Inunda-me
1 23 de Setembro 1718. - Anastelle Consteller.
Notas iniciais
O convés estava cheio como de costume, meu pai tinha a facilidade inconfundível de iludir esses pobres coitados sobre o ouro que nossa família procurava há séculos, e nunca encontrará. Pobres esses que dão suas vidas nessas viagens sem rumo confiável. Nossa ultima viagem nos fez perder grande parte de nossa pequena frota, herança de família. Agora estávamos aqui recrutando novos homens para nos acompanhar e levar nossos outros três navios de pequeno porte em uma viagem incerta à procura de uma lenda que insistentemente não saia da cabeça de meu pai, fazendo assim que ele arriscasse tudo que nos tinha restado sem pensar duas vezes. Estes homens eram mercenários e possuíam nas costas histórias alguns crimes e histórias macabras, porém mesmo assim eram vidas humanas perdidas em vão, em mais uma busca incansável por nada realmente objetivo. Eu me pergunto, quem é mais escravo desse destino miserável? Esses homens que perdem as vidas pelos propósitos vazios de meu pai ou eu mesma que vivo a mercê de suas vontades e ideais? Bom, pelo menos esses homens têm sua liberdade após a morte ou assim eu desejo fortemente acreditar.
Estamos nos preparando pra mais uma viagem, desta vez rumo a extremo sudeste das ilhas de Marcará, condato de Mesclânia. Local fortemente a protegido pelos monarcas da região. Segundo o plano magnífico de meu caro pai, para fugir da guarda armada da costa que a propósito não suportava piratas e especialmente nosso sobrenome, iríamos atravessar pela madrugada o estreito lateral para passar pra mar alto e seguir viagem, era o plano perfeito segundo ele, porém o realizar-lo com bêbados aficionados por rum e uma ideia romântica do que é ser pirata seria o grande desafio.
Capitão Consteller estava no convés principal dando as instruções e introduções sobre o nosso navio aos novos tripulantes enquanto eu estava desejando que aquilo acabasse mesmo antes de começar, era notório como o vento que meu pai buscava naquilo forças pra viver depois do suicídio repentino de minha mãe. Uma esposa fiel que amava verdadeiramente meu pai e estava sempre ao seu lado se esquecendo dela mesma pra buscar os ideais dele. Minha sempre foi uma dama da sociedade, mas decidiu deixar tudo pra trás pra viver um grande amor proibido. Apesar de achar que ela se exagerou demais na dose eu a compreendo e até a invejo um pouco, ela quis sentir, sentir qualquer coisa verdadeira e encontrou aqui nesse navio fedorento o sentimento mais verdadeiro de toda sua vida. Também a invejo pela coragem que teve ao se libertar quando foi necessário, principalmente por respeitar seus próprios limites e ter coragem quando foi necessário.Eu demorei um bocado pra formular esse sentimento dentro de mim, o que antes era ira e revolta com o passar dos dias se transformou em compreensão e saudade. Ela me faz falta, mas essa falta é acalentada quando me lembro de todas as lições que aprendi com ela, Ser independente e destemida era a mais preciosa de todas elas. Independência essa que se encontrava trancafiada dentro do baú velho na cabine de meu pai, que se negava a me deixa escolher meu próprio destino. Depois da morte de minha mãe ele se tornou um homem diferente, quase outra pessoa. Antes vê-lo festejar em longas festas que duravam dias e noites era uma rotina quase que semanal, me lembro de ser bem pequena e estar em torno de fogueiras ao som de gaitas, sanfonas e tambores enquanto muitas pessoas conversam animadas e dançavam em volta dela, era muito comum ver meu pai beijando minha mãe e mergulhado em seus olhos, parecendo estar sempre imerso em um imenso mar misterioso, e isso era como estar em casa pra mim. Porém ultimamente, a nossa realidade era outra, depois que ela se foi, ele parece um homem sem alma que vaga de cais em cais à procura de algo que não vai encontrar nesse mundo, a procura de algo grande que perdeu e sabe que não pode recuperar. Eu estou aqui, sentada no corrimão o vendo seguir de um lado pro outro dia apos dia nessa busca incansável por nada.
***
A noite caiu como um véu negro sobre a costa e nos preparávamos para partir, eu ajustava algumas cordas ainda soltas de uma das velas e mostrava a alguns homens como o fazer, evitando os olhares maliciosos daqueles nojentos. Não era uma tarefa fácil ser a única mulher em meio a tantos homens, e muita das vez eu preferia fazer o trabalho pesado sem ajuda de nenhum deles só para ficar em silêncio, contemplando meu pai em sua plena loucura. Meus dezesseis anos pesavam em minhas costas como se fossem sessenta, e os dias só me transformavam em alguém vazia e sem nenhum tipo de anseio próprio além de cuidar do meu velho e louco pai que ainda era uma ultima fagulha de vida no meu futuro.
O vi passar para sua cabine em companhia de um homem que me olhava de forma desconcertante e não se preocupava em desviar o olhar como a maioria fazia quando eu o olhava de volta. Era alto, forte e corpulento tinha dentes de ouro em um sorriso malicioso emoldurados por cabelos pretos em longas tranças que caiam pelas costas nuas, na sua cinta haviam armas demais pra quem buscava uma simples conversa, e eu senti o sangue ferver de ódio quando meu pai me apontou de longe e ele piscou um dos olhos . Continuei meu trabalho querendo não estar naquela situação, fingindo não ter percebido o ocorrido pra não ter que lidar com aquilo. Queria que o momento não existisse e assim o fiz, porém meu caro pai me chamou por seguidas vezes, ignorando meu completo descaso e me chamou à sua cabine. Eu imaginava o que viria depois e me certifiquei de estar em pose de minha adaga de estimação, sereia.
Entrei à cabine e o homem viro-se pra mim, meu pai sorrindo buscou aceitação nos meus olhos dizendo palavras polidas demais pra um pirata, senti que estava tentando usar de uma cordialidade que não tinha pra me assustar menos. Falou de um casamento e disse que procurou o melhor dos melhores pra me acompanhar pela vida e que eu seria muito feliz assim como ele foi com minha mãe. O cheiro da madeira velha e da maresia me fez enjoar e eu cerrei os punhos enquanto mantinha os olhos em meu pai implorando telepaticamente que ele pudesse me ouvir e ter piedade de mim, ele não entendeu por fim. O homem se aproximou e pôs as mãos grandes e calejadas nos meus ombros me levando pra mais perto dele e analisando meu rosto sob a luz de uma vela, como se eu fosse uma mercadoria. Mantive os olhos em meu pai que assistia a cena de forma bizarramente feliz, ele realmente estava louco se achava que eu seria algo para aquele homem além de um terrível pesadelo. Ele sorriu, e seu bafo ruim me fez olhar para seus olhos. Ele moveu uma mecha dos meus cabelos vermelhos pro lado, herança de minha mãe preciosa de minha mãe e disse palavras grosseiras. Cuspi certeiramente em seu olho esquerdo e o encarei bravamente enquanto ele se afastou e limpou o rosto parecendo estar se divertindo com a situação, fez uma investida mais forte e pegou com mais força meu braço me fazendo sair do chão por segundos, por reflexo em instantes sereia já estava em minhas mãos e cintilava com um fio afiado em seu pescoço, ele ficou imóvel e eu jurei ali que se aquilo se repetisse ele morreria antes mesmo de perceber. Encarei meu pai por segundos e sai do lugar batendo a porta e me trancando na minha cabine no extremo oposto do convés, entrei completamente desconcertada correndo para uma bacia d’agua em cima de uma cômoda para me lavar e limpar da mente o que havia acabado de acontecer. Havia mesmo perdido meu pai? Ele finalmente havia cedido a sua loucura e se perdido dentro da própria mente? Eu estava só? Literalmente só? Não sei se estava louca ou se precisava de ar mas provavelmente estava tendo alucinações quando pude ouvir claramente o canto triste de uma sereia ao longe. Sim, eu estava louca, variando junto com meu pai. Que ótima herança.
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