atrás.

— Ai, seu homem das cavernas! — Jessica reclamou, mas estava rindo ao ser posta no chão — Custava ter me avisado?

— Uga, Uga. — respondeu, segurando uma das mãos da amiga enquanto a puxava para fora do bar, onde as pessoas começavam a segui-los. — Você sabia que eu era assim antes de casar comigo, benzinho.

Houve um pequeno tumulto que dificultou a passagem dos amigos pelas pessoas que falavam coisas indistintas das quais eles só conseguiam entender fragmentos como: “Ele é seu marido?” ou “Que babado!”. Brian manteve Jessica o mais próxima possível, envolvendo o braço esquerdo em seu corpo enquanto usava o direito para abrir passagem até o escritório de Matt que ficava logo atrás do bar, mas que naquela hora parecia mais distante do que era conveniente.

— Abre a porra dessa porta!

— Isso é jeito de... o quê? — sem entender muito bem o que estava acontecendo, Matt deu passagem aos dois evitando que as outras pessoas entrassem.

— Syn, o que houve? — Valary, que assistia TV no sofá, perguntou fazendo sinal para que os dois se sentassem ao seu lado — Quem é ela?

— A culpa foi minha... Ou quase. — Jessica disse, ligeiramente constrangida — Não posso fazer nada se minha fama me precede.

— Essa é Jessica Howard. — Synyster apresentou — Uma velha conhecida.

— Espera um pouco. — Valary disse parecendo interessada — Aquela Jessica que vive aparecendo nas revistas?

— Exatamente, e isso foi a causa da confusão aí fora. — Brian esclareceu.

— Parece até que esse pessoal nunca viu ninguém famoso. — Matt suspirou — Eu vou lá dar um jeito nisso.

— E te ajudo meu amor. — Valary se ofereceu levantando para seguir o marido para fora do escritório — Syn, você vai ficar?

— Não quero deixar ela sozinha.

— Eu não sou nenhum bebê! — Jessica reclamou dando um tapinha no ombro do amigo — Vai lá e ajuda eles, eu posso sobreviver a algum tempo sozinha.

Brian a encarou, mas seu olhar foi sustentado com a mesma firmeza que a cliente do bar tinha experimentado e ele pôde perceber que era uma batalha perdida.

— Ok. — rendeu-se, levantando do sofá para seguir Valary e Matt — Se quiser uma água pega no frigobar ali no canto.

Jessica esperou os três saírem e seguiu a instruções do amigo. Então começou a observar o lugar onde estava. Olhando de fora não diria que o escritório era tão amplo. Havia uma estante repleta de livros numa parede ao lado de uma mesa de mogno, e sobre esta estava um computador e vários papéis espalhados. Um pouco afastado, à direita, havia uma poltrona e o sofá de couro confortável onde estava sentada antes, logo a frente da TV grande com tela de cristal líquido. Quase riu ao ver que havia um videogame conectado ela.

— Quem é você? — a pergunta num tom impaciente fez com ela se virasse. — O que está fazendo aqui?

Por um momento achou que fosse a mesma mulher que tinha acabado de sair. Mas enquanto a outra tinha os cabelos escuros na altura dos ombros e usava uma roupa tão informal quanto a de Matt, essa tinha cabelos compridos, num tom de louro nada natural, e usava terno feminino preto que combinava com o par de scarpins.

— Eu vim por causa do Brian, ele é...

— Mais uma! — a mulher a interrompeu jogando a grande bolsa de couro cor de terra que carregava no sofá com um movimento brusco antes de lhe lançar um olhar feroz — Olha aqui, não adianta ficar atrás dele, ok? Pensa que saber o nome dele te torna grande coisa? Você é só mais uma dessas que não saem do pé dele, provavelmente ele nem te deu atenção. Por acaso você invadiu o esse escritório? Escuta, ele é meu noi..

— Michele? — Synyster perguntou sentindo a tensão no ar ao reentrar no escritório.

— Não se interrompa por causa dele. — Jessica incentivou a loura, parecendo se divertir — Vamos, se não me engano você ia dizer que ele é seu homem e que eu não passo de mais uma, estou certa?

Synyster arqueou uma sobrancelha para a noiva enquanto Matt disfarçava o riso com uma tosse insistente e Valary fingia ajudá-lo.

— Eu tenho a chave da porta da garagem, então entrei e encontrei ela aqui e...

—... resolveu ofender ela de graça? — completou aborrecido.

— Ela não me ofendeu. — Jessica disse tentando contornar a situação — Eu só estava brincando, Brian.

Synyster olhou da amiga para a noiva sem parecer acreditar muito na explicação enquanto Michelle sentia o “Brian” dito com tanta intimidade ecoar em seus ouvidos.

— Está tudo está resolvido lá fora — Matt tentou mudar de assunto —, convenci o povo de que você saiu pelos fundos. Então eu aconselho que fique aqui dentro até o movimento diminuir. Não demora muito, já está tarde.

— Desculpe pelo transtorno. — Jessica murmurou constrangida.

— Não foi nada — ele acenou — Isso aqui estava precisando de um pouco de emoção mesmo. Falando nisso, esqueci de me apresentar. Eu sou Matthew Sanders, mas todo mundo me chama de Matt, até os funcionários aqui no bar. Essa é a minha esposa, Valary.

— E você acabou de conhecer minha irmã gêmea. — Valary apontou para a loura que parecia contrariada — Michelle.

— Noiva do Syn. — completou em tom de aviso.

— Prazer em conhecê-los. — a morena sorriu simpática e se virou estendendo a mão para Michele — Jessica...

—... Howard? — a loura completou parando para analisar melhor o rosto da mulher a sua frente e ignorando a mão estendida. — É você mesmo!

— Até a última vez que eu chequei, sim. — respondeu bem humorada.

— Matt, eu posso ficar aqui? — Synyster pediu lançando um olhar furtivo à Michelle.

— Se quiser. — ele deu os ombros — Só que como o Danny está fazendo todo o trabalho, ele vai receber pelos dois.

— Já esperava algo assim de você. — rosnou se sentando no sofá e Michelle não demorou a se colocar ao seu lado.

— Mas — Valary começou hesitante —, por que entrou pela porta da garagem, Chelle?

— Terminei o trabalho mais cedo hoje, a revista já foi para impressão.

— Em que revista você trabalha? — Jessica perguntou curiosa enquanto se acomodava na poltrona, isolando-se cuidadosamente dos casais.

Michelle direcionou uma olhar indecifrável à morena antes de responder cheia de si.

— Sou editora chefe da “Creative Style”.

— Ah, aquela revista que vive criticando minhas roupas. — comentou com naturalidade, fazendo todos, menos Synyster que já estava acostumado a sua franqueza, se remexerem um pouco desconfortáveis.

Michelle forçou o sorriso.

— Não pode nos culpar, não é? — alfinetou cheia de si — Que tipo de pessoa usa boina e casaco de lã para vir a uma boate?

— O tipo de pessoa que desembarca de Paris, deixa as malas no apartamento e vem direto ver um velho amigo.

Foi a vez de Brian tossir para disfarçar a risada.

— Velho amigo? Desde quando?

— Desde que nós éramos crianças. — Jessica respondeu tranquila.

Ele tossiu ainda mais alto.

— Como é possível? — Michelle perguntou desconfiada — Você nasceu em berço de ouro e... Syn, você precisa de uma pastilha?!

— Não — ele deu um tapinha no próprio peito —, estou bem.

— Não por muito tempo. — Valary sussurrou para Matt, que tinha a mesma expressão preocupada.

— Então — Michelle insistiu —, de onde vocês se conhecem?

— Bem... Nossos pais eram sócios.

— Sócios? — repetiu cada vez mais intrigada — Em que o dono de uma mineradora poderia ser sócio de um jardineiro?

Jessica olhou em pânico para o amigo na esperança que ele lhe transmitisse uma boa desculpa pelo olhar. Não aconteceu. Então as palavras simplesmente saíram de sua boca muito rápido, como ar em uma panela de pressão.

— Ah... Brian, inventa alguma coisa, eu sou uma péssima mentindo, principalmente quando eu estou nervosa!

Synyster fechou os olhos afundando no sofá enquanto visualizava seu mundo ruir.

— Explica isso. — Michelle ordenou lentamente.

— Bem... Meu pai não era um jardineiro e meu sobrenome não é Gates — ele respirou profundamente —... É Haner.

— Haner? — ofegou — Das joalherias Haner?

— Esse mesmo. — respondeu muito baixo.

Michele olhou lentamente de Synyster para Jessica que evitava encará-la e se virou no sofá, chegando aos outros dois presentes.

— Vocês sabiam disso?

— Eu não podia contar. — Matt se justificou — Era um segredo dele.

— A gente conversa depois, Chelle. — Valary disse sem dar chance de reclamação a irmã — Quando você estiver mais calma.

Apesar do aquecimento, o ar de repente pareceu ficar mais frio no escritório e, por alguns segundos, não se pôde ouvir nada além de respirações pesadas e ruídos dos movimentos desconfortáveis nos móveis de couro.

— Bom — Jessica se levantou quebrando o silêncio ,— acho melhor eu ir embora.

— Mas a gente mal conversou. — Synyster argumentou sem dar atenção ao olhar cáustico que sua noiva lançava.

— Estou cansada. — respondeu sem jeito — Preciso dormir um pouco. Depois a gente se vê.

— Eu te levo — Valary se levantou sussurrando um “boa sorte” para o marido antes de sair ao lado da morena.

As duas deram a volta nos móveis e atravessaram o escritório até chegar a uma porta estreita que quase se fundia com a parede para quem olhasse sem atenção. Valary a abriu dando passagem a uma pequena garagem particular que abrigava apenas um Range Rover preto e atravessaram mais uma porta, saindo na rua. Os flocos de neve já começavam a cair suavemente sobre a entrada da boate onde ainda podiam ver algum movimento da distância.

— Eu fiz besteira, não é? — Jessica perguntou enquanto chamavam um táxi.

—Talvez sim. — Valary respondeu franca — Minha irmã é muito ciumenta e não tenho a impressão de que vai lidar bem com isso, mas eles tinham que resolver isso alguma hora. Você pode ter feito um favor.

— Você já sabia sobre ele?

— Meu marido é o dono daqui. O Syn teve que dar o nome verdadeiro para trabalhar e eu ajudo na administração, não poderiam me esconder. Já falei com o Syn sobre isso, mas ele dizia que estava esperando a melhor hora pra contar pra ela. — ela revirou os olhos — Eles estão noivos! Acho que a melhor hora não apareceria nunca se dependesse dele.

Jessica suspirou desviando o olhar para um táxi que descia a rua salpicada de neve. O carro parou e ela abriu a porta, mas antes de entrar se virou novamente para Valary e disse:

— Obrigada de verdade por tudo. — com os dedos já enrijecendo pelo contato com o metal gelado da lataria, enfiou a mão dentro do bolso do casaco de lã e retirou um pequeno retângulo de papel. — Pode entregar isso pro Brian? É o meu número, caso ele queira conversar.

— Claro.

Valary esfregou as mãos nos braços tentando se aquecer enquanto voltava para dentro depois do táxi já ter partido. Chegando ao escritório, encontrou a mesma tensão de antes. Michelle e Synyster evitavam que seus olhares se cruzassem mesmo estando lado a lado no sofá, enquanto Matt estava encostado à parede assoviando alguma música distraidamente. Valary pressentiu que ele estava pronto para iniciar uma fuga de emergência para o bar caso os dois começassem uma discussão.

— Ela já foi? — Michelle perguntou.

— Já, pegou um táxi.

— Ela...

— Você não acha que nós temos que conversar? — Michelle interrompeu o noivo.

Matt lançou um olhar de “socorro” para a esposa.

— Sim, mas não aqui. — Synyster respondeu aborrecido — Será que você não vê que está sendo inconveniente?

— Eu sendo...

— Você tem que conversar comigo agora Chelle. — Valary interrompeu a irmã. — É sério.

A loura voltou sua atenção para irmã e, mesmo com todas as perguntas que queria fazer ao noivo, resolveu ouvir o que ela tinha a dizer antes.

Apenas algumas pessoas se serviam de seus últimos drinques quando Valary fez sinal para que Danny levasse conhaque para elas. Ela se acomodou no sofá de uma das plataformas elevadas e Michelle se sentou à sua frente.

— Mais calma?

— Como você quer que eu fique, Val? — Michelle sentiu a garganta queimar com a dose de conhaque que tomou. — Parece que eu era a única que não sabia.

— Sobre isso você tem que conversar com ele. Mas faz isso com calma, Chelle. Ouve o que ele tem a dizer.

— Mas não é só isso, Val. — suspirou — Você viu o jeito que ele me tratou na frente dela?

— Você viu o jeito que você tratou ela? — replicou — Nem te reconheci, aonde foi parar a sua educação?

— Talvez... Talvez eu tenha exagerado. Mas esse lugar me deixa louca, o que você faria se fosse com o Matt?

— Eu ia ficar morrendo de ciúmes, mas ia procurar saber os fatos antes de ofender uma estranha sem motivo.

Michelle pensou com calma nas palavras da irmã e soltou o ar, parecendo relaxar pela primeira vez naquela noite.

— Você tem razão, vou conversar com ele. Só não posso mais fazer nada quanto a essa Jessica

— Talvez possa. — Valary sorriu — Entrega isso pra ele?

— O que é?

A loura segurou o cartão que a irmã lhe estendeu entre os dedos finos e observou as letras e os números prateados gravados no papel.

— Ela pediu pra eu entregar pro Syn.

— Pode deixar comigo. — Michelle assentiu guardando o papel na bolsa.

Notas finais
Enfim, esperamos que gostem!