Inunda-me
2 23 de Setembro 1718. – Beatrice Avalon.
Notas iniciais
Sabia que não daria certo, nunca dava. Nunca dava certo quando inclua meu pai e a maldita mania dele de conquista. Eu não iria me envolver de forma alguma em nada daquilo principalmente não me casaria para cumprir uma promessa que nem foi feita por mim, se ele queria tanto assim uma aliança com o povo do sul que ele mesmo se casasse. Meu pai sempre tinha essa mania insuportável de controlar tudo e todo ao seu redor se achando o dono do mundo. Por ser o rei tritão tudo e todos se curvavam diante a sua vontade. Mas comigo não camarão! Sai fora! Eu já estava de saco cheio daquilo tudo, desde a infância eu interpretava o papel da filha perfeita, da princesa amada e sem alma que era o coral perfeito fechando a geração atual da família Avalon de forma clássica e limpa. Pois bem, eu tinha uma surpresa pra todos eles, eu tenho alma e talvez não seja tão limpa assim! E é por essa alma que vou dar o fora daqui antes mesmo que eles notem a minha ausência. Nadei por todo arredor do castelo pra não ter que dar de cara com a minha mãe, outra alga marinha que sem vontade própria dançava conforme a maré que meu pai ditava, porém como nada é do jeito que eu planejo os guardas e suas funções tão exatas e eficientes avisaram minha mãe que eu me dirigia aos meus aposentos reais e ela como de costume veio até mim pra mais uma vez me dizer que eu deveria me controlar e entender que a vontade de meu pai era a melhor opção pra nós e que ela deveria prevalecer mais uma vez. Não tinha argumentação e eu já conhecia aquela dança, aquela maldita dança que só teria fim quando eu aceitasse me calar e voltar a interpretar meu papel. Aproximei-me dela, segurei suas mãos e implorei aos novos e antigos deuses dos sete mares que ela pudesse me ver de verdade daquela vez, sem aquela membrana que ela tinha nos olhos que a impedia de ver e sentir a realidade, que ela pudesse ver quem eu realmente sou com todas as minhas duvidas, questionamentos e diferenças tão inaceitáveis pra coroa. Ele me vendia como peixe podre, como se eu não pudesse escolher meu próprio destino. Eu queria poder escolher. Queria fugir, precisava pra ser eu de verdade. Pra me conhecer. Ainda me doía no rosto o tapa recebido aos sete anos de idade quando eu questionei em um jantar porque uma sereia não podia amar outra sereia. "Inaceitável. Pecaminoso. Isso é sujo" disse ele antes de caminhar até mim e dar o derradeiro tapa em meu rosto, aquele que me acompanharia por todos esses anos. Pedi a ela que buscasse na memória, e que por Deus encontrasse a menina de quinze anos que ela foi um dia e perguntasse pra ela mesma se ela aceitaria que aquilo tudo acontecesse. Minha mãe me contou que casar com meu pai, livrou a sua família da morte, família essa que eu nunca tive a chance de conhecer já que a vida no castelo era extremamente restrita a agenda real e a mesma não tinha brechas para visitas a familiares de segundo grau. Suspirei e senti meus olhos se aquecerem, a ardência das lagrimas veio e eu pude senti-las se misturando com as águas salgadas naquele imenso mar que era minha prisão desde a infância assim como parecia ter sido de minha mãe.
***
A tarde se arrastou enquanto eu flutuava pelo quarto fechado à horas, deixava meu corpo planar por onde queria experimentando a liberdade falsa e pequena que eu podia proporcionar a ele. Cleodora abriu as portas e seus cabelos cor de rosa cintilantes adentraram antes mesmo dela como de costume, me senti em paz finalmente. Nadei para seus braços meu único lugar de paz no mundo. Ela havia cuidado de mim desde minha fase pequena, e isso era o mais próximo de uma família de verdade pra mim. Quando olhava em seus olhos eu via o mar imenso e cheio de desafios e conquistas que eu tanto queria conhecer e tomar como meu. “Cleodora” – sussurrei baixinho como uma oração interna, um mantra que sempre me acalentava quando eu precisava. Ela respondeu algo inaudível e eu busquei entende-la olhando para seus lábios, mas foi em vão. A voz pesada e rouca de meu pai rompeu o silencioso corredor e senti Cleo me apertar em seus braços enquanto encarava a porta, ele entrou como um trovão no quarto esbravejando que eu não deveria ser tão mimada e disser aquelas obscenidades para minha mãe, que com certeza despejou tudo pra ele como um ostra entrega seu bem ao ser posta a ponta de uma lasca afiada. Senti meu corpo inteiro tremer e se encolher de medo, quanto mais ele gritava e se aproximava Cleo me levava em direção a janela lateral semi aberta. Ele segurou meu braço fortemente e senti minha espinha inteira se enrijecer, desde a cabeça até a cauda. Olhei em seus olhos e busquei forças da minha fraqueza interna, da minha vontade de que tudo aquilo pudesse ter a chance de ser diferente. "Eu vou ser livre, queira você ou não." — Ele ergueu bem alto seu pesado braço e encheu sua mão com todo rancor do seu coração para me acertar novamente no rosto, mais uma vez confirmando que nada que eu era realmente o agradava. Fechei os olhos e o aceitei. Senti o estomago vazio ruir e desejei que tudo aquilo acabasse logo. Em segundos uma confusão perfeitamente arquitetada começou, um plano secreto de Cleodora estava se concretizando. As luzes se apagaram e precisei de alguns segundo pra entender porque a escuridão ainda continuava lá depois que eu abri meus olhos, o breu do mar extenso invadiu o quarto e os guardas entraram no quarto rapidamente, no mesmo segundo senti meu braço ser puxado na direção oposta de meu pai e num suspiro profundo de susto eu estava fora do quarto. Cleodora havia me puxado e agora nadávamos em uma velocidade frenética em direção a superfície da costa leste. Eu não consegui ver o rosto de Cleo mas podia entender a idéia de um plano de amor que tentava a todo custo me dar de presente tudo aquilo que eu tanto queria. Nossas caudas deixam rastros grossos de bolhas e nossos corpos se moviam com a máxima velocidade que conseguíamos. Fizemos caminhos diferentes e corremos por toda extensão do reino, podia sentir a mão de Cleo me puxando ferozmente para frente como se toda velocidade ainda não fosse suficiente. Chegamos a uma distancia considerável do castelo quando Cleodora parou ofegando fortemente. Pensei no que aquilo iria custar a ela, segurei seu rosto entre as mãos e implorei com todo coração que ela viesse comigo, era a única forma que eu tinha de pagar lhe de volta tudo aquilo que ela havia feito e sempre fez por mim. Ela não conseguia me responder, só conseguia ver seu rosto aflito em meio aos cabelos cor de rosa emaranhados em seu rosto me implorando com as mãos e cauda pra que eu seguisse dali e a deixasse. Cleodora desmaiou e pude sentir seu coração extremamente agitado enfraquecer bruscamente. Em uma tentativa desesperada de acalmá-la, a recostei sob um conjunto de corais desgastados e implorei com o meu lamento mais forte que ela voltasse pra mim, á chamei de mãe inúmeras vezes e só assim a sua consciência retornou, apertei seu rosto contra as mãos e procurei vida em seus olhos. Meu pai havia chegado com a guarda real, pude reconhecer meus professores de nado e especialistas em caça do reino, todos me encaravam sem parecer entender o real motivo de estarem ali. Meu pai erguei seu tridente e o empunhou contra mim, com uma investida feroz. Não pude ver o momento exato em que aqueles fatos ocorreram mas pude ver quase que em câmera lenta o rosto de minha mãe nadando em mim direção e se prostrando diante de mim, seus braços ao meu redor e a frase em meu ouvido. "Eu te amo. Vá depressa" — A face do rei mudou em extrema rapidamente e assumiu verdadeira penumbra, seus lábios pronunciaram sem som, "Helena". Ele pegou o corpo de minha mãe que ainda desferia uma faixa de sangue vermelho bordô pelo azul marinho. Cleodora me puxou mais uma vez e pude ver seu cenho franzido me puxando novamente pra longe dali. Eu os deixei ali, era o fim. Aquela cena representava meu completo desligamento daquela família, daquela história e também minha liberdade conquistada pelo sangue vivido de minha mãe que ainda tinha os olhos em mim conforme eu ia me afastando. Me virei e aceitei seu presente com gratidão, nadamos pra longe e a guarda não nos seguiu dessa vez.
Depois de horas e em um lamento profundo de dor, cantávamos em uma serenata que só uma sereia com o coração partido pode fazer, eu e Cleo viajamos por milhas juntas até o momento em que senti suas mãos perderem as forças e abraçando seu corpo não encontrei mais vida. Meu corpo inteiro rompeu em dor e um som ecoou por todo oceano. Cleodora, minha mãe. Jamais imaginaria que minha liberdade custaria tão caro.
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