Inside
29 Amizade inusitada, um pouco de Natal e histórias...
Notas iniciais
Dizem que o primeiro dia em qualquer lugar é o mais difícil. Seja na escola, na faculdade, em um emprego novo ou na prisão. Minato podia confirmar isso.
Chegara de madrugada no lugar e não tivera tempo algum para dormir, pois logo seria hora do café da manhã. O loiro estava um pouco receoso. Lê-se muito.
Ele não tinha conseguido qualquer tipo de contato com seu companheiro de cela, imagina com outros presos. Tudo bem que o ruivo com quem dividia a cela tinha cara de poucos amigos e que a vontade de matar estava estampada em seus olhos, mas mesmo assim.
Logo que um sinal soou e alguns guardas foram até as celas para guiar os presos até o refeitório, para que eles realizassem a primeira refeição do dia. Assim que a porta da cela se abriu, Minato levantou-se e seguiu até ela, estendendo os braços para ter seus pulsos algemados, por questões de segurança. Quando o loiro saiu de seu aposento, a porta do mesmo foi fechada e trancada, ainda com seu colega lá dentro.
– Ele não vem também? – Indagou curioso, olhando para seu companheiro, que estava deitado com a face virada para a parede.
– Ele está de castigo! – Respondeu um dos guardas, dando uma pequena risada. – Ele tem que aprender bons modos.
Minato não disse mais nada, e seguiu os homens até o local onde faria sua refeição. Notara o quão rígido aquele local poderia ser, então não queria problemas para si. Tinha que ficar bem para Naruto.
Ele esperava que essa situação se resolvesse o quanto antes possível.
E por falar no loirinho, ele tinha acabado de acordar. Kiba já lhe preparava algo para seu dejejum, já que havia despertado antes. Tsume havia saído; fora ao hospital ficar com Hana, e Gaara estava dormindo no sofá. O ruivo não tinha comido bem e em seguida havia tomado um de seus remédio, o que lhe deixaou sonolento. Não custou a apagar assim que se deitou com Toboe.
– Quer algo especial, Naruto? – Kiba perguntou ao amigo, que estava um tanto aéreo.
– Não, obrigado. Não tenho muita fome. – Respondeu com sua voz grave de sono, vendo Kiba fitar-lhe de forma preocupada e um tanto piedosa. – Não se preocupe comigo, eu estou bem. – Sorriu.
– Mas, Naruto... – Murmurou, mas foi cortado.
– Mas nada, eu estou bem. Já disse! – Ditou firme. – Me diga, quais são seus planos pra hoje? – O loirinho rapidamente mudou de assunto. Ele definitivamente queria esquecer o que houve na noite passada.
Kiba entendeu isso e rendeu-se, num suspirar longo e profundo.
– Não sei, na verdade. Não estou com ânimo pra nada, mas verei com Gaara se ele quer fazer algo. – Fitou o ruivo, que dormia sereno com o cão ao seu lado.
– Entendo... – Falou baixo. – Conversarei com Itachi, para que ele me leve para visitar o tou-san. É fim de semana, deve ter horário de visita.
– Deve ter, sim. – Assentiu. – O que acha de levar algo pra ele? Algo que ele goste de comer. Acho que é permitido. – Sorriu para o menor. Estava claro que Naruto precisava se distrair.
– É uma boa ideia, mas o que me sugere, Chef Inuzuka? – Zombou.
– Bom, hoje, no cardápio, temos cookies, com muitos pedaços de chocolate. – Ditou com uma falsa voz refinada, enrolando um bigode imaginário e forçando um sotaque afrancesado. Naruto teve de rir. – Só precisamos ir no mercado comprar algumas coisas que faltam.
– Certo, tudo bem então. – Sorriu. – Vamos chamar o Gaara?
– Ele não gosta muito de ser acordado durante um cochilo. – Coçou a nuca. – Tipo, não mesmo.
– Entendi! – Riu anasalado, levantando-se e saiu junto com o moreno.
Não tão distante dali, outra família estava tomando seu café da manhã. Não uma família feliz, mas uma família. Neji tomava sua xícara de café enquanto lia a notícia de uma página inteira sobre a prisão de Namikaze Minato.
– Tou-san, é o pai do Naruto, não é? – Indagou ao pai. – E as empresas, como ficarão? Você não está preocupado com ele? Ele não tem cara de ladrão... – Divagou sozinho.
– É o pai desse garoto, não estou preocupado, as empresas tem um novo maldito presidente e nem todos que desviam dinheiro tem cara de ladrão. –Respondeu sucinta e estupidamente ao seu filho.
– Hn... – Grunhiu em resposta. Não que fosse carente, mas um pouco de simpatia não custava nada. Não que realmente esperasse isso de seu pai, mas...
– Você deveria estudar ao invés de estar aqui, me torrando a paciência, sabia? – Hizashi disparou. Neji nada respondeu, apenas levantou-se e foi para seu quarto. Era sempre assim. Sempre fora.
No presídio, o tempo para o dejejum já havia acabado. Quem lavava a louça suja eram os próprios presos, que eram escolhidos por um grupo de guardas debochados. Um dos “sorteados” para a tarefa foi o loiro recém chegado.
E lá, na cozinha do local, o loiro passou o resto da manhã. Não que não estivesse familiarizado com tarefas do tipo, bem pelo contrário, mas eram realmente muitas peças para limpar.
Eram tantas que, quando saiu da cozinha, o almoço estava servido. Nem voltou para a sua cela, foi direto comer novamente. Estava cansado, mas não podia fazer seus horários ali. E para sua sorte, não fora escolhido novamente para lavar a louça do almoço.
Voltou ao seu aposento e se jogou em sua cama, não muito confortável. Observou seu colega, e viu que ele não aparentava estar muito bem. Estava na mesma posição que estava de manhã cedo, e o barulho que seu estômago fazia era audível. Preocupante, até.
Ficou devaneando por algum tempo, até um dos homens que ali atuava como guarda vir lhe chamar, anunciando que ele tinha visita. Minato não pode conter seu sorriso.
Foi acompanhado até um lugar amplo, onde muitos outros encarcerados estavam recebendo visitas de familiares e conhecidos. Visitas assim, mais livres, eram reservadas apenas aos presos de menor periculosidade e melhor comportamento. Uma espécie de recompensa.
Assim que suas algemas, colocadas quando ele deixou a cela, foram retiradas, avistou a versão menor de si mesmo correr em sua direção, para lhe abraçar. Não se passara nem um dia, mas a saudade que sentia do filho era enorme.
– Tou-san! – O loirinho berrou quando finalmente abraçou o maior. Sua saudade também já era imensurável.
– Sentiu minha falta? – Brincou o maior, retribuindo o abraço. – Com quem você veio?
– Vim com o Itachi, ele está por aí. – Olhou em volta, avistando o moreno sentado junto a uma mesa. – Ali, ó! – Apontou para o moreno. Foram juntos até a tal mesa, onde se acomodaram.
– Como vai, Minato-san? – O moreno cumprimentou estendendo a mão para um aperto, prontamente retribuído.
– Me pergunta isso como se eu estivesse aqui há meses. – Riu. – Estou bem, e já estou me adaptando. E com vocês? – Devolveu a pergunta.
– Tudo bem. – O moreno respondeu primeiro. – Fiz o que você me pediu. Entrei no meio da tal reunião e tomei posse do cargo de presidente. Eles devem me odiar, mas foi uma entrada triunfal. – Gabou-se, rindo em seguida.
– Eu estou bem também, obrigado por perguntar! – O loirinho falou com uma leve ironia. – Veja, eu e Kiba fizemos cookies! – Exclamou entusiasmado, mostrando-lhe a embalagem que comportava os biscoitos. Era um pode de plástico bem flexível, que lhe entregaram na entrada para que depositassem os mesmos ali. Questão de segurança.
– Fico feliz que esteja tudo dando certo. – Maneou a cabeça para Itachi, quase como um agradecimento. – E muito obrigado! A comida daqui não é de todo ruim, mas convenhamos que cookies caseiros são melhores. Não existem filhos melhores que os meus! – Gargalhou.
Ficaram mais algum tempo ali conversando, até Minato ter de voltar ao seu exílio. Minato e Naruto não se desgrudaram um minuto até terem de se separar obrigatoriamente, O loiro maior também passou algumas instruções e recomendações para Itachi, de como ele deveria proceder dali pra frente. Conversou banalidades com Naruto e pediu para, caso ele visse Mei, dizer a ela que sentia sua falta.
Despedidas, abraços e beijos depois, Minato voltou ao aposento que poderia chamar de lar, de posse de seus cookies. Sentou-se em sua cama para comê-los; o cheiro estava delicioso!
Mas, ele simplesmente não conseguiu. Lembrou-se que seu colega estava há muito sem comer, e isso lhe incomodou. Não parecia certo comer tudo sozinho. Ele nunca fora egoísta antes e não seria agora que agiria assim.
Tudo bem que puxar conversa com um criminoso de alta periculosidade não parecia algo muito agradável de se fazer, mas... Ele precisava.
Suspirou.
– Ei, está acordado? – O loiro gritou com toda a coragem que conseguiu juntar; não que fosse muita. – Pain, não é? Está acordado?
Longos segundos de silêncio. Um silêncio nada agradável. Minato chegara perto de se arrepender de seu chamado; achara que ia morrer ali mesmo. Talvez devesse ter soado menos agressivo.
– Estou de castigo por tentar arrancar a língua do último que tentou conversar comigo. – O ruivo respondeu seco e de forma arrastada.
– Não foi isso que eu lhe perguntei! – Minato rebateu indignado. Não que estivesse querendo bancar o "machão" para cima do outro; tinha amor à vida. Só estava indignado! – Se quiser arrancar minha língua, ótimo! Pinte as paredes com ela, se quiser, mas coma primeiro! O ronco do seu estômago chega a ser assustador e tá começando a me incomodar! – Ralhou irritado.
Se arrependeu logo em seguida.
Silêncio.
O ruivo não respondeu mais nada. A temperatura na cela parecia ter caído uns quinze graus, no mínimo.
Minato simplesmente gelou da cabeça aos pés quando, subitamente, Pain levantou-se com tudo da cama que estava deitado, indo em sua direção.
Geralmente, esse é o sentimento que assassinos sanguinários causam às pessoas as quais estão prestes a matar e retalhar.
O único porém foi o ruivo não conseguir se aproximar do seu alvo. Cambaleou direto para a parede. Ele ficara tonto e teve de se apoiar em uma das paredes da cela. Estava sem comer há algum tempo; estava fraco. Quando levantou-se depressa, acabou ficando tonto e mal conseguia distinguir as coisas ao seu redor. Sua visão ficara turva, seu corpo gelou e sua pressão caiu como uma pedra num lago.
Não que o fato de o colega ser um assassino tenha impedido Minato de agir como Minato.
Ele correu até o companheiro de cela para ampará-lo, antes que o mesmo terminasse seu caminho de encontro ao chão. O loiro deu-lhe apoio, e o guiou até a cama, para que ele pudesse sentar, já que estava fraco e desorientado.
– Aqui, coma isso! – Estendeu o recipiente com biscoitos a Pain. – Foram meu filho e meu projeto de filho quem fizeram! – Ditou com um sorriso singelo no rosto.
A verdade é que Minato ficara apavorado por alguns segundos, mas tudo parecia ter ido embora. Não sentia medo daquele homem que estava na sua frente; pálido e molenga, que mal conseguia levantar o braço.
Talvez voltasse a temê-lo mais tarde, mas mais tarde é mais tarde. Agora estava tudo bem.
O ruivo fitou o homem a sua frente, como se não entendesse o porquê de estar sendo ajudado. Pain realmente o mataria assim que pusesse as suas mãos nele. Fazia um bom tempo desde que alguém fora gentil consigo.
– Você não tem medo de mim? – Indagou frio, fitando Minato com o mais assustador dos olhares. Teve de levar a mão à cabeça, que estava latejando violentamente.
– Um pouco, pra ser sincero. – Confessou. – Porém, você é grande, mas não é dois. – Respondeu. Foi mais um devaneio do que uma resposta. – Você é assustador, mas não me parece uma má pessoa. Fora que está parecendo uma folha de papel, então não tenho muito com o que me preocupar agora. Aqui, coma isso. – Pegou um dos cookies e estendeu ao colega.
Pain deu uma risada seca, aceitando o que lhe era oferecido e comendo com voracidade. Estava faminto.
– Ou você é muito corajoso, senhor, ou é muito idiota. – O ruivo murmurou. – O que te leva a pensar que não vou arrancar seu fígado com os dentes?
– Eu sou idiota mesmo, obrigado. – Divagou, comendo um biscoito também. – Também não me chame de senhor; não sou tão mais velho que você. – Pausa. – E bom, comece pelo fato que estou lhe dando biscoitos. Deve ter uma regra de etiqueta que proíba arrancar com a boca o fígado de alguém que lhe deu biscoitos. Me parece antiético, pra você não?
Ambos ficaram em silêncio alguns segundos, para então se olharem gargalharem. Não que algo fosse tão engraçado. O ruivo teve de rir do jeito do loiro, e Minato riu de si mesmo. Riu da situação.
Fazendo piadinhas com assassinos. Muito engraçado.
– Sério, eu consigo arrancar seu fígado com os dentes. – Murmurou, voltando à sua pose séria.
– Eu consigo espirrar líquidos pelas minhas glândulas lacrimais, mas nem por isso fico me gabando, sabia? – Retrucou.
Outro momento de silêncio e outra gargalhada. Uma daquelas gargalhadas de chorar de rir.
– Escute, está se aproximando de mim por interesse em proteção aqui dentro? – Questionou o ruivo, de forma mais séria e direta, fitando o loiro que estava sentado ao seu lado.
– Não, eu nem tinha pensado nisso. – Minato refletiu consigo mesmo. – Na verdade, a única coisa na qual pensei foi em não deixar você morrer de fome. Por mais que você tenha cometido diversos crimes, não merece isso. Tenho um lado paternal bem desenvolvido.
– Hn... – Resmungou. – Você acreditaria, é... Hm...
– Minato. – Respondeu a indagação muda do ruivo.
– Você acreditaria, Minato, se eu dissesse que não cometi esses crimes de que me acusaram? – Fitou o loiro novamente, com um olhar compenetrado, mas que ao mesmo tempo, parecia distante.
– Claro que acreditaria. – Respondeu direto. – Não conheço sua história, só sei o que ouvi dos outros e li em jornais. Pode ser tudo um mal entendido, quem sabe... – Olhava um ponto qualquer do chão enquanto divagava. – Sabe, ninguém conhece um homem melhor que ele mesmo.
– Você pensa demais, Minato. Porém, você tem razão, eu acho. – O ruivo riu. – E parece um cara legal também. Há tempos não conheço alguém assim.
– Legal é meu nome do meio, Pain-sama. – Minato brincou, pegando outro cookie.
– E qual é o último nome, Sr. Minato Legal?
– Namikaze. – Respondeu, vendo o ruivo quase que arregalar os olhos e soltar um assovio, acrescido de um "uau".
–Então, o que um homem tão rico e influente como você está fazendo aqui? –Inquiriu o mais jovem, cruzando as pernas em posição de lótus.
– Longa história, meu caro Pain. – Massageou as têmporas. – Longa mesmo.
– Não precisa me chamar assim. – O ruivo chamou a atenção de Minato. Assim como? – Meu nome é Yahiko. É um prazer! – Estendeu sua mão grande para o loiro, em convite a um cumprimento, prontamente aceito.
– O prazer é meur, Yahiko... Preciso usar sufixos? – Perguntou erguendo uma sobrancelha.
– Nada de sufixos, Minato.
– Certo, tudo bem. Somos amigos, ou coisa do tipo, então. – Sorriu, e o ruivo maneou com a cabeça. Ficaram em silêncio comendo mais alguns cookies por algum tempo. – Ei, sobre esse negócio de proteção aqui dentro... –Murmurou pensativo. – Eu preciso voltar inteiro pro meu filho. – O ruivo deu uma risada curta.
– Não se preocupe com isso. – O ruivo o tranquilizou. – Me ensine a expelir líquidos pelos olhos que estamos quites. – Brincou, e Minato riu.
–Obrigado. Se tiver algo que eu possa fazer por você, peça, qualquer dia desses. – O ruivo assentiu novamente.
– Então você tem um filho, né? – Indagou para continuar o assunto, recebendo um maneio positivo do outro. – Quantos anos? Deve ser um bom garoto.
– Ele está com 16, já é um homenzinho. – Riu de si mesmo. Acabara de soar como um velho cafona. – E é a melhor coisa que já me aconteceu. E sabe, ele é muito inteligente, também. É meu orgulho!
– Fico feliz por você, de verdade. Eu prometo tomar conta de você aqui dentro, para que possa voltar pra ele algum dia. – Estendeu novamente a mão para o loiro.
Minato não demorou a apertá-la novamente e lhe agradecer.
Era algo de família conseguir cativar as pessoas tão facilmente. A verdade era que Minato não conseguia ficar sozinho, sem interagir com alguém, então fazia o possível por uma boa companhia. Não pensava no que fazia e sempre conseguia acertar em cheio, como nesse caso.
Nos dias que se seguiram, os dois conversavam bastante, mais sobre assuntos banais. Não falavam muito de si mesmos, mas gostavam de dissertar banalidades juntos. Era quase uma terapia para tornar os dias de cárcere mais toleráveis.
No primeiro dia útil da semana que seguiu a prisão de Minato, todos se forçaram a voltar à rotina. O próprio loiro mais velho também cumpria o que agora era sua rotina.
Naruto acordara cedo e se arrumara para a escola, junto a Kiba e Gaara, que, eventualmente, estavam com ele.
Teria consulta com Sasuke à tarde, mas não iria. Não estava com cabeça para isso, e muito menos conseguiria olhar nos olhos do moreno depois do pequeno acontecido de noites atrás, o qual dividia espaço em sua mente com o fato da prisão do pai.
Tudo estava confuso.
Naquele dia e naquela semana também, tivera de ouvir piadas e comentários maldosos a respeito de seu pai, mas fez de tudo para ignorá-los. Sabia que nada daquilo era verdade.
Contrariando expectativas, nenhum destes insultos veio de Neji. Na verdade, naquela semana, ele quase passara despercebido, se não fosse pela mão enfaixada e pelo olho levemente arroxeado.
E o tempo transcorreu dessa maneira tranquila, na medida do possível.
Minato não estava tendo problemas na cadeia. Fizera amizade com o homem mais temido daquele lugar.
Não entedia o motivo de os prisioneiros temerem Pain, pois este era um cara legal. Tudo bem que ele ostentava uma pose assustadora, mas... né! É, até que era compreensível!
Muitos diziam que o fato de Minato ter se aproximado dele era apenas por interesse, para ser protegido, mas ele e o próprio Pain sabiam que não era isso.
Quanto a Naruto e Sasuke, nesse meio tempo: não teve muita coisa.
Nos primeiros dias, Naruto estava evitando o moreno. Sua timidez era tanta que não conseguia pensar na possibilidade de olhar no rosto dele novamente.
Porém, quando decidiu finalmente conversar com Sasuke, era um pouco tarde. Não que o moreno não quisesse, mas ele não podia. Fora chamado de ultima hora e em caráter emergencial para participar de uma missão humanitária, em um país que havia sofrido com catástrofes naturais.
Precisavam de bons psicólogos para ajudar. O moreno recebeu o convite e partiu na mesma noite, sem tempo de se despedir formalmente. Deixou uma carta explicando tudo.
O loirinho ia visitar seu pai constantemente. Visitava Mei também, porque sentia saudades de sua figura materna.
Itachi também ia bem, obrigado.
Passara algumas noites em claro, mas já tinha pegado o ritmo da vida de presidente de corporação. Minato tinha lhe confiado seu império, ele não podia vacilar.
Não era a figura mais querida entre os membros do alto escalão, principalmente pela parte de seu pai, mas estava se saindo bem. Estava motivado a isso. Estava sempre com um olho na empresa e com um olho em Naruto, zelando pelo seu bem estar.
Kiba e Gaara também estavam bem. Pareciam casados! E com um filho, inclusive, porque Toboe era responsabilidade total dos dois. Um cuidava do outro e os dois cuidavam do cãozinho. Claro, Tsume ainda dava puxões de orelha em Kiba quando ele se portava de maneira mais rude, mas isso só servia para causar risos no ruivo.
O passar do tempo trouxe com ele o Daisetsu, período de neve constante, sendo seguido pelo inverno e, consequentemente, pelo Natal. Uma época mágica, para a maioria.
As luzes, as comidas, os enfeites, a árvore de natal, o espírito de amor e compaixão que tomava o mundo... O dia em que os humanos hesitavam em agir como humanos. O sentimento de bondade preenchia as ruas e também os corações, mantendo-os aquecidos do frio rigoroso.
Uma época para ficar com a família ou com quem se ama, e, por isso, é compreensível o fato de Naruto não estar muito empolgado com a data.
Ele adorava o Natal pelo fato de ser um dia que passava com seu pai, desde que acordava até ir dormir. Um dia em que os dois aproveitavam cada momento juntos. Era triste não tê-lo por perto. Tudo parecia mais melancólico.
E não era só Naruto que pensava assim.
Minato, em sua cela, pensava a mesma coisa. Passaria o dia com seu novo amigo, celebrando com biscoitos de chocolate, que Naruto lhe trouxera logo de manhã cedo, e com uísque, que Pain, havia conseguido de algum outro preso. Não era um Natal dos sonhos, mas seria divertido. Havia ficado com seu filho por cerca de uma hora, e ver o sorriso dele, já fazia seu dia valer a pena.
O loirinho acabara de almoçar, e estava jogado na cama do quarto que atualmente chamava de seu. Kiba havia saído com a mãe e com a irmã para comprar o que ainda faltava para a ceia, então a casa estava silenciosa em demasia. Exceto pelos barulhos de passos apressados.
– Naruto! – O ruivo, que abrira a porta de supetão, chamou aos berros. – Vou ir ao shopping comprar alguns presentes! Esqueci totalmente disso! Vem comigo? – Convidou afobado. O loiro estava pronto para recusar o convite, mas pensou duas vezes e assentiu. Não seria ele o “Grinch” da família, ficando cabisbaixo no Natal, apesar de ter motivos sobrando para isso.
Levantou-se, foi até suas malas para procurar agasalhos e um sobretudo, e saiu com o ruivo, que estava tão ou mais agasalhado que ele. O inverno estava rigoroso. Com bastante neve e frio. Sair na rua era só para loucos ou para garotos que haviam se esquecido de comprar presentes para as pessoas que amam.
Enfrentaram a neve a pé mesmo, e quando chegaram ao centro de compras, não hesitaram em correr para as lojas e fazer a economia girar. Desde chocolate e flores até perfumes; nada era demais para eles. Compraram o presente de cada um visando o gosto deles. E mais, nada melhor do que fazer compras para se animar. Correram para cima e para baixo, rindo e conversando para matar o tempo, até voltarem para a casa, com várias sacolas a mais.
A noite foi chegando, e a movimentação também. Os três garotos, juntos de Tsume e Hana preparavam tudo para a ceia, que sedeariam em sua casa. Queriam fazer tudo com o clima mais “família” possível, então estavam se dedicando ao máximo e todos estavam convidados.
Com o correr das horas, o cheiro das mais diversas comidas impregnavam o ar, fazendo os estômagos se revirarem de desejo. E haviam cada vez mais estômagos aflitos, pois os convidados não tardavam em chegar para a ceia. E não eram poucos!
A casa ficou barulhenta com a chegada de Itachi, Konan, Sasori, Tenten e claro, da sempre discreta Mei, que veio acompanhada de Kurenai, Asuma e da pequena Haruka, filha dos dois.
E contrariando as expectativas de Naruto, ele tivera uma noite de véspera de Natal muito animada. Ficou sentado ao piando boa parte do tempo, tocando clássicos natalinos e outras canções, quebrando a monotonia.
Tsume corria para cima e para baixo, servindo a mesa e claro, apesar do frio que fazia, preparando drinks para animar ainda mais os convidados. "Nunca é frio demais para encher a cara!", é o que ela dizia; lê-se berrava.
Fora uma noite repleta de comida, bebida, risadas, presentes e surpresas, tudo temperado com aquele clima natalino gostoso, de amor e fraternidade.
E por falar em surpresas, pouco antes de começarem a cear, uma bem agradável bateu à porta. Sasuke voltara de viagem sem avisar ninguém e viera para se juntar a comemoração. Trouxera presentes para todos, é claro.
O loirinho, no auge de sua timidez, não sabia como reagir à presença do moreno, pois não sabia exatamente a que pé estavam. Sasuke esperava por isso, então não forçou muito contato, mas também não o ignorou. Entregou o presente ao menor e deu-lhe um beijo na bochecha, desejando-lhe um feliz Natal. Estava virando um especialista em lidar com o loirinho, então, sempre sabia o certo a se fazer.
Era uma celebração diferente para todos. Nunca haviam ceado com tantas pessoas diferentes e num clima tão acolhedor quanto aquele. Uma família composta pelas mais diferentes pessoas. Precisariam repetir a dose no próximo ano. Porém, da próxima vez, seria na casa dos Namikaze, na presença de Minato.
E falando novamente de Minato, o whisky barato tinha lhe deixado mais comunicativo. Passara as últimas horas sentado com seu companheiro, comendo e bebendo.
Não era a mais natalina das noites, mas estava valendo. Depois de ficar algum tempo apenas fitando as fotos que tinha consigo, acabou contando um pouco mais sobre o que eles passaram quando Kushina os deixou. Na verdade, nunca se referiu a ela como Kushina, mas sempre por algum adjetivo depreciativo. Falara sobre Naruto e o que ele passara, e também sobre Mei.
– Sua vida não foi fácil, amigo. – O ruivo comentou, dando um gole na bebida que tinha em mãos. – És um homem nobre. E também sortudo, porque porra! Terumi Mei é uma deusa! – Não conseguiu segurar o comentário.
– Muito obrigado e é, eu sei! – Comentou aos risos. Estava bem alegre por conta da bebida. – Mas e quanto a você, o que te faz querer viver? – Inquiriu curioso, recompondo-se. – Você lida bem com a pena perpétua que carrega nas costas.
– O que me move e me faz querer viver, é o desejo de vingança. –Respondeu com os pensamentos um tanto distantes. – E também, o desejo de rever meus amigos.
– Isso foi meio assustador. – Riu anasalado. – Vingança contra quem?
– Contra o homem que me traiu e me jogou aqui, nesse inferno... – Murmurou de forma tenebrosa. – Ele quase ferrou todos os meus companheiros também, então não tem nada que eu queira mais do que por minhas mãos nele.
– Quer me contar mais? – Indagou o loiro, com sua curiosidade natural. – Quer dizer, é bem pessoal, mas se quiser...
– Claro, sem problemas... – Assentiu cortando o loiro, ajeitando-se de um jeito mais confortável. – Acho que vais ser a primeira pessoa que ficará sabendo disso, sabia?
– Acho que me sinto honrado, então. – O ruivo riu, e deu início ao seu relato, em seguida.
– Eu era líder de uma organização conhecida como “Akatsuki”, acho que disso você deve saber, certo?
– Sim, sei. – Puxou um pouco pela memória e respondeu-lhe. – Ouvi algo sobre "o terror que Amegakure viveu sob a ameaça da Akatsuki". – Completou contemplativo, fazendo aspas com as mãos. – Mas, de todo o grupo, só você foi preso... Por quê?
– Eu vou chegar lá. – Deu um gole na bebida de tom laranja escuro. – Primeiro, tenho que lhe dizer que, do contrário do que todos pensam, a Akatsuki não era uma organização criminosa, exatamente. – Minato ergueu uma de suas sobrancelhas. – Éramos um grupo que, inicialmente, presava pela ordem e pela paz, não importando os meios para chegar a ela. Os fins justificariam os meios.
– O que quer dizer, exatamente? – O loiro perguntou confuso.
– Que chegamos de fato a matar para conseguir a paz. – Confessou, causando um arrepio no loiro. – Mas, as mortes que levam “minha assinatura”, são mortes apenas de criminosos, que o mundo é melhor sem. Apenas a escória.
– Eu ouvi uma história de sequestro de inocentes e assassinatos sem motivos aparentes. – Contou Minato. – De homens influentes que, aparentemente, não eram criminosos.
– E elas são verdadeiras. – Afirmou. – Porém, são fruto de uma lenta e dolorosa facada nas costas que levei. – Ironizou. – Eu tinha um braço direito. O grupo era formado, em sua maioria, de jovens rebeldes, com desejo de justiça, ou seja, não eram fácil de por ordem! Nós passamos anos juntos. Cada um deles era especial. – Ditou de forma nostálgica. – Em pouco tempo, éramos uma das “gangues” mais temidas da cidade de Amegakure e região. – Gabou-se. – Enfim, não ganhávamos muito com isso. Caçar criminosos gera inimigos, e não dinheiro.
– Espere, eu ainda não sei se entendi...
– Nós investigávamos crimes e ações suspeitas, de todos os tipos e de todos os tipos de pessoa também. – Pensava num meio de tornar a explicação mais simples. – Se encontrássemos provas, mandávamos um aviso para que parassem ou revertessem o que estavam fazendo. Se o aviso não era cumprido, era o fim da linha para eles. Traficantes, membros de gagues, sequestradores, executivos com as mãos sujas... Todos eles.
O ruivo buscou os olhos do loiro com os seus. Ele não encontrou medo lá, como imaginou. Minato era mesmo um cara legal.
– Isso muda muito minha perspectiva sobre vocês, devo reconhecer. Achei que vocês matavam por matar. – Minato pronunciou-se. – Mas, e os crimes hediondos contra inocentes?
– Já estou chegando lá. – Pigarreou. – A falta de retorno financeiro, para mim e para a maioria dos membros, não era problema. Não fazíamos por dinheiro. Porém, esse meu “braço direito” não pensava assim. – Falou com certa raiva na voz. – Como éramos mercenários, muitas pessoas entravam em contato conosco, procurando nossos serviços. Era algo natural. Vinham pedidos inescrupulosos também, mas nós fazíamos uma seleção e filtrávamos. Como cada membro era independente o suficiente, escolhiam alguns trabalhos e os faziam sozinhos ou em duplas, mas os “trabalhos grandes”, que precisariam do time inteiro, fazíamos juntos. – Sorriu, ao lembrar de algumas cenas. – Cara, nós chegamos a exterminar gangues inteiras em uma noite...
– Isso parece fantástico, de certa forma! Meio assustador e macabro, mas fantástico! Senti até vontade de fazer parte da Akatsuki. – O loiro ditou divertido. – Vocês eram incríveis! Mas por favor, continue.
– Bom, nós aceitamos o ódio e o medo das pessoas para manter o mundo no seu eixo. Pode parecer meio utópico um grupo de garotos querendo trazer a paz para o mundo, mas esse era nosso desejo. Fazíamos a nossa parte. – Suspirou. – Mas, muita coisa mudou quando recebemos um trabalho dos grandes, vindo de uns caras importantes e estranhos. Pediram para nós encontrarmos e capturarmos algumas pessoas, nenhum criminoso entre, e para isso, nos ofereceram uma quantia altíssima de dinheiro. Digo, muito alta mesmo! – Fez questão de enfatizar.
– E vocês aceitaram?
– Não, nunca! – Pain exasperou. – Era um trabalho ridiculamente cruel, porque eram pessoas inocentes, tendo até criança no meio. – Ditou com asco. – A maioria do grupo se negou, mas alguns, movidos pela ganância, queriam aceitar. Discutimos feio aquela noite, mas a maioria prevaleceu, e nos negamos a fazê-lo. Ou mais ou menos isso.
– Como assim mais ou menos? – Minato estava mais curioso que o normal.
– Esses membros que votaram por aceitar o trabalho, junto com o rapaz que atuava como meu braço direito, aceitaram o serviço pelas minhas costas. – Confessou, surpreendendo Minato. – Foram atrás dessas vítimas, caçando e raptando as que achavam, deixando uma trilha de mortes e de pânico. O mais engraçado é que nós decidimos ir atrás dos responsáveis por esses crimes, sem saber que eram nossos próprios companheiros, que fingiam estar interessados em solucionar esse mistério também. – Minato podia sentir o ódio exalando do colega.
– Isso é quase inacreditável! – O loiro também estava indignado. – Isso é cruel e muito baixo.
– Nem me fale, loiro. – Riu com escárnio. – Sabe, a polícia nunca conseguiu nem sequer chegar perto de nos pegar. Éramos fantasmas. – Riu prepotente. – Mas, uma noite dessas, uma reunião fora convocada, e quando estávamos eu e os outros estávamos no local, vimos uma carta assinada pelos traidores, contando o que haviam feito, e que o prédio estava cercado pela polícia. – Contou em tom pesado. – Eu não podia deixar que prendessem aqueles garotos. Muitos eram de famílias importantes, sabe? Levavam a vida de “Akatsuki” às escondidas.
– Você...
– Antes da polícia invadir, ordenei aos meus companheiros para que fugissem por uma passagem, a qual só eu tinha conhecimento. Eles se negaram, mas eu os obriguei. Eu fiquei e assumi a culpa sozinho. – Bebeu um gole do destilado. – Tentei levar os membros que nos traíram comigo para a prisão, mas não acreditaram em mim, porque disseram que eu apenas queria me vingar dos bons homens que me puseram na cadeia. – Riu com escárnio outra vez.
– Quando eles viram você sozinho... Por quê eles não deduraram os outros que estavam do seu lado?
– Eles nunca quiseram, de fato, levar todos para a cadeia, somente eu. Era pessoal. – Suas palavras pareciam pesar toneladas.
– Eu não sei o que dizer, essa história é... Nossa! – Minato estava um tanto embasbacado, não falava mais coisa com coisa. Efeito da bebida, também. – Não estava errado em achar que você é um grande homem. Apesar de tudo, você foi e ainda é uma pessoa nobre.
– Obrigado, Minato. Eu agradeço por pensar isso de mim. Significa muito! – Agradeceu, levantando-se e se alongando um pouco. – Mas, eu não pretendo ficar a vida toda aqui. Ainda terei minha vingança, custe o que custar. – O homem disse em tom sério. – Mas enfim, eu tô podre. Boa noite, Minato.
– Boa noite, Yahiko. Obrigado por confiar em mim. –O loiro ditou, recebendo um maneio de cabeça em resposta. Sorriu, e depois disso, deitou-se em sua cama. – Conte comigo se precisar de ajuda. Tanto aqui dentro, como para fugir e mesmo lá fora. E se eu sair daqui antes que você, pode apostar que te tiro daqui. – Minato falou de maneira séria e determinada, como nunca antes, na verdade.
– Não tenho muito a oferecer, mas conte comigo para qualquer coisa também, cara. – O ruivo sorriu.
– Boa noite – O loiro também sorriu. – Acho que já passou da meia-noite, então Feliz Natal, Yahiko.
– Hm... Feliz Natal, Namikaze Legal Minato. – Debochou, recebendo uma risada anasalada em resposta. – Você daria um ótimo Akatsuki...
Nada mais se ouviu, além do onipresente som do silêncio.
Uma amizade inusitada, mas uma amizade verdadeira. Uma das mais puras e verdadeiras que o loiro, com esse seu jeito bobão, já havia conquistado.
Sentia que não estava mais sozinho ali. O Namikaze sentia que estava em família.
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