Insanity
1 One
Notas iniciais
Porque adoro postar fic e eu vou tentar fazer de tudo para esta não cair em um hiatus.
O tanoshimi. Enjoy ♥
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Não era incomum encontrá-lo manchado com seu próprio sangue. Era incomum, na verdade, que ele não estivesse manchado de rubro. Isso era mais do que comum.
Naquela noite, como todas, ele estava olhando-se no pequeno espelho que havia no banheiro na suíte. Arranhou a superfície mais uma vez, não sabendo por que exatamente fazia isso — pela terceira vez —, mas gostou quando viu o cenho franzido do reflexo lhe encarando como se não gostasse do que ele fizera anteriormente. E fez mais uma vez, ouvindo um rosnado baixo se formando no fundo da garganta e que crescia um pouco mais. Até que parou.
Fechou os dedos em um punho tenro, o pulso tremeu uma vez e manteu-se firme no vidro do espelho. Observou os olhos do estranho que não pareciam com os seus de forma alguma — o que todos diziam — e afastou o punho alguns centímetros. Em seguida, com uma velocidade que ele não reconhecia, chocou o golpe do vidro frio e viu com alegria o espelho quebrar-se em mil pedaços em reação a sua ação.
Pegou um dos pedaços de vidro entre os dedos e o analisou com cautela, revirando-o vez ou outra e ainda captando alguns vislumbres daquele estranho que era semelhante a ele — apenas na aparência. Repuxou os lábios em desgosto e deixou com que o vidro corresse firmemente em seu ombro, rodeando aquela área desnuda e já marcada. Ele pouco se importava com isso. Apenas o fazia porque ali sentia alguma coisa, algo diferente do que sentia se a morte corria em seus pulsos ou em qualquer lugar; cada canto era uma sensação diferente. E é claro que ele gostava disso, da sensação de controlar suas reações dependendo de onde deixava correr a navalha — ou vidro, pouco lhe importava aquele detalhe mísero. Ele gostava da sensação de poder se controlar, de tentar se manter firme em uma razão que adquirira.
Que razão era aquela? Ele não sabia, na verdade. A cada dia ela mudava um pouco mas tentava permanecer inteiro — em vista que aquilo era impossível.
Olhou de relance para a porta e viu aqueles olhos lhe fitarem com ódio e profundo desespero, misturados em tantos sentimentos que mal se conseguiam distinguir — menos aqueles que eram tão proeminentes. Os lábios repuxados em uma espécie de sorriso bestial e uma pose retorcida de dor; dor que ele não sentia e que lhe consumia de fora para dentro, mas de dentro para fora também.
Em um reflexo rápido, deixou com que o pedaço de vidro caísse no chão, manchando-o de sangue — mais do que já estava manchado — e caiu de joelhos no chão, apoiando as mãos sobre os cacos do espelho que ainda jaziam ali esquecidos, pouco se importando se isso lhe faria algum mal ou não — pouco lhe importava!
Aproximou-se mais um pouco do espelho intacto grande que ali havia e receou em tocar no reflexo que lhe encarava com desgosto e visível raiva.
Levou uma das mãos ensanguentadas ao rosto e desviou duas lágrimas que lhe traiam, vendo o rastro vermelho cobrir sua face direita. Soluçou uma vez e calou-se.
Levantou-se de súbito e olhou ao redor, arfante e com dores em seu tronco — não sabia ao certo por que.
Aos tropeços, deixou o caos em seu banheiro para trás e procurou respirar fundo, lançando as mãos ao rosto e sentiu algo em seu antebraço latejar e fisgar. Quando olhou para onde a dor provinha, constatou um corte vertical que ia desde a dobra do cotovelo ao pulso.
Aquele rosnado bestial novamente se fez presente e vislumbrou aquela imagem lhe encarar com ódio e repulsa com os lábios retorcidos como uma fera.
Deixou o apartamento para trás, tropeçando os passos para trás, porém nunca desviando o olhar do que estava deixando para trás. Ali dentro haviam coisas que o assustavam e visões que o desnorteavam.
Cambaleante, ele andou pelas ruas agitadas da cidade de New York, a respiração descompassada e a vista turva.
Procurava não olhar para quem passava ao seu lado para não ver os olhares que lhe dirigiam e que eram talvez tão assustadores quanto aqueles que sua imagem semelhante lhe lançava. Não eram piores, nunca seriam, entretanto assustava também, não poderia menosprezar.
Vislumbrou ao longe — ou talvez estivesse perto, já não sabia mais — as luzes fortes do centro hospitalar. Gemeu e sentiu suas pernas fraquejarem.
Ouviu então aquela voz vinda do fundo... Bem do fundo de sua mente e que ia tomando mais espaço a cada segundo:
— Você é patético. Tem medo de ser dominado e sabe disso. Tem medo de tudo e é fraco. Fraco. Patético...
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Uma das enfermeiras o viu caído não muito longe da entrada do hospital e não sabia o que ele tinha até chegar mais perto e constatar que seu pulso aberto estava deixando com que muito sangue saísse. Julgou ser apenas um bêbado ou drogado que por ali havia — era constante — mas achou que algo estava errado ali.
Não muito tempo mais tarde ela constatou que ele estava bem e ligou para o psiquiatra do hospital.
— Ele ainda não acordou — ela informou.
Continuava olhando-o e ouvia grunhir coisas vez ou outra, coisas incompreensíveis e até banais — para ela.
— Só estou dizendo que seria interessante para você se pudesse vir olhá-lo.
O psiquiatra consentiu e disse que chegaria em breve, mesmo não sendo seu plantão. Garantiu que o olharia mas só porque ela o instigou a fazê-lo. Todos sabiam como ele era: caso precisassem dele, bastava atiçar sua curiosidade que ele avaliaria o caso. Não era sempre que ele pegava alguma coisa e aquilo o dera respeito e prestígio — ele apenas pegava casos que lhe desafiassem.
Ela ainda ficou mais um tempo no quarto do estranho — não havia um nome, não havia uma idade ou qualquer coisa. Não era todo dia que algo daquele tipo ocorria naquele hospital e era, de certa forma, excitante.
Não que ela estivesse interessada naquele homem de cabelos pretos e a tez branca e tão danificada, pelo contrário. Ela já tinha alguém e esse alguém se chamava Anne — sua Annie. A conhecera naquele mesmo hospital há alguns anos quando ela dera entrada após ter sofrido uma batida de carro e estava grávida. Felizmente as duas se salvaram — foram salvas. Após isso, Anne e a enfermeira — Mary Lee — começaram a se conhecer melhor; Mary Lee passava o dia cuidando da pequena Claire, aquilo a alegrava e era um sentido em sua vida praticamente vazia. Naturalmente, os sentimentos foram mudando mas não da forma como estava acostumada: Mary Lee começava a sentir algo por Anne. Levou um bom tempo até que seus sentimentos fossem correspondidos mas elas nunca perderam a amizade.
E, naquele momento, ela afagou a aliança de ouro que jazia em seu dedo e recordou de sua esposa e sua filha — Claire era uma garota que entendia tudo, mesmo com seus cinco anos de idade — e sabia que coisas daquele tipo aconteciam. Na verdade, quando dizia aos amigos o nome da sua mãe, ficava orgulhosa em dizer o nome das duas mães. Para elas o mundo era perfeito.
Pensando naquilo, Mary Lee sentiu um nó na garganta ao pensar nas hipóteses que deixaram aquele estranho ali, coberto por seu próprio sangue e o perdendo em quantidade e tempo alarmantes.
— Hey — uma voz cansada tirou sua atenção da tez marcada do estranho por quem era responsável e voltou-se para o médico atrás de si. Ele não era tão mais alto que ela, pelo contrário: era uma diferença banal de dois centímetros que o separava dela. Já conhecia bem aqueles olhos amendoados que fitavam o vazio sem nada ver e o tédio que ostentava o dia todo, todos os dias. Aqueles fios desorganizados um pouco compridos demais, não chegavam a seus ombros pequenos.
— Ele ainda não acordou.
— Diga-me tudo — disse e pegou o histórico breve do estranho paciente.
— Foi o que lhe disse: um corte profundo no antebraço esquerdo e perda de sangue. Estava desmaiado aqui perto. Não temos o nome e nem nada. Demos apenas um analgésico para que suportasse a dor e... Basta esperar com que acorde.
Mary Lee não era uma mulher de se jogar fora, ele bem sabia. Tinha os cabelos louro escuros sempre presos em um coque baixo e ele sabia de outras ocasiões que os fios não eram tão compridos mas que eram lisos e bem cuidados. Aqueles olhos analíticos escuros pareciam não deixar nada escapar e fazia questão de olhá-la no fundo dos orbes sempre que conversavam — porque ele gostava de ler o que ela deixava flutuar no breu de seu olhar pensamentos diversos; ele gostava de lê-los. Não era corpulenta e era gracioso: não tinha seios que fizessem com que os botões de suas camisas estourassem ou que puxassem o tecido de suas blusas; eram na medida certa e eram bonitos. O corpo era esguio e bem marcado.
E ele sabia de cada centímetro naquele corpo coberto pelas vestes de enfermaria.
Mary Lee já fora sua em uma vida muito distante. Ele sabia quando começara a namorar com... qual o nome da paciente?, Anne. Ele não se opusera, ficara do lado dela — ele mesmo não tinha sua sexualidade bem definida, e isso com seus trinta e cinco anos. Naquela época nem Mary Lee tinha, só descobrira quando Anne aparecera em sua vida.
E muito que bem.
— Então vamos esperar que ele acorde para... — mas antes que ele completasse sua fala, ouviu um murmúrio curto e rouco e voltou o olhar para o estranho. Viu-o se remexer visivelmente desconfortável e indicou com o olhar para o homem e para fora do quarto. Mary Lee rapidamente entendeu e saiu em busca do médico que havia suturado aquele enorme e profundo corte.
Observou-o piscar rapidamente e tornar a fechar os olhos, o suspiro lhe fugindo dos lábios contraídos tão fortemente. Puxou o braço e rosnou baixo alguma coisa. Abriu os olhos lentamente e procurou se acostumar com a claridade. Olhou ao redor com aspecto perdido e revirou-os; tornou a fechá-los e abriu mais uma vez, a última, e os manteve abertos.
— Boa noite — a voz suave o alertou e fez com que os orbes esverdeados se voltassem para um dos cantos do quarto estranho; o canto em que a porta e a ampla janela estavam.
Não falou nada mas semicerrou os olhos para o estranho que o saldava daquela forma tão estranha e suave.
— Você me entende? — falou pausadamente.
Franziu o cenho e apenas sinalizou que sim com visível desaprovação pela pergunta que lhe fora dirigida.
— Consegue falar?
E nenhuma resposta.
— Claro... Deve estar perdido — sorriu e olhou rapidamente para fora do quarto pela janela clara e limpa, constatando que Mary Lee e o Dr. Dally (um médico franzino e já meio velho) observavam o que acontecia dentro do quarto. — Hm, temos visitas — e suspirou voltando sua atenção ao homem a sua frente. Com passos lentos e calculados em demasia, chegou mais perto do estranho para que pudesse sussurrar e não mais ter que falar em um nível tão alto e correr o risco de assustá-lo (tal como um animal selvagem e arisco, não pôde deixar de comparar). — Sou psiquiatra e me pediram para ver o que havia acontecido com você. Pode me contar?
Viu os olhos verdes correrem pelo quarto e quando viu o pequeno espelho pendurado na parede à sua frente, sentiu a garganta secar e o frio lhe percorrer e tomar em segundos. Ficou apenas olhando e observando aqueles olhos verdes estranhos insinuarem fraco, patético e tantos outros adjetivos do tipo que mal conseguia definir mas sabia que eram tão ruins ou piores quanto aqueles.
— O que é?
Frank seguiu o olhar do estranho e deparou-se com o espelho que a parede sustentava.
— Esse é o problema? Catoptrofobia?
Dirigiu-se até o pequeno espelho com moldura escura de ferro descascado e colou-o no chão.
— Com a face virada para baixo... — gemeu baixo.
— O quê?
— Com a face virada para baixo! O reflexo... Para baixo!
— Okay, okay! — e então virou o vidro para o chão e voltou a encará-lo. — Satisfeito?
Ele respirou fundo mas em sua mente ainda podia ouvir aquelas palavras que tanto lhe machucavam e maltratavam.
Não queria ouvi-las, não queria vê-lo, mas ele o via. Era como sua sombra: o seguia para todo lugar e tinha vida própria (ele acreditava nisso).
— Vamos, diga-me: sofre de catoptrofobia? — perguntou novamente.
Ouviu um riso em resposta. Ele não sabia se era seu riso ou aquele riso que ouvia com frequência. Não parecia ser seu e aquilo não estava certo. Frank apenas esperou por uma resposta.
— Ele fez isso...
— Quem?
— Ele... — gemeu entre dentes e com a voz rouca.
— Quem...?
Frank viu-o arfar e parecia estar entrando em desespero.
— Okay! Vamos com calma... Quer falar sobre isso agora?
— Deixe-o longe de mim.
Notas finais
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PARO OU CONTINUO? *-*
Desculpem os erros e me avisem na linda review ♥
Kissus. Way.
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