Insanity
6 Six
Notas iniciais
Mas não vou ficar aqui falando (até porque meu pulso tá doendo horrores ainda).
Obrigado infinitamente à Amanda Lins, que recomendou a fic. Isso porque ela só tinha lido até metade do capítulo quatro (antes de todo mundo, cof-cof). Obrigado mesmo, muito, sempre. Imagine todo meu agradecimento e muito além disso.
Enfim, vamos atualizar a bagaça.
O tanoshimi. Enjoy ♥
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Ele aos poucos foi despertando do torpor de uma longa noite. Não dizia a ninguém que usava os remédios para insônia do pai — em uma quantidade alarmante. Seria seu segredo. Não. Não apenas seu mas assim como de seu novo amigo.
Assim como nos vinte dias anteriores àquele, estava ansioso para revê-lo. Queria contar o que sonhara e dar-lhe uma resposta que ele julgava importante, por mais que o outro não houvesse perguntado nada daquele tipo.
Desceu as escadas de dois em dois degraus, contente por estar tão bem naquele dia, o que era raro de acontecer. Geralmente ele ia dormir indisposto porque sabia que o dia seguinte seria um inferno novamente. Não gostava de ouvir as outras crianças falando e rindo dele e tinha de suportar. Mas não naquele momento. Ele tinha um amigo, finalmente!
Sentia-se quebrando mil regras e que fugia a toda vez que ia até aquela casa duas quadras acima da sua. Era como um delinquente, apesar de não saber ao certo o significado da palavra.
Naquele dia, após a escola, foi direto para a casa que julgava ser ótima e assustadora — não o bastante para intimidá-lo. Não dera falta de seus pais e nem de seu irmão ou da noiva. Quase não os via de manhã e aquele dia não foi exceção.
Entrou na casa sem bater e sem esperar um convite. Sabia que era sua aquela casa — ele lhe dissera inúmeras vezes.
Andar por entre os corpos espalhados e putrificados não lhe assustava mais. Era ainda mais emocionante andar por entre eles. Sentia-se imensamente orgulhoso por não ter medo desde o começo. Inclusive o outro o havia elogiado demais por isso. Lembrou-se com satisfação e um sorriso inocente no rosto que o novo amigo ficara impressionado pela coragem do jovem.
Chamou-o algumas vezes e não obteve respostas. Voltou para a sala e ficou encarando-a como se esperasse receber uma resposta de súbito, caída dos céus como sua mãe sempre dizia. Sentou-se no sofá e ficou encarnado o chão. Quando levantou os olhos por ouvir um som, deparou-se com um bilhete no chão. Parecia ser para ele.
Foi até ele e o pegou, lendo-o atentamente.
Seu sorriso de súbito morreu. Suicídio? Não era aquela coisa que tira a vida das pessoas? Por que ele faria uma coisa daquelas? Ele tinha de limpar o mundo, já que ninguém mais o faria.
Ignorando o aviso para que não o encontrasse, começou a vasculhar cada canto da casa a procura do amigo. Talvez pudesse salvá-lo, talvez não fosse tarde demais para ajudá-lo. Arrependia-se amargamente de não ter ido à casa mais cedo, como fazia todos os dias antes de ir para a escola. Por que não fizera aquilo naquela manhã? Mal notou as lágrimas que se formavam ao sentir o desespero subir cada vez mais. E a culpa, claro. Sempre a culpa.
Quando foi ao primeiro andar depois de já ter revistado todo o térreo, o primeiro lugar que procurou foi no quarto dele. Deveria ser mentira, só podia ser! Era só um jogo dele para assustá-lo, talvez medir sua coragem? É, ele queria ver até onde chegava a coragem de Gerard. Não estava morto, claro que não.
Com pensamentos daquele tipo, investigou o quarto e tentou apurar a audição para não ser pego de surpresa pelas costas. Tinha esperanças de que fosse um ataque surpresa que o outro estava planejando. Virou-se de costas várias vezes para certificar-se de que não seria pego desprevenido mas em nenhuma das vezes o viu.
Depois de olhar o quarto, foi para o banheiro. Abriu a porta com receio e então engoliu em seco ao ver aquilo.
Ele estava submerso na banheira e ela chegara a transbordar um pouco. Mas a água estava vermelha; por quê?
Tentou manter viva a esperança de que ele lhe surpreenderia daquela forma. Mas nada. Esperou alguns minutos — vinte, vinte e cinco, uma hora — e nada. Então permitiu-se chorar.
Agarrou-o pelos ombros e o puxou para cima usando toda sua força. Um de seus braços pendia para fora da banheira, deixando o piso escorregadio com um líquido vermelho viçoso. Seria sangue? Por quê? Lembrou-se de quando se machucara certa vez no último outono e que não fora nada agressivo, apenas uma ou outra gota de sangue. Então por que seu corpo estava tão branco e aquele sangue todo no chão?
Tocou o ferimento e não sentiu outra coisa senão dor. Dor por perder seu amigo. Agora sabia tudo por conta própria: que suicídio era quando se tirava a própria vida, que fazer aquele tipo de corte e com aquela profundidade levava à morte. Duas formas de suicídio juntas.
Averiguou e viu que no outro antebraço havia o mesmo corte e parecia tão crítico quanto o outro. Então aquilo contava como suicídio triplo?
Abraçou-o e ajoelhou-se no chão, pouco se importando com suas roupas e o sangue. Permitiu que suas lágrimas corressem livremente.
Quando estava finalmente mais calmo e não havia mais o que prantear, talvez umas duas horas depois, levantou-se e sentiu-se fraco. Voltou para a sala e olhou o lugar mais uma vez quando constatou um pequeno bilhete ao lado da televisão e com uma fita de vídeo ao lado. Só havia uma palavra, uma ordem e um pedido: assista.
Ele o fez e esperou que aquele vídeo dissesse que ele estava sendo procurado e que precisara fugir, que aquela pessoa na banheira era um desconhecido e que serviria como falso suicídio. Alimentou mais aquela centelha de esperança, respirando fundo e colocando a fita no aparelho.
Afastou-se um pouco e ajoelhou-se no chão, sentado sobre as panturrilhas. Assistia àquelas cenas como se fossem o melhor filme de sua vida. Infelizmente não era.
Ao fim do filme, correu de volta para casa e, aos gritos, chamou pela família. Ninguém respondeu. Naquele horário já eram para estar de volta e preocupados com o sumiço do filho mais novo.
Viu do lado de fora um casal descer do carro. Pareciam aflitos e sabia que não eram seus pais; eram velhos demais para ser.
Quando o casal entrou na casa e viram o menor naquele estado, pareciam prestes a morrer. Gerard não sabia como estava, mas deveria estar em um estado melhor que sua avó, abraçando-o tão forte que parecia querer sufocá-lo.
Então teve medo. Teve medo de que sua avó quisesse matá-lo daquele jeito, talvez por saber que era amigo de um assassino e que aquilo era tão errado quanto ser o próprio. Talvez estivesse punindo-o pelo tempo que passou junto ao homem que colecionava corpos e vídeos de suas ações.
— Você está bem, graças à Deus — dizia a cada momento, nunca largando-o.
Então esqueceu a ideia de que ela queria matá-lo. Se queria mesmo vê-lo morto, por que estava dando graças por ele estar vivo?
— Solte — ordenou com a voz embargada. Ainda sentia com a perda do amigo. Ainda não lhe caíra a ficha de que sua família fora assassinada pelo seu melhor amigo.
No fundo, ele começou a concordar com o que viu ao final da filmagem: seus pais lhe restringiam a liberdade não deixando-o fazer amigos. Tirar a liberdade de uma pessoa deveria ser o pior crime do mundo.
E então entendeu também porque tinha uma resposta para uma pergunta nunca antes feita: ele o fizera enquanto dormia. Ouvira mesmo que inconscientemente e tinha uma resposta.
— Eu sinto muito... Você está bem? — ouvia-a perguntar-lhe diversas vezes e, como não obtinha respostas, perguntava mais mil vezes.
— Estou ótimo! — bufou e afastou-se da mulher que tentava ampará-lo.
Então ambos explicaram que sua família estava morta por um homem que fugira e que não deveria ser denunciado, caso contrário pagariam com as suas vidas. Como eram as únicas pessoas na vida do mais novo, preferiram não fazê-lo. Contaram também que receberam um vídeo mostrando o homem matando a família na noite anterior.
E ele cortara a parte em que ninara o menor e o protegera.
— Mas vai ficar tudo bem, vai ver. Ainda pode ser feliz e será — ela murmurou com um esboço de sorriso nada confiável.
— Não quero ser feliz, eu o quero — retrucou irritado.
— Ele quem, meu amor?
— Ele, ele, ele! Quero a ele! Tragam-no de volta! Agora!
— Está falando de seu irmão ou de seu pai? — o avô perguntou.
— Dele, droga!
E ficou pedindo-o por um bom tempo enquanto seus avós arrumavam suas coisas para levá-lo embora.
No começo da noite ele fugiu e voltou para aquela casa. Seria sua última vez ali e queria se despedir de tudo. A começar por ele.
— Eu te desculpo. Isso não me fez mal. O que me fez mal foi perdê-lo, mas vou ficar bem, não vou? Assim como prometeu à mamãe? Você disse que eu ficaria, vai cumprir com sua promessa?
E passou mais um bom tempo conversando com ele. Foi ao quarto e pegou uma coberta. Deixou com que a água saísse e o cobriu, beijando-lhe a testa como ele sempre fazia. O que aquilo significava? Amor, adoração, amizade...? Proteção! Fora uma das primeiras coisas que ele lhe ensinara.
Após despedir-se de toda casa por completo, pegou a fita e a carta que lhe deixara. Seriam seus maiores tesouros e sempre reveria aquela fita porque ali era o único lugar em que podia vê-lo por mais um momento e com a vantagem de que quando o ninara retirara o que lhe cobria a cabeça. Podia ver sua expressão forte e os cabelos louros curtos.
Passou pela cozinha a fim de trancar todas as portas com as chaves do molho que ele guardava na primeira gaveta do balcão ao lado do fogão. Quando foi trancar a dispensa, viu que esta não trancava. Decidiu abri-la para ver o que lhe impossibilitava de fazê-lo.
Quando abriu, quatro corpos caíram um sobre os outros. Reconheceu-os de imediato. Seus pais, seu irmão e a noiva... Todos mortos.
Ficou olhando para aquela cena e deu de ombros. Usou mais uma vez toda sua força para jogá-los novamente dentro da dispensa. Manteria tudo do jeito que ele deixara. Não queria que ele visse que estava bagunçando sua casa.
Quando terminou de trancar todas as portas e dizer mais uma vez adeus, se foi, levando consigo a fita, a carta, o molho de chaves da casa e algumas fotografias que tiraram juntos.
Seu maior tesouro, sem dúvida.
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Isso foi há vinte anos.
Notas finais
Avisem-me nas reviews, ÚNICAS DUAS PESSOAS QUE ESTÃO COMENTANDO LINDAMENTE.
Gemt, que indireta tão direta... Estou perdendo o jeito ~risos~
Kissus. Way.
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