Insólito (Hiatos)
3 II. Quando a morte espreita
Notas iniciais
Capítulo dois – Quando a morte espreita
Dimitri era mais destemido do que eu imaginara.
Depois de alguns quilômetros ao longo da trilha estreita até a vila, onde tivemos de apanhar dois cavalos tremendamente assustados – Czar não fora o único a sofrer as consequências de um ataque de lobos famintos –, ele ainda se mantinha em pé com firmeza. Mesmo quando entramos no vilarejo e conseguimos mais alguns pares de mãos solidárias, que nos ajudaram a chegar em casa mais rapidamente, ele jamais esboçou uma reclamação sequer, mas eu sabia mais. Seus ferimentos eram graves e ainda sangravam – o que me preocupava ao extremo – e ele estava muito pálido. Ainda assim, admirei-me por sua valentia em não demonstrar a dor que sentia.
– Então, camarada. – eu passei a utilizar o apelido assim que ouvi um dos homens do vilarejo chamando-o de tal forma. Em segredo, as pessoas costumavam se referir umas as outras dessa maneira na Rússia. – Quando vai admitir que está a ponto de cair exausto a qualquer momento?
Ele me olhou pelo canto dos olhos, seus lábios franzidos em uma careta. Ele não gostava de ser chamado daquela forma.
– Com sorte, nunca. – ele respondeu.
– Ah, como os homens são teimosos! – eu grunhi exasperada. – Estou vendo, claramente, que você está mal, por que insiste em dizer o contrário?
– Creio que a pancada que levou na cabeça alterou suas ideias, senhorita. Estou perfeitamente bem e capaz de... – foi quando ele, finalmente, cedeu às preces de seu corpo e tombou pesadamente no chão.
Eu entrei em desespero, sem saber o que fazer. Era muito mais fácil provocá-lo, dizendo que ele desmaiaria a qualquer momento, do que ver aquilo acontecendo de fato. Eu, impulsivamente, tentei agarrar sua cabeça entre minhas mãos para que ela não batesse contra a terra lamacenta, mas o peso de seu corpo e a posição na qual estávamos não me ajudaram muito e ela acabou se chocando, fortemente, contra o chão. O impacto causou um baque seco e ele permaneceu parado, seu corpo inerte em meus braços. Eu senti-me paralisar em choque, minha mente em branco enquanto eu processava seu estado, completamente sem reações.
O que eu faria agora?
– Dimitri? Dimitri? – eu dava tapinhas contínuos em seu rosto, tentando despertá-lo, mas sem obter sucesso. – Dimitri, por favor, acorde. Eu preciso que você fique consciente e fale comigo. Você não pode desmaiar, lembra-se? Tínhamos combinado. Eu não posso carregá-lo até em casa, você é muito pesado!
Minhas súplicas desesperadas chamaram a atenção de algumas pessoas que passavam, e uma delas veio correndo em minha direção, agachando-se ao meu lado sem se importar com a terra lamacenta.
– O que há de errado? – perguntou-me Mason Ashford, um velho amigo meu. Suspirei ao encarar seu rosto conhecido.
– Mason, ah, graças a Deus. Ajude-me a carregá-lo até minha casa, por favor. Ele é pesado demais e eu não tenho força o suficiente para fazê-lo sozinha.
– Tudo bem, mas o que aconteceu com ele? – foi quando Mason percebeu o corte em minha testa. – Ei, você está ferida. O que houve com vocês dois? – eu o encarei, erguendo as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa: eu realmente preciso explicar isso? Ele suspirou. – Tudo bem, depois você me conta. Vamos, eu te ajudo a levantar ele.
Com muito esforço, conseguimos erguê-lo e apoiá-lo em nossos ombros. Mason recebeu a maior parte de seu peso, que não era pouco, pois eu estava exausta e também fraca devido ao corte na testa e meu tornozelo ferido. Arrastamos, lentamente, o corpo de Dimitri até a porta de minha casa, tomando cuidado com a perna debilitada. Quando conseguimos atingir a varanda da frente e eu estava prestes a bater à porta, minha mãe irrompeu por ela furiosamente.
– Rose? Onde é que você se meteu até agora? Você sabe o quão preocupados eu e seu pai estávamos...? – suas palavras foram cessadas assim que ela verificou nossa situação. E assim que seu olhar pousou sobre o homem inerte, pendurado debilmente entre Mason e eu, ela arregalou os olhos em um breve espanto, que foi logo substituído pela mesma frieza imparcial que eu estava tão acostumada a enxergar quando ela lidava em casos de extrema urgência. – Levem-no para dentro, rápido, há um espaço plano na cozinha. – ela disse simplesmente.
Mason e eu lutamos para carregar Dimitri até o local indicado por minha mãe, que jogou, literalmente, todas as coisas que estavam em cima da mesa em uma única braçada. Cuidadosamente, posicionamos Dimitri em plano reto, seu machucado virado para cima. Minha mãe logo rasgou o tecido da calça ensopada de sangue que ele usava e a jogou no lixo, o mesmo aconteceu com a sua camisa. Eu não era uma moça completamente inocente, já vira muitos homens seminus – até mesmo completamente nus –, mas ver Dimitri naquele estado me causou certo incômodo no estômago, e um arrepio cruzou minha espinha quando admirei todos os detalhes de seu peito. Ele era mais forte do que aparentava pelas roupas, mas não era desproporcional, pelo contrário, sua altura o deixava parecer mais magro, mas olhando-o assim eu soube que aquilo era pura ilusão.
Desviando o foco de minha atenção para outro lado, percebi que a testa de minha mãe estava vincada profundamente, em evidente preocupação. Ela, provavelmente, tentava desvendar que tipo de ferimento era aquele e quais as melhores maneiras para tratá-lo.
– Ele foi atacado por lobos. – tratei de explicar, antes que a nudez de Dimitri pudesse me distrair. – Nós dois fomos atacados, na verdade. – assim que ouviu minha sentença, minha mãe ergueu a cabeça e avistou o machucado em minha testa, mas soltou um leve suspiro ao constatar que não era nada grave.
– Certo. Rose, eu vou precisar que você pegue alguns itens para tratar este ferimento. O livro da família é essencial, acho que eu o guardei em meu quarto; as gazes de linho também serão necessárias, pegue todas as que estão na dispensa, assim como linhas e uma agulha. – ela colocou o dedo indicador nos lábios, refletindo brevemente sobre algo. – E veja se ainda temos telábias na horta, mas seja rápida, por favor. – imediatamente, fui atrás dos itens pedidos por minha mãe, mas não sem antes ouvi-la gritar para Mason. – Você, chame Homero o mais depressa possível. Se não encontrá-lo, traga qualquer ajuda masculina necessária. Ele gritará de dor e precisaremos segurá-lo com muita força.
– Tudo bem. – Mason disse e saiu correndo porta afora.
Eu sempre ficava impressionada com as atitudes de minha mãe. Janine Hathaway nem sempre fora a mulher altiva e decidida que eu costumava ver, pelo contrário, ela teve um passado difícil e sofrido, sendo muito pobre e responsável por quatro irmãos mais novos quando adolescente. Porém, sempre fora uma jovem compenetrada e com talentos naturais para a cura. Minha mãe nunca pudera estudar ou aperfeiçoar seus conhecimentos devido à falta de riquezas, mas, principalmente, por ser uma mulher. Porém, o destino tratou de mudar esse fim. Uma grave doença a deixou inativa por dias, até que seu caminho se cruzasse com o de Lavila Olendzki – a curandeira mais respeitada de São Petersburgo. Se não fossem pelos cuidados dela, minha mãe teria deixado aos irmãos somente mais solidão e fome.
Desde então, Janine passou a aprender tudo o que podia sobre a vocação. Passou semanas pesquisando plantas medicinais nas florestas e doenças fatídicas em precários centros medicinais. No entanto, foi com Lavila que aprendera a realizar cirurgias simples, como fazer pontos ou extrair quaisquer materiais da pele, tais quais balas ou vidro. Seu talento natural a ajudava muito, também. Em várias ocasiões, minha mãe utilizou-se de puro improviso para curar doentes em casos terminais. Ela anotava todas as informações em um livro, que era atualizado constantemente, e servia como base em casos urgentes. Suas peripécias ficaram tão conhecidas que quase toda a população desesperada do vilarejo ou de lugares vizinhos recorria aos seus cuidados para tratar de seus doentes.
Meu tornozelo reclamou durante todo o percurso, mas o ignorei enquanto corria, rapidamente, em direção à dispensa e pegava todos os itens necessários para ajudar Dimitri. Eles eram extremamente fáceis de identificar e logo avistei as gazes brancas, dobradas, delicadamente, sobre uma cesta de vime, assim como o quite de costura e uma bacia funda. Em seguida, corri em direção ao quarto de meus pais e apanhei o livro da família. Apressando meus passos ao máximo, fui à horta na parte dos fundos da casa e comecei a procurar pelas plantas que minha mãe dissera, mas o problema era que eu não sabia, exatamente, quais eram.
Telábias tinham um formato muito parecido com flores silvestres de tom lilás, por isso, eu nunca conseguia dizer se eram de fato elas ou simplesmente mato. Minha mãe me explicou que a diferença estava na textura das pétalas, sendo que eram mais macias, então, abaixei-me sobre as flores e as toquei delicadamente. Passaram-se momentos desesperadamente longos até que eu conseguisse identificá-las e meu atraso poderia ser pior para Dimitri, cujo tempo era curto. Porém, rapidamente, colhi-as e as enfiei junto dos outros itens em minha cesta.
De volta à cozinha, coloquei o recipiente de vime, delicadamente, sobre o balcão e me virei em direção a minha mãe, à espera de instruções. Ela estava com o olhar fixo no ferimento de Dimitri, que ainda estava desacordado, mirando-o com o cenho franzido em curiosidade. Olhou para cima depois de poucos instantes.
– Rose, eu gostaria que você esquentasse um pouco de água na chaleira. – fiz o que ela pediu o mais depressa que consegui, mas meus dedos tremiam um pouco de nervosismo e demorei mais tempo do que o necessário para acender o fogo. Enquanto isso, ela continuava a divagar a respeito do ocorrido. – Saberia me dizer a quanto tempo ele está ferido? – ela perguntou, olhando para mim com seriedade.
– Eu não sei dizer ao certo. – respondi. – Eu fui atacada a menos de um par de horas atrás e, pelo seu estado, eu diria que a esta altura ele já deveria ter aniquilado os três animais que ele dissera enfrentar. Dimitri me contou que, apesar de seu esforço, um deles ainda conseguiu provocar o ferimento. Ele esteve sangrando desde então, sem parar. – minhas mãos nervosas não davam conta de encher a chaleira com água enquanto eu falava, derramando o líquido em um ato descuidado. Praguejei baixo.
– Rose! Cuidado com isso, por favor. – ralhou minha mãe.
– Desculpe. – sussurrei impaciente. Eu odiava ser repreendida.
Coloquei o recipiente sobre a madeira quente da lareira e esperei alguns minutos antes de despejar seu conteúdo na bacia que eu pegara na dispensa. Minha mãe estava lendo o livro da família, provavelmente, em busca de algo que a ajudasse a tratar ferimentos provocados por animais selvagens, por isso, agarrei, eu mesma, uma das gazes de cima do balcão e a mergulhei no líquido morno. Entreguei a minha mãe.
– Molhe todas elas, Rose. Eu preciso limpar o ferimento. – ela esfregou a gaze delicadamente sobre as feridas, mas mesmo o mais leve dos toques fez com que Dimitri despertasse e se contorcesse, grunhindo de dor. – Eu acho que ele está com febre. Coloque uma gaze em sua testa.
Fiz o que ela pediu, torcendo a gaze morna para expelir o excesso de água. Andei até Dimitri e coloquei o pano dobrado em sua testa, mas não sem antes perceber a quantidade de sujeira em seu rosto. Senti meu corpo enrijecer repentinamente ao constatar aquilo. Em meio ao pavor da situação na floresta e o grave ferimento de Dimitri, para logo em seguida entrar em uma zona de torpor ao temer por sua vida, eu esquecera-me completamente do problema mais importante. Pouco antes de entrarmos, ele batera com a cabeça fortemente no chão, mas eu não saberia medir com precisão que risco esse incidente poderia causar a ele.
Encarei minha mãe com um olhar aflito.
– Mãe, eu me esqueci de contar algo muito importante. Agora que eu vi toda esta sujeira no rosto de Dimitri, acabei recordando que ele levou uma pancada forte na cabeça antes de entrarmos. Não sei como pude ser tão estúpida a ponto de esquecer, mas você acha que isso poderia... Hum... Piorar a sua situação?
– Não sei ao certo, Rose. Ao que me parece, Dimitri sofreu vários tipos de incidentes no mesmo dia, seu estado pode variar de acordo com qualquer um desses ferimentos. A febre alta certamente se deve por causa do corte na perna, pois está infeccionado, mas uma pancada forte na cabeça pode causar uma concussão grave, além de perda de memórias recentes. – ela me encarou com receio. – Ou ainda, em casos drásticos, falecimento.
– Não, ele não está aparentando nenhuma dessas hipóteses! – percebi que minha voz saiu esganiçada. – E se ele não possuir uma concussão, sobreviverá a isso? Eu o vi na floresta, mãe, ele é muito forte para suportar a dor. Talvez se nós tentássemos mais... Eu não sei, limpá-lo ou, quem sabe... – minha mãe suspirou. Suas feições estavam cansadas.
– Temo não ser capaz de salvá-lo, Rose. – eu engoli em seco, mas a saliva parecia trancada no meio da garganta. Senti-me entrar em choque.
Então, Dimitri morreria. Era isso? Depois de ter salvado a minha vida e me tê-lo feito arrastá-lo até minha casa, sob indiretas de que ele estivesse mais ferido do que demonstrava e tentativas inúteis de uma conversa, sua vida seria arrancada dele assim, tão facilmente? Sem nem ao menos uma luta justa?
Não sabia ao certo qual era o motivo de eu estar tão nervosa ou receosa em perdê-lo. Era evidente que eu me sentia extremamente grata por sua ajuda, afinal, a esta altura eu estaria morta, estraçalhada em uma floresta onde ninguém jamais seria capaz de me encontrar. Porém, eu peguei-me temerosa a respeito de que Dimitri talvez não conseguisse sobreviver e isso me deixava completamente insana. Eu jamais me sentira daquela forma, tão perdida e sozinha, tão impotente sobre uma vida que eu não suportaria deixar partir; e aquilo me intrigava. Ele era um completo estranho, afinal, um sujeito que eu acabara de conhecer em um bosque durante a noite. Eu não poderia estar tão abalada por ele, poderia?
Perecendo ler meus pensamentos, minha mãe afagou meu ombro gentilmente e sussurrou.
– Mas isso não quer dizer que vamos desistir de tentar, não é mesmo? – eu a encarei surpresa. Minha mãe parecia tão decidida em salvá-lo – mesmo que as chances fossem mínimas –, que eu fiquei impressionada apenas por sua atitude em tentar. Sorri largamente para ela.
– Claro. – eu respondi. – Não vamos desistir jamais.
Imediatamente, minha mãe e eu iniciamos nosso trabalho. Eu não era acostumada a tratar de ferimentos como minha mãe, aliás, eu tinha feito isso tão poucas vezes que já nem me lembrava, mas persisti em completar minha tarefa, focando-me duplamente no que estava fazendo. Lentamente, limpamos o corpo quente de Dimitri, até que estivesse livre de toda a sujeira. A febre estava muito alta, mas aos poucos baixou, conforme fazíamos torniquetes e trocávamos as compressas sobre sua testa. Janine me ensinou a fazer uma espécie de creme medicinal pastoso, utilizando as telábias que eu colhera como principal ingrediente. Sua função em ferimentos era apenas sugar a infecção provocada por toda a sujeira e transformar o rasgo branco de pus em vermelho vivo de sangue. Obviamente, eu quase vomitei ao ver o processo progredindo lentamente, e cogitei a hipótese de correr para longe dali – como fizera várias vezes antes –, porém, forcei-me a me manter equilibrada. Eu não seria fraca em frente a Dimitri, eu devia minha vida a ele, afinal, e seu estado exigia toda a ajuda que pudéssemos lhe dar.
Vez ou outra, eu olhava para o semblante sério de minha mãe e não conseguia conter um leve sorriso. Nossa relação não era exemplar. Sua personalidade forte batia de frente com a minha e discutíamos em diversas ocasiões, mas era em momentos como esse que eu percebia o quanto a amava e que faria tudo por ela. E ao notar seu olhar tão concentrado no trabalho, mal sentindo as próprias gotículas de suor descendo livremente por seu belo rosto, eu poderia admitir que tivesse muita sorte em tê-la ao meu lado. O orgulho fluía em mim de uma maneira descomunal e eu agradecia imensamente por ter uma mulher tão magnífica como mãe.
– Obrigada. – eu sussurrei em um impulso.
Ela ergueu o olhar do ferimento com o cenho franzido, sem entender.
– Pelo quê?
– Não sei ao certo. Por tudo, eu acho. – respondi, dando de ombros. Ela sorriu para mim, como se compreendesse o que eu verdadeiramente quis dizer.
– Não há de que. – respondeu.
****
Como em um ensaio, Mason irrompeu furiosamente pela porta, em companhia de meu pai e outros dois homens, alguns instantes depois de termos terminado de amarrar o último torniquete em Dimitri. Reconheci ambos como sendo Edison e Ralf, irmãos mais novos de minha mãe. Franzi o cenho fortemente em incompreensão quando os vi, estranhando suas presenças ali tão cedo.
Meus tios partiram em uma longa viajem até Moscou para vender nossas mercadorias na mais importante feira imperial. Somente nobres compravam lá, e pagavam uma boa quantia a quem oferecesse os melhores produtos. A família Hathaway tinha uma hospedaria bem frequentada na estrada principal de Omsk, onde clientes de todos os lugares pagavam-nos muito bem, mas descobrimos na área têxtil um ramo consideravelmente mais rentável. Sofisticados e com bom gosto, famílias reais inteiras procuravam por nossos tecidos, dispostos a pagar o que desejássemos por exclusividade. E mesmo que Edison não gostasse das futilidades e mesquinharias da corte, não poderia negar os ganhos que nos proporcionavam, tornando-se nosso principal representante entre eles, inclusive.
Só que a feira ainda não chegara ao fim e ambos deveriam estar em meio ao comércio, vendendo nossas mercadorias aos nobres. Não os questionei como gostaria, no entanto, talvez por causa da preocupação com Dimitri, mas esse detalhe dificilmente seria esquecido. Eu só esperava que eles houvessem adiantado a volta por conta de um faturamento estupendo, e não algum outro imprevisto.
– Homero. – minha mãe chamou, mal se importando com o regresso adiado de seus irmãos. – Eu preciso que você segure este homem com firmeza. Rapazes, ajudem-no, por favor. Seus ferimentos exigem pontos e ele dificilmente suportará a dor sem se mexer. – meu pai olhou de relance em direção à perna em carne viva de Dimitri, mas, assim como eu, desviou o olhar depois de poucos instantes, com uma expressão enjoada.
Dimitri gemeu de dor mais uma vez.
– Claro, querida. – respondeu meu pai, seguindo em direção ao corpo estendido em cima da mesa da cozinha. Os quatro homens cercaram Dimitri rapidamente.
Seguindo as instruções de Janine, Edison, que tinha mais força, empurrou o tronco de Dimitri fortemente em direção à mesa, enquanto Ralf e meu pai seguravam cada um de seus braços. Mason agarrou ambas as pernas. Por último, minha mãe posicionou-se de frente para o ferimento com a temida agulha de costura em mãos, pronta para iniciar sua cessão de tortura.
Ela se voltou para Dimitri.
– Me desculpe, meu jovem, mas isto irá doer muito. – ele não a respondeu, apenas balançou a cabeça fracamente em aprovação. Seu rosto estava isento de qualquer cor.
Eu mal pude olhar quando começou, pois aquilo era torturante demais para mim.
Eu via as veias saltadas no pescoço de Dimitri, claramente, a cada vez que ele fazia força para não gritar. Porém, conforme minha mãe enfiava a agulha lentamente em sua perna, passando-a para o outro lado para juntar os pedaços repartidos da carne, um rugido gutural subia por sua garganta e ele fechava os punhos com muita força. Dimitri tentava não mexer o corpo, mas era inevitável. E a cada vez que isso acontecia, Mason apertava ainda mais suas pernas contra a mesa encharcada de sangue. Suor escorria livremente por seu rosto, ensopando os cabelos castanhos e grudando-os em seu pescoço. Eu aproximei-me com um pano molhado a fim de enxugar ao menos um pouco do líquido espesso. E quando eu estava retirando seus fios longos do caminho, meus olhos avistaram algo inesperado.
A Marca da Promessa.
Ela estava pouco evidente em sua nuca úmida, mas, mesmo assim, eu a reconheceria em qualquer lugar, já que eu a vira mais vezes do que eu poderia contar. Assistira cada membro receber a sua própria designação conforme estivesse apto a guerrear. Eu mesma tinha o sonho de colocá-la em minha nuca um dia, quando completasse os treinamentos e estivesse pronta para prestar meus serviços na grande revolução. Só existia um padrão como aquele, em que uma pequena serpente formava uma espécie de curvatura ondulada logo abaixo da linha capilar. Dimitri possuía cabelos compridos, por isso, eu não notara, primeiramente, o desenho em seu pescoço. Ele fora precavido, eu percebi. Vários integrantes descuidados faziam questão de expor o símbolo proibido e corriam o grave risco de ser pegos, mas sempre havia aqueles, como Edison e Ralf, ou mesmo Dimitri, que se utilizavam de quaisquer meios para proteger os nossos.
Esqueci-me, por um instante, de que todos estavam concentrados nos ferimentos de Dimitri. Esqueci-me do que estava fazendo até aquele momento. Eu mantinha meu olhar fixo na tatuagem, apavorada demais com minha descoberta repentina para recordar qualquer coisa ou recompor minha expressão chocada. Por sorte, ninguém pareceu notar o meu colapso. Estavam todos focados demais em segurar os membros do homem ferido a minha frente para perceber, de qualquer maneira. Pelo menos durante aquele pouco tempo, eu estaria a salvo para processar a novidade.
Eu não saberia dizer quanto tempo mais ficamos ali, pois minha mente estava distante, mas aquela cena de terror pareceu durar até a eternidade antes de, finalmente, acabar. Nem ao menos percebi que segurava a respiração quando, repentinamente, soltei-a em uma lufada rápida e dolorosa. Os gritos de Dimitri pararam por um instante. No momento, ele apenas grunhia um pouco de dor, seu peito nu subindo e descendo rapidamente, os punhos ainda cerrados. Eu podia ver os nós brancos de seus dedos perfeitamente.
Minha mãe e eu ainda limpamos a ferida recém costurada enquanto meu pai e os demais arrumavam o restante da cozinha em estado caótico. Aproveitei sua distração para cobrir a marca na nuca de Dimitri – por algum motivo, não queria que descobrissem as origens dele antes do tempo certo. Ninguém falava absolutamente nada. Todos nós estávamos entorpecidos e cansados demais para pensar em dizer qualquer coisa, ao menos. Logo mais, meu salvador pareceu desmaiar outra vez, provavelmente, devido ao esgotamento e à dor insuportável pela qual passou. Depois de enfaixado, meus tios levaram-no até o antigo quarto de Meredith, a irmã caçula de minha mãe, acomodando-o delicadamente sob as cobertas.
– Ele precisa descansar e recuperar suas energias. – disse minha mãe quando voltamos para a cozinha. – Foi um milagre ter sobrevivido a tudo isso. Se fosse qualquer outro menos resistente, temo que não aguentaria a tudo sem se render à morte.
– Mas você acha que ele vai superar isso sem consequências? – eu perguntei nervosa.
– É cedo para dizer, Rose. – minha mãe respondeu. – Como eu lhe disse antes, saberemos apenas quando ele estiver consciente. – ela fez uma pausa e olhou em minha direção, finalmente me analisando em detalhes. – Por Deus, veja o seu estado! Eu vou providenciar o jantar, que deve estar frio depois de tudo. Tome um banho, filha, não se preocupe com mais nada, você já fez esforço o suficiente. Mais tarde, eu cuidarei devidamente de seus ferimentos. – eu dei uma risadinha, impressionada com o atraso com o qual ela lidou comigo, como se eu não estivesse machucada desde que chegara em casa.
– Tudo bem, eu vou. – disse por fim.
Sob muitos protestos de minha parte, meus tios encheram de água quente a banheira em meu quarto, dizendo que eu estava mancando demais e não seria conveniente eu carregar tanto peso. Eu estava indecisa sobre relatar minhas descobertas a eles ou não, cogitando antecipadamente o que poderiam pensar caso eu o fizesse. Mas, por fim, decidi que eu precisava tomar um bom banho antes de tratar destes assuntos, já que eles não me deixariam em paz caso eu revelasse o que sabia antes do tempo.
Comecei a me despir assim que fiquei sozinha, concentrada em atividades simples para não ter de pensar muito nos acontecimentos recentes. A verdade é que eu estava assustada demais para sequer cogitar o que a figura de Dimitri poderia representar em meio ao meu mundo. Deslizei meu corpo em direção à água quente, sentindo, subitamente, o quanto meu corpo clamava por descanso e um pouco de relaxamento. Alguns de meus membros arderam, mas eu os ignorei. Eu estava tentando manter a mente limpa, focada em esfregar a sujeira de minha pele; mais tarde, lavando meus cabelos longos. Só que, em um momento de distração, lembrei-me da visão da marca em Dimitri e o quão surpresa fiquei.
Infelizmente, não fora somente isso a me deixar em estado de pânico. Existia algo mais. Não era apenas a serpente em sua nuca, havia uma totalidade misteriosa em todo o seu ser. Eu ficara fascinada em sua presença desde o início, percebi. Tinha algo de estranho em seu olhar que eu não soube decifrar. Seu porte, suas feições, sua aparição repentina em um local tão improvável como aquele bosque, justamente no mesmo momento em que eu estivera lá. Talvez fosse por tais razões que eu estivesse tão curiosa ao seu respeito, pois, além de eu nunca tê-lo visto antes, sabia que ele não poderia residir nas redondezas de Omsk. Suas roupas impecáveis, mesmo em trapos, não condiziam com a situação precária da população daqui; algo que me intrigava ainda mais. Dimitri estaria incapacitado de falar por algumas horas, provavelmente, até poucos dias – além, é claro, da pequena chance de ele não recordar o ocorrido –, por isso, eu teria de me contentar em esperar.
Suspirei aborrecida. Eu não tinha tempo para esperar. Algo de grave estava acontecendo bem debaixo do meu nariz e eu não conseguia decifrar. Como Dimitri conseguira uma Marca da Promessa sem que eu soubesse? Eu costumava me informar de todos os membros superiores com Edison antes mesmo de eles serem selecionados. Alguém teria de me dar uma excelente explicação mais tarde. Porém, enquanto isso, eu buscava a calma. Ou tentava, ao menos. A imagem dos olhos castanho-escuros de Dimitri, tão resolutos e misteriosos, abria uma nova linha de inquietação em mim. Seu semblante severo, mesmo quando sorrira de minhas piadas na floresta, era indecifrável. Eu sabia decifrar pessoas como ninguém, e apesar dos momentos risonhos e leves entre nós, eu o sentira frio e distante. Eu considerava que poderia se tratar de algo simples, como o fato de ele não me conhecer, mas que tipo de homem salva a vida de uma moça na floresta e ainda assim tende a se manter imparcial?
Ou eu estava completamente insana, ou havia algo de muito errado em Dimitri.
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