Invasão dos Portais - Ato 1
2 Capítulo 2 - Tempo
Notas iniciais
Ronaldo acordou na madrugada. Sentou na cama, e ligou pra central pela pulseira. Estava com a cabeça girando, se preocupando demais com pequenas coisas. “Pequenas?” Pensou. Refletiu, e viu que tinha razão em se preocupar.
—Por favor, confirme sua identificação. – Falou uma moça com tom de secretária
Ronaldo sabia que se não falasse nada, a pulseira emitira um choque ou algo parecido. Podia explodir quem sabe. Está aí uma coisa que queria saber.
—Boa noite...
E mais nada falou.
—Identificação confirmada, o que desejas agente?
—Relatório – Falou Ronaldo, ciente do que deveria pedir.
—Confirmado – A moça falou agilmente, como uma secretária eletrônica.
Um silêncio se passou, ela estava repassando algo...
—Boa noite – Outra moça falou.
—Quero o relatório do agente Ronaldo – Falou o próprio...
—Aguarde.
Som de vácuo. Algo estava errado. Som de vácuo. Não era pra o comunicador da secretária ficar ligado. O famoso som de microfone ligado o atormentava. A secretaria teria deixado ele ligado sem querer? “Pare com isso cara” Pensou. “Pra que se preocupar com isso?”. E uma voz ao fundo pôde ser ouvida.
—Carla, passe o relatório do Ronaldo – Falou a secretária que o atendera. Após uns instantes...
—Esse não, sua doida – Continuou, deixando escapar toda a informalidade de uma conversa entre amigas.
“Esse não”... A frase ecoou na cabeça de Ronaldo. Como assim, esse não? Havia dois relatórios sobre sua permanência na agência? Sempre aprendera que tem um relatório pra cada agente. Cada secretário, cada faxineiro. Ou eram “dois Ronaldos”? Seu pensamento foi interrompido. Ao ouvir a secretária novamente, tirou a pulseira, instintivamente, e colocou em cima de sua cama.
—Olá, vou passar pra impressora, confirma?
—Sim, queria também o segundo relatório – Falou Ronaldo, mais seriamente, impossível.
Silêncio.
Comunicação cortada. A pulseira emitiu uma leve vibração.
Era o choque paralisante.
Ronaldo olhou aterrorizado pra pulseira, que virara um pequeno objeto metálico sem nenhuma utilidade. Uma coisa sabia. Não iria mais colocar a tal pulseira em seu pulso. Não tão cedo.
Decidiu que ia se esquecer da secretária e sua amiga “doida”, talvez ela fosse uma iniciante que transmitiu o choque sem querer.
“Claro que não. Ninguém iria me paralisar sem querer” pensou. "Ela queria me deixar inconsciente"... E concluiu: "Descobri alguma coisa que não era pra eu descobrir"
Mas de qualquer forma, ia ler o relatório, que aparecera por mágica no seu criado-mudo. Uma última folha saiu de uma fresta de dentro da gaveta do criado-mudo. Era uma espécie de impressora super escondida.
A tal folha vinha com informações da agência, que Ronaldo já lera dezenas de vezes. Sabia que era uma agência secreta, funcionando há décadas, e que o Brasil continha centenas. Sabia que o município onde morava era uma cidade TÃO pacata que ninguém ia escavar a coitada pra encontrar uma companhia de operações especiais escondida no quarto andar subterrâneo. Ronaldo virou a página em que continha o “agente secreto atual”. Nome, idade. Todas suas informações básicas nas mãos de todos da agência. Até mesmo das espalhadas em outros estados. É triste saber que, é o único agente de operações especiais. Duas perguntas que não paravam de lhe atordoar. Por que era o único? O que aconteceu com os outros? E uma terceira: A quem perguntar isso? Afinal, perguntar para seu chefe tudo isso, era resultado de respostas, que Ronaldo jurava que eram inventadas, improvisadas, ou simplesmente não satisfaziam.
Por que era o único? “Por que ele era o mais especial”. Mas sabia que não era isso, acharam uma criança e de repente a convocaram para ser agente. Isso não foi uma convocação de alguém "especial".
O que aconteceu com os outros? Morreram? Pode ser. Deixaram a agência? Não, uma agência “secreta” não é “deixada”. Das duas, uma. Ou é assassinado, ou leva lavagem cerebral, literalmente. Ronaldo tremia, qual era a pior?
A quem perguntar isso? Excelente pergunta.
Virou a página, sua foto se estendia na folha de papelão que indicava a seção “relatório do agente”. E viu ali, tudo que tinha passado. Os locais que visitou, missões, os que o ajudaram. Mas as informações eram limitadas. Só Ronaldo sabe o que passou, os locais que visitou através dos portais... O que sofreu... A saudade...
Virou a página, a duração de cada missão, e o cálculo de tudo aquilo, que só está ali graças aos seus pedidos ao chefe. “Eu tenho que saber o tempo que levei”.
Duração total: Dois mil e quarenta e um dias
Ronaldo fechou o relatório. Ia chorar ali? Sozinho? A quem iria compartilhar a descoberta? Ele tinha cerca de vinte anos, graças a manipulação do tempo. E aquilo o assustou. “Deve estar errado, me sinto um pirralh...”
Um barulho interrompeu todos seus pensamentos. Um farfalhar violento nas folhas ao lado de sua casa o assustou. Não, não era o vento. Era alguém.
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