Internato
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Alicia
Arth se ofereceu pra me guiar durante a semana. Só que eu teria que segui-lo pelas galerias e tuneis, enquanto ele me explicava as coisas conforme se lembrasse.
Bem, melhor do que ficar enfiada no meu quarto e esperando a Agnes aparecer.
Depois do café saímos do refeitório por uma das portas próximas à cozinha. Arth parecia conhecer cada curva desse lugar. Foi andando sem hesitação, virando esquinas e passando por portas sem ao menos pensar. Eu apenas o segui. Por um momento não entendi como aquilo era possível, afinal, cada parede e curva parecia ser exatamente a mesma anterior.
Mas então eu entendi. Era como se locomover na cidade. Primeiro voce tenta decorar alguns pontos de referencia, mas então seu cérebro cria um mapa e voce pode até errar uma curva ou outra. Mas chega no seu destino sem maiores complicações.
— Voce entende algo de elétrica ou hidráulica?
— Ahn – hesitei – Eu conseguia me virar em casa.
— Vai ter que servir.
Então ele fez uma curva fechada e chegamos a um imenso painel de controle, tal qual o que encontrei quando cheguei aqui. Porém maior.
— Como voce entende isso?
— A maioria dessas ligações erradas foram feitas por estas mãos aqui – e levantou as suas no ar -, então eu lembro o que fiz.
— E o que voce tem que fazer agora?
— Basicamente ter certeza que isso não vai pegar fogo, se todas as saídas ainda estão funcionando e descobrir o motivo que fez com que metade das luzes do salão 3 não funcionem direito.
— Quais fios vão pro 3?
Ele olhou para o painel por um momento. Então estendeu a mão e pegou um cordão que amarrava cerca de uma dúzia de fios juntos.
— Esses aqui.
— Tem certeza?
— Espero que sim – murmurou e se pôs a mexer nos cabos e conexões, testando se estavam firmes, e outras coisas. Continuou murmurando por um tempo. Mas ou era muito baixo para que eu realmente ouvisse, ou eram termos que eu não tinha a mínima ideia do que significava.
Minha noção de tempo estava realmente comprometida. Mas depois de um punhado dele, Arth se afastou do painel, e o olhou como se fosse um trabalho de arte.
— Muito melhor assim. Voce não acha?
— Voce é quem entende do assunto.
— Vamos Alicia – disse guardando suas coisas no cinto — No próximo voce não vai ficar só olhando.
O segui por outra infinidade de tuneis. Até que entramos num salão circular que devia ter uns vinte metros de diâmetro e um pé-direito de pelo menos dez metros. Do teto pendiam luminárias industriais, dezenas delas, e em sua maioria desligadas.
— Este é o salão 3. Também conhecido como salão circular. Ou qualquer coisa parecida – deu de ombros — Espera aqui.
E saiu correndo para a direita, subiu em algumas caixas próximas à parede e encontrou um quadro de luz que não tinha uma porta há muitos anos. Desligou os disjuntores que ainda estavam ligados, e antes que meus olhos tivessem alguns segundos para se acostumar à escuridão, ligou toda a caixa com três estalos.
— Agora sim! – ele gritou de onde estava. Desceu correndo e quase caiu da ultima caixa. Chegou ao meu lado com um sorriso enorme no rosto – E então?
— Impressionante. Alguns fios trocados de lugar e voce foi capaz de ligar todas as luzes de novo.
Ele deu de ombros.
— O que acontece quando as lâmpadas queimam?
— Eu coloco numa caixa perto do elevador e checo todo dia para ver se eles nos deram uma nova no lugar.
— Não seria mais fácil, sei lá, deixar só metade ligada? Então quando essas queimassem voce ligava as outras.
— Já pensei nisso. Mas esse pessoal... eles não veem o sol há anos, as vezes décadas. Eles preferem iluminação forte, é como se os lembrasse de como é a vida lá fora.
— Voce sente falta?
— Não muito. Adoraria poder fechar as persianas da minha janela de novo, e ficar mexendo no computador no escuro quase completo com um copo gigante de café. M as ao invés disso, estou aqui e não vejo um computador desde que fui preso.
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