Introspectana
12 Saga 2 Capítulo 2 - Grande Pertencer...
Introspectana
Saga 2 Capítulo 2: Grande Pertencer...
By Bolchen.
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Um prédio caindo aos pedaços, mas terno. Uma entrada assombrosa, carregada de crânios pônicos e o escudo “The Crusaders M.C” estampado na porta de aço escurecida. O edifício vermelho-quase-nulo nada mais fazia senão contribuir para a falta de saturação daqueles tempos. Muitos redores se mostravam bastante degradados, com o asfalto esburacado e as calçadas cheias de sacos de lixo que mal foram amarradas, espalhando-se, com o vento, diversos pedaços de plástico e objetos descartáveis pela rua.
Dentro do edifício, podia-se ver no salão principal um grande bar e, mais para o lado direito, uma gaiola de dança, tipicamente utilizada por dançarinas. Havia outras duas mesas onde três pôneis aleatórios tomavam Cidra Industrializada, cuja marca era claramente Flim Flam LTDA ou mesmo Apple Family Drink’s Well Company.
Havia um grande sofá em formato de lua que cercava o bar, localizando-se ali dois potros familiares: Bill e Clayton. Ambos bebiam cidra da família Apple, claramente refletindo nos comportamentos dos dois.
-Entãaããaaaao... Clay.... Quandé qui você vai dar pra mim, hein? Já faiz um tempim que você aaaaanda demoranu pra responder, hein?! – Perguntava Bill, claramente bêbado.
-Eu... Ric! Eu não soooooou viaaaaaaaaaado, Bill... Eu Gosto é das égua! É das égua que piro! -.
-Pira poca vai pirar, vai? -.
-O QUE?! -.
-Tu pira numa piroca, né? Pra pira pirando nas piranha pirada... Tu pira em piranha ser, né?! HAHAH! URGH... HAHAH! – Ria, bastante afetado pela bebida.
-Ah! Vai tomar no enredo, Bill...
-Já tomei... E com cidra! -.
-Sei... -.
-Aham... -.
-Do jeito que tu gosta é de falar de mim, mais parece que você é viado... -.
-É porque não fui eu que dancei no poste mostrando tudo e até mais na época que entrei no clube, se é que me entende... Hahah! -.
-A... – Avermelhava-se.
-Ui! Já tá até se excitando e... -.
-E você está cuzando seu... – Interrompeu.
-Cuzano? Que porra é essa? – Interrompeu também.
— ... Foda-se! ... Aquilo foi apenas uma parte do ritual e... Você sabe muito bem disso... Grr... – Dizia, bem bravo.
-Por falar em ritual... Cadê aquela vadia? Estou curioso pra saber qual será o ritual dela... Espero que seja alguma coisa relacionada à gente comer ela! -.
-Estranho você ter mudado de opinião assim... Antes você não queria ela aqui... -.
-Pelo menos agora tenho um enredo melhor pra olhar em vez do seu... – Olhava pro lado, bebendo mais cidra da garrafa.
-O... O que?! Que pooooooooooorrra é essa?! – Avermelhava-se mais ainda, se afastando de Bill e levantando-se.
-É brincadeira, Clay. É brincadeeeeeira... Hahah! Relaxa e senta aí! -.
-Às vezes você me assusta com esses comentários... – Disse, se sentando.
-É que não resisto ao momento... Heheh! -.
Adjacente a esse acontecimento, se espalhava calmamente por todo o salão um barulho de galope, deixando todos ali quietos instantaneamente. Sabiam que aquele galope era o galope presidencial do clube. Um calar de todos que acabava por aprimorar o som das batidas, que a cada momento aumentavam de intensidade. Ao fundo, ainda que menos intenso, soava umas batidas mais fracas, mas acompanhando as batidas mais fortes. Seria o início de uma apresentação, de um cumprimento ao novo.
E assim surgia de uma porta ao lado do bar o Plume, com a mesma roupa de couro tal como todos os outros irmãos do clube. Com um aspecto neutro, embora sorrindo levemente, estava a manter um contato visual com todos, tal como sua liderança exigia. Dando uma grande e profunda batida ao chão com os cascos, pronunciou:
-Senhores... – Falou com voz serena e bastante atenção — Quando eu e Bill criamos o clube de moto nós tínhamos idealizado, mais do que o alcance de nossas marcas especiais, o tratamento de igual para igual com todos aqui. Enfrentamos esse sistema separatista e castado que os pôneis normais e submissos insistem em manter e todas essas vezes nós conseguimos mostrar que nós, não tendo Cutie Mark alguma, também merecemos o respeito como qualquer outro pônei merece! -.
-EEEEEEAAAAAAAAAHHHH!!! – Gritaram todos.
— ...E diante dessa nossa ideia de igualdade, apresento-lhes a nossa nova irmã, a primeira fêmea do nosso clube, que deverá receber o merecido respeito tal como qualquer outro irmão aqui. Ela já possui uma marca especial, mas a sua busca por respeito não acabou. Com vocês, a nossa nova irmã, Touch Light! -.
-EEEEEEAAAAAAHH! -.
E da porta estreita saía a pequena potra terrestre, agora se vestindo de forma totalmente diferente: Utilizava um casaco de couro preto tal como todos ali, só que mais justo para ela e mantendo a marca do clube nas costas. O seu cabelo estava preso e utilizava uma bandana que segurava a sua crina branca, agora com um penteado mais bagunçado e espetado, claramente mais curto do que antes, se estendendo essa mesma estética na sua cauda. Os seus olhos estavam com uma sombra mais “dark”.
Touch se sentia um pouco nervosa, mas muito sã da situação. Tentou um leve sorriso, sem que isso significasse uma candura sobre as bochechas, não conseguindo se livrar do vermelho da situação.
-Err... Oi... Irmãos... – Disse, disfarçando tudo com um sorriso frágil.
Todos os irmãos se levantaram indo à direção da Touch para dar um abraço de boas-vindas. Quando todos estavam a já quase darem um abraço grupal, ela se encolheu e rejeitou o abraço, deixando eles num recuo e estranheza em relação à atitude dela.
-Ah! Calma, irmãos! Ela ainda num tá acostumada com tantos pôneis! – Explicou Plume.
Ela calmamente saiu da posição de defesa e lentamente tentou retomar uma posição mais amigável, mantendo o seu nervosismo a todo custo diante de tantos potros e garanhões que olhavam para ela.
-Err... Oi então... Me desculpem... É que não estou acostumada com tanto potro junto, sabe? -.
-Pois você terá de se acostumar, pois... – Se aproximou o pegaso azul — ... O seu ritual será satisfazer todos do clube... -.
-AAAAH AÍ SIM HEIN!! – Responderam todos.
-O QUE?! – Se assustava a terrestre.
E os olhos do pegaso se aproximavam ainda mais da Touch, que agora estava bem mais tremulente e não conseguia parar de respirar rápido.
-É brincadeira! Relaxa! – Riu o potro azul.
-HAHAHAH! Plume! Eu realmente num sei se você é um palhaço ou um cabaço pra vacilar assim e deixar ela sem gaiola! Vacilou,viu?– Gargalhou o unicórnio vermelho.
— HAHAHAH! E cê é um virgem que não pega égua alguma e por isso quer que eu peça pra ela dar pra você, né cuzão? – Retribuía, também rindo.
-UUUUUUUUUUUUUUUi! – Exclamaram todos os irmãos.
O unicórnio se calou diante das ditas palavras do presidente. Agora Touch dera um passo à frente e de pronto se virou para ouvir Plume.
-Atenção então, meus irmãos... – Mandou, com todos se calando no mesmo instante — ... Diante então do fato de nossa tradição dizer que... -.
-Ei! Afinal... Por que ainda mantemos essa porra de tradição? Que merda de diferença isso faz?! – Questionou o Clayton.
-Quem te perguntou? – Retrucou Plume.
-UUUUUUUUUUUUUi! – Gritaram todos os outros.
-E quem chamou vocês? -.
E todos se calaram.
-Bom... Acho que agora não terei mais interrupção pra falar... Bem... A nossa nova irmã aqui vai passar por seu desafio para cumprir o ritual. E o desafio que foi escolhido a ela é: Pilotar uma moto! -.
-Hã?! Como assim? Todos os irmãos não já tem de entrar gostando e sabendo dirigir uma moto? Tipo... Isso é um Clube de Moto, não um Clube de menininhas... – Respondeu Bill.
-Como se você não fosse muito diferente de uma puta guria retardada chata, né Bill? – Ofendeu o terrestre.
-Se não fosse que estamos no meio de um Ritual, eu partia pro porrete contigo, Clayton... – Respondeu de volta.
-JÁ CHEGA PORRA! Quanto é que custa pra vocês ficarem quietos por um instante?! -
-EU SEI, EU SEI! – Gritou um potro ao fundo — Uma vadia que nem ela pra gente foder! –.
E todos olharam para o potro aleatório ao fundo, que lentamente se baixou e se misturou com o resto.
— ... E bem, como dizia... – Se recompôs, voltando à postura de líder — ... Ela provavelmente não sabe dirigir uma moto e... -.
-Eu sei dirigir moto sim... – Falou a Touch, bem baixo.
— ... Espera... VOCÊ SABE?! – Gritou todos ali, inclusive Plume.
-Bem... É que eu também sei dirigir aviões e acabei aprendendo a dirigir motos também, mas já faz um bom tempo que não pego em uma... -.
-Relaxa... Uma vez que pilotou uma moto, nunca mais esquece! – Respondeu sorridente o presidente.
-Nunca mais esquece? -.
-Nunca mais... – Reafirmou o pegaso.
-Então como é que faz pra eu pilotar moto? Eu não sei pilotar... -.
-Espera... Você não tinha dito antes que sabia pilotar? -.
-Eu disse que sei dirigir moto, não pilotar... -.
-VISHHHE! VISSSSSHHHHEEEEE! – Gritou todos ali.
-Tá... Já chega, irmãos... Está na hora então de eu mudar o ritual... Favor, prestem atenção... – Dizia calmamente.
E todos subitamente pararam de rir e gritar, prestando atenção no Plume.
-Como todos sabem, nenhum irmão entra sem ao menos sacrificar algo de si para todos, independente de quem seja esse “todos”. E declaro que, como primeira égua no nosso clube, então ela deverá provar a sua igualdade em relação a nós: Uma corrida de moto. Não importa se chega em primeiro ou em último. O importante é que chegue ao final da linha de chegada... -.
-Isso se ela num perder o crânio na primeira curva antes HAHAH! – Brincou Bill.
-Ou então se distrair e retocar a maquiagem, né? Base, sombra, primer, esse tipo de coisa... Hahah! – Disse Clayton, acompanhando Bill.
-Espera... Como VOCÊ sabe desse tipo de coisa? Que porra é essa de primer?! – Perguntou o presidente.
Todos no momento ficaram quietos, com o Clayton caindo fora e indo pegar uma cerveja, com um vermelhidão no rosto.
-Tá.... Uh.... Foda-se isso. Voltando... – Se recompôs o pegaso — ... Eu, Bill e Clayton vamos competir contra a Touch, por nós já a conhecemos um pouco antes do resto. O trajeto vai ser o de sempre: Começar na rua aqui em frente ao clube; Dar a volta na primeira esquina à direita; Seguir em frente até a igreja, dar a curva à direita e continuar na avenida; Chegar no aeroporto, dar a volta no monumento e continuar a avenida; Pegar a rodovia e descer na primeira várzea, chegando nos estúdios, seguindo reto até o final da rua; Virando mais uma vez para a direita e seguir reto na avenida; No quinto cruzamento virar à direita e, finalmente, chegar de novo aqui na frente do clube. Dúvidas? -.
-Sim... – Respondeu a professora.
-Qual? -.
— ... Qual é o trajeto mesmo? -.
-Tá... Uh... Pega isso... – Tira algo da jaqueta, um objeto quadrado e sem cor — ... Isso aqui é um direcionador mágico. Ele mostrará para você o caminho através da tela, mostrando qual direção você tem que ir... -.
-Tudo bem então... -.
“Nossa... Como é que fui me meter nisso? Como pode eu ter deixado tudo isso acontecer e acabar aqui, dentro de um clube de moto?! Minha Celestia... Antes eu era professora, depois virei agente da máfia e agora... Motoqueira? Bom... Pelo menos agora não preciso matar algum pônei, preciso? Espero que... ESPERA... Já estou na moto?!”.
Touch deu mais uma olhada e percebeu que já estava em cima de sua moto, presente do pegaso para ela.
-Pelo fato de você ser nova no clube, estou te dando a minha velha moto. Cuida bem dela, viu? Ela foi feita diretamente de Appleloosa, o melhor lugar de onde vêm as melhores máquinas -.
-Porra, Plume! Custa parar de dar uma de playboy com esses esquema que cê treta lá de Appleloosa? Isso dá magoada nos irmãos aqui! – Reclamou Bill, bem bravo.
-Não me culpe se você não se deu ao trabalho de ir comprar em Appleloosa e preguiçosamente foi para Canterlot comprar essa motoquinha aí de plástico que você chama de “máquina” – Debochou o alazão azul – Meu... Raribelle 2000 porra? Como pode fazer uma furada dessas? Moto de bichinha! -.
-Ui! Bill pegando geral de bicicletinha! – Zuou o Clayton.
-Olha só o cabaço que abre o bico! O idiota que anda num espelho ambulante cromado! -.
-Pelo menos a minha moto é de Appleloosa também. Diferente da porra do seu... Triciclo! – Riam.
Naqueles tempos, ter uma moto de Appleloosa significava ter um dos melhores veículos que se podia adquirir. Carroças, motos, máquinas vindas de Appleloosa eram sinônimo de qualidade e prestígio, especialmente pelos mais puristas, já que as primeiras carroças motorizadas vieram desse pequeno lugar que cresceu tanto em tão pouco tempo. A marca estampada no tanque de combustível das duas motos de Plume e Clayton, a “Apple Motors”, refletia o grau refinado através de um emblema da família Apple, totalmente metalizado. Por outro lado, a moto de Bill pertencia à Raribelle Motors, uma empresa pertencente à Raribelle Holding, geralmente motos com uma característica mais esportiva, tendo uma curvatura maior e os amortecedores dianteiros menores que as Customs vindas de Appleloosa, mantendo sempre uma aparência mais limpa e menos rude em relação às máquinas Appleloosianas.
No momento, Touch estava com um modelo fora de linha, uma Apple 900 e bem conservada, datada com 10 anos e com labaredas de fogo estampadas por toda a moto, com o escapamento bastante cromado. Ela estava do lado do presidente, estando atrás dela o Bill e do lado dele o Clayton, todos com as suas respectivas motos.
O presidente logo levantou os seus cascos para cima, indicando o início da corrida.
-Bom, meus irmãos. Quando meu casco abaixar, aí é hora de foder com tudo! -.
-YAAAAAAAAAAAAAAY! -.
-O que?! -.
-Err... Quer dizer... EEEEEAAAAAAAAHHH! — Gritou os dois, corrigindo o grito anterior.
Touch, ainda que inexperiente, já acionava a manopla e ligava a moto. Todos aceleravam ruidosamente uma de suas máquinas, todas dando bastante barulho estridente que se sentia até pisando no chão. Aceleravam bastante enquanto Plume continuava a manter o seu casco levantado e o outro acelerando a manopla.
E abaixou... E começou a corrida: Todos saíram ao mesmo tempo, com a Touch se atrasando meio segundo. Já de cara todos viraram a primeira curva, com a professor ativando o seu guia mágico, que estava fixado acima do seu painel de instrumento. De cara, o guia mostrava uma seta indicando para frente, mostrando para seguir em frente.
-Nada mal para uma fêmea! Pensei que ia ficar estagnada lá atrás! – Gritou Bill.
Nesse momento, Touch acompanhava Plume, que estava na frente. Atrás dos dois, estavam Bill e Clayton disputando entre si.
-Vamos, Clay! Deixa eu ir na frente, seu viado! -.
-Ah! Então é você que quer ir pra frente para eu ir por trás de você, né safadão? – Gritou.
-Não! É porque prefiro uma visão traseira feminina em vez do seu cuzão feio Hahah! -.
-Vai tomar no enredo, Bill! – Gritou, batendo com a sua motocicleta ao lado esquerdo do garanhão vermelho.
-Opa! Aí já é dar de bangalô, hein?! –.
Tendo gritado, o unicórnio levou a sua moto em colisão ao do Clayton, dando uma grande batida e os dois forçando um contra o outro, desviando ao mesmo tempo das carroças que buzinavam quando as suas motos passavam na frente deles.
-Você realmente é um vacilão metendo porra no cu, Bill! -.
-E você é um viadão enrustido, Clay... Espera, enrustido não... Assumido! Hahah! -.
-Vai dar pras novinha no óleo daquela rodinha! – Disse, retribuindo uma grande batida.
Enquanto os dois faziam uma luta grega sobre rodas e várias vezes ameaçando colidir com as carroças, Touch continuava a acompanhar o percurso estando bem ao lado de Plume. Estava bastante concentrada à frente, principalmente desviando de cada carruagem que surgia. O alazão azul se impressionava com a destreza da terrestre, antes tendo pensado que ela não fosse tão habilidosa nesse tipo de coisa.
-Puxa... Você realmente dirige muito bem! Tem certeza que essa Cutie Mark aí representa o que você faz de melhor? -.
-Sim! Ser professora é a minha alma, o meu talento... Afinal, isso aqui é apenas um passatempo, não é? – Gritava, continuando a olhar pra frente.
-É... – Olhou magoado para baixo — ... Apenas um passatempo... -.
-Hã?! – Estranhou, olhando para o pegaso.
Nesse momento, ela deu de cara com uma carroça, tendo rapidamente virado a moto, por pouco não sendo atingida. Depois do susto, ela continuava a olhar e estranhar o pegaso que, de repente, mudara tão rapidamente a sua feição gentil e sorridente para uma fria e melancólica, mas continuando a pilotar a sua moto como sempre pilotava.
Aumentando de velocidade, Touch ficou lado a lado com Plume, ambos concentrados no percurso, enquanto os dois irmãos atrás continuavam brigando. Chegaram até a Igreja, reduziram e fizeram a curva à direita, andando pela avenida. Nesse momento, aceleraram à mais de 150km por hora, com a professora acelerando cada vez mais e acompanhando o presidente.
Ambos estavam brigando em uma corrida de verdade, praticamente disputando uma liderança real e imaginada. Touch desviou de um caminhão e o Plume, por costume, passou por baixo do vão entre a carga do caminhão e o chão, surpreendendo a Touch que, distraidamente, o deixou ultrapassar.
Pela velocidade, chegaram rapidamente ao aeroporto, fazendo a rotatória no monumento de concreto e visual redondo, contemporâneo e em forma de concha deitada ao chão. Clayton e Bill estavam invisíveis à aquela altura, não se notando as suas presenças.
Dando a rotatória, seguiram pela avenida e de cara já pegaram a primeira várzea para a rodovia, na contramão. Touch estava atrás do presidente, que desviava furiosamente cada carroça que via de antemão. Já a professora ultrapassava todos pelo canto, se atrasando em relação ao potro.
Chegando na rodovia, se depararam com um acidente em frente, com um caminhão impedindo a passagem de toda a rua. A potra subiu no muro de concreto e equilibrou as suas rodas entre a estrada e a queda para as ruas de baixo. Nisso ela passou antes do presidente, que parou e pensou numa maneira de passar daquilo.
Ele, calmamente, recuou alguns passos com a moto e, com os cascos acelerando a manopla, correu e se jogou por baixo do caminhão, largando inicialmente a sua moto e se arrastando no asfalto. Ambos passaram do caminhão e a moto, com o atrito, desacelerava e o garanhão retornava à sua máquina, reequilibrando-se em alta velocidade e retornando à pista. O alazão acelerou e alcançava Touch, mas ainda se mantendo recuado para trás.
Chegaram na primeira várzea e desceram até uma rua, seguindo-a. Percebia-se ali diversos estúdios e cenografias. Ao fundo, numa região rica e cheia de mansões, notava-se a grande e poderosa nomenclatura “Applewood” levantada e erguida por metal e aço. Touch foi ultrapassada pelo presidente, que rapidamente acelerou e aumentou bruscamente a velocidade. Touch acompanhou.
Final da rua, viraram à direita. Seguiram a avenida engarrafada. Ambos estavam em diferentes vãos entre diferentes vias, mas estando próximos. Passavam carroça por carroça, algumas vezes batendo nos retrovisores e seguidos de palavras aleatórias sujas. Primeiro cruzamento... Segundo cruzamento... Terceiro... Quarto... Quinto e deram a curva.
Na reta final, ambos aceleraram com tudo. Touch estava mais nervosa do que nunca, apesar de tudo o que passou naquele momento. Estranhamente, mais nervosa do que ter se equilibrado num muro.
Alternativamente Touch e Plume trocavam de posição. Plume em primeiro, depois Touch. Ele em primeiro, depois ela em primeiro. Desvio de mais uma carroça por parte da professora.
Ele desviou de outro veículo, mas batendo no retrovisor dele. Sua moto estava agora com problemas de vazamento de combustível. Mesmo assim, continuou. Lado a lado, corriam como podiam. Em primeiro: Touch, Plume, Touch, Plume, Touch, Plume, Touch...
E Plume chegava em primeiro no final da rua, seguido da professora que bruscamente desacelerou e quase batia no muro do edifício do clube. Respirando fundo, ela se acalmou e voltou o seu olhar para os cascos do presidente, que ainda se fixavam nas manoplas, lentamente os tirando e olhando para frente, friamente.
-Então... Uh... Você venceu... Parabéns... -.
-Obrigado... Acho... Faz muito tempo que não corro assim... Finalmente uma corrida de verdade, sem tiros ou armadilhas de gangue para atrapalhar. Isso me lembra os velhos tempos... Os velhos passa-tempos... Obrigado mesmo, irmã... – Tornou o seu olhar para ela, sorrindo levemente.
-Mas... Cadê os outros dois? Pensei que eles estavam na nossa cola... – Perguntava.
-Olha eles, ali... E pelo jeito um está ARROMBANDO O OUTRO, NÃO É SEUS SAFADENHOS?! – Gritou, sorrindo maliciosamente.
-Ah! Vai tomar no enredo, Plume! – Respondeu Bill.
Bill estava na garupa da moto do Clayton, andando calmamente até o final da rua, com o Bill atrás do Clayton. Assim que o terrestre roxo parou, o vermelhão rapidamente deu de cascos com o chão, em sentimento de alívio.
-Ufa! Finalmente saí dum cuzão de macho! -.
-Ah! Cê gosta de um flanco de macho, né não Bilão? – Zuou o presidente.
-Hahah! O Bill gosta de machos! Vê pornô gay e adora frequentar saunas! – Acompanhou o terrestre roxo.
— ...E você gosta de um macho gostoso vindo por trás, né seu safadenho? – Continuou Plume.
-Urgh... Merda... Melhor mim manter os dentes fechados... -.
-E tudo isso foi treta sua, Clayton! Se não tivesse me fudido, não teria levado porrada daquela joça de camburão de carga que deu PT na minha moto! -.
-Uhh... O coitadinho tá com dó de uma Raribelle... Pensei que você fosse macho e não um apreciador de triciclos HAHAH! – Zuou Clay.
-Grr! Foda-se! – Cavalgou batendo forte os cascos no asfalto – Amanhã vou pra Appleloosa comprar a melhor custom que eu puder! -.
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-Então... Você está bem? Você não devia ter se arrastado no asfalto desse jeito... -.
-Tudo bem... Urgh! Heheh... Acho que devia ter tido mais cuidado... E olha só quem fala: A que conseguiu fazer a proeza de ficar equilibrada num muro com uma moto... Sério... Como você conseguiu aquilo?-.
-Detalhes... Detalhes... – Olhou para o lado, um pouco nervosa.
Touch e Plume estavam em um quarto a sós, sentados em um colchão velho, com as paredes rachadas e alguns móveis velhos da época de ouro de Equestria. A terrestre cuidava delicadamente dos ferimentos do pegaso, com escoriações nas costas e sobras nas asas, que vez ou outra gemia quando ela encostava a toalha molhada sobre o ferimento. Só não tinha sido pior por causa da jaqueta de couro. Aquela queimada estranha no chão, talvez uma queimada também da alma: O pegaso ainda não mudara a sua feição mais melancólica desde aquele momento.
Continuando a estranhar aquele ver distante, a potra branca calmamente perguntou a ele:
-Então... Por que você está tão... Triste? Esse olhar tão distante... – Perguntava, bem calma.
-Bom... Quer mesmo saber? -.
-Quero... -.
O pegaso se levantou, indo na direção da porta e não fitando um único olho no toque de luz.
-Quando eu e Bill construímos esse clube... Nós éramos pôneis pobres, vindos lá do Trove. Nunca fomos bem recebidos por lá, ainda que tenhamos nascido e nossas raízes sejam de lá. Até hoje nunca conseguimos as nossas marcas especiais, mas ao mesmo tempo ignoramos isso e sempre nos importamos mais com uns aos outros... -.
Suas lembranças se confundiam com as mágoas passadas e confusas estavam a sua impressão sobre a pônei terrestre. Ele soltava certos brilhos nos olhos, mas os rios não cascavam, havendo uma grande hidrelétrica interior que impedia a sua passagem.
-Parece que vocês sofreram bastante... -.
-E ainda sofremos... -.
Ele fitou para baixo, fechando lentamente os seus olhos. Agora a barragem não estava suportando a várzea do rio interno, algumas dessas vezes vazando a água para fora de seu corpo. Não eram visões e lembranças a essa altura: Eram vezes.
-Nós, antes desse clube, éramos apenas moleques de rua que tinha de buscar em qualquer canto um pouco de comida. Por sorte e, principalmente, por azar... Acabamos entrando na Associação a uma certa altura de nossas vidas... -.
-Você já participou da Associação? -.
-Sim... A pior época de minha vida. Não sei quanto ao Bill, mas pra mim... -.
-O que aconteceu nessa época? -.
Ele conseguiu, a tempo, concertar a barragem. Agora o potro lentamente voltava a se sentar no colchão, mantendo a uniformidade de seu estado de alma.
-É melhor você não saber... É muito terrível essa época... -.
-Mas então... Por que está me contando tudo isso? -.
-Sabe... – Se levantou – Na época em que finalmente construímos o clube, construímos em nome de ajudar a todos que também foram rejeitados tal como nós. Nós acolhemos todos os pôneis que seriam massacrados pelos outros, tudo com um foque comum em nossa paixão por essas máquinas, por essas emoções da rua e do motor girando. A emoção de estar tão perto da moto pelo seu casco, apenas e simplesmente se enfurecendo girando a manopla... Só que... -.
-Só que?-.
- ...Isso pra nós significa muita coisa... -.
Touch subitamente teve um toque de consciência do que ela tinha feito ou o que falado. Talvez um erro grotesco, pior que dublagens centaurianas. Ela imediatamente se deu de casco com o rosto, negando constantemente com a cabeça o que ela fez.
- ...Urgh... Me desculpe... Não queria ter diminuído vocês... -.
-Mas acabou diminuindo... Mas eu perdoo... -.
-Eu realmente não sabia que machucou tanto assim o que eu disse... -.
-Então... Uh... – Hesitava, suspirando – ... Às vezes temos de ver o quão nós podemos machucar os outros sem ao menos tocar neles. Às vezes a dor física não se compara com nada com a dor da alma. Tome cuidado quando for tratar alguém. Seja mais gentil, tudo bem? -.
-Tá... Eu acho... -.
“Tal como a Intro comigo... Minha Celestia... O que eu fiz?!”.
-O nosso clube sempre recebe todos e nós nos unimos por algo em comum. Você tendo nos diminuído a “passatempo” é como se essa nossa união não fosse nada... -.
-Sinto muito... Não queria ter ofendido dessa forma... –Se entristecia.
-Tudo bem... Mas lembre-se: Existem coisas pequenas que podem se tornar grandiosas assim como coisas grandes, no fundo, serem humildes e pequenas. -.
-Tá... -.
O Pegaso se aproximou da professora, levando um de seus cascos até a crina dela, penteando levemente. Touch sentia aquilo como um grande carinho de amigo e estava gostando bastante dos toques. Eram toques de pluma mesmo, gentis e carinhosos. Descomunalmente um contraste diante do que ela tanto já recebeu naqueles tempos.
Ele então abraçou calmamente ela, num sorriso inocente e sincero.
-Ás vezes, Touch, o que precisamos é de um pouco de gentileza... Lembre-se dessas sábias palavras da grande Fluttershy, tudo bem? – Sorria levemente, olhando para a potra.
-Eu prometo... -.
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