Intimacy
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Marina se vestiu enquanto Clara tentava se recompor e elas desceram.
– Pensei que não iam sair daquele quarto mais. Eu estou com fome, Marina!
– Calma, Vanessinha. Vamos lá, meninas. – Acenou para Flávia e Giselle.
Escolheram um restaurante simpático de Santa Tereza mesmo. Marina se sentou ao lado de Clara na mesa, mais perto do que necessário. Vanessa estava de frente com Marina e não tirava os olhos das duas. Estava odiando aquela intimidade toda. O clima entre as duas tinha mudado, ela percebeu. Fez questão de pegar na mão da Marina do outro lado da mesa e ficar alisando enquanto fazia comentários sobre suas fotos quase o tempo todo. Olhava profundamente nos olhos de Marina como se não tivesse ninguém mais naquele lugar. E mesmo assim, Marina estava toda concentrada na Clara. Não perdia uma oportunidade de repousar sua mão na perna da assistente. Eventualmente, olhava para ela e sorria de um jeito que fazia Clara se derreter toda.
Na volta, por mais que não se importasse de passar mais tempo com Marina, Clara decidiu que ir pra casa era melhor. Tinha muito o que pensar. Tinha que falar com Helena.
– Tá bom, então. – Marina a abraçou e disse baixinho. – Gostei muito de você ter vindo essa manhã. – Sorriu adoravelmente. – Vou sentir sua falta no fim de semana, não se esqueça de mim. – Disse tocando a bochecha de Clara.
–Não poderia. – Sorriu, mais uma vez deixando transparente a sua sinceridade.
Se despediram.
Em casa...
– Marina, vamos conversar. – Disse, rispidamente.
– Está precisando de alguma coisa, Van?
– Estou. Estou precisando saber o que aconteceu entre vocês duas naquele quarto hoje de manhã e porque você passou o almoço inteiro grudado na Clarinha. – Falou com desdém.
– Nossa, Van, deixa de ser chata, não aconteceu nada.
– Não aconteceu nada? Marina, até quando você vai insistir nessa história? Será que você só vai cair em si quando quebrar a cara? Tanta mulher nesse mundo...
– E nenhuma delas é igual à Clara. Eu esperei pela Clara por tanto tempo, Van. Não fica empatando minha felicidade.
– Desde quando o seu sonho de consumo era uma dona de casa careta, hétero e comprometida?
– Ela é muito mais que isso. Ela é – Começou a falar com os olhos brilhando.
– Pelo amor de Deus, não começa. Marina, abra os seus olhos. Isso não vai dar certo, e mesmo se der, não vai passar de uma coisa de momento. Curiosidade. Só isso.
– Não é não. Ela mexe comigo. E eu sei que também mexo com ela. Hoje mais do que nunca tive a prova disso. Existe uma chance de que ela realmente corresponda aos meus sentimentos. Eu acredito nisso. E se for verdade, eu não vou desistir. – Aproximou-se. – E eu vou apostar nessa chance.
– Marina, ela é casada. – Falou pausadamente. – Ela tem uma família e não te cabe nela.
– Poxa, Vanessa. Eu sei. Eu sei que cheguei atrasada. O Cadu chegou antes. Mas, não sou nenhuma destruidora de lares. Se ela estivesse feliz nesse casamento não teria me dado abertura nenhuma, e se esse fosse realmente o caso, eu não insistiria. Engoliria meu amor por ela, porque eu quero que ela seja feliz. E ela não estava feliz. – Apontou pra si mesma. – Eu a faço feliz. E vou me comprometer a isso. Se ela sentir o mesmo por mim, Van, só eu posso fazê-la feliz. E eu vou fazê-la a mulher mais feliz do mundo! – Falou entusiasmada.
– Marina, você está completamente fora de si.
– Não vou ficar discutindo com você, Vanessa. – Saiu da sala.
– Espera aí, Marina.
Mas ela já tinha saído. Quando chegou ao seu quarto não cabia em si de felicidade. Clara tinha deixado ela chegar perto, tão perto quanto ela queria, e era recíproco, ela também queria, podia sentir isso. Se jogou na cama sorrindo e percebeu a presença de um objeto que não lhe pertencia em cima do travesseiro. Pegou a pulseira e segurou contra seu corpo.
– Clara. – Brincou com a pulseira. – Eba, desculpinha pra te procurar. – Sorriu ansiosa.
– Não sei o que fazer, irmã.
– Essa Marina mexe muito com você, né Clara?
– Mexe. Mexe e ela sabe disso. Ela sabe e me provoca. – Clara disse se lembrando daquela manhã.
– Te provoca? Como? — Perguntou Helena curiosa.
– Ah, você sabe, Heleninha. Ela sabe o que dizer, sabe o que fazer. Ela..
– O que você está querendo dizer?
– Nada. – Suspirou.
– Fala, Clara. Aconteceu alguma coisa?
– Não! De jeito nenhum, não aconteceu nada.
– Mas...
– Mas.. – disse nervosa – mas não por falta de vontade. Ai, meu Deus. – Passou a mão no cabelo. – Ela tá me deixando louca.
– Clara, vamos abrir o jogo. Que tem desejo aqui está claro, mas e aí? É mais que isso? Você está apaixonada?
– Não. Quer dizer, eu não sei. Eu não devia nem estar pensando nisso. Eu sou casada, pelo amor de Deus. E o Cadu... o Cadu era o amor da minha vida, ele foi meu primeiro amor.
– Era? Não é mais? Minha irmã, deixa de ser boba, faz muito tempo que casamento deixou de ser contrato vitalício. É um compromisso, claro, que merece ser honrado. Mas antes de tudo, você tem que ser feliz. Isso faz parte em honrá-lo. Ser feliz. Se você não estiver feliz, Clara.... Olha só pra você, você fica toda atrapalhada só de pensar na Marina. Ela te faz feliz. Basta você saber até onde essa felicidade vai te levar. Se essa felicidade é maior do que a você tem com o seu marido. Mas se o Cadu não for mais a fonte de sua felicidade, não dá pra você sustentar seu casamento. Não é justo com você, nem com ele. Muito menos com o Ivan que vai estar no meio de uma família infeliz. E agora.. tem a Marina no meio também, não é?
– Eu nunca pensei que fosse me sentir assim por uma mulher. Eu nunca me senti assim antes. Isso é.. é loucura. É.. é errado. – Falou baixinho como se estivesse confessando um crime.
– Errado, Clara? – Helena riu. – Não tem nada errado em ser feliz, seja lá quem te faz feliz. O errado é você tentar continuar se enganando e enrolando os dois. Você tem que tomar uma decisão. Escolher o conhecido é muito mais confortável, mas você precisa analisar a importância e a posição da Marina na sua vida.
– Eu sei. E não vai ser nada fácil.
– As conseqüências podem até ser complicadas, mas pelo que eu estou vendo aqui, a decisão não vai ser tão difícil assim. — Disse se levantando e beijando a testa de sua irmã.
Clara buscou Ivan na escola e foi pra casa.
– Vou precisar da sua ajuda pro trabalho de ciências, mãe. Pai. — Ivan correu para abraçar Cadu. — Ganhei minha luta no judô hoje, o professor disse que já já posso mudar de faixa.
– Aê, filhão. — Respondeu, bagunçando o cabelo do filho.
– Oi, Cadu. — Clara o cumprimentou com um selinho. Como foi o dia no bistrô?
– Foi ótimo. A gente mal começou, mas já estamos fazendo o maior sucesso.
– Que bom, meu amor. – Sorriu. – Fico feliz por você.
– Eu quero falar com você, Clara. – Disse, sério.
– Pai – Ivan interrompeu. – Vamos jogar vídeo game?
– Agora não, filho. Papai tá cansado e eu quero trocar uma palavrinha aqui com a sua mãe, pode ser depois?
– Tá sempre cansado ou trabalhando. Não faz mais nada comigo. – Emburrou.
– Pô, filho... – parou – tá bom, então. – Virou-se pra Clara. – Depois a gente conversa.
No outro dia de manhã, Clara reparou com um sorrisinho no rosto como a primeira imagem que veio em sua cabeça foi Marina. Se perguntou se ela já estaria acordada também, se já estaria pensando nela. Olhou pro lado e viu Cadu roncando.
– Onde você passou o dia ontem, Clara?
– Tava na casa da Helena.
– De manhã? Vim almoçar com você, já que não ia trabalhar, mas você não estava aqui. Nem na Helena.
– Ai, Cadu, tá me vigiando agora, é?
– Tô. Sabe por quê? Porque você não precisa nem me dizer onde estava. Tava com a Marina, num tava? – Já discutiam.
– Estava sim. Satisfeito agora?
– E foi fazer o quê, lá? Não precisava trabalhar, mas não podia ficar sem ver a Marina...
– Ah, Cadu, tenha dó. Não é da sua conta, você é meu marido, não meu dono. Mal amanheceu e você já me cansou, tchau. — Saiu em direção ao seu quarto para tomar banho.
– Preciso por um fim nessa história. — Cadu pensou irritado.
Clara entrou pro banho irritada e mais irritada ainda porque tinha ficado nesse estado após apenas 5 segundos na presença de Cadu. Não podia se sentir assim em relação ao seu marido. Mas a preocupação não durou muito, logo já estava pensando em Marina de novo e sorrindo igual uma adolescente apaixonada lembrando-se do almoço com ela. Do almoço, sua mente vagou pra o quarto dela. E todas as sensações que Clara sentiu naquela manhã ressurgiram, e com elas a vontade de vê-la novamente, ouvir sua voz. Poderia ligar? Não, não devia. Ligar pra quê? Dizer que já estava morrendo de saudades? Saudades de sentir seu toque que queima através da pele de Clara como se o mínimo toque pudesse fazê-la entrar em combustão. Pudesse não. Pode. Clara começou a imaginar como seria se ela estivesse ali agora, no chuveiro com ela. Imaginou Marina atrás dela beijando seu pescoço e eventualmente chupando, apertando-a com seu corpo contra o Box, enquanto sua mão subia acariciando a pare interna de sua coxa. Seus lábios se moveram para o lóbulo da orelha da dona de casa, que recebeu uma mordidinha. Clara sentiu os bicos de seus seios enrijecerem e por reflexo os acariciou imaginando que fossem as mãos da morena. Gemeu. O som de sua voz a assustou, abriu os olhos arregalados e tratou de espantar a Marina da sua cabeça. Encostou na parede com a cabeça embaixo da água fria.
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