Intimacy
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Clara chegou ao hospital e foi indicada a direção do leito de seu marido. Ao encontrá-lo, o viu com Dra. Silvia, que passava a mão em seu ombro dizendo que ele tinha que se cuidar, enquanto ele sorria timidamente. Clara achou a cena um tanto quanto íntima demais para uma relação médica-paciente, mas pensaria nisso depois.
– Eu falo isso, Dra. Silvia, todos os dias. Cadu, o que foi que aconteceu? — Falou aproximando-se.
– Que bom que chegou, Clara. — A médica a cumprimentou. Assim podemos conversar os três juntos.
– Eu teria chegado antes – Virou-se pro Cadu — se você tivesse deixado o povo me ligar, né Cadu?
– Ah, isso é bobagem, Clara.
– Bobagem, Cadu? Desde quando saúde é bobagem? Tá vendo, doutora? Ele é impossível. Mas o que aconteceu dessa vez?
– Nós realizamos outro ECG. Cadu teve um episódio de arritmia, que levou à síncope, o desmaio. O que na verdade é uma complicação esperada para o seu quadro da cardiopatia dilatada. A hipertrofia ventricular interfere no complexo elétrico do coração, que coordena os batimentos cardíacos. Somando a perda do ritmo com uma função cardíaca já diminuída, faltou fluxo de oxigênio para o cérebro levando ao desmaio. Eu vou adicionar um antiarrítmico nos seus medicamentos, Cadu. Mas você precisa levar isso mais sério. Sua condição é crônica, doenças crônicas podem ser controladas, mas você precisa se esforçar, precisa mudar de vida, ou complicações como essa não vão parar de surgir.
Clara ouviu tudo calada pegando as informações sobre os medicamentos. Sabia que isso era tudo culpa do Cadu. Ele não se cuidava, não se esforçava para mudar de hábitos, não prestava atenção nos horários dos remédios. Não é uma coisa fácil a se fazer, claro, mas ele tem que entender que não tem outra opção. Mal se conteve até chegar em casa.
– Cadu, vem cá. A gente precisa conversar.
– Ah, não, Clara. Um esporro por dia já é suficiente, já entendi o recado.
– Num é não, Cadu. — Falou exaltada, mas se contendo. — Não é não, porque você não entende, cara. Você ouviu a doutora, você não está estável porque não se cuida, quer detonar seu coração?
– Clara, é difícil para mim, pô! Vocês só ficam aí falando, não é a vida de vocês que tá mudando.
– Cadu, você não é nenhuma criança mais. Sua vida tem que mudar agora, cara. Aceita, se adapte. Não adianta ficar fazendo birrinha, porque isso não vai te levar à lugar nenhum. Ou melhor, vai né? Deus que me livre. – Fez sinal da cruz. — Cadu, pelo amor de Deus. Presta atenção nesses remédios. Tem que tomar o vasodilatador, o diurético, esse remédio novo de hoje, tem que maneirar no líquido, tem que se cuidar. Você já devia saber disso. Eu não sou sua mãe pra ficar te perguntando se tomou os remédios o tempo todo. E você não é mais criança. Abre o seu olho. Te cuida, porque você tem uma vida pela frente e tem um filho. Pensa no Ivan. Já está passando da hora de você ser mais responsável, com tudo. Comece consigo mesmo.
Cadu ouvia tudo com uma expressão preocupada e irritada ao mesmo tempo.
– Pai? — Ivan acabara de chegar em casa com Helena. — Tá tudo bem?
– Tá sim, filhão. Vai ficar tudo bem. — Falou bagunçando seu cabelo.
Ivan abraçou o pai com força, fazendo com que Cadu se lembrasse das palavras de Clara, se emocionando. “Você tem um filho. Pensa no Ivan.”
Já era tarde. Depois de tomar seus remédios, Cadu caiu no sono. Clara olhou para ele na cama, suspirando.
– Amanhã, Cadu. Não passa de amanhã.
Olhou para cima e pensou em Marina.
– Boa noite, meu amor.
Marina se levantou já pensando em Clara. Está sempre pensando nela. Durante o café da manhã, sentiu seu celular vibrando no bolso e se apressou para ver, imaginando que fosse ela.
“Não poderei ir essa manhã. Desculpa mais uma vez por aquele dia. Mas eu vou mais tarde. Me espera!” Mandou um sms, que só a deixou preocupada. Passou a mão no cabelo pensando no que poderia ter acontecido e mais uma vez chateada que Clara não tivesse explicado.
– Que cara é essa? — Vanessa perguntou.
– Clara. Mandou uma mensagem dizendo que vai se atrasar, mas não deu nenhuma explicação, nem nada.
– Não fique assim não. — Falou passando a mão em suas costas. — Qualquer hora ela aparece por aí. Marina pegou sua mão sorrindo.
Clara mandou uma mensagem para Helena também, pedindo que levasse Ivan à escola. No café da manhã, Cadu veio com uma ideia.
– Pois é, Clara. Eu estive pensando e tive uma ideia. E acho que é a melhor coisa a se fazer. – Falou enquanto comia.
– Sobre o quê, Cadu?
– Acho que você tinha que sair do estúdio e vir me ajudar no bistrô.
– O quê? Por quê?
– Ah, cara, porque a gente tá indo de vento em popa, e você é minha mulher, o mais certo é você ficar no negócio de família. Tá tudo dando certo agora, e como eu vou precisar de ajuda por causa dessa doença, não tem nada a ver você continuar trabalhando pra Marina.
– Espera aí, Cadu? Como assim, “nada a ver”? É claro que tem tudo a ver. Eu adoro o estúdio, é a minha cara, é o meu trabalho e eu não vou sair de lá assim. A Marina me apoiou quando eu mais precisei. O Nando já não está te ajudando?
– Tá,mas, Clara..
– Cadu, isso não está aberto à discussão.
A campainha tocou. Era Helena.
– Até porque eu tenho uma coisa mais importante pra falar com você.
– Ivan, meu filho. Tia Helena vai levar você na escola hoje para eu falar com seu pai, tá bom? — Falou ajudando-o com seus materiais até a porta. Ivan saiu com aquela carinha triste sabendo que seus pais iam discutir mais uma vez.
Cadu fechou a cara. — Mais importante? Que você não pode falar na frente do nosso filho? E nesse momento, o que poderia ser mais importante?
– O que poderia ser mais importante? — Riu. — Claro. O que poderia ser mais importante do que o seu restaurante? A sua saúde, Cadu. A gente, cara.
– O que tem a gente? — Falou num tom sério, largando o café e encostando-se à cadeira cruzando os braços, sua mente já pensando em Marina.
Clara suspirou pesarosa. Quando se casou com Cadu, nunca havia imaginado que um dia teria essa conversa com ele.
– Não tem um jeito fácil de falar isso. – Falou lentamente e esfregando as mãos de nervosismo.- Então eu vou dizer na lata mesmo. — Falou triste.
– Cadu, eu.. eu quero me separar de você!
– Você, o quê?? — Falou surpreso, sentindo um peso imenso no coração. — Eu não tô acreditando, Clara. — Se levantou, falando alto. — Tudo isso..
– Fala baixo comigo, porque não é para o prédio todo ouvir.
– Ouvir quê? Que você tá largando sua família, seu marido doente, por uma sapata vagabunda?? — Falou exasperado.
– Em primeiro lugar, eu não estou largando a minha família. O Ivan é meu filho e eu nunca o abandonaria. Eu estou largando o meu marido, você, Cadu. Eu me separo de você, não da minha família. Segundo, eu não vou permitir que você fale assim da Marina. Não na minha frente.
– Claro, a adorada Marina. – Falou gesticulando ironicamente.
– E não é por ela. É por mim. Ela me faz feliz e eu quero me dar o direito de viver essa felicidade.
– Se dar o direito? — Riu. — Vai dizer que já não está me traindo desde que “essazinha” apareceu.
– Não, não estou. Eu te respeito, Cadu. Você ainda é meu marido e foi meu companheiro por 10 anos. Mas agora eu não quero mais, e eu preciso abrir o jogo com você. A gente se beijou, sim. Mais de uma vez.
Cadu olhou para ela boquiaberto e enojado.
– Mas nem eu ou ela deixamos que isso fosse adiante sem que eu falasse com você antes.
Cadu riu sarcasticamente.
– Cadu, eu também nunca vou te abandonar. Eu não quero mais ser sua mulher, mas antes disso, a gente era amigo, cara. Você tem sido meu amigo por mais de 10 anos. E nós podemos tentar continuar sendo amigos. Sua condição só não está estável porque você não se cuida! Você tem condições de passar por isso sem uma cirurgia, sem um tratamento mais agressivo. E eu vou estar do seu lado para o que você precisar, mas não vou ser mais sua mulher.
– Eu não vou deixar você fazer isso, Clara. Você não pode. Tava tudo bem até que a Marina…
– Não estava, não. Não estava nada bem. — Falou enfática. — Eu só não sabia que ainda podia tentar ser feliz de novo antes dela aparecer.
– Ser feliz? Sua família não te faz feliz, é isso?
– É claro que faz. Você me fez feliz por muito tempo, mas.. eu me apaixonei, Cadu. Acontece.
– Se apaixonou? Se apaixonou? É assim que você fala dessa safadeza??
– Safadeza, Carlos Eduardo? Então porque nós somos duas mulheres não pode ter amor, é safadeza? — Falou irritada, e então se acalmou.
– Não faz isso, Cadu.
– Não faz isso você, Clara. Você está arruinando nossa família, nosso casamento! – Falou batendo a mão na parede.
– Não, Cadu. Eu não estou arruinando nada. A gente tava, ficando juntos. Até o Ivan anda reclamando das nossas brigas. Essa é a melhor saída. E você nunca vai deixar de ser minha família, de ser o pai do Ivan.
– Não vou mesmo. Até porque não vou deixar meu filho ser criado por aquela lá.. nessa.. – gesticulou em direção à Clara. — nessa brincadeira de vocês.
Clara pegou sua mão.
– Não faz assim, Cadu. — Chorou. — Eu sei que você está bravo, eu não espero que você entenda agora. — Cadu também chorou. – Mas, por favor, me deixa viver essa chance. Não afasta meu filho de mim, você me conhece, sabe que eu não aguentaria.
– Ela não vai te fazer feliz.
– Ela já faz. — Falou baixinho, chorando.
Cadu olhou para ela incrédulo.
– Eu sei que não é o melhor momento. — Chorou mais. — Ai, meu Deus, Cadu. Você não merece estar passando por tanta coisa ruim ao mesmo tempo, separação, doença. Você não merece. Mas eu não podia continuar com você só porque você está doente. Não seria justo comigo, não seria justo com você. Eu não consigo mais viver uma mentira.
– Nosso casamento não é uma mentira.
– Claro que não. Nosso casamento foi lindo, mas... acabou.
– Vai jogar uma vida no lixo por uma aventura. É isso mesmo? É o quê, Clara? O conforto que ela pode te dar? Os mimos? Ou é a minha doença?
– É amor, Cadu! Amor! — Gritou. — Um tipo de amor que eu não sinto por você mais. Você me conhece, sabe que não tem nada a ver com o resto. Se acalmou.
– Como você mesmo disse, o bistrô está fazendo sucesso, e você tem condições, eu quero que você saia de casa. Não vou te expulsar, você pode usar um tempo para encontrar outro lugar, claro.
Cadu olhava para ela furioso.
– E, por favor, por tudo que a gente já viveu, eu te peço. Não fale nada com a minha família antes de mim, nada além do fato de você estar saindo de casa. E não fale com o Ivan sobre a separação sem mim. Eu gostaria que nós dois fizéssemos isso, como adultos, como os pais dele.
Clara o abraçou forte sentindo seu cheiro. Demorou um pouco, mas Cadu a abraçou de volta. — Eu nunca quis te machucar. Ainda te amo muito. Mas não para ser meu marido. Não mais. — Se afastou, acenando com a cabeça.
Cadu saiu de casa batendo a porta do apartamento. E Clara chorou.
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