Intimacy
24 Capítulo 24
Notas iniciais
À tarde, as meninas trabalhavam no estúdio. Marina estava sentada no chão, com seu notebook, selecionando fotos. Usava seus óculos e o cabelo preso com algumas mechas soltas no rosto. Clara organizava o equipamento, mas sempre com os olhos nela. Não sabia dizer quando Marina ficava mais bonita. Se era quando fotografava, quando estava compenetrada no trabalho, quando se vestia para matar para sair, ou quando estava completamente solta e relaxada. Mas sabia, sem sombra de dúvidas, seu momento favorito. Este era quando Marina estava completamente desarmada, na cama, nos seus braços, toda descabelada. E com aquela carinha que ela reservava só pra Clara, uma carinha que transbordava amor.
– Marina! — A voz de Flavinha tirava Marina e Clara de seus respectivos transes. Marina levantou os olhos.
– Você tem visita.
– Quem? Cliente? Manda entrar! — Disse, pondo o computador de lado e se levantando.
Marina soltou os cabelos e tirou seu óculos. Clara olhou para ela achando que ela era uma boba se não achasse que ficava linda de qualquer jeito. Uma figura apareceu em sua visão periférica, chamando sua atenção.
Uma mulher estonteante estava parada na porta. Tinha sua mesma altura, cabelos ondulados de cor acastanhada que chegavam aos seios. Estava bem maquiada, mas não em excesso, e vestida elegantemente. Pele de baunilha, seu rosto com traços marcantes e ao mesmo tempo delicados, e o olhar tão profundo quanto o de Marina.
– Marina. — Chamou.
Nesse instante, Clara registrou duas informações. 1 — A voz da mulher era tão sedutora quanto a sua aparência. 2 — Marina arregalou os olhos surpresa e seu corpo todo tensionou igual pedra, antes de se virar.
– Vitória?
A mulher andou em direção à ela, deixando a bolsa na mesa mais próxima e a abraçou. Marina estava tão entorpecida que não correspondeu de imediato.
– O que você está fazendo aqui?
– Vim te ver, claro! — Vitória tinha o rosto afundado em seu pescoço com os olhos fechados. — Que saudade de você. De você toda. Seu rosto, seus olhos, seu cheiro… — Cheirou Marina e começou a se afastar, mas ainda tocando-a. — Sua boca. — Falou se inclinando em direção ao rosto de Marina. Marina sentiu seu coração palpitar de nervosismo e pôs as mãos em seu torso, parando-a.
Clara, que até então, assistia calada, pigarreou. — Marina.
A mulher se afastou e só então olhou para Clara.
– Que educação, a minha! — Foi até Clara estendendo a mão. — Eu sou Vitória, e você é? — Tinha aquele olhar superior.
Clara pegou sua mão. — Clara. Namorada da Marina.
Mesmo ainda em choque, Marina sorriu, era a primeira vez que Clara falava assim. Clara pensou que ela se desculparia ou ao menos se mostraria constrangida, mas não.
– Namorada? — Olhou Clara dos pés à cabeça e se virou para Marina. — Senhorita Marina Meirelles teve seu coração roubado? É isso? — Sorriu.
– Clara, a Vitória é… uma amiga…
– Ex. Sou ex da Marina. Uma das. — Riu. — A mais importante.. talvez? Ah vai, me dá esse gostinho. — Sentou-se no sofá puxando Marina com ela.
– Quando você voltou?
– Essa semana. Vim te procurar assim que pude. — Pousou a mão em sua coxa.
Marina se mostrou desconfortável e cruzou as pernas para sair do contato. Clara não gostava nada de ser completamente ignorada por aquela mulher, sentou no braço do sofá, perto de Marina, e pegou sua mão, entrelaçando seus dedos, sorrindo de forma ameaçadora, demarcando seu território.
– Voltou de onde? — Clara perguntou.
– De Londres. Cidade maravilhosa! Conhece?
Clara acenou que não.
– Foi onde nos conhecemos. — Olhou para Marina. — Mas, infelizmente… acabei ficando por lá e ela voltou. Eu tinha uma proposta de trabalho e resolvi ficar, Marina voltou. — Explicou para Clara. Marina olhava para ela seriamente.
– Como você está? Como tem sido sua vida?
– Bem. Muito bem. — Olhou para Clara sorrindo. — Muito bem.
Vitória deu um sorrisinho falso.
– A minha também. Mas nunca deixei de me arrepender por ter ficado.
– Por quê? — Clara perguntou.
Vitória não respondeu, só olhou para Marina.
– Infelizmente, não posso ficar. Foi uma passagem rápida. Queria ter vindo com mais tempo, mas também não podia esperar mais pra te ver de novo. — Quis tocar a mão de Marina, que tirou antes que ela a alcançasse. — Mas eu volto. Nós podíamos almoçar juntas, qualquer dia desse, em breve. Eu te ligo. — Falou se levantando e pegando na mesa um cartão que tinha o número do estúdio.
– Claro. — Marina também se levantou, ainda segurando a mão de Clara.
– Tchau. — Vitória pôs a mão no cabelo de Marina e lhe deu um beijo demorado no rosto. — Tchau, Clara. — Acenou e saiu.
Marina olhou para Clara com uma carinha de quem sabia que estava encrencada.
– Quero saber dessa história tintin por tintin!
– Vitória? — Vanessa chegou a tempo de vê-la partindo. — Era só o que me faltava. Não bastava a Clara, agora a Vitória.
– Qual é a dessa mulher, Marina? Ela acha que eu não percebi? Ela me tratou como se eu nem estivesse ali, toda toda pra cima de você. Quem é ela? A ex mais importante. — Falou essa última frase em tom de gozação. — Já chegou encostando em você. — Clara gesticulava irritada. — Toda imponente, toda superior. Você viu o jeito como ela olhou para mim?
– Clara, Calma — Marina estendia as mãos, tentando acalmá-la.
– Calma? Ela..
– Se você ficar calma, eu explico tudo.
– Então explica. Sou toda ouvidos. — Cruzou os braços com uma expressão séria.
Marina suspirou. — Olha.. eu e a Vitória nos conhecemos em Londres, há um tempo atrás. Eu tinha ido para uma exposição e aproveitei para fazer alguns cursos a mais lá. Nos conhecemos na exposição. Durante o curso, eu viajei bastante pela Europa toda e … ela viajou comigo.
– Que bonitinho. -Falou irônica. — Fizeram um tour pela Europa juntas? Como namoradas?
– Si-sim. Não usávamos o termo, mas sim. Nós passamos um ano inteiro.. mais de um ano juntas, foi meu relacionamento mais longo.
Clara bufou.
– No fim do curso, eu quis voltar ao Brasil, mas ela não. Ela tinha conseguido uma proposta irrecusável. Eu.. pedi pra ela voltar.. pra ficar comigo, pra levar nosso relacionamento adiante, quem sabe até para um outro nível, mas ela ficou. Nós até mantivemos contato por um tempo, ela veio me visitar, mas depois.. sumiu.
– Um ano? Um ano em lua de mel. — Clara pensou na Europa e em Angra.
– Clara….
– E agora, ela chega aqui como se nada tivesse acontecido? Como se o tempo não tivesse passado, como se você já não estivesse com outra pessoa! Aposto que ela achou que ia chegar aqui e simplesmente continuar a história com você. Te reconquistar.
– Clara..
– E duvido que a minha presença tenha feito ela mudar de ideia, ela nem olhou para mim.
– Meu amor..
– E vão se encontrar para quê? Para ficar revendo fotos e memórias? Lembranças de vocês duas? Você concordou? Você quer botar a conversar em dia com ela, é isso?
– Claro que não, eu concordei, mas duvido que ela vá levar isso adiante. Só fui educada. Não sei o que ela quer, mas ela não deve fazer nada, agora sabe que estou com você.
– Ahh, mas deixa ela tentar..
– Clara. — Marina suspirou.
– Deixa ela, porque eu..
Clara! — Marina falou mais alto, chamando sua atenção. — Exatamente, deixa ela. — Chegou mais perto. — Porque eu sou sua. — Pôs as mãos em seu rosto.
– Eu vi como você ficou quando ela chegou, Marina. Você.. você ficou mexida, você...
– Surpresa. Eu fiquei surpresa, só isso. Já tinha tanto tempo que eu.. eu nem pensei que fosse vê-la novamente.
– Só isso?
– Claro, sua boba. — Beijou seu nariz. — Eu sou sua. — Abraçou-a forte.
Clara abraçou de volta, suspirando. — Bom.
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