Insólito (Hiatos)

4 III. Tempestades a caminho


Notas iniciais
Oi, pessoal. Bom... Eu não sei nem por onde começar estas notas, já que várias coisas precisam ser ditas aqui hoje, mas vamos lá. Acho que a mais importante de todas (e a que quase me fez desistir de postar) foi os reviews de vocês. Gente, eu não sou uma autora chata, longe disso, eu odeio estipular metas e chantagear vocês, até porque eu tenho por experiência própria que isso apenas afasta os leitores ao invés de aproximá-los. Eu disse, repeti e frisei que se você viesse a ser um fantasminha odiado por mim não acompanhasse minha história. Cara, tudo bem que algumas pessoas (como eu) acompanham para de fato comentar mais tarde ou sei lá, mas eu sei que vocês não vão fazer isso. Eu sugeri que vocês me dessem 7 reviews. SETE. Mas nem isso conseguiram? Sacanagem. Eu tenho 22 leitores, ok? Tive 7 reviews no capítulo anterior a esse e achei que ganharia até mais do que isso. Só que, para minha surpresa, não aconteceu. Sério, não tem o que me deixa mais decepcionada e triste do que isso. Poxa gente, se vocês tivessem batido a meta eu já teria postado a sequência há muito tempo, sabiam? Pois é, caso vocês não saibam, quando os reviews são compatíveis eu costumo presenteá-los com a sequência logo em seguida, mas vejo que o interesse por Insólito não é tão grande assim, o que me fez demorar um bocado por estar buscando paciência e inspiração. Ah, aviso também que só estou postando a sequência por conta dos leitores fantásticos que comentam sempre. Bom, mas fora isso... Esse capítulo não tem muitas coisas imperdíveis, digamos assim, mas se vocês prestarem bastante atenção nele, verão que tem 3 coisas essenciais que os ajudarão a descobrir parte dos mistérios que eu estou bolando. Apesar disso, como diz a minha amiga Fê (Olivia Hathaway), o resto é só enrolação, hahahaha. Falando nisso, sua chata, só porque tu menosprezou meu trabalho eu vou te dedicar esse capítulo! muahahahahaha, eu sei que sou má demais! *-* Enfim, eu ia dizer mais coisas, mas estou com preguiça de escrever agora, kkkkkk. Nos vemos nas notas finais! Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=n1scluzlPz0&hd=1 Boa leitura!

Capítulo três – Tempestades a caminho

– Temos de agradecer a Deus por Sua ajuda esta noite. – dizia minha mãe, enquanto estávamos todos reunidos ao redor da mesa de jantar. – Afinal, fomos capazes de salvar uma vida hoje.

Segurei um suspiro de tédio. Eu mal me continha em meu lugar, pois estava ansiosa demais para devorar a comida posta por minha mãe logo após que saí do banho e ela terminou de fazer meus curativos e enfaixar meu tornozelo. Porém, ela insistira, teimosamente, para que rezássemos em agradecimento à bondade do “Senhor” e em nome de Dimitri. Eu não discutiria algo como religião justamente naquele momento, por isso, dei uma de minhas mãos ao meu pai e outra a Mason, formando um semicírculo de braços e fechando os olhos em concentração.

– Senhor, – ela continuou. – estamos todos diante de Vós para agradecer pelo teto acima de nossas cabeças, a comida diante a nossa fronte e, o mais importante, as vidas poupadas com tanta misericórdia por Vós. Somos gratos a Vossa bondade e magnificência, porém, pedimos perdão por nossos pecados. Somos todos honrados pela Vossa presença. Amém.

Todos nós repetimos em coro um “amém” e, literalmente, caímos como mortos de fome em cima da comida posta. Mas aquilo era compreensível, já que eram raros os momentos em que tínhamos carne assada em tamanha abundância. Geralmente, vivíamos dos itens colhidos de nossa própria horta clandestina nos fundos de casa. Grãos, frutas e leite escasso faziam parte do cardápio diário e repugnavam meu estômago sempre que eu sentia seu cheiro, porém, eu sabia que não podia reclamar, pois muitas pessoas viviam com consideravelmente menos do que nós, ou nada, em diversas ocasiões. Os camponeses das plantações trabalhavam tanto para ganhar tão pouco, que por várias vezes eu me sentia ingrata ao repudiar o alimento.

No entanto, eu agradecia minha sorte por ser parte de uma família ao menos com boas condições. A hospedaria de meu pai proporcionava-nos grandes lucros e, provavelmente, algum de seus hóspedes pagara sua estada com o animal que degustávamos àquela noite. Isso era bastante frequente por lá, e eu até demonstraria solidariedade pela pobre ovelha se ela não tivesse um gosto tão estupendo.

Durante alguns momentos, a única coisa que se ouvia era o som dos talheres batendo sobre os pratos e os grunhidos de aprovação. Ninguém conversava quando tínhamos uma refeição tão completa, pelo contrário, aproveitávamos cada pedaço para saciar a fome e fortalecer nossos corpos. Entretanto, havia apenas uma coisa que me deixava um pouco triste em noites como esta: por mais que ingeríssemos bastante, é claro que algo sobraria; o que fora o caso da ceia de hoje. Uma ovelha grande era aproveitada de diversas maneiras: a carne e a gordura serviam como alimento, já a lã, para roupas ou cobertores; até mesmo os ossos eram usados na fabricação de pentes ou presilhas de cabelo. Minha família odiava desperdiçar algo tão essencial à sobrevivência das pessoas, por isso, usávamos esses restos para que muitos de nossos vizinhos desnutridos escapassem da morte.

Pensando nisso, eu me levantei e recolhi meu prato da mesa – depois da segunda repetição, é claro; afinal, eu era uma moça boa de garfo, como dizia minha mãe –, colocando minhas poucas sobras em uma tigela funda. Enquanto eu realizava essa atividade simples, minha mente divagou até Dimitri, e eu cogitei ir até seu quarto para checá-lo e me certificar de que sua febre não voltara, mas as vozes que me chamavam da mesa me distraíram da ideia, que foi imediatamente esquecida.

– Rose? – minha mãe falou. Seu tom de voz um pouco especulativo. Larguei o que estava fazendo e voltei para a mesa, sentando-me em meu lugar e a olhando com curiosidade.

– O que foi, mãe? – perguntei.

– Bem, agora que estamos todos mais tranquilos com a situação, que se normalizou, e tudo está aparentemente sob controle, você poderia nos contar o que houve com você e Dimitri mais cedo? Confesso que eu fiquei um pouco curiosa a respeito.

– Ah, bem... Hum... – hesitei ao responder, em dúvida sobre o que eu deveria dizer a eles.

Depois que eu vira a Marca da Promessa em Dimitri, minha mente passou a enfrentar um empasse. Por um lado, não havia nada demais em revelar a história a minha família, sendo que eu mesma não saberia das origens de meu salvador se não tivesse visto com meus próprios olhos a tatuagem em sua nuca. Ele não me relatara nada, de qualquer maneira, seria como contar uma simples história assustadora. Porém, havia outra parte de mim que ordenava para eu manter seu segredo guardado até encontrar a hora apropriada, sem levantar suspeitas precipitadas.

Eu estava prestes a começar a história quando Mason me interrompeu.

– Rose, eu queria lhe perguntar algo sobre a história, antes que você comece a nos contar. – ele disse. – Você me contou que viu Dimitri depois do seu encontro com Jesse, não é verdade? – congelei em meu lugar, olhando duramente para meu futuro ex. amigo estrangulado. Meu alívio, decorrente de sua intromissão apropriada, fora esquecido por completo.

Tarde demais, Mason pareceu perceber a besteira que havia falado, pois ele arregalou seus olhos brevemente antes de seu semblante se tornar culpado. Ele sorriu para mim como se pedisse desculpas, mas eu o encarei com raiva, revirando meus olhos de forma exagerada. Mason sabia muito bem que não deveria contar nada sobre Jesse aos meus pais, ao menos não por enquanto.

Meu pai franziu o cenho, pensativo.

– Jesse? – ele perguntou. – Como em Jesse Zeklos? – acompanhei a mudança de sua expressão facial, que passou de duvidosa para surpresa num piscar de olhos. Bem, não era para menos, já que eu não pedira sua permissão para ver meu atual noivo durante a tarde. – Você esteve com ele hoje, Rose? E sem me contar nada sobre isso? – ele olhou para minha mãe. – Janine, você sabia de algo? – minha mãe apenas balançou os ombros, também confusa. Os olhares inquisitórios de ambos se voltaram para mim. – Pelo que me lembro, você disse que daria um passeio com Czar.

– Eu também não sabia que iria encontrar Jesse no meio do caminho, pai. – menti. – Eu estava andando em Czar quando vi o cavalo dele pastando. Jesse estava abastecendo seu cantil com água no rio e nós acabamos ficando por lá. Mas nada demais aconteceu. – apressei-me em explicar quando vi as sobrancelhas erguidas de Janine. Se ela soubesse a maneira como eu e Jesse nos beijamos na campina, jamais me deixaria vê-lo outra vez.

Meu pai riu.

– Tudo bem, filha, eu confio em você e sei que não está nos escondendo nada. Fique tranquila. – ele franziu as sobrancelhas. – Mas Jesse não quis passar pela estalagem ou ficar para o jantar? Ele ainda está me devendo uma resposta a respeito de alguns cavalos que eu desejo comprar de seu pai.

Mais uma vez na noite, eu congelei. Meu pai gostava muito de Jesse, e ficava extremamente triste quando ele recusava algum de seus convites para permanecer na hospedaria ou pernoitar em nossa casa. Nem mesmo eu entendia seus motivos, muitas vezes.

– Bem... Não. – respondi. – Ele está bastante ocupado recentemente, como o senhor bem sabe. O pai dele lhe dá muitas tarefas na fazenda e isso toma muito do seu tempo livre. Além disso, Jesse arranjou alguns afazeres bastante interessantes na corte e presta seus serviços ao Imperador. E de acordo com o que disse, ele passa mais tempo lá do que na própria casa. – lancei um olhar cúmplice a Edison ao dizer isso, tentando lhe passar a mensagem de que notícias reveladoras estavam a caminho. Ele assentiu minimamente, concordando. – Mas fique tranquilo, pai, Jesse não se demorou muito nesta visita. Nós mal tivemos tempo de conversar.

– Mas você nem chegou a convidá-lo? – ele insistiu.

– Eu o convidei para jantar conosco, mas ele recusou.

– Ah, é uma pena. – minha mãe exclamou. – É sempre bom termos sua presença tão alegre e divertida aqui em casa.

A risada de Edison ecoou pela cozinha. Todos o encaramos com espanto.

– Eu disse algo engraçado, Edison? – perguntou minha mãe. – Não me lembro de ter contado nenhuma piada.

– Ora, não seja boba, Janine, você não nos contou nenhuma piada. Fui eu que apenas achei algo um pouco divertido no que você disse.

Oh, ou. Percebi pelo tom de voz de Edison que algo bom não viria daquela discussão.

– E o que seria? – Janine já o olhava com irritação.

– Creio que você já saiba, mas, mesmo assim, posso dizer: é ótimo termos Jesse aqui, não é, irmã? Estupendo, realmente! Principalmente quando ele resolve contar alguma de suas piadas tão engraçadas ou sua vida agitada na corte, não é mesmo? – seu sorriso se desfez. – Fale sério, Jesse pode ser tudo, menos alguém alegre ou divertido. – ele imita o tom de voz alegre de minha mãe. – Vamos, Janine, pare de dizer besteiras pelo menos uma vez na sua vida, e admita que seja um alívio não termos a presença desse maldito arrogante em nossa casa.

– Edison, veja como fala! – minha mãe diz com raiva. – Se você não gosta dele, trate de guardar seus ressentimentos apenas com você, pois ninguém é obrigado a concordar com suas ideias maldosas sobre as pessoas. Além do mais, ele é um moço gentil sim, não há nada de errado em querer manter um relacionamento sério com Rose. Só peço que não estrague tudo com este seu sarcasmo comedido, porque eu não suporto quando você faz isso.

– Oh, claro, me desculpe se eu a ofendi, querida irmã. Se você quer assim, então tudo bem, eu posso fingir que esse desgraçado só tem boas intenções com Rose e esquecer que ele mantem contatos com Zmey. É tão simples, não é mesmo? – ele estreita seus olhos e bate na mesa. – Eu faço isso o tempo todo, se quer saber, Janine, mas adianta alguma coisa?

Ambos se encaram por longos segundos antes de eu interrompê-los.

– Se é por isso, não precisa se preocupar, mãe. – intercalo olhares entre ela e Edison. – Ele me prometeu que voltaria em breve. E disse mais: Jesse faz questão de trazer uma proposta maravilhosa consigo.

– Que proposta? – meu pai perguntou, ignorando a discussão dos dois irmãos.

Os olhares de todos – inclusive de Edison e minha mãe – se viraram para mim naquele momento, aparentemente, fazendo-me a mesma pergunta. “É. Parece que eu consegui a atenção deles, afinal”. Sorrio internamente com o pensamento.

– Bem, eu sei que pode parecer um pouco precipitado. E também, espero que você aprove, pai, mas ele me disse que prefere conversar formalmente com o senhor mais tarde, assim que arranjasse algum tempo para vir até aqui e pedir a minha mão como se deve. Só que Jesse decidiu me contar antes para saber se eu concordava com sua ideia ou não.

Minha mãe me encarou com surpresa, seu sorriso se alargando a cada segundo.

– Ele tem a intenção de pedir sua mão em casamento? – ela bradou, chacoalhando os ombros de meu pai com empolgação. – Homero, veja isso: Rose irá se casar!

– Sim, querida, eu ouvi. – meu pai murmurou. Sua careta de infelicidade contrastando com o contentamento de minha mãe. – Só não gostei de saber que ele não teve nem a decência de pedir sua mão a mim antes de relatar a Rose.

– Eu também fiquei um pouco surpresa com isso, pai. – eu disse rapidamente, tentando tranquilizá-lo. – Mas, segundo ele, minha aprovação seria crucial para que ele confirmasse a notícia e viesse até aqui fazer o pedido formal ao senhor.

– Tudo bem, querida, se Jesse preferiu assim, não há nada que possamos fazer. – minha mãe disse, fazendo com que meu pai bufasse contrariado e recebesse um olhar de repreensão. – Ora, não seja bobo, Homero. Rose já é crescida e sabe muito bem o que está fazendo. E tem mais: como eu estava dizendo, se o Sr. Zeklos decidiu revelar a ela primeiro, o que isso pode mudar nas nossas vidas? Eles não irão se casar de qualquer forma?

– Bem, vendo por esse lado, sim. – disse meu pai à contra gosto. – Mas diga a ele que eu ficarei muito sentido se ele não aparecer da próxima vez, Rose.

– Não se preocupe, pai. – afaguei seu ombro com um sorriso apaziguador. – Eu direi a ele.

Depois disso, um silêncio um pouco constrangedor se instalou no ambiente. As palavras de Edison matutavam em minha cabeça sem parar, não me deixando pensar direito. Eu estava tão feliz com as novidades, não era justo que ele se intrometesse nisso e a tirasse de mim tão facilmente. Porém, pensando por esse lado, eu e Jesse nem nos conheceríamos se não fosse pelo meu tio, pois, segundo ele, o Sr. Zeklos seria a isca perfeita para nos trazer informações cruciais da corte. Eu não gostava de pensar em meu relacionamento dessa forma, mas tinha de admitir que, em seu início, ela nada mais era do que apenas um plano. E foram por tais motivos – mais precisamente, que eu aprofundaria minha relação com meu noivo – que Edison ficara tão estupefato, afinal, para ele, Jesse não era um homem confiável.

É claro que eu discordava disso veemente. Jesse se provou uma pessoa extremamente diferente daquilo que eu estava acostumada a lidar ou, ao menos, o que eu costumava ouvir. Edison e Ralf sempre me alertaram sobre a mesquinharia da corte, mas como Jesse não nascera em berço de ouro, e sim, teve seu pai conclamado Barão há pouco mais de dez anos, eu concluí que esse padrão poderia ser diferente com ele. As suas atitudes apenas confirmaram minhas suspeitas, ao final de tudo, sendo que meu noivo era alguém extremamente educado, inteligente e capaz de me ajudar em minha causa mesmo correndo riscos de ter sua família assassinada.

– Mas então... – a voz de Mason quebrou o silêncio. – Rose, você acabou não nos contando como acabou ficando encurralada com Dimitri numa floresta.

– Oh, é mesmo! – disse minha mãe. – O que aconteceu, Rose? Você nos disse que enfrentou um lobo, não é isso?

Eu apenas concordei. Ainda estava indecisa sobre o que mais dizer.

– Um lobo?! – bradou Mason chocado.

– Sim. – eu respondi, soltando uma risadinha ao ver seus olhos arregalados. – Mas eu garanto que isso não chocou tanto vocês quanto a mim. Eu levei um susto tremendo quando Czar começou a relinchar e empinar na campina, achando que poderiam ser saqueadores ou algo parecido, mas a minha surpresa foi ainda maior quando eu vi que eram lobos.

– Meu Deus. – Ralf exclamou. Era a primeira vez que eu ouvia sua voz naquela noite. – E como você conseguiu se livrar da alcateia?

– Era uma alcateia? – minha mãe inquiriu. – Eu pensei que fosse apenas um lobo.

– Eu também pensei a princípio, mas havia mais de um uivo. Acho que eu tive sorte por estar cavalgando em Czar, mas isso não os impediu de me perseguir. – fiz uma pausa, considerando a situação. – Eles deveriam estar com muita fome para correr atrás de uma presa tão rápida, principalmente, nesta época do ano.

– Eu nunca ouvi falar de nada como isso. – Mason disse.

– Sim, nem eu. E pode apostar que é uma surpresa tremenda saber disso bem quando se está sendo atacada.

– Ataques assim são raros nas redondezas de Omsk, mas não quer dizer que não aconteçam. – disse Ralf. – Você deveria ter tomado mais cuidado, Rose.

– Mas como eu poderia saber? – argumentei. – Eu nem sabia que isso era possível. Achava que os lobos viviam mais ao norte, nas florestas de coníferas, e bem longe da civilização.

– Pelo visto, eles encontraram presas mais fáceis. E não havia como Rose saber de nada disso, Ralf. – minha mãe o ralhou. – Se você quisesse protegê-la, poderia tê-la alertado antes.

– É, tem razão, Janine. – ele se virou para mim e piscou, sabendo que não adiantaria de nada discutir com minha teimosa mãe. – Desculpe, Rose.

Eu sorri para ele.

– Não por isso. – respondi.

– Por Deus, nós precisamos avisar as pessoas do vilarejo! – ela continuou. – Um ataque como esse é muito perigoso, várias crianças atravessam o bosque até o centro, seria arriscado para elas.

– Nós podemos passar em algumas casas e espalhar a notícia. – sugeriu Ralf.

– Sim, façam isso. Eu ficaria bem mais tranquila se...

– Houve um caso uma vez. – meu pai interrompeu a conversa, coçando as sobrancelhas de modo pensativo. – Não foi há muito tempo. Talvez dois ou três anos atrás, se bem me recordo. Uma família real muito importante na corte foi atacada enquanto fazia um passeio. Apenas uma menina sobreviveu.

Os olhos de Edison se iluminaram em reconhecimento.

– Ah, sim. Eu me lembro disso também. – disse ele. – Foi com a família Dragomir. – captei certo tom de repulsa em sua voz quando ele citou o sobrenome da família real. – Vasilisa foi a única que sobreviveu, ela tinha apenas 14 anos na época e acabou ficando sob custódia de seu tio, Victor Dashkov.

Franzi as sobrancelhas.

– Eu não soube de nada disso. – rosnei indignada.

– Não queríamos assustá-la, Rose. – Ralf apressou-se em dizer. – Acreditamos que um incidente tão brutal seria um pouco demais para você.

– Além do mais, não era tão importante para você saber. – Edison acrescentou, com um sorriso de escárnio dançando em seus lábios. Não gostei muito daquilo. – A família Dragomir costumava liderar uma facção de extremistas que era a favor do governo totalitário e repressão severa. Não é à toa que foram atacados. Eu não duvido que algum grupo rebelde os tenha encurralado de alguma forma. – ele passou a mão pelos cabelos claros. – Bem, não que importe agora, afinal, eles já devem estar aonde merecem: ardendo no inferno com o diabo.

– Edison! – minha mãe ralhou.

– O que é agora, Janine? – Edison ergueu as sobrancelhas e os ombros desdenhosamente. – Você acha que eu iria rezar por suas almas e pedir a Deus que os poupasse de um destino ao lado de Satã? Eu não seria tão hipócrita, nem se quisesse. Se você é uma santa que consegue perdoar até mesmo o pior dos bandidos, não me culpe por ser um realista.

– Creio que este não é um assunto para a hora do jantar, Edison. – meu pai o cortou, antes que os irmãos iniciassem mais uma discussão. Edison se calou. – Bem, se Rose soube ou não do caso, ou se a família Dragomir morreu ou não, isso é passado. Já aconteceu e está fixo em nossas memórias, e nada mais. E se não se importa, eu gostaria de saber o que aconteceu a minha filha, primeiro. Creio que é mais importante, não acha?

– Tem razão, Homero. – disse Ralf, lançando a Edison um olhar severo. – Conte-nos, Rose, como você acabou encontrando esses lobos?

– Eu estive na campina com Jesse, como disse mais cedo, e enquanto cavalgava para casa me deparei com a alcateia. Eu consegui fugir para a floresta antes que eles me pegassem, mas um deles me encurralou lá e me mataria se não fosse por Dimitri. Ele o nocauteou antes que aquele animal fizesse qualquer estrago em mim, mas ele já estava com uma ferida profundo na perna. Dimitri me disse que enfrentou três deles sozinho antes de conseguir matá-los e me encontrar.

– E ele lhe contou o que estava fazendo na floresta? – meu pai perguntou.

– Não. – respondi. – Nós nem tivemos muito tempo para conversar. Eu tive que carregá-lo até a vila e ainda trazer nossos cavalos pela sela. É um pouco complicado conversar com alguém que esteja sangrando até a morte.

– Ora, não seja exagerada, Rose. – Janine exclamou. – Nós conseguimos salvá-lo, não conseguimos?

– Sim, mas até então eu não tinha a menor ideia de que ele iria sobreviver. Quando Dimitri desmaiou lá fora eu quase entrei em pânico. Se não fosse por Mason, acho que estaríamos seriamente ferrados.

– Olhe o palavreado, Rose! – minha mãe exclamou. Ela odiava quando eu dizia palavrões.

– Desculpe. – sussurrei.

– Bem, parece que temos um viajante misterioso rondando o vilarejo, é preciso tomar cuidado com ele a partir de agora, afinal, não sabemos nada a seu respeito. – meu pai me encarou com preocupação. – Ele não disse nem ao menos seu sobrenome?

– Não. – balancei a cabeça para os lados nervosamente. – Nadinha.

– Estranho. – disse Ralf. – Ele não me parecia qualquer viajante de beira de estrada. Pude perceber em seu corte de cabelo e na barba bem aparada.

Fiquei quieta durante todo o período em que eles especulavam a respeito das origens de Dimitri. Eu tinha de admitir que também estivesse extremamente curiosa a seu respeito, mas em um nível muito maior do que o de meus familiares, afinal, eu fora a única que viu a Marca da Promessa tatuada nele, além de ter conversado civilizadamente antes de ele desmaiar. Dimitri me parecia alguém misterioso e cheio de segredos, porém, não sorrateiro o suficiente para apresentar sinais de um caráter duvidoso. Se ele tinha a marca, significava que pensava da mesma maneira que nós e seguia os mesmos propósitos da nossa revolução. Porém, a sensação incômoda em meu estômago me dizia que havia algo de errado nessa história.

Eu só não sabia o que ainda.

– Bem, eu não sei quanto a vocês, mas eu estou muito cansada. – minha mãe falou de repente, apoiando as mãos na mesa para se levantar. – Se não se importam, eu vou me retirar.

– Claro que não, mãe. – eu disse. – Não precisa se preocupar, eu e os rapazes cuidaremos da arrumação da cozinha.

– Obrigada. – ela disse com um sorriso.

– O quê? – Mason exclamou. – Eu ainda vou ter que arrumar a casa?

Chutei sua perna por debaixo da mesa, lançando um olhar repreendedor a ele. Mason urrara de dor, mas parou de reclamar.

– Minha mãe está exausta pelo esforço de tratar a perna de Dimitri, Ashford. Você ficou com a parte fácil, quero ver ser capaz de costurar um ferimento inteiro sem desmaiar, seu molenga. – todos riram quando Mason me mostrou a língua. Balancei a cabeça para sua atitude infantil. – Além disso, você comeu aqui de graça, nada mais justo do que ajudar na limpeza.

– Claro. – disse meu pai com um sorriso divertido no rosto. – Só não façam muita bagunça.

– Pode deixar, pai. – respondi com um aceno.

– Tudo bem, então vamos para a cama. – meu pai passou o braço em torno dos ombros de minha mãe. – Boa noite.

– Boa noite, crianças. – Janine disse.

– Boa noite. – respondemos em coro.

Assim que meus pais deixaram a cozinha, três pares de olhos curiosos me olharam em expectativa.

– Então, o que aconteceu, Rose? – questionou Edison. Mason e Ralf o encararam, chocados, mas não disseram nada. – Você disse mais cedo que Jesse lhe trouxe algumas informações relevantes da corte.

– Sim, mas não é só isso. Espere um pouco, eu tenho medo que meus pais nos ouçam. É melhor arrumarmos tudo antes de conversar.

– Como quiser. – ele responde.

Em pouco tempo, a mesa estava arrumada, a louça guardada nos armários e o chão, livre de qualquer sujeira. Eu achava que a curiosidade acabou influenciando na velocidade deles, pois jamais vira Mason enxugar pratos tão rapidamente – na verdade, nunca vira Mason enxugando pratos. Depois de prontos, fomos, silenciosamente, até a parte dos fundos da casa, onde havia uma pequena sala para encontros da nossa organização. Ela era muito útil quando não queríamos que intrometidos escutassem nossas conversas.

Assim que atravessamos a porta, Ralf a trancou. Eu não perdi mais tempo.

– Tudo bem, eu vou ser bem direta: tenho duas notícias. Eu acho até que vocês já sabem sobre uma delas; menos você, Mason. Já a outra... Bem, tenho certeza de que ficarão chocados tanto quanto eu.

– Nos diga logo, Rose. – disse Edison.

– Jesse me disse que o Imperador está arquitetando um tipo de reajuste hierárquico. Ele está refazendo todos os títulos de nobreza, mudando todo o sistema de governo para que ele fique da maneira que ele quer. Parece até que alguns nobres perderam seus títulos por causa de desavenças com Zmey. Haverá um baile comemorativo quando tudo estiver em ordem.

– Aquele cretino de uma figa! – urrou Edison. Seu rosto fervilhava em fúria. – Então quer dizer que ele vai remodelar a nobreza e deixar pessoas apenas de sua confiança?

– Ao que parece, sim. – respondi. – Tenho medo de que ele tire nossos informantes de lá.

– Não sei. – Ralf disse. – Natasha é muito esperta, ela não faria alarde de nossos planos tão facilmente. Além disso, Ibrahim não tem motivos para questionar a família Ozera.

– Você já pensou na hipótese de que Zmey pode tê-la... Torturado? – Mason sugeriu com pesar. – Eu não sei, deve haver um motivo por trás dessas mudanças, afinal, Ibrahim não a faria por nada. Ele deve ter conseguido alguma informação, não sei como, mas conseguiu. – ele arregalou os olhos de repente. – E se ele acusar Natasha de traição? Ela pode ser executada!

– Nós precisamos entrar em contato com ela imediatamente. – disse Ralf com preocupação. Franzi o cenho para ele.

– Mas vocês não acabaram de voltar de Moscou? – eu perguntei.

– Sim, mas não conseguimos falar com ela. – ele respondeu. – É difícil para Natasha escapar dos portões da corte sem ser percebida. Todos que saem são vistos na feira imperial ou possuem compromissos mais importantes, que são relatados ao Imperador. Na verdade, chegar perto de três quilômetros da fortaleza já é uma tarefa quase impossível.

– Como assim? – perguntou Mason.

– Há guardas imperiais em todos os cantos. – Edison disse, suspirando audivelmente em frustração. – Parece até que eles já sabem o que procurar. Está ficando cada vez mais difícil circular nas ruas sem ser abordado.

– Mas eles sabem sobre a marca? – inquiri. Podia sentir um arrepio congelante descer por minha espinha.

– Não. Ainda não. – mais uma vez, Edison passou a mão pelos cabelos louros, em um gesto nervoso, bagunçando-os. – Mas eles estão muito perto disso, tenho certeza. Daqui a pouco, teremos que encontrar outra maneira de marcar os nossos membros. – ele fez uma breve pausa. – Mas qual é a outra notícia, Rose? Por favor, não me diga que é pior do que esta.

– Não. – respondi de modo imediato, mas, depois, lembrei-me de como a marca de Dimitri me confundira na cozinha de minha casa. – Quero dizer, eu não sei. Eu vi algo muito estranho em Dimitri hoje mais cedo. Ele tem a Marca da Promessa.

– O quê?! – Mason berrou.

– Fale baixo, Mason! – ralhei. – Eu nunca vi ninguém de fora da região com a nossa marca antes, onde vocês acham que ele a conseguiu?

– Não temos como saber ao certo. – sussurrou Ralf. – A revolução está ganhando seguidores novos a cada dia. Embora sejamos muito cuidadosos nesse aspecto, averiguando detalhadamente as origens e intenções de cada um, acabamos liberando pessoas de fora pelas redondezas de Moscou.

– O que, agora, eu penso ser um erro. – disse Edison. – Foi por isso que voltamos de Moscou mais cedo, me parecia que os guardiões de lá já fizeram um trabalho muito bom com os aprendizes. Nós achamos que não precisaríamos continuar lá por tanto tempo como antes, pois, além de isso ser bem melhor para nossas vendas, ainda conseguiríamos mais tempo para organizar os levantes aqui.

– Pode até ser, Edison, mas eu pensei que vocês mantivessem um controle sobre os aprendizes selecionados, ao menos! – desta vez, quem berrou fui eu. – Ele tem uma Marca da Promessa, pelo amor de Deus! E não só ele, pelo visto. Mais pessoas estão entrando sem a nossa avaliação direta; mal sabemos o que eles realmente pretendem com isso. Ibrahim não organizou essa jogada em vão, e não restam dúvidas de que temos um espião dele infiltrado em Buria. – passei as mãos por meu rosto, tentando encontrar a calma, mas isso se revelava cada vez mais difícil. – Como vocês me explicam isso? Edison, como você deixou que algo assim acontecesse?

– É, parece que precisaremos nos reunir o mais depressa possível. – disse Mason, olhando para Edison e Ralf com raiva. – Se vocês fizeram qualquer besteira, nós estaremos ferrados.

– Não seja pessimista, Mason. – rebateu Ralf. – Nós veremos isso amanhã, assim que Dimitri acordar. – ele pausou sua fala por alguns instantes, refletindo sobre algo. Suas sobrancelhas franziram quando ele me olhou. – Rose, você não sabe mesmo de onde esse homem apareceu? Ou o que fazia no bosque à uma hora daquelas? Nem mesmo qualquer outra informação sobre ele?

– Não. – respondi de mau humor. – Não tenho nenhuma outra informação sobre ele.

E aquilo me frustrava profundamente.

Não fora por falta de insistência de minha parte, isso era uma certeza. Conforme caminhávamos em direção ao vilarejo, eu o questionei sobre diversos aspectos relevantes de sua vida, como os motivos de sua vinda ao vilarejo; se ele estava ali para realizar algum trabalho ou, de passagem. Eu até mesmo perguntei se ele tinha algum familiar por ali, porém, em nenhuma vez ele me respondeu, pelo contrário, Dimitri se esquivava do assunto como sabão escorrega por meus dedos. E aquilo me intrigou de uma forma inimaginável.

– Bem, como Homero disse mais cedo, parece que temos um homem suspeito rondando o vilarejo e precisamos averiguá-lo de perto. – disse Ralf. – Mas há um detalhe importante sobre ele que não sabíamos antes: Dimitri, de alguma forma, tem a nossa marca aparente na nuca e, querendo ou não, ele possui algum motivo por trás disso.

– É. – sussurrei. – E eu pretendo descobrir qual é.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado! Agora, a parte mais legal e que eu estava ansiosa pra dizer: eu criei um grupo no Facebook, onde meus leitores fiéis terão a chance de descobrir mais sobre mim e minhas histórias, desde as que estão aqui até as que estou bolando. Lá, vocês terão muito spoiler, novidades, confraternização, etc. Estou adorando isso, gente! É tão legal conversar com meus leitores de uma outra forma que não pelo Nyah que eu estou bastante ansiosa para que vocês participem também. Aqui o link: https://www.facebook.com/groups/242187785977722/ Agora a parte em que eu viro o bicho, muahahaha: tenho 22 leitores e para que a sequência saia cedo o bastante, vocês precisarão me dar 13 reviews. Não é muito, na verdade, não é nada. Eu sei que vocês conseguem, se não, sinto muito, mas a sequência vai demorar como da outra vez. Não é chantagem, é só falta de entusiasmo mesmo. Até porque, eu sei tudo o que vai acontecer na história, quem não sabe são vocês. Ah, quase ia me esquecendo! Muitos de vocês acertaram quase que em cheio o que vai acontecer. Continuem assim, viram? Eu amo deixá-los curiosos! hehehe. Beijinhos, people, Roberta Matzenbacher.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.