Invasão dos Portais - Ato 1
3 Capítulo 3 - Visita
Criado-mudo aberto. Lanterna a disposição. Pistola reserva as mãos. Chave de casa. Confere. Tudo que um agente meia-boca precisa. Ronaldo saiu de casa, mais rindo do que preocupado. Gostava daquela situação, em que saia como se o perigo o rondasse. Alguém normal iria espiar pela janela, mas Ronaldo queria ver o que era, e se fosse um bicho, afugentaria. Se fosse uma pessoa... Não tinha pensado nisso.
Sua expressão se tornou séria, diminuiu o passo, e prestou atenção no barulho a sua volta. O barulho do rio preenchia o silêncio... E no meio daquilo tudo... Passos na grama.
Ronaldo correu, se escondeu atrás do cimento que cobria a parede da área de serviço. Os passos eram de um ser bípede. Com certeza. Uma pessoa se aproximava. Mesmo com todo o treinamento, Ronaldo sentia medo de ladrões ou coisa parecida. Não era invencível, apenas preparado para casos incríveis. Mas ladrões não eram incríveis. Não ousou ligar a lanterna. Queria ligar pra central, que mandariam agentes até sua casa em segundos. Mas cadê a pulseira?
“Em cima da cama”. Pensou. “No mínimo, tenh...”
No mesmo momento, um pequeno ser correu na sua lateral, no cimento, e deu a curva, como se fosse mergulhar na casa vizinha. Ronaldo abafou um grito assustado. Quando, aquele ser, que mais parecia um vulto preto, virou o rosto para ele. Ronaldo colou na parede, assustado, esperando qualquer coisa, menos aquilo.
O vulto soltou um guincho de menina ao notar que tinha um adolescente o fitando, e correu pra um arbusto. Seus passos desajeitados o fizeram tropeçar. Caiu, e soltou um barulho de dor. Ronaldo estava assustado, mas agradecia que o vulto não o ameaçou nem nada. Ele ficou um tempo parado, com a respiração pesada. E viu que a tal criatura se encontrava no mesmo estado. Podia-se ver um rosto saindo do arbusto, para espiá-lo, mas logo se escondeu. Ronaldo, ignorando o fato da criatura não se parecer com um humano, soltou a voz.
—Quem é... Q... Quem é você? O quê... – Não terminou
“O QUÊ é você”, era o que queria falar.
Nada de resposta. Vendo que a criatura não sabia falar. Deu um passo a frente. Percebeu o vulto se recuar.
—N... Não... Calma... Se acalme... Não fuja – Ronaldo ordenou, com calma, mas ainda com medo
O vulto se contraiu para trás, e quando Ronaldo deu outro passo, saiu correndo pra rua. Ronaldo não queria o perder de vista, mas já tinha se assustado o bastante. Fez algo que se arrependeu depois. Sacou a pistola, e atirou na criatura que corria desajeitada. Ela tombou. Desmaiou.
Ronaldo percebendo o quão idiota foi, guardou a pistola, e colocou a mão na frente do rosto. Tinha atirado em uma criatura inofensiva e assustada.
“Legal hein?”.
Pelo menos podia se aproximar do jeito que quisesse. Passo após passo ele se aproximou da pequena criatura. Uma criatura com pés delicados. Não muito pequena como pensara. Com orelhas grandes voltadas para cima. Parecia um filhote de uma mistura de humano com... Cabra... Algo parecido... Como um Fauno.
“Não, é um bicho mais delicado que um fauno”
Era muito surreal. Seu delicado rosto estava virado pro lado. Cara de quem adormeceu... Rosto expressivo demais para um animal. Não é desse mundo.
Ronaldo parou, e emburreceu.
—É um maldito bicho que veio de um portal– resmungou em voz alta – Porcaria!!
Portal. Que se abrira, e deixou a pobre criatura ser sugada para um mundo paralelo do seu. Agora estava ali, inconsciente, provavelmente estava procurando sua casa. Perdida, com medo, com pavor de nunca mais voltar ao lugar em que vivia. E agora tinha levado um tiro. “Ignorante”, xingou-se. Mas de qualquer jeito, sua missão secundária era cuidar do ser. Levantou o pulso, e falou: Missão secund...
Esqueceu que a pulseira ficou em cima da cama.
—Melhor assim – disse pra si mesmo
Pegou a criatura nos braços e a levou pra casa.
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