Inside

2 Meet Uzumaki Naruto


Sabe, às vezes não tenho a menor vontade de sair dessa cama. Tenho vontade de ficar aqui jogado vinte e quatro horas por dia. Na verdade, quero mesmo morrer.

Meu nome é Uzumaki Naruto, o cara mais amado da escola. Sintam a ironia, por favor. Eu não entendo o por quê, mas todos me odeiam e fazem toda a questão do mundo de demonstrarem isso. Bullying é um apelido carinhoso para o que acontece comigo. Não querendo me fazer de coitado ou coisas do tipo, é que eu realmente, como diria algum poeta incompreendido por aí, vulgo Conrado, só me fodo nessa merda.

Tudo isso porque eles me julgam “estranho” e não gostam do meu jeito. O velho ‘blábláblá’ de preconceito. Tô cheio disso.

Bom, eu sou loiro e tenho olhos azuis, um porte físico nada surpreendente ou admirável. Mentira, eu sou um tanto magricelo mesmo. Tenho 15 anos e estou cursando o segundo ano do ensino médio em Konoha High School, uma escola considerada muito boa, com os melhores professores e aulas muito produtivas, nas quais tenho que dar o ar da graça já já.

Peguei meu uniforme, uma cueca limpa e uma toalha para tomar meu banho. Não vejo a hora de poder voltar pra casa daquele inferno. Minha casa é o melhor lugar do mundo.

Mas, a vida é tão cretina, que não volto tão cedo hoje. Adivinhem? Uzumaki Estranho Naruto tem uma consulta com um psiquiatra essa tarde. As pessoas me batem, me julgam, falam mal de mim, me humilham publicamente e eu que tenho problemas mentais? Ah, me poupem, por favor.

Pude dar a impressão de ser alguém falante e expressivo, mas não, obrigado. Falar comigo mesmo é uma coisa, com os outros já é outra história. Não costumo ser sociável.

Minha mãe abandonou meu pai e eu há alguns anos, devido às brigas frequentes dos dois. Eu sempre estudei em casa, até a oitava série, por vontade da minha mãe. Quando ela foi embora, meu pai continuou nesse modelo de educação. Após isso, fui para a escola pública e, desde o primeiro dia de aula, pegam no meu pé. Tá aí o motivo de eu não ser mais tão sociável. Por eu ter um físico diferente, ser nerd, ou seja lá o motivo que for, o fato é que me odeiam. Não que eu tenha feito algo para merecer isso.

Como eu disse antes, sou fechado. Não sei se seria bem isso, mas imagine um cara que estava tendo seu primeiro dia de aula no primeiro ano do ensino médio, que chegou lá muito ansioso e animado para fazer bons amigos, mas que teve todas suas esperanças frustradas quando, no mesmo primeiro dia, foi motivo de chacota, piadinhas e apelidos nada carinhosos. Ah, sem esquecer que levou uma surra de um grupo de garotos por não querer dar o dinheiro que tinha consigo. Este sou eu.

Com o passar do tempo, isso só foi aumentando e meus sentimentos, que eram pisados e chutados todos os dias, foram se encasulando mais e mais fundo em mim, e com o tempo, fui ficando frio e indiferente por fora. Não é culpa minha, eu precisava me proteger de alguma forma. Foi isso que a maioria dos psicólogos a que fui me disseram. E olha só, chegou ao ponto de eu precisar de um psiquiatra. Parece um belo dramalhão, mas é a realidade.

Bom, enquanto devaneava um pouco sobre minha adorável existência, me aprontei, tomei um café e estou indo pra escola. Poxa, hoje tá frio mesmo. Vou por algum moletom, dane-se o uniforme.

Não tomei café com meu pai, porque sai antes de mim para trabalhar, geralmente. Ele se culpa muito pelo “estado em que o Naruto chegou”, mesmo que eu sempre diga pra ele não se preocupar com nada, que eu estou bem, ele chora. Embora ele não seja tão presente devido sua rotina corrida, ele ainda assim é um bom pai. Assim como eu, ele é loiro de olhos azuis. Namikaze Minato é seu nome. Ele é presidente de um grupo de empresas influentes aqui do Japão.

Não posso reclamar de nossa situação financeira, e por ser um filho único e uma criança que era trancada em casa por boa parte do tempo, eu fui bem mimado. Nunca fui uma criança animada e brincalhona, sempre fui um tanto sério, e isso deve ter contribuído com o que sou hoje.

Nossa, minha cabeça está a mil hoje. Mas só minha cabeça mesmo, eu não costumo abrir a boca. Se a maioria das pessoas só quer o meu mal, para que falar com elas? Prefiro devanear. É mais saudável.

Então, como eu disse antes, fui uma criança criada em casa, sem amigos, mas sempre me dei bem com os empregados de casa e tal. Às vezes vinham filhos de amigos dos meus pais lá em casa, mas né... Enfim, para não morrer de tédio, eu lia muito. Desenvolvi uma habilidade muito boa para observar pessoas. Já que eu não sabia como elas eram, nem tinha coragem de me aproximar, eu as observava e descobria por mim mesmo.

Eu sei, é meio assustador... Mas em dois meses, eu já sabia toda a rotina de meus vizinhos, os quais eu observava pela janela, a olho nu, com meu binóculo ou com meu telescópio. Anotava tudo em cadernos e me sentia um Sherlock com isso. Também assisti muito CSI em meus anos de vida.

Resumindo, os passatempos de minha infância foram resumidos a séries de TV, observar os outros e ler. Ler muito. Temos uma grande biblioteca, repleta de volumes de qualidade. Não lia historinhas, mas sim livros de física, matemática, astronomia, história e etc. Com seis anos eu já fazia cálculos de velocidade média. Com oito, balanceava equações químicas. Com nove, cálculos estequiométricos. Aprendi isso por passatempo e escondido, não como matéria escolar. Afinal, isso é conteúdo de ensino médio.

Quando finalmente parei com meus devaneios, percebi que vim o caminho todo pensando e já estava chegando aos grandes portões da KHS. Acho que só venho aqui para parecer um pouco com um adolescente normal.

Andei pelos corredores o mais rápido possível, fugindo de qualquer encrenca ou surra matinal que eu pudesse arranjar pelo caminho. Mas claro que ainda podia sentir olhares de desprezo e ouvir alguns xingamentos. Saco. Eu não fiz nada!

Já na minha sala, fui para o meu lugar bem ao fundo, esperando que me deixassem em paz, mas...

— Olha, o viadinho já chegou! – Exclamou Neji e os demais riram.

Ótimo, começou. Odeio esse cara. Ele e seus amiguinhos idiotas. Hyuuga Neji, Hoozuki Suigetsu, Sabaku no Gaara, Karin, Ino e Sakura são os membros que compõem o grupo que eu mais odeio e vice-versa. Eles são um grupo de idiotas mimados e “patricinhas” vagabundas, que fazem questão, mais do que quaisquer outros seres do planeta, de tornar minha vida um inferno.

Eu apenas os ignorei.

— Não vai falar nada? Chupou muito noite passada e ‘tá com a língua gasta?’ – Disse Suigetsu, em meio a mais risadas.

Novamente, os ignorei, fazendo-os começarem a jogar bolinhas de papel em mim. Sinto-me no meio de crianças de seis anos. E para ajudar, quando a professora entrou na sala, mandou-me jogar as bolinhas no lixo, o que rendeu mais gargalhadas. Um dia ainda dou um bofetão nessa mulher.

O resto da manhã passou bem comum. Aulas chatas com idiotas me pentelhando e me chamando de nomes, intervalo lanchando sozinho, e mais aulas chatas. E agora eu estou aqui, sentado em um banco, ainda com esses idiotas me enchendo o saco, esperando meu pai chegar para me levar ao psiquiatra. Droga, mais essa ainda. Se não me abro nem para conhecidos, por que acham que eu o faria a um completo estranho?

Mil vezes merda. Tenho vontade de largar a escola e ir direto a uma faculdade, inteligência pra isso não me falta, como devem ter notado. Fiz um teste de Q.I certa vez. 185 foi minha pontuação. Isso já é bem maior que a de Einstein e cinco pontos a menos que Sir Isaac Newton e Voltaire. É a mesma de Michelangelo e Da Vinci. Maior também que a de Bach, Galileu Galilei, Darwin, Kepler, Descartes, Copérnico e Mozart! Conhecem estes nomes? Pois é. Será que esses gênios precisaram escutar coisas como “viadinho, vem cá me chupar” ou “vai dar pra quem essa noite?”, tal qual sou obrigado a ouvir agora?

Ouvi o som de uma buzina, e quando olhei para os lados, vi o carro de meu pai parado próximo ao portão da escola, então juntei minhas coisas e corri em direção a ele. Estou um pouco nervoso com relação a ir a um psiquiatra. Já fui a psicólogos, mas não a psiquiatras. Só essa palavra é o suficiente para me assustar. Droga! Quero cavar uma toca pra me esconder.