Notas iniciais
Cinco dias certinhos mas achei que só conseguiria postar o capítulo cinco na sexta-feira dessa nova semana que entra. Porque eu estava quase em coma, anyway.
O capítulo é enorme então não vou ficar roubando o tempo de vocês.
O tanoshimi. Enjoy ♥

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Estavam parados diante àquela casa entregue às ruínas e ação implacável do tempo. Não sabia o que de mal havia acontecido naquele lugar que o atraísse para lá, só tinha a impressão de que algo mal aconteceria; muito mal. E talvez pela primeira vez na vida, sentiu medo. Sentiu medo de um pavor estúpido e sem fundamento algum. Afinal, qual o sentido de ter medo de uma simples casa de andar duplo e pintura descascada, típico cenário de um bom filme de terror — os quais tanto amava.

— Foi aqui que eu o vi pela primeira vez — murmurou meio que para si mesmo, como se estivesse se recordando. Frank encarou a casa ainda mais intensamente mas nada disse. Deixou com que ele falasse. Até porque não tinha o que dizer para aquele cenário ou recordação do outro. — Tudo começou e quase terminou aqui.

— Quase — inquiriu preocupado.

No entanto, não recebeu uma resposta para aquela questão, viu-o apenas entrar na casa, passando os dedos pelo portal de madeira já apodrecida. Aquela casa corria sérios riscos de cair e poderia ser por isso que pressentira algo ruim. E aquela sensação ainda não havia lhe deixado.

— Venha, por favor — vislumbrou-o virar-se naquele escuro intenso em que a casa estava mergulhada. Podia jurar que vira a cor de seus olhos oscilar para branco. Pareceu-lhe que seus olhos giraram nas órbitas até que somente a parte branca ficasse visível. Sacudiu a cabeça e olhou melhor: ele estava parado já dentro da casa e com uma das mãos estendidas. E sabia bem que mão era, pelo simples fato de que somente sua mão esquerda tinha uma grande e profunda cicatriz na palma. Era exatamente a esquerda que ele estendia — Não há o que temer. É seguro.

Frank ainda hesitou mais um pouco antes de se deixar levar pelo impulso que o empurrava para dentro da casa estranha. Não era somente a casa, mas o tempo em si. Disseram que choveria e seria uma senhora chuva.

Estalou a língua nos lábios uma vez e mordeu o inferior pelo lado de dentro. Por que estava hesitando tanto? Sacudiu a cabeça e seguiu o outro, perdendo-o de vista naquela sala escura e empoeirada. Teve de cobrir o nariz e boca com a mão devido ao cheiro. Jurou que ali era um cemitério semi-aberto e jurou também que não se espantaria caso visse corpos no chão ou sobre os moveis que ainda haviam ali.

— Que porra houve aqui? — questionou nauseado.

— Você se acostuma.

— Não sente nada?

— Fala dos corpos? Não, não me incomodam mais — ele deu de ombros e continuou andando.

— Corpos?! — elevou o tom de voz algumas oitavas, retirando a mão de seu rosto e o cheiro lhe invadiu novamente.

— Essa casa pertenceu a um killer e ele escondia o corpo de suas vítimas aqui, assim seria mais difícil encontrar qualquer vestígio. E concordo com ele, sabe...? Enfim, ele morreu há algum tempo. Encontrei sua carta de suicídio e datava de 20 de abril de 1966. Eu tinha onze anos na época e isso foi um tempo depois do meu aniversario. Descobri essa casa no dia 9 de abril enquanto brincava sozinho; minha antiga casa era há duas quadras daqui. O vigiei por um tempo e até chegamos a conversar.

— Ele lhe falou das mortes...? — perguntou incrédulo.

— Eu era apenas uma criança, não entendia direito porque isso era mal, por isso contou. Quando se suicidou, disse que estava cansado e que precisava parar, já chegara seu tempo. E a escreveu porque sabia que eu viria e encontraria. Ele não quis que o encontrasse, mas o fiz: estava na banheira e estava cheia, tanto que transbordara um pouco. Ele estava submerso porque era sua intenção se afogar. Não compreendi nada na época, e nem porque seus pulsos sangravam; haviam dois talhos nos antebraços, seguindo uma linha continua e funda na área. Nunca falei a ninguém porque queria que ele descansasse em paz.

— Foi então que começou a praticar o cutting?

Ele me impulsionou a fazer. Fiquei impressionado com o que vi, entrando pela primeira vez nesta casa, sendo apenas uma criança... Pode imaginar que tipo de estrago isso causa na mente de uma pessoa, principalmente se a mente estiver em desenvolvimento.

— Ninguém nunca o encontrou e a casa nunca foi limpa ou destruída. Por quê?

— Porque é apenas uma mancha, uma mancha que pode ser facilmente ignorada por ser pequena. Manchas pequenas não incomodam, não são uma distração tão grande, por isso não se preocuparam em limpá-la. E isso me agrada!

— Por que diz isso?

— Venho aqui quase todos os dias. Aqui consigo ficar um pouco em paz, não completamente. Diga: esse ambiente todo vai me fazer ainda mais mal, mas não ligo! Ele foi meu único amigo e me confiou seu segredo. Agora confio-o em você. Vai delatá-lo?

— Está morto.

— Ninguém morre.

O jeito que ele pensa é diferente, Frank pensou consigo mesmo.

— Não aguento ficar aqui — murmurou nauseado e afastou-se um passo.

— Desculpe — ouviu-o sussurrar mas já não estava mais na sala.

Seguiu da sala para a cozinha, encontrando-o virado para uma porta e parecia afagá-la com carinho, como se fosse um animal frágil e débil.

— O que há aí?

— Quer mesmo saber? — perguntou mas sem se virar para encarar o menor.

— Sim.

Ouviu-o suspirar e seguiu-se um riso estranho, quase cavernoso e maldoso. Não, com certeza maldoso. Não sabia se estava divagando ou se aquele riso fora real.

Quando ele abriu a porta, viu quatro corpos caírem um sobre o outro no piso frio e sujo da cozinha.

Fechou os olhos e tentou contar até cem. Quando chegou ao quatro, debruçou-se sobre a pia e vomitou, tossindo e estremecendo, os ombros retesados e a visão embaçada.

— Você pediu!

— Como consegue não passar mal com isso?! Droga... — tossiu mais uma vez e sentiu a garganta doer. Finalmente, quando levantou o olhar, viu que uma das mãos do outro estava em seu pescoço, as unhas afundando cada vez mais. — O que está fazendo?

Mas não obteve resposta. Preocupou-se de que estava perdendo-o. Sabia que algo ruim aconteceria, mas não sabia que seria tão ruim.

Foi até ele com passos calmos, como se fosse um animal arisco. Sussurrava coisas como vai ficar tudo bem. Queria apenas mantê-lo são.

Há quanto tempo não tomava sua medicação...?

Quando o alcançou, tomou sua mão direita contra as suas e tentou fazer com que ele recobrasse a mente que estava perdendo.

— Hey... Desculpe, não sei o quanto isso significa à você mas vou guardar o segredo, juro que vou. Por favor, não faça isso... Não de novo, mantenha-se aqui.

E então aquele riso maldoso mais uma vez e tinha plena consciência de que fora Gerard quem rira daquela forma bestial. Só não conseguia entender por que.

— É minha família... — disse com um sorriso bestial.

— Quem?

— Meus pais, meu irmão e sua noiva...

— Ele os matou?

— Foi seu último golpe.

De repente, tudo se encaixava e Frank começava a ver tudo com uma clareza tamanha. Ele, nada mais era, do que aquele killer de sua infância e ele lhe instigava a se castigar, só não sabia o motivo. Claro, havia uma boa parcela de culpa de sua ex-esposa. Fora ali que tudo começara e quase terminara.

— Por que quase terminou? — agarrou o mais velho pelos ombros e tentou atrair sua atenção novamente.

— Porque tentei o suicídio pela primeira vez.

— Por quê?

— Não conseguia suportar sozinho, okay?! Nunca tive um amigo e o único que tive estava morto depois de tão pouco tempo que nos conhecemos. E levou minha família!

Frank respirou fundo e logo notou que não fora uma boa ideia. Sentiu-se nauseado novamente e tentou engolir a bile.

— E por que estava sozinho?

— As outras crianças não gostavam de mim e meus pais tinham medo de elas me ferirem com amizades falsas. Eles me protegiam demais. Meu irmão não morava conosco, preferira ficar com a namorada.

— E como ele o pegou?

— Era final de semana e Mikey geralmente nos visitava: ia para casa de meus pais na sexta-feira e voltava no domingo à noite, ele e a namorada. Estavam noivos, na verdade — um sorriso estranho iluminou aquela face retorcida em dor. Parecia estranhamente doente. — Ele me poupou... Entrou na casa no meio da noite e os matou. Entrou em meu quarto e me ninou, não sei o motivo, ele não explicou no vídeo.

— Que vídeo?

— De suicídio.

— Não fora uma carta?

— E é. É uma carta explicando onde o vídeo estava e lá... Oh! — resfolegou aflito e mordeu o lábio inferior nervosamente.

— O que há?

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Quando voltaram para o apartamento de Gerard, este pegou uma caixa pequena de cor escura que estava próxima a sua cama. Afagou por um momento a caixa e sorriu sem motivo algum e Frank teve a certeza de jamais ter visto aquele sorriso estranho contorcendo os lábios do outro.

— Quando meus avós tomaram minha guarda e fui morar com eles, a primeira coisa que peguei foi esta caixa — só então ele abriu a tampa da caixa e retirou de lá um papel já meio amarelado pelo tempo. — Esta é a carta — e a entregou para Frank.

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Olá, pequeno.

Primeiramente peço que me desculpe por nossa convivência tão curta mas meu tempo chegou.

Um suicídio, sim. Sabe o que significa?

Por favor, não me encontre; não quero que veja a forma que encontrei para acabar com tudo. Isso lhe faria mal.

Foi bom ter sua amizade. Foi a única que tive em muitos anos.

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Era apenas isso que havia na carta. Nenhum indício de vídeo algum.

— Logo ao lado havia uma fita de vídeo e apenas um bilhete: assista. Depois que o achara, vi o vídeo.

— Coloque-o — a voz de Frank soou como um aviso, mais como uma ordem.

O outro suspirou e parecia contrariado ao fazê-lo. Só o fez porque Frank era seu terapeuta e sabia o que era melhor para sua recuperação.

Eram poucas as pessoas que ainda tinham um aparelho de fita antigo, mas ele tinha. Talvez porque assistia a aquele vídeo com mais frequência que Frank imaginara.

Na tela da televisão apareceu um quadro escuro mas não totalmente negro. E então uma sombra projetada na parede que aparecia na tela. Havia uma luz acessa e isso possibilitou que apenas a sombra do homem aparecesse.

— Sei que me achou e peço desculpas pelo que viu. E acho melhor saber onde está sua família. Pois veja.

Então aquele quadro parado sumira e a tela ficou cinza. Quando voltou ao normal, havia um homem com uma estatura de mais ou menos 1,85m mas nada se via do homem: estava inteiramente coberto de preto, literalmente dos pés à cabeça. O fato de não querer aparecer naquele vídeo caseiro de despedida só podia significar que não queria ser encontrado, por mais que já estivesse morto. Quem confiaria em uma criança de onze anos? Frank cogitou que ele queria que seu cemitério permanecesse intacto, apenas na mente daquela criança que mais tarde desenvolveria esquizofrenia.

O quadro seguinte fora devastador. Era uma sala e parecia bem comum, como a casa toda em si. Após um lance de escadas, era possível ver o corredor do primeiro andar, onde ficavam os quartos. O homem abriu o quarto e a filmagem cortou por um momento, enquanto ele posicionava a câmera de modo a pegar todo quarto. Não ouvia-se um único barulho na casa escura. Afagou o rosto da mulher — que Frank presumiu ser a mãe de Gerard — e ela reagiu ante ao afago, pensando tratar-se de um carinho do marido. Pareciam muito jovens para um casal que já tinha um filho de vinte anos.

Ela não abriu os olhos sequer um momento mas estava desperta, uma vez que era possível notar um sorriso que se alargava aos poucos. O marido dormia ao lado em silêncio. O homem de preto tirou do bolso uma seringa com um líquido claro e o aplicou diretamente no braço do homem adormecido. Poderia ser veneno ou não, Frank não sabia. Mas logo em seguida concluiu que não era, uma vez que o propósito daquele assassino era fazer tudo do jeito mais doloroso.

— Seu filho ficará bem... Ou pelo menos é o que espero — sussurrou e cingiu o pescoço magro da mulher.

Ela acordou no mesmo segundo e encarou o homem estranho com os olhos arregalados, tanto pelo estrangulamento quanto pelo choque de vê-lo ali. Frank ainda deixou-se imaginar se ela não estava perplexa por perceber que as caricias não eram do marido e que estava aproveitando como se fosse realmente do homem que amava.

Em desespero, ela tentava falar e respirar pela boca. Por que é sempre a primeira coisa que fazem em uma situação dessas, Frank perguntou-se.

— Está tudo bem... Seu filho ficará bem — repetiu no mesmo tom de antes.

Até aquele momento, Frank não sabia se estava falando de Gerard ou do outro.

O rosto dela estava ficando azulado quando ele sacou um punhal. Não fora possível ver direito de onde aquele punhal saíra. Afagou o rosto dela mais uma vez, mas com a lâmina afiada e ameaçadoramente brilhante da arma branca. E mais uma vez, a terceira, acariciou aquela face quase sem cor, porém com força, causando-lhe sulcos profundos e o sangue escorrendo de forma preocupante.

Cansado de brincar com ela — provavelmente —, o homem deixou a lâmina correr no pescoço dela. E então cravou-o na jugular.

O corpo dela foi deixado sem vida ali e o sangue jorrando enquanto ele limpava a lâmina do objeto com um lenço branco. Ficou encarando-o por um segundo e riu.

Não delongou-se com o marido da nova vítima: apenas cravou-lhe o punhal no peito, girando 90 graus para a esquerda.

A câmera foi novamente tomada por ele e fez uma cena geral do quarto, um pouco mais próximo e mostrando tudo o que havia feito. Soara pesado demais para alguém que planejava mostrar aquilo a uma criança.

Então encaminhou-se para o quarto ao lado e repetiu o processo com o casal mais jovem, de forma um pouco mais rápida. Talvez ele estivesse ficando realmente cansado de toda aquela cena e não gostava de saber que seria visto por outra pessoa que não fosse ele.

Na última parte da fita, ele estava no quarto de um garoto que parecia ter dez anos, talvez um pouco menos. Sentou-se ao lado dele e ninou-o. Estava então sem o que lhe cobria a cabeça.

— Sei que vai me odiar para o resto de sua vida... Mas lembra-se? Você disse que queria ser como eu, que elimino as pessoas que não gosto e que fazem mal às outras pessoas. Sabe por que fiz tudo isso? Porque eles estão lhe limitando demais e, por mais que veja como amor, para mim é um crime contra a liberdade. Não gosto de limitações. Imagino que você também não goste, pequeno — sussurrou e continuou com ele no colo. — Desculpe mesmo por isso, pode odiar-me. Não quero que fique como eu. Ninguém quer. Por que este é o seu sonho? Por que sua mente fantasia comigo desta maneira? O que ela faz para que pareça lindo...? Diga-me... diga-me.

E então a tela ficou preta mais uma vez, indicando o final da fita.

— É... é isso... — ouviu a voz falha do homem ao seu lado e olhou-o com curiosidade. Não demonstrava nada a não ser uma expressão terrivelmente vazia. O que havia naquele vazio que ele apresentava?

— Está tudo bem?

— Com o tempo você se acostuma... — disse e desviou-se de um toque amigo.

— Entendo o que isso deve representar, mesmo vinte anos depois. Não; não entendo, na verdade mas posso tentar compreender.

— Ninguém sabe! — disse com raiva e a voz alterada. — Droga, por que dizem isso?! Parem, parem! Ninguém jamais entenderá o que sinto, o que se passa aqui dentro, o que há de errado comigo! Ninguém! Ninguém.

Frank já tivera aquela experiência uma vez e sabia o que aconteceria em seguida. Tinha de evitar.

— Acalme-se. Sei porque ele sempre volta, agora sei.

— Não sabe — ele contradisse irritado e virou-se de costas, tal como uma criança. Era um reflexo de sua infância perdida naquele mundo tão estranho.

— Sei! — Frank riu para tentar esfriá-lo. — Sei... — e então aproximou-se, tocando os ombros do outro.

— Não toque! — ele revidou e afastou-se de Frank.

Contou até vinte para não fazer nada de errado. A verdade era que Frank não tinha tanta paciência quanto aparentava. E ser desafiado daquela forma ultrapassava alguns limites — limites até insuportáveis.

— Sei... Ouça-me: ele quer que você seja semelhante ao que ele foi. Não igual, como ele disse no vídeo. Apenas semelhante. Ele está lhe puxando para baixo.

— Não, não, não... — e fechou os olhos, franzindo o cenho.

Tal como uma criança, Frank observou mais uma vez.

— Fazer isso não vai fazer diferença alguma, vai? Você precisa de ajuda, a questão é: você a quer?

Ficou apenas encarando-o a espera de uma resposta, imaginando que seria uma negativa.

Gerard apenas assentiu fracamente.

— Deixe-o longe... O mais longe que você puder.

— Vamos impedi-lo.

— Não... não quero fazer nada com ele.

— Por quê?

Notas finais
Notaram erros? Avisem-me ^-^
Então... reviews?
Desculpa, estou caindo de sono porque esse final de semana se resumiu em um estado de coma por remédios... Ainda estou meio caída.
Kissus. Way.