Inside
31 Luto...
Notas iniciais
A dor, o choque, o pesar, a tristeza, a saudade, o desespero, a desolação, a incredulidade, a revolta com o mundo... Estes são os principais componentes de um dos estados de espírito mais desagradáveis da vida. O luto. E era o luto que agora reunia aquelas pessoas ali, naquela pequena capela.
O buraco deixado por Minato na vida de cada um ali agora era preenchido pela mistura dos piores e mais pesados sentimentos. As faces, antes sorridentes já não expressavam nada além de tristeza e dor.
Reunidos em torno de um caixão preto com detalhes em dourado, estavam Naruto, Sasuke, Mei, Kiba, Gaara, Tsume, Sasori, Itachi, Konan, Tenten, Neji e tantos outros que ficaram sentidos pela morte de Minato. Desde funcionários da limpeza da corporação em que ele era presidente, até os membros executivos da mesma. Todos com o coração carente do sorriso que só o loiro mais velho sabia dar.
Um tentava apoiar o outro para que não desabassem, o que estava sendo uma tarefa muito difícil naquele momento. A situação era dolorosa, principalmente para Naruto. Sasuke nunca mais iria esquecer-se do que vira.
Ele estava na mansão com Naruto quando o loirinho ligou a televisão e deparou-se com a notícia da morte cruel do próprio pai. O moreno entrou na sala e deparou-se com o menor em estado de choque, fitando a televisão com um olhar espantado e vazio. Mas, o pior foi quando Naruto voltou de seu transe. Seus gritos e seu choro desesperados nunca mais iriam sair da cabeça do moreno. O loirinho acabara de perder seu chão. O seu coração nunca batera tão rápido e tão arrítmico quanto naquele momento. Sua garganta se recusava a abrir-se regularmente para a passagem de ar, e seus olhos só sabiam chorar. Por sorte, Sasori chegara e preparara um calmante para o menor. Foram necessárias doses cavalares para o loiro se acalmar. Ele chorara desesperado por horas ainda. A cena mais dolorosa que Sasuke presenciara. Queria fugir e não ouvir mais a dor do loirinho, mas não podia. A única coisa que podia fazer era respirar fundo e se manter firme.
As reações de Mei, Kiba, Itachi e Tsume, os mais próximos do loiro maior depois de Naruto, não foram diferentes.
A modelo estava na casa de sua prima quando recebera a notícia da morte do seu então namorado. Seu choro foi o mais sentido de toda a sua vida. Ela não conseguia acreditar que a vida havia lhe roubado mais uma pessoa preciosa. Caiu sobre seus joelhos e chorou por horas, amparada por Kurenai e por Asuma, que tentavam acalmá-la, em vão.
Kiba estava em seu quarto junto de Gaara, conversando sobre algum assunto banal quando ouviu um grito agudo de sua mãe e o som de alguma porcelana se partindo. Resolveu correr até a cozinha para ver o que havia acontecido e se deparou com sua progenitora fitando com incredulidade a televisão. Quando se atinou a prestar atenção na notícia que passava, o seu mundo caiu. Tudo ficou escuro, e as lágrimas, inconscientemente, começaram a escorrer pelo seu rosto. Quando Gaara o abraçou, o moreno desabou sobre os joelhos e se entregou de vez ao choro.
Agora estavam todos ali, sentados em torno de uma urna de madeira negra, com seus espíritos destruídos. Naruto ao lado de Sasuke, sendo amparado e afagado pelo mesmo. Estava com os olhos vermelhos e inchados, ainda chorando baixinho, a falta de seu pai. Se olhar era vazio, assim como de Mei, que estava deitada com a cabeça no colo de Kurenai. O mesmo com Kiba, que estava em um canto junto de Gaara que o consolava em silêncio.
Até mesmo o sempre o racional e inabalável Itachi estava no seu canto, esfregando os olhos, já vermelhos, para conter as lágrimas que insistiam em se formar a cada lembrança que tinha com seu velho amigo, que por muitas vezes, foi mais pai para si do que o próprio Fugaku. Fora ele havia cuidado de tudo quanto ao velório e ao enterro. Por conta de o corpo de Minato não estar apresentável, providenciara para que a cerimônia fosse um pouco mais ocidental, como o próprio Minato desejara. Caixão fechado, velório e enterro.
Todos tinham sido destruídos pelo receio de um futuro onde Namikaze Minato não se fizesse presente.
O lugar pequeno onde o velório estava sendo realizado estava movimentado, nunca em silêncio, pois sempre havia alguém comentando algo sobre o falecido, ou mesmo desejando força aos mais íntimos do homem.
Mei eventualmente reunia as forças que ainda lhe sobraram para ir até Naruto e o amparar. Ela sabia que o loirinho estava ainda mais destroçado que ela própria. Ele pouco falava. Pouco se expressava. Estava ali apenas com seu corpo, porque seu espírito estava longe. Talvez, apenas talvez, tivesse morrido junto com Minato. A mulher sentou-se ao lado do menor, tomando o lugar de Sasuke, que aproveitou para ir conversar com o irmão. Ele nunca o vira assim, tão abatido.
– E agora, Mei? – O loirinho perguntou, sem se dar ao trabalho de fitar a mulher. Seus olhos vazios estavam cravados no caixão à sua frente. – O que vai acontecer agora? – A morena engoliu grosso.
– Eu... Eu não sei, Naruto. – Beijou o topo da cabeça loira. – Mas, seja o que for, eu vou estar com você.
– Você não vai me deixar, não é? – O pequeno murmurou vazio. – Eu não quero que você também me deixe também...
– Eu não vou. – Ela apertou o garoto em um abraço. – Vamos passar por essa juntos, tá? – A morena tentava transparecer força, mas no fundo, também não sabia como iria passar por tudo isso.
A mulher estava distraída, e só saiu de seus devaneios quando uma voz grave lhe desejou os pêsames, seguido de um beijo leve na sua mão, que o homem havia tomado entre suas próprias mãos em algum momento que Mei não sabia dizer quando. Fitou a figura à sua frente e, inevitavelmente, notou a semelhança com Sasuke e Itachi. Logo, deduziu quem era.
– Obrigada, Fugaku-san. – A mulher agradeceu-lhe em um murmuro.
O homem agachou-se, ficando mais ou menos na altura que o loirinho estava, para lhe prestar condolências.
– Naruto, não é? – O homem recebeu um fraco maneio positivo de cabeça. – Sinto muito pelo seu pai. Era um grande homem, e vai fazer falta.
E esta cena se repetiu incontáveis vezes. Pessoas as quais Naruto nunca havia visto na vida repetiam exaustivamente o quanto Minato era uma boa pessoa, como se o loirinho não soubesse disso. Estava cansado. Não havia dormido nada e comido muito pouco, assim como Mei e Kiba. O homem falecera à tarde do dia anterior, e o velório seguiu noite à dentro, emendando com mais uma tarde, quando seria o enterro. Todos estavam exaustos. Poucos eram os que ainda estavam firmes e sustentavam os demais.
Nessa situação, os que estavam mais estáveis eram os mais “frios”. Sasuke se mantinha erguido apenas por ter um controle psicológico extraordinário. Não estava sendo fácil ver as pessoas mais fortes que ele conhecia, em ruínas. Naruto, que superava tudo com cabeça erguida, estava ali, sem perspectiva de um amanhã. O mesmo para Mei. Uma mulher praticamente inabalável, que agora usava tudo o que restara de si para servir de apoio ao loirinho. Acima de tudo, nunca havia visto seu irmão chorar, e no momento, lá estava ele, com os olhos vermelhos das tentativas de conter as lágrimas que se formavam involuntariamente. Não estava sendo fácil não desabar junto. Ainda assim, precisava se recompor.
Saiu do pequeno lugar para espairecer a mente. Foi sentar-se em um banco de metal escuro, que ficava embaixo de uma árvore, ou o que restara dela, pois o inverno já havia levado suas folhas, deixando apenas galhos secos, agora cobertos de neve. Ficou sentado em silêncio por alguns minutos, mas ele fora cortado por uma voz bem conhecida.
– Achei você... – O loirinho murmurou com a um tanto embargada, sentando-se ao lado de Sasuke. – Não deveria ficar aqui, pode pegar uma gripe. – Concluiu distante.
– Você não devia se preocupar comigo agora. – Pegou a mão enluvada do loirinho. – O que veio fazer aqui?
– Saí para respirar um pouco, e também pra te procurar... – Fez uma breve pausa. – Você me traz paz. – Confessou, surpreendendo um pouco o moreno. Naruto estava bastante abatido, mas começara a demonstrar que não havia se entregado à tristeza por inteiro.
– Você quer algo? Um café, algo pra comer... Se tiver algo que eu possa fazer...
– Eu só quero que isso acabe... Eu tô chegando ao meu limite, sabe? – O loirinho encostou sua cabeça cansada sobre o peito do moreno, que o abraçou com um dos braços.
– Sei. – Afagou os cabelos do menor. – Logo mais vai ser realizado o funeral, acho melhor voltarmos. Depois você poderá descansar, sim?
– Tudo bem... – Soltou um muxoxo, ficando em silêncio por alguns minutos, até. – Sasuke, eu sempre te amei, sabia? – O loirinho ditou, cortando o próprio silêncio e surpreendendo o moreno. – Obrigado por nunca desistir de mim... Sei lá, é meio aleatório, mas precisava dizer isso. – O moreno sorriu de leve e curvou-se para dar um beijo no menor. Por um momento, o loirinho havia se recomposto. A alma voltara a habitar a casca do menor. Por pouco tempo, mas voltara.
Ficaram ali mais um pouco, calados. Pelo menos até Sasuke se pronunciar.
– Naruto, e seus avós? – O moreno externou a pergunta que martelava em sua cabeça. – Os pais de Minato. Não me lembro de tê-los visto.
– Se eles vierem, não será hoje. – O loirinho respondeu. – Não tinham uma boa relação com o tou-san há muito tempo. Eles nunca aprovaram Kushina, muito menos ficaram contentes com a notícia de um neto. Vi eles uma ou duas vezes na vida. Se eles derem as caras, vai ser outro dia e apenas para jogar uma flor sobre o túmulo e ir embora...
– Entendo... Desculpe por perguntar, mas fiquei curioso.
– Não se incomode, tudo bem. – O menor ainda retrucou. Depois disso, decidiram retornar ao pequeno recinto.
A dupla seguiu abraçada de volta à pequena capela. Os olhares recaíram sobre os dois, mas ninguém se importou. Lá, os dois se separaram e Sasuke foi senta-se com Mei, enquanto Naruto foi ficar um pouco com Kiba. Eles se encararam por alguns segundos, para então chorarem juntos. Não precisavam falar para se entenderem. Típico.
Dali, não demorou muito para as solenidades de enterro. O líder religioso começou a proferir suas palavras, que acabaram levando muitos ao pranto. Mei estava abraçada à Naruto, e ambos não conseguiam, e nem quiseram, conter a tristeza. O homem que comandava a cerimônia puxou a frente, deixando o local e pedindo para que todos lhe acompanhassem.
O caixão negro teve suas quatro alças tomadas por quatro figuras diferentes. Uma por Itachi, uma por Sasuke, uma por Sasori e a outra por Kiba. Os homens tomaram para si a responsabilidade de carregar Minato até o local de seu último descanso. Seguiram logo atrás do religioso que guiava a todos junto de seu bastão prateado, com uma cruz na ponta superior. Os demais foram logo em seguida, marchando atrás ou ao lado do caixão, eu uma pequena procissão regada a luto. Os demais também levavam as flores e homenagens que Minato recebera.
A grande massa, composta em sua maioria por pessoas de preto, que marchava por entre a neve branca não demorou muito a chegar ao local onde o homem seria sepultado. Seria no cemitério mais nobre, onde apenas os mais afortunados repousavam. Minato há muito já havia mandado construir um túmulo pensando justamente nesse dia. Queria descansar em um lugar calmo.
A multidão parou diante de uma estrutura imponente de mármore negro. Era larga, pois comportava três covas. O loiro havia mandado construir pensando em ser enterrado junto do filho e de sua amada, que pensava ser Kushina, tamanho o tempo que fazia da construção da sepultura. As coisas haviam mudado um pouco, mas nada tirava a grandiosidade daquele túmulo augusto. Talvez, o mais grandioso do local.
Todo em pedra negra polida, possuía três réplicas de torres de castelos medievais, também feitas em mármore trabalhado e esculpido, cada uma rente a uma cova, e no topo de cada uma das torres, uma estátua, feita em alguma liga metálica, de um anjo de asas abertas e com as mãos juntas à frente do corpo, segurando uma espada voltada para baixo, apontando para os locais de sepultamento. Minato não poupara em nada, mas também não construíra tudo aquilo com o único propósito de se exibir, ele não era desses, mas bem pelo contrário. O loiro tinha origem muito humilde, e se orgulhava disso. Minato, em uma das brigas que tivera com seu pai, teve de ouvir que um vagabundo medíocre como ele nunca teria onde cair morto. Que seria sempre um lixo, um zero à esquerda. Que na hora de sua morte, seria lançado em uma vala suja e nojenta, junto com toda sua família podre. O loiro queria mostrar ao progenitor que ele estava errado, por isso o investimento em seu leito de morte. Questão de orgulho.
Da grande sepultura, apenas a cova do meio estava aberta. A tampa de mármore que cobrira, e que logo voltaria a cobrir o vão, estava ao lado. O religioso proferiu algumas palavras de conforto e despedida, e em seguida, pediu para que os homens pusessem a caixa na abertura, e assim eles fizeram. Naruto virara o rosto. Simplesmente não conseguia olhar para aquela cena. Sabia que um dia essa hora chegaria, mas ainda não estava preparado para ela, então, não podia fazer nada além de lamentar profundamente.
Para terminar, antes de a cova ser tampada com o mármore frio, o homem que conduzia a cerimônia pediu a todos para que se despedissem uma última vez. Um por um, os mais íntimos foram mais à frente para um último adeus. A primeira foi Tsume.
– Quem diria, hein, Minato? – Riu amarga. – Eu sempre fui a inconsequente, que botava a vida em risco fazendo besteiras... Quem diria que eu quem enterraria você, velho amigo? – Secou uma lágrima que teimou em descer. – Mas é bom que seja assim. Se fosse ao contrário, você ia morrer chorando, sua bicha sentimental! – Ela gargalhou, e antes mesmo de findar o riso, desabou, e acabou aos prantos. –Vá em paz, amigo. Vai ser difícil cuidar das coisas por aqui sem você, mas já que teve de ser assim, descanse tranquilo. Eu agradeço a Deus por você não ter que conhecer a dor que é perder um amigo, loiro. Vamos tomar muitas Margaritas e Piñas Coladas por aí, algum dia. – Sorriu fraco. – Descanse, projeto de hipster. – Ao findar sua fala, arremessou uma rosa branca sobre o caixão, para então se afastar.
Quem tomou a frente em seguida foi Itachi, de braço atado com Konan.
– Você se foi cedo demais, cara... – Murmurou ele, respirando fundo. – Você foi a primeira pessoa a me ver não só como um garoto bobo. Confiou em mim, e isso eu nunca vou esquecer. Foi um amigo, um irmão e um pai para mim. – Não conseguiu conter uma lágrima pesada. – Obrigado por tudo. Muito da pessoa que sou hoje, devo inteiramente a você, amigo. Um brinde ao dia que nos encontraremos novamente. – Itachi ergueu a rosa branca que carregava, como se fosse um copo, em um brinde mudo. Depois disso, jogou a flor sobre o caixão. – Descanse, velho, porque a gente dá um jeito de segurar as coisas por aqui.
– Que você encontre a paz, Minato, e que todos nós encontremos conforto e força para passar por essa. Você fará falta. – Konan deu um meio sorriso, carregado de tristeza, e em seguida, também jogou uma rosa alva sobre a caixa.
Em seguida, foi a vez de Sasori, que estava na companhia de Tenten.
– Não passamos tanto tempo juntos, Minato-san, e me arrependo por isso. Só Deus sabe o quanto eu ainda poderia ter aprendido com você, o homem com a alma eternamente jovem. – Depositou também uma rosa branca sobre a caixa, porém, não só. – Esse boneco seria um presente de agradecimento. Fique com ele. – O ruivo deitou uma pequena figura de madeira, com cabelos loiros e olhos azuis, vestido com um terno, e com um sorriso estampado no rosto. – Fique bem. Obrigado, por tudo. Foi um prazer consertar seus relógios. – Sorriu leve.
– Ei, acho que nossa queda-de-braço vai ter que esperar, não é? – A morena de coques entoou, sorrindo triste. – Você ficou de me ensinar um monte de coisas... Como fica isso agora? – Depositou a flor alva com delicadeza junto às demais. – Vá em paz. Espero que possamos nos encontrar em uma próxima.
À medida que eles se afastaram, Kiba e Gaara se aproximaram e tomaram a vez.
– Minato-san... – O moreno tentou iniciar, mas teve de parar a fala para respirar fundo, coçar os olhos e não chorar. – Você não deveria ter ido. Não agora que eu estava gostando tanto da coisa toda de ter um pai. – Enxugou os olhos novamente. – Eu não cresci com um homem em quem eu podia me espelhar; com quem eu podia contar, e também jogar bola. Não cresci com um homem para me dizer o que era certo ou errado; conversar sobre coisas de garoto... E quando eu acho alguém assim, acaba acontecendo isso. Poxa, eu... – Suspirou, mordendo o lábio inferior em seguida. – Eu tinha tanta coisa pra te perguntar, tanta coisa pra te dizer... Não é justo! – Ele exclamou revoltado. – Na escola, sempre tínhamos que fazer um cartão no Dia dos Pais, e mesmo sem a quem entregar, eu os fazia. Pode parecer bobo, mas eu ainda tenho todos guardados, e estava esperando o próximo Dia dos Pais para entregar todos a você... Devia ter feito isso antes. – Suspirou, com um certo “quê” de remorso. – Eu só espero que saiba que te amo muito, e que você será para sempre o meu pai; meu tou-san... – Com pesar, depositou a flor branca, ainda em botão, junto das outras. – Fique em paz, pai... – Depois de findar, não segurou mais as lágrimas. – Agradeço eternamente por tudo o que fez por mim...
– Não tenho muito a dizer, Minato-san... – O ruivo murmurou ao mesmo que punha uma rosa, alva como as outras, sobre a madeira negra. – Só posso agradecer pelos bons momentos e pelos bons conselhos, e lamentar por não podermos mais desfrutar de sua companhia. Espero que encontre a paz.
Ambos deram as costas para a sepultura, rumando de volta a multidão, cruzando com Naruto e Mei que vinham em sentido oposto, se aproximando. Pararam-se lado a lado.
– A vida gosta de tirar pessoas importantes de mim... – Riu amarga. – O único homem que eu amei de verdade, e que me retribuiu a altura. – Ditou de forma pensativa. – Só queria que tivesse mantido a promessa que você me fez naquela noite, depois da comemoração do nosso namoro; você prometeu que não ia me deixar ficar triste. – Tentou enxugar, de forma falha, as lágrimas que se formavam e rolavam por sua face. – Eu estou triste agora, e muito. Um pedaço de mim se foi com você. – Fez uma pausa. – Vou guardar com carinho cada palavra que você me disse. Cada momento, cada toque, cada gesto... – Já não se continha mais. Chorava de mãos dadas com Naruto. – Acho que você foi o primeiro homem que viu em mim algo além de um rosto bonito, e acho que é por essas e outras, que me apaixonei por você, queria viver para sempre ao seu lado. Mas, o “para sempre” foi mais curto do que eu esperava. Agora, eu simplesmente não sei o que vou fazer quando tiver que acordar sem você do meu lado, sabe? – Perguntou, sabendo que a resposta não viria. – Quem vai me dar um beijo e dizer que estou linda, quando eu sei que estou um monstro? – Sorriu triste, em meio às lágrimas. – Namikaze Minato, possivelmente o amor da minha vida, descanse em paz. Eu sentirei a sua falta de um jeito inexplicável. – Ela soltou-se do loirinho e caminhou até a sepultura onde estava o caixão, e sobre ele depositou uma bela rosa vermelha, que se sobressaltou a brancura. – Até o dia em que iremos nos ver de novo, seu idiota. Aishiteru, meu amante à moda antiga.
A morena de maquiagem borrada voltou para junto do loirinho, que tomava coragem para falar algo. Ele suspirou e deu alguns passos à frente.
– Tou-san... Como você se sentiria se tirassem o seu chão, assim, do nada? Seria ruim, não seria? – Murmurou, fitando fixamente a caixa negra. – Pois é. Eu perdi meu chão. Perdi minha espada e meu escudo... Perdi minhas asas. Eu perdi você. – Inspirou fundo. – Sabe pai, não importa qual fosse a situação, o quão ruim ela fosse, bastava você dizer “Vai ficar tudo bem, garotão!” que eu me sentia melhor. Eu sabia que ficaria tudo bem porque você estaria comigo. Agora, eu não sei de mais nada. Só de pensar em viver uma vida em que você não está por perto, me machuca. Machuca demais... Eu nunca imaginei como seria viver sem você me dando apoio... – Fungou e enxugou o rosto. – Mas é como dizem: “Você só sente falta do sol, quando começa a nevar”. Você era meu Sol; meu guia. Vou ficar um pouco perdido sem a sua companhia, tou-san... Sabe, apesar de todos os problemas que tive, posso dizer que você sempre conseguia fazer eu me sentir a pessoa mais feliz do mundo. Eu me sentia especial, porque você dizia que eu era especial. – O garoto repetia constantemente o ato de secar os olhos com a manga do casaco. Era inevitável. – Eu sei que, se estivesse aqui, você iria dizer para eu erguer a cabeça e seguir em frente. Eu juro que tentarei, por você, mas se eu não conseguir, tou-san, não me culpe, por favor, porque a dor que eu tô sentindo agora é absurdamente grande e difícil de suportar. – O garoto, com a cabeça baixa, aproximou-se ainda mais da sepultura de seu pai, erguendo a rosa que carregava junto ao peito. – Eu queria mais uma vida inteira com você. Não existe um jeito pra eu expressar o quanto você me fará falta, pai... Mas quando a gente se vir de novo, você promete que vai me chamar de “Garotão” outra vez? Promete que vai dizer que me ama, como fazia sempre que tinha chance? – Tentou sorrir, em vão. – Espero que sim, porque me faria muito feliz. Eu te amo, e vou te amar pra sempre. – Esticou o braço, lançando cuidadosamente sobre o caixão a flor que carregava. A rosa que depositara era amarela. – Adeus, tou-san. Saiba que você é a parte mais importante de mim. Obrigado por tudo, melhor pai do mundo.
Mei abraçou o loirinho pelos ombros, trazendo-o mais para perto da multidão, para o religioso novamente assumir a palavra, dessa vez para encerrar a cerimônia. Não se prolongou muito. Ditas algumas palavras e uma reza em nome do falecido, alguns homens, munidos de força, pequenas pás e argamassa, espalharam a substância colante e lacraram a cova, sob os olhares chorosos e saudosos dos enlutados ali presente. As flores, arranjos, coroas e demais homenagens recebidas por Minato, foram depositadas sobre sua sepultura. E não foram poucas.
Pouco a pouco, a pequena multidão ali reunida, foi se dissipando. Lentamente, o cemitério foi ficando vazio. Naruto mal percebera. Estava olhando fixamente para a foto de seu pai, sorridente, no túmulo, ao lado de sua data de nascimento e também a de óbito. Depois de algum tempo, um estalo lhe trouxe de volta à consciência, e então, o último grupo, com um enorme pesar, também partiu. A maioria, de volta à mansão Namikaze.
Enquanto os últimos enlutados deixavam o cemitério, em outra parte da cidade, duas figuras ruivas, uma delas trajada elegantemente, trocavam algumas palavras.
– Você não vai ir onde eu estou pensando que vai, não é, Kushina? – Nagato perguntou para a irmã, que ajeitava o cachecol em seu pescoço, em frente ao espelho.
– Mas é claro que vou... – Ela murmurou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Sabe... – Ela emendou com fala distante. – Embora não pareça, eu já amei Minato; já amei Naruto...
– Claro, e eu sou a Lorde, e nunca serei da realeza. – O homem debochou. – Você fazia aquele homem de carteira, fazia aqueles jogos estúpidos com aquela criança e chama isso de amor. – Bufou enquanto lia alguns papéis. – Eu preciso realmente te lembrar que aqueles cartõezinhos tinham dupla interpretação, e uma delas podia levar aquele pirralho a ter sérios problemas?
– Isso, meu caro irmão, é detalhe. – Ela virou-se para fitar o outro. – Ele nunca percebeu, e sempre fazia a escolha “certa”, então, nada disso importa. – Ditou com casualidade, vendo seu irmão rolar os olhos. – Falando naquela peste, ligue para aqueles asquerosos de Suna e faça o favor de dizer-lhes que, provavelmente, o bastardinho deles é o próximo da lista, ou um dos próximos. Assim que der tudo certo, a parte que lhes cabe irá direto para as coisas imundas que eles chamam de mãos. – Ela completou enquanto pegava sua bolsa. – Jaa ne. Qualquer coisa, me ligue.
– Hai. Jaa ne. Tente não se engasgar com o próprio veneno. – O homem ainda alfinetou.
A ruiva entrou em seu carro e dirigiu até onde seu antigo companheiro acabara de ser enterrado. Ficou algum tempo sentada dentro do veículo, observando a movimentação, e quando constatou que não havia mais ninguém no local, foi caminhando, no alto de suas botas de grife, até a sepultura negra onde Minato agora repousava. Ficou alguns minutos apenas fitando a estrutura e as estátuas sobre a tumba.
– Ora, ora, ora... Não era você quem disse que faria eu engolir minhas palavras e me arrepender do dia em que nasci? – Indagou a ruiva com a vista fixa na foto do loiro. – Pois bem, querido, eu ainda estou aqui, linda, maravilhosa e diva, e você virou churrasco de verme. Desejo que essas larvas façam de você, um belo rodízio. Assado você está, bem passado até, eu diria, seria uma pena desperdiçar. – A ruiva riu baixo, ajeitando a posição dos óculos escuros em seu roso. – Sabe, eu tive sorte com aquele amiguinho do meu irmão. A vontade de estrangular Nagato era tão grande, que ele te matou pra isso. Mas, eles que se peguem, e que sobreviva o melhor. – Deu de ombros. – Mas a questão é: eu venci, Minato. Você deu seu melhor tiro, e errou. SE FODEU, MEU CAMARADA! – Ela ditou com escárnio lhe escorrendo os lábios. – Se não fosse tão arriscado, eu subia nessa sua cova podre e sambava! Eu sambava, dançava Salsa, Merengue, Maxixe, e o raio de danças folclóricas de países subdesenvolvidos! Eu dançaria Tango, Tambor de Crioula e Coco Ciranda, seja lá o que diabos isso seja, mas eu dançaria! E não seria o suficiente pra expressar a minha alegria, seu maldito! – Ela rosnava furiosa, mas em tom de voz moderado. – Espero que você apodreça e queime, mais ainda, no fosso mais profundo, do canto mais profundo do Inferno! – Inspirou o ar audivelmente. – Você me subestimou, Minato, você e toda aquela cambada de desajustados inferiores, e todos irão pagar. Um por um... – Ficou em silêncio por alguns instantes. Fitou intensamente a estátua do anjo sobre Minato. — Se tiver um anjo de olho em você, que seja Lúcifer, e que ninguém tenha piedade de sua alma imunda, Namikaze Minato. Aproveite sua estadia no inferno. Até nunca...
A mulher virou-se para ir embora e dar sua missão de tripudiar sobre Minato por completa, mas parou, voltando para junto da sepultura.
– Eu não trouxe nenhuma flor ou qualquer presente de despedida... – Murmurou. – Mas não vou partir sem te deixar um presente, bem pessoal ainda por cima. – Ela aquietou-se por alguns instantes, pigarreando audivelmente com a garganta e puxando ar para os pulmões em seguida, para no fim, em uma fração de segundos, cuspir com toda a sua força contra a foto do loiro. – Au revoir, misérable.
Kushina sorriu com malícia, para então dar as costas e ir para seu carro, e nele, seguir de volta para casa, muito mais aliviada, e por que não dizer, feliz. No seu jogo, uma peça importante havia sido retirada do tabuleiro, por mérito quase exclusivo seu.
Ela mudou de ideia. A tarde mal havia começado, mas a hora não importava muito. A ruiva foi para um bar requintado, com um único propósito: beber para celebrar.
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