Instituição JGMB - Interativa
12 Ao Seu Serviço
Notas iniciais
–Estou grato por terem se apressado em vir me buscar. – Jorgensen cumprimentou rapidamente Rainha Margareth e Diretor Laudrup, tão afobado que não percebeu o clima entre os dois. – Agora venham, não temos tempo a perder!
O recém-chegado não esperou nem mesmo um oi e acelerou na direção do escritório de Laudrup. Os outros dois apenas o acompanharam por trás a passos rápidos e se entre olhando uma vez ou outra.
Somente ao chegarem à sala o ministro parou um pouco e se virou para os dois, que estavam fechando a porta que ele deixou aberta. Nem os esperou se aproximarem mais. Sem cerimônias ligou o computador e antes mesmo deles sentarem e perguntarem qual era a urgência ele já foi logo falando:
–Perdoem-me por interrompê-los de suas atividades, — Ao ouvirem isso Laudrup e Margareth coraram um pouco. Jorgensen não se deu o trabalho de notar, pois estava ocupado demais passando pelas pastas do computador. – mas eu encontrei algo sério nas câmeras de segurança do quarto de Moore.
–Câmeras de segurança no quarto de Moore? – A rainha interrompeu. – Mas se me lembro bem das plantas, os quartos não tem câmeras de segurança. Instalaram sem meu consentimento?
–A senhorita estava tão ocupada cuidando dos problemas da Dinamarca que decidimos não incomodá-la com algo tão simples. – Laudrup respondeu-a rapidamente no começo e depois hesitante no final, quando ela voltou seu olhar a ele.
Margareth fechou um pouco o cara com essa revelação. A tratando como criancinha novamente. Ela podia muito bem cuidar de várias coisas ao mesmo tempo. Principalmente com algo tão fácil quanto um apetrecho a mais para vigiar o rapaz.
–Os dois têm sorte de que eu autorizaria isso se me perguntassem, mas tinham que contar a ideia para mim desde o momento que decidiram instalá-las.
–Devo pedir que releve o problema por agora, Majestade, – Jorgensen pediu. – e observe o que as micro câmeras escondidas captaram.
Ele virou o microcomputador para que a imagem pelo holograma não ficasse invertida para eles e abriu o arquivo que salvara.
O vídeo mostrava o quarto de David em um ângulo em que se poderia supor que era no canto do teto. Estava tudo perfeitamente arrumado, o que se espera de uma pessoa organizada como ele. Somente na escrivaninha algumas canetas estavam espalhadas, mas nada de extraordinário.
Logo no começo ele entrou na sala despreocupado, como se realmente não houvesse notado a presença da câmera. Jorgensen acelerou o vídeo. David remexeu nos papéis, leu algumas páginas de um livro, tirou foto deles três de uma gaveta e praticou tiro ao alvo com elas, mas o ministro não fez menção de parar, então supunha-se que não era esse o problema que ele queria destacar, apesar de Margareth, que era a única que nunca havia visto ele fazer isso demonstrou certa perplexidade em seu olhar.
As câmeras registravam que eram mais ou menos 22 horas quando ele pegou um celular primitivo, com tecnologia muito ultrapassada, que parecia ter sido tirado de um lixão e começou a teclar. Jorgensen pausou a cena.
–Isso não é um celular? – Margareth questionou apertando os olhos e endireitando os óculos tentando enxergar melhor a tela. – Não sei muito sobre o assunto, mas sei que a rede telefônica comum não funciona tão separada de Nuuk, principalmente com uma velharia dessas.
–Exatamente, minha rainha. – O ministro concordou. – Foi precisamente por isso que distribuímos o comunicador para todos que entraram aqui. Mas então quem seria essa pessoa com quem ele conversa que não pode usar o comunicador e como esse celular arcaico consegue transmitir sinais?
As perguntas pareciam mais afirmações do que perguntas de fato, como se estivesse se vangloriando por pensar nelas. Klaus aproximou mais a imagem para centralizar no aparelho que David tinha em mãos.
–Isso aconteceu no começo da semana. Primeiro mandei discretamente que tentassem hackear as transmissões do telefone para descobrir de onde vêm as mensagens que ele recebe, por isso nenhum dos dois soube de nada. Não queria que ele recebesse mais olhares suspeitos e acabasse por descobrir tudo. A origem da maioria foi impossível decodificar, porém, ontem de manhã, recebeu uma mensagem que conseguimos captar.
Jorgensen dividiu a tela e inseriu a mensagem da qual estava se referindo. Estava escrita em inglês e de forma simples. Como falava a língua fluentemente, Laudrup conseguiu entender o que estava digitado, diferente da rainha, que tentava se aproximar da tela, como se assim as letras se desembaralhassem e formassem palavras em dinamarquês. Harold falou em voz alta a tradução.
–“Olá, querido. Esqueça a mensagem que mandei ontem à noite. Segundo o médico, o que sua mãe tem não é asma, somente uma bronquite passageira, então não se preocupe tanto, pois não é nada realmente sério. Te amo, até mais.”
–Há uma contradição nessa mensagem. – Afirmou Jorgensen. – Diz “Esqueça a mensagem que mandei ontem à noite.”. Contudo, nós já havíamos captado mensagens do mesmo endereço de outros dias e a remetente não enviou nenhuma mensagem para Moore anteontem. Logo cheguei a conclusão que a mensagem que ela enviou não foi captada porque tinha vindo da mesma localização em que as que não são capazes de serem decodificadas foram mandadas.
Laudrup abriu a boca e parecia prestes a protestar, porém não teve chance de interromper Jorgensen porque ele já havia se adiantado.
–Por favor, Laudrup, não interrompa minha linha de raciocínio. O fato aqui é a bronquite que pôs fim a uma guerra, assim espero. As coordenadas da mensagem eram as mesmas de algumas outras que ele recebeu antes, mas que não tive tanto interesse, como disse anteriormente. As usei para descobrir o endereço de quem enviava e quem era essa pessoa.
Jorgensen passou a imagem e na tela apareceu a foto de uma mulher que deveria ter apenas um pouco mais de 30 anos. Tinha longas madeixas escuras e onduladas que faziam certo contraste com seu tom de pele branco amarelado. Seu rosto era composto por um par de olhos grandes e verdes bem claros, nariz arrebitado, uma boca com lábio inferior maior do que o superior, bochechas retraídas e queixo angulado. Parecia ser uma foto da carteira de identidade.
–As coordenadas indicam um apartamento em Nova York que está registrado em nome de David e Scarlett Moore, a mulher da foto e esposa dele segundo sua ficha. – Apontou. – Como ambos sabem, a ficha de profissionais tem uma parte que diz respeito à família do especialista. Nessa parte diz que senhora Moore trabalha em uma grande empresa de TI, e realmente ela consta nos arquivos de funcionários e os gráficos mostram que ela tem tido um bom desempenho. – Ele mostra mais algumas grades e relatórios para comprovar o que diz. – Só que se olhar os registros de presença, ela não comparece ao trabalho há 7 anos.
“Se ela tivesse faltado por somente alguns meses não seria tão suspeito, pois está grávida e pode ter um dos raros patrões bem generosos. Todavia, ela não engravidou por 7 anos consecutivos para justificar tanta falta. E mesmo se tivesse, como ela não trabalhando nem na empresa, nem em casa, mantêm uma produtividade boa?”
Laudrup novamente tentou se manifestar quanto alguma coisa e outra vez foi repelido antes mesmo de formular uma única palavra.
–Laudrup, deixe-me terminar a explicação. Eu sei que tinha outras justificativas possíveis, mas sabes como sou receoso. Continuando: Após descobrir toda essa cadeia de fatos imaginei várias explicações para o antigo trabalho dela criar tabelas falsas de desempenho para pensarem que ela continuava trabalhando lá e como isso poderia se ajustar ao fato de ter mandado uma mensagem para o marido de um lugar tão secreto e seguro que se é impossível de rastrear. Segui o caminho de algumas suposições que não deram em nada até chegar em uma que pode ser que dê resultado.
O ministro deslizou mais uma vez o dedo na tela e apareceu uma série de códigos que não faziam o menor sentido, pelo menos aparentemente, pois Laudrup os reconheceu quase imediatamente.
–Um momento, esses não são aqueles...
–Precisamente. Ontem antes de ir te entreguei um arquivo com esses símbolos para que os decodificasse, já que é um professor de línguas inteligente o suficiente para conseguir a vaga de diretor e é de minha confiança. Conseguiu?
–Eu nunca havia os visto antes e o senhor deu poucas informações sobre eles, o que dificultou muito o meu trabalho. Mas como disse que era urgente tratei de resolver tudo logo. – Começou e pegou um dos papéis que estavam em cima da mesa. – Depois de pesquisar em todos os livros possíveis daqui e da biblioteca, consultar alguns arquivos no computador e alguns colegas e me sustentar várias horas com café, consegui descobrir o significado da maioria dos símbolos. Cada um é uma mescla de um caractere em sânscrito com outro em grego antigo. Quem o criou realmente não queria que encontrassem sentido nas frases.
–Então poderia traduzir o que está escrito aqui?
Laudrup desviava o olhar entre o computador e o papel, onde anotara o significado de cada letra que descobrira. Depois de algum tempo não conseguiu fazer nada além de encarar abismadamente a tela. Jorgensen deixou transparecer o enorme sorriso de satisfação ao constatar que sua teoria estava correta enquanto a rainha ainda estava sem entender o que era aquilo.
–Será que um dos dois poderia me explicar o que é isto? – O tom foi mais o de uma ordem do que o de uma pergunta.
–Isto é uma lista de todos os aprovados no exame para entrar no serviço secreto em 2884. – Respondeu Laudrup ainda com os olhos fixos na tela. A rainha também pareceu surpresa com o desenvolvimento dos fatos. – E aqui tem uma Scarlett. – Apontou para o sexto nome que aparecia. – Scarlett Williams.
–Williams é o sobrenome de solteira de senhora Moore. Em 2884 ela não era casada. E adivinhem só! – Apesar de pedir para adivinharem, Jorgensen não deu tempo para isso. – A data que a lista de aprovados saiu foi exatamente a mesma que Scarlett parou de frequentar o emprego. É oficial: Scarlett e David Moore estão no serviço secreto estadunidense.
–E temos todas as provas disso. – A rainha completou. – Brilhante! Finalmente estamos um passo a frente deles!
–E tudo isso graças ao Harold Laudrup que traduziu o código, a mim por ter pesquisado a fundo, aos hackers que contratei por captarem as mensagens, a Scarlett por ter mandado a mensagem em casa e, principalmente, ao médico da mãe de David Moore por ter dado um diagnóstico errado. – Jorgensen destacou. – Temos que lembrar de agradecê-lo mais tarde.
–Descobrir tudo isso é impressionante, mas eu não entendo. – Laudrup atraiu a atenção. – Como isso nos ajudaria mesmo?
–Ora, senhor Harold Laudrup, essa é óbvia. – Margareth começou. – Segundo um dos artigos do tratado internacional de Genebra de 2110, qualquer país que espionar outro país, instituição ou ONG de qualquer forma sem um motivo justificável e for descoberto terá que suspender a espionagem e ir a tribunal internacional. Nós não estamos pesquisando secretamente, encorajando o ódio pelo país, nem nenhum outro motivo que os deixe praticar espionagem por aqui. Muito pelo contrário, estamos seguindo os desejos da ONU, o que tornam eles os errados aqui.
–Mas não é uma boa ideia usar isso neste momento. – Jorgensen interviu. – Por agora é mais sensato usar isto para outros motivos.
–De acordo, senhor Jorgensen. – A rainha pegou o pen drive com as provas. – E como sou eu quem representa a Instituição no exterior, fico com as evidências. Também devo ser chamada no caso de qualquer requerimento de uso.
–Mas, majestade, — Laudrup questionou novamente. – segundo esse mesmo tratado, se me lembro bem, se o país for uma monarquia e a majestade quiser ficar com as evidências não precisa passar por uma votação na câmara, mas ainda precisa da aprovação de um primeiro-ministro por escrito e de pelo menos uma testemunha...
A rainha revirou os olhos para Harold e pegou de cima da mesa papel e caneta e entregou-as a Klaus Jorgensen. Curvou-se um pouco e com a mão no peito proclamou:
–Klaus Jorgensen, primeiro-ministro da Groelândia, o senhor poderia conceder a mim, rainha Margareth Não-Vou-Falar-Meu-Nome-Completo-Porque-Ele-É-Muito-Comprido VI da Dinamarca, a honra da posse das evidências de espionagem?
Jorgensen não pôde deixar de rir um pouco do senso de humor da rainha. Na mesma hora apoiou o papel na mesa e escreveu seu nome e que permitia que ela guardasse as evidências e então entregou-a novamente o papel e a caneta.
Margareth pegou os dois da mão de Jorgensen e se virou para Laudrup, que estava atônito com a reação da rainha, e de novo curvou-se um pouco e proclamou com o papel e caneta na mão.
–Harold Laudrup, diretor da instituição JGMB, o senhor poderia ser para mim, rainha Margareth Não-Vou-Falar-Meu-Nome-Completo-Porque-Ele-É-Muito-Comprido VI da Dinamarca, a testemunha da minha permissão de guarda das evidências? – E então cochichou para ele sobre um dos episódios que acontecera mais cedo. – Agora sim é sua vez de assinar.
Laudrup, meio apreensivo, apanhou o papel e a caneta da mão de Margareth, apoiou-os na mesa e escreveu que ele era a testemunha do cuidado das evidências. Guardou a caneta e entregou à rainha o papel. Ela dobrou-o e o depositou no bolso de seu vestido. Virou-se novamente para Harold e falou com um tom de sarcasmo na voz:
–Muito obrigada mesmo, senhor Laudrup. Se não fosse você eu seria presa. – Ela se apressou um pouco e abriu a porta. – Melhor irmos logo. Temos mais o que fazer agora.
Jorgensen foi o primeiro a atravessar a porta e se adiantou na frente deles, já passando pelo corredor. Quando Harold foi fazer o mesmo, Margareth segurou a mão dele, sorriu e sussurrou ao pé de seu ouvido, o que o fez estremecer um pouco.
–Agora estamos quites. Namorado.
Harold se virou para encará-la e arregalou os olhos. Não pôde deixar de se sentir um pouco surpreendido. Levou alguns segundos para articular uma resposta.
–Namorado?
–Mas é claro. – Margareth parecia estar se divertindo com o assombro dele. – Ou prefere que eu te chame de príncipe consorte? Só sei que os apelidos de “rainha” ou “princesa” não funcionam para mim.
Se o comentário anterior já havia surpreendido o diretor, agora o sobressalto foi tão grande que cairia para trás se não estivesse petrificado. Quem diria? Harold Laudrup, de Vestmanna, uma cidade pequena e congelada das Ilhas Faroe, um dos territórios do reino da Dinamarca. O mesmo que havia a vida mais comum do mundo, dando aula para crianças, conversando com alguns poucos amigos e se refugiando na biblioteca da cidade nas horas vagas porque lá era o único local em que se entregava jornal e podia ver o que acontecia fora daquele lugar tão monótono. Quem diria, que aquela mulher que por diversas vezes estampou a primeira capa e que ele admirava tanto profissionalmente, acabaria tendo uma conversa assim com ele algum dia.
Harold queria muito responder, mas as palavras simplesmente não saiam de sua boca. A rainha por fim, estimulada pelo choque do homem, continuou.
–Bem, eu acho melhor deixarmos para conversar o que acabou de acontecer outra hora. – Ela disse imitando o que ele lhe dissera mais cedo após a intromissão do beijo.
Soltou a mão dele e andou na sua frente, procurando acompanhar Klaus, que estava longe demais para ter ouvido.
Harold ainda ficou parado por alguns instantes com cara boba até raciocinar que eles estavam o esperando no final do corredor.
...
Chris decidiu que não contaria para ninguém sobre o episódio com o pai de Henry, pelo menos até tirarem a história a limpo entre eles mesmos. Estavam apenas esperando que as meninas fossem para o refeitório jantarem para que tivessem o dormitório livre só para eles.
Cada um estava em seu canto fazendo suas coisas, proporcionando uma harmonia silenciosa ao quarto. E continuou assim até Jean irromper a atmosfera de calmaria com o celular na mão e uma expressão de aborrecimento no rosto.
–Mas que tédio! – Reclamou. – Como eles esperam que façamos alguma coisa de útil se aqui não tem nem sinal de internet!? Meu PhizVolume deve estar atolado de notificação.
–Já tentou ler um livro? – Isis sugeriu. – Talvez assim sua cabeça de vento pudesse ter algum conteúdo.
Jean simplesmente gesticulou para que ela esquecesse seu comentário e respondeu sem interesse.
–Não. Livros são ridículos. Não entendo como conseguem ver imagens em palavras idiotas.
Henry, que estava em cima da cama, se deixou aparecer com uma cara tão apavorante quanto a de um tigre faminto e um exemplar de “1984” levantado como se fosse tacá-lo no francês que estava logo abaixo dele.
–Repita isso e verá imagens idiotas ao redor de sua cara, seu ridículo.
A ameaça provocou um ataque de riso na criatura. Como se o baixinho conseguisse fazê-lo ver estrelas. E a expressão dele enfezado também era extremamente engraçada. Isso o deixou ainda mais aborrecido, mas a atenção deles se voltou para Arícia, que fez uma pergunta considerada óbvia por ambos.
–O que é esse tal de PhizVolume que Jean comentou antes?
Os dois se viraram para ela incrédulos.
–Você não sabe o que é PhizVolume? Como alguém hoje em dia não sabe o que é o PhizVolume?
–PhizVolume é a maior rede social atualmente. – Henry respondeu mais acalmado para ela, ao contrário do Jean. – Praticamente todo mundo tem.
–Não me admira que Arícia não saiba o que é isso. – Chris se meteu na conversa com o objetivo de se divertir com o desconhecimento da prima. – Do jeito que é selvagem não deve nem saber falar inglês direito sem o tradutor.
Arícia desviou o olhar para o primo e o olhou maliciosamente.
–Pelo menos quando cheguei aqui, sem nunca ter encostado em um tradutor antes, consegui achar o carro que trazia pra cá e o instalar eu mesma. – Deu um sorriso maldoso. – Enquanto você, que já havia tido bastante contado com um, ficou horas no aeroporto até encontrar uma alma milagrosa para te ajudar e nem conseguiu perceber por si mesmo que estavam distribuindo tradutores. Acho que essa é uma atitude mais de selvagem do que a minha, não é?
Chris se assustou com o fato dela saber disso tudo, pois ele nunca contara a ninguém sobre sua chegada desastrosa à Nuuk. Não tinha vergonha disso, mas também não precisavam saber que logo ele havia agido como uma barata sem rumo ao chegar ali.
–Como você sabe disso?
–Ora, a própria alma milagrosa me contou.
Arícia apontou para o alto da cama de cima à direita, onde o leitor ávido de 1984 se esgueirava mais para o fundo, tentando escapar da visão do rapaz.
–Henry! Não acredito que você fez isso! – Ele gritou. – Ah, mas se você não estivesse aí em cima eu juro que...
–Não entendo por que esse alvoroço todo só porque Arícia não sabia o que é uma rede social. – Hyun-Ae interrompeu. – Eu mesma só conheço porque consegui uma bolsa de estudos para uma faculdade que tinha internet. Se não fosse por isso, nunca mexeria em um computador. E nenhum dos meus vizinhos também conhecia a internet.
Carol concordou com a coreana e continuou o raciocínio.
–Lá onde eu morava, tinha um boato que todas as crianças conhecem, que dizia que internet é um ser sem coração e que ficava procurando por um. Ele tinha nojo do coração desnutrido de nós, pessoas pobres, então só se escondia nas casas dos ricos. Sugava toda a vida do coração dessas pessoas para ele, mas como quando o coração ficava completamente em posse dele já estava acabado, ele tinha que sempre procurar mais ricos para enfeitiçar e satisfazer seu desejo. – Contou. – E quando tinha uma criança do nosso grupo que por algum motivo havia tido contato com a internet, nunca mais voltava. Então todos tínhamos medo de ganharmos dinheiro e nos mudarmos de nossas casas pequenas.
–E eu nunca havia ouvido falar da existência de computadores até arranjar emprego.
A voz de alguém que não estava presente até alguns minutos atrás se espalhou pelo quarto. Todos desviaram o olhar para a porta e encontraram Miguel recostado nela.
–Gente, eu sei que a conversa está muito interessante, mas o Dong-Su me questionou onde vocês estavam. Por favor, não me façam parecer um guia irresponsável e venham comer.
–Devia imaginar. – Isis foi na frente do resto. – Nem um pouco preocupado se estamos morrendo de fome. Só consigo mesmo. – Implicou. – Que vergonha, senhor Miguel.
–Com os outros eu até poderia estar, mas você não faria nenhuma falta à mesa.
Miguel recebeu um soco no ombro por revidar, mas que não o machucou nem um pouco. As meninas já haviam todas saído até só sobrarem Henry, Ed, Jean e Chris lá dentro. Miguel deu uma última olhada nos quatro e perguntou.
–E vocês? Não vêm não?
–Já vamos. – Ed respondeu baixo. – Só precisamos fazer uma coisa antes.
–Tudo bem, mas não me façam voltar para buscar vocês depois.
Com isso Miguel fechou a porta ao sair e seguiu com as meninas a caminho do refeitório. Henry colocou a cara para fora da cama.
–Posso sair daqui de cima sem sofrer qualquer tipo de violência por parte do Chris?
Chris bufou um pouco, se lembrando que o amigo contara para a prima sobre a chegada dele lá. “Desde quando esses dois se tornaram tão próximos para conversarem sobre mim?” – Pensou antes de responder.
–Está bem. Mas só por causa do que vamos fazer.
Henry deixou seu livro no canto da cama reclamando mentalmente por terem o parado bem no ápice da história e pegando seu comunicador que estava no mesmo canto. Engatinhou rapidamente até as escadas do beliche e as desceu com a mesma velocidade.
Antes de ligar o comunicador se virou para os três que estavam ansiosos atrás dele para descobrir o que Randhir tinha com aquilo tudo.
–Como devo chegar ao assunto?
–Sei lá. Você é quem é o filho dele. Se vira. – Jean disse muito prestativo.
–Pergunte sobre o trabalho dele. Ou sobre a desculpa dele. – Ed sugeriu. – Coisas assim.
–Está bem. – Henry concordou. – Mas ainda acho que estamos só perdendo comida para a comilona da Arícia estando aqui no quarto ao invés de irmos para o refeitório. Isto não vai dar em nada.
Após falar o que pensava de interrogar o próprio pai e o bordão “O quê” do Ed ser pronunciado pelo mesmo e abafado pelos outros dois meninos ao seu redor, Henry ligou o comunicador, que começou a chamar o pai.
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