Internato
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Alicia
A rotina aqui é bem tranquila.
Arth me arranjou um dormitório perto do que ele dividia com Ryako. E Mizuno e Bryan dividiam outro, um tanto afastado dos nossos. Arthur me garantiu que eu não iria querer dormir perto deles.
Meu ‘dormitório’ tinha três por três, e a porta era “fechada” com um tecido. Num canto uma cama com um colchão digno e no outro um espaço que servia de armário: tinha uma barra suspensa e algumas prateleiras. Como todo o resto, era cinza e úmido. Mas a iluminação era mais forte que as dos túneis, mas ainda assim não impedia a sensação permanente de escuridão.
Acordávamos com um sinal, e algum tempo depois o café da manhã era servido. Horas depois outro sinal nos dizia que era hora do almoço. E mais algumas horas depois, o jantar. E tínhamos algum tempo antes que o toque de recolher soasse. Bem, não era exatamente um toque de recolher, mas indicava que a iluminação nas áreas comuns seria reduzida. Então a maioria ia dormir nesse horário.
Os chuveiros podiam ser ligados desde o momento do primeiro sinal até o ultimo, exceto cerca de quinze minutos antes e depois do toque que sinalizava o almoço e o jantar.
O resto do dia era livre. Voce fazia o que quisesse. Menos sair desse lugar.
Eu dormia numa constante vigilância, e acordava a qualquer sinal de movimento. E um dos meus canivetes preferidos, um retrátil, ficava embaixo do meu travesseiro. E minha mão também.
Na primeira noite senti alguém entrando em meu quarto. Abri os olhos ligeiramente e vi a cortina que cobria a porta se mexendo contra a luz fraca que vinha do corredor. A sombra se aproximou da minha cama, e num movimento rápido o segurei pela gola da blusa com uma mão enquanto a outra pressionava o canivete em seu pescoço.
— Calma Alicia – ouvi a voz de Arth, quase em desespero
Empurrei-o para longe
— O que diabos voce está fazendo aqui? – vociferei entre os dentes
Ele pegou uma lanterna sei lá de onde e iluminou todo o quarto antes de se virar para mim.
— Desculpa, só queria checar se voce estava bem. As primeiras noites costumam ser mais difíceis.
Passei a mão no cabelo enquanto me recostava na parede e cruzava as pernas.
— Só não faz mais isso.
— Pode deixar. Ahn... conseguiu dormir bem?
— Voce tá brincando comigo, né?
— Ah – ele pareceu um pouco envergonhado – eu sei que é uma pergunta estupida... mas os colchões aqui são até bons. E voce tem um quarto só pra voce, então não precisa se preocupar com um japonês mafioso e completamente pirado que pode ter um surto e te atacar no meio da noite.
— Mas em compensação eu tenho um americohispânico entrando no meu quarto no meio da noite.
— Desculpe por isso.
— Deixa pra lá.
Encostei a cabeça na parede e fechei os olhos por alguns momentos.
Percebi que não conseguiria dormir.
— Que hora são?
— Na verdade não tem como saber.
O encarei.
— Não temos relógios. Bem, não relógios de verdade. Eu construí alguns e eles não são muito precisos. E também estou construindo um relógio de água no salão norte, mas fica difícil torna-lo ao menos certo, já que não temos nenhum ponto de referencia.
— E os sinais?
— Um vai tocar daqui a pouco, o primeiro do dia.
— Como voce sabe que vai tocar daqui a pouco?
— Um dos meus relógios é quase certo. E quando eu saí do meu quarto faltava quase meia hora pro alarme.
— Ok.
— Olha, nós marcamos o tempo aqui igual lá fora. Exceto os dias. Mas eu vou te explicar isso direito depois. Ahn. Presumimos que o primeiro sinal toca as seis, o que nos dá mais seis horas até o almoço e mais seis até o jantar. E então mais três para o toque de recolher.
Ele se sentou ao meu lado na cama.
— Certo. Voces conseguiram medir isso de algum modo? Sabe,ter certeza de que esses intervalos são regulares?
— Sim. Basicamente relógios de água, de areia e de coisas similares. Estou tentando usar isso de base pro grande relógio, mas fica complicado. Sempre tem algum reparo, algum cano ou fiação com problema. E Eles parecem que não ligam. Só mandaram alguma ajuda quando uma das piscinas começou a transbordar. E eu tive que ficar um bom tempo perto do elevador para que notassem que tinha algo errado.
— Simplesmente jogaram todo mundo aqui e esperam que resolvamos tudo sozinhos?
— Exato. As vezes aparece algum suprimento, como pedaços de cano e fios de cobre, algumas ferramentas. Já consegui pilhas. Outras eu tive que fazer.
— Como o Ryako aguenta dividir o quarto com voce? Deve ser entulhado de coisa.
— Na verdade não. Eu me apossei de um depósito, deve ter uns trinta metros quadrados. Virou minha oficina. Quem precisa de alguma coisa acaba deixando um bilhete lá. Assim que resolvo os problemas nos tuneis e dormitórios eu me enfio lá e só saio pra comer.
— Sem nenhum trabalho no quarto?
— Só o meu primeiro relógio, que eu sempre mexo nele. E alguns projetos dos grandes relógios. E as vezes ele me ajuda. Ele quase não fala, mas quando o faz, bem, digamos que é melhor escutar o que ele diz.
Sorri.
— Quem te ajuda com o relógio?
— Na construção tem um garoto que quer ajudar, mas ele acaba atrapalhando, já que dificilmente entende meus desenhos e anotações.
— E no projeto?
— Ninguém.
— Sério?
— Claro. O pessoal aqui não se interessa em saber como as coisas funcionam. Só querem que funcionem. Então sobrou pra mim pensar e na maioria das vezes construir.
Encarei o pedaço do chão que era iluminado pelo faço fraco da lanterna.
— Ah, sobre os dias... São dez dias por semana, mas voce vai aprender os nomes com o tempo. Cada mês tem quatro semanas, então o ano tem nove meses. E os meses ímpares tem um dia a mais. E para conseguir fazer a conversão pro calendário gregoriano a cada quatro anos o ultimo dia do ano é repetido.
— Quem inventou isso?
— Provavelmente o primeiro Interno. Ou Eles.
— E todo mundo usa isso?
— Acaba sendo pratico. Quarenta dias, sempre.
— E os dias extras?
— São como feriados. Temos o Mabat, que é o como o Domingo. Aí o dia 41 é chamado de Mabek. É como se fosse o segundo Mabat.
— Mabat e Mabek. Ok.
— Voce chegou no Kiito. É o primeiro dia. Antes os novatos eram jogados aqui em qualquer dia, mas aí era complicado para eles assimilarem tudo até o Mabat. Aí começaram a colocarem eles aqui no Kiito. Agora voce tem a semana toda para entender como isso aqui funciona.
— O que tem de tão especial no Mabat?
— Digamos que temos um festa. Jogos. E mais algumas coisas. Não é legal que isso seja a primeira coisa que voce conheça.
— Vou fazer de conta que entendi.
— Pode ter certeza que voce vai ter alguma ideia do que realmente seja até que chegue.
— Então tá – dei de ombros – E os outros dias?
— Kiito, Luw’e, Foyl, Phen, Djeng, Co’rhu, Shahk, Wi’duen, Zute, Mabat.
Fechei os olhos tentando memorizar.
— Sério, como voce consegue lembrar?
— Bem, se lá fora é 2013, eu estou aqui há quase vinte anos.
O sinal tocou. Primeiro baixo e constante, se elevando até que fosse impossível ignorar. Ao mesmo tempo as luzes do corredor aumentaram de intensidade
— Bom dia – murmurou ele com um sorriso cansado.
Empurrei o ombro dele.
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