Inquietude
4 Sensações
Notas iniciais
Marina
Eu vou arriscar. Eu vou sim. Sei que ela é casada há 10 anos ou quase isso. Sei que além do marido tem o filho. Sei das pedras que arremessarão contra nós. Sei das caras que serão viradas, da fofoca que vai correr de boca em boca. Mas eu estou tão apaixonada... tão perdidamente apaixonada que sinto essa paixão revestindo a mim e a ela nos protegendo de tudo isso.
Não deveria ter fugido do que sinto dominando o meu ser. Mas fiquei assustada demais.
Deus!
Quanto tempo eu não me apaixonava. Havia me esquecido completamente de como era essa sensação.
De primeiro, a ideia do desafio foi o que me manteve no caminho até a Clara. No passado me envolvi com algumas mulheres que estavam envolvidas com outras e outros. E pouco depois de provar do “fruto proibido” eu simplesmente ia embora. Fiz muito estrago. Mas não quero causar nenhum estrago agora, eu sei o que eu quero. Quem eu quero.
Estou pulando do penhasco sem qualquer tipo de equipamento. Eu posso me estatelar no chão, posso carregar feridas que só o tempo pode curar ou amenizar. Mas eu preciso dela na minha vida. A Clara é tudo que eu sempre precisei. Não vou deixar escapar.
Protelei de medo, mas meu coração está gritando por ela. Meu corpo... Esse arrepio que sinto ao lembrar-se dos lábios dela nos meus...
O relógio de cabeceira marcava 9h e enquanto do outro lado da cidade Clara via o dia ganhar força a cada minuto, Marina abria os olhos para o feixe de luz que adentrava seu quarto.
Marina espreguiçou-se longamente, ouviu seus ossos estralarem e ficou ali mais um pouco. Girou o pescoço para um lado, depois para o outro e sentou na cama. Um sorriso largo, imenso, quase rasgava sua boca. O sabor da decisão certa era realmente muito doce.
Foi tomar o café e desejou um bom dia a quem estava presente à mesa: Vanessa e Flávia.
– Muito, muito bom dia, meninas – desejou Marina sentando e servindo-se de uma xícara de café.
– Que bom humor é esse? – questionou Flávia.
– Nada... Só decidi dar um jeito na minha vida amorosa – respondeu Marina mantendo o seu sorriso enquanto bebia o líquido preto.
– Então você vai mesmo continuar atrás da Clara – afirmou Vanessa olhando firmemente para Marina – Já vou deixar o super bonder preparado pra colar sua cara.
– Eu não te perguntei nada, Vanessa. Eu sei muito bem o que estou fazendo. E ninguém, preste atenção, ninguém vai me fazer desistir do que estou sentindo.
Marina bufou e pensou em sair da mesa, mas como havia afirmado para si mesma na cama, ninguém tiraria seu sorriso e seu humor doce. Muito menos uma Vanessa amargurada.
O café seguiu silencioso desde então.
– Marina, está lembrada que aquela sessão de fotos com as modelos paraguaias é hoje, né? Sei lá... Quando você fala, vê, pensa na Clara você se esquece da vida – disse Flávia soltando um risinho cúmplice que se desfez logo que os olhos de Vanessa caíram em cima de si.
– Eu sei. E é só mais tarde, ainda é cedo. Vou sair agora, não sei que horas volto, mas é certeza de eu estar aqui antes das 15h. Cadê as chaves do carro? – perguntou Marina direcionando-se à Vanessa.
– Estão no porta chaves na sala, por que?
– Vou precisar delas.
– Você nunca dirigi o carro...
– Vanessa! – chamou Marina séria, batendo a xícara mais forte do que pretendia na mesa – Para! Eu não quero me chatear mais com você. Eu gosto de você e você sabe que não é pouco. E sabe melhor ainda que não é desse jeito ai que você pensa. Se você me ama como diz amar, torce por mim. Queira minha felicidade. Caso contrário, não sei como poderemos conviver – sentenciou Marina saindo da mesa sem dar chances de Vanessa replicar.
Graças ao GPS em muito menos tempo que o esperado Marina parou diante do pitoresco prédio de número 45. Fez pensamento positivo já que não avisara Clara que iria. Andou com o carro mais alguns metros e parou. Respirou fundo e colocou a mão no coração que batia como um pássaro desesperado para sair da gaiola.
– Oi, boa tarde. A Clara esposa do... – Marina sentiu o coração apertar ao se lembrar desse detalhe.
– Cadu? Irmã da dona Helena? As duas acabaram de subir. Voltaram agora da feira e ouvi a Clara dizendo que ia para o apartamento da irmã – informou o porteiro como uma metralhadora de informações – É no terceiro andar. Apartamento 35.
Marina agradeceu com um sorriso e foi até o elevador. Cada músculo do seu corpo se contraindo de ansiedade.
Terceiro andar. O apartamento 35 se mostrou logo que a porta do se elevador abriu.
Marina tocou a campainha e quando estava pensando em andar de um lado para o outro enquanto esperava, uma simpática mulher de coque e pele amarronzada abriu.
– Pois não – disse a mulher simpática.
– Aqui é o apartamento da Helena?
– É sim, ela acabou de chegar. Ô dona...
– Não, não. O porteiro me informou que a Clara estava aqui. Vim falar com ela – interrompeu Marina louca de vontade adentrar o apartamento em busca de Clara.
– Ah! Pode entrar, elas estão no quarto. Vou levar a senhora até lá.
Marina adentrou o apartamento observando cada detalhe e detendo o olhar num porta-retrato onde havia duas meninas crianças e um rapaz mais alto que as duas. Cabelos bagunçados e um prenúncio de barba no rosto.
– Esses dai são: Helena, Clara e Felipe – explicou a empregada apontando para cada um enquanto citava os nomes.
– A Clara é linda desde pequena – observou Marina sorridente.
A mulher simpática olhou enviesado e balançou a cabeça.
– Helena, tem uma moça aqui procurando pela Clara – disse a empregada batendo na porta – Pode entrar.
Clara estava de costas para a porta, por isso quase caiu da cama ao se virar e ver a figura de Marina postada diante de seus olhos.
Espanto. Surpresa. Alegria.
Clara não conseguia distinguir qual emoção falava mais alto. Mas abriu o melhor sorriso que tinha armazenado naquela manhã.
– Vim te fazer uma surpresa, o porteiro falou que você estava aqui... – disse Marina quebrando aquele silêncio que já estava se tornando incômodo.
– Oi, eu sou Helena, irmã mais velha da Clara – disse Helena saindo da cama e cumprimentando Marina com dois beijos no rosto.
Marina correspondeu ao gesto ansiando por sentir Clara tão próxima quanto a irmã dela.
– Eu vou deixar vocês conversarem, preciso dizer à Rosa o que ela vai fazer de almoço, então... Fiquem à vontade – disse Helena saindo do quarto e piscando para Clara.
Um pouco desconsertada e receosa, Marina aproximou-se. Ajoelhou-se aos pés de Clara e pegou em suas mãos. Estavam frias como no dia do beijo. Mas a feição de Clara não era a mesma daquele dia. Estava diferente, parecia distante e preocupada. Um pouco triste talvez. Marina torceu para que não fosse o motivo de todos aqueles significados.
– Que carinha é essa? Parece que não dormiu direito. Está tudo bem? – perguntou Marina acariciando as mãos de Clara.
Clara respirou fundo e soltou o ar pesadamente pelas narinas antes de responder. Tentou elaborar um sorriso mais animado, mas não conseguiu.
– Eu preciso dar um pulo em casa, ver como estão as coisas. Pode me esperar aqui se quiser, minha irmã não se importa – disse Clara.
Marina ficou ainda mais preocupada.
– Tudo bem, eu espero. Espero o tempo que precisar, Clarinha – garantiu a fotógrafa sorrindo com confiança.
Clara sentiu-se mais tranquila e sorriu de volta. Levantou-se da cama assim que Marina se levantou e a olhou bem fundo.
Marina surpreendeu-se quando sentiu os lábios de Clara tocar os seus.
A esperança havia voltado.
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