Inquietude
5 Nós
Helena ia para sala buscar o seu relógio de pulso quando se deteve entre o portal que dividia o corredor para os quartos e a sala de jantar. Marina estava sentada em seu sofá mexendo no celular.
A irmã de Clara a observou alguns minutos. Achou Marina de uma beleza ímpar. Naqueles poucos minutos já sentiu o ar de sedução invadir seu apartamento. Assim que fez menção de ir até à fotógrafa, Clara entrou pela porta da sala.
– Vamos? – disse Clara apoiando os cotovelos no encosto do sofá e inclinando-se na direção de Marina.
– Achei que demoraria mais.
– O Cadu provavelmente foi levar o Ivan para jogar bola na praia. Vai demorar – disse Clara afastando-se quando Marina virou o rosto em sua direção.
– Vocês não querem ficar pra almoçar? – ofereceu Helena agora se aproximando das duas.
Clara olhou para Marina cogitando a hipótese de esperar dela alguma resposta. Marina achou engraçado aquele gesto já que as duas não tinham aquele tipo de intimidade. Não ainda.
– Não, irmã. Deixa pra próxima. Nós precisamos... Conversar – respondeu Clara olhando novamente para Marina.
Helena sorriu com segundas intenções para Clara que corou.
Ao se despedir da irmã mais nova, Helena segredou:
– Faça o que tem vontade, irmã. Não precisa ser pra sempre, precisa ser pelo tempo que você quiser.
Clara balançou a cabeça positivamente e apertou Helena em seus braços.
– Vamos? – disse Marina levantando do sofá.
Clara assentiu e beijou a irmã mais uma vez.
Clara não pode ver, mas Helena sorria enquanto via as duas passarem pela porta.
No carro, Clara tentava escapar das olhadelas de Marina. Mas não queria mais fugir. Estava completamente entregue, só precisava avisar Marina.
Clara permitiu-se sentir as borboletas no estômago e colocou a mão sobre a mão de Marina, quando esta pousou a mão no colo após mudar de marcha.
Marina levou a mão de Clara aos lábios beijando-a docemente.
A fotógrafa estacionou o carro próximo à mureta da Urca. Havia pouco movimento e Marina desde pequena adorava a vista proporcionada daquele local. Marina sentou na mureta e Clara a acompanhou.
Olharam-se alguns minutos até que Clara sorriu sem graça. Poderia passar o tempo que fosse, talvez nunca se acostumaria com a profundidade do olhar de Marina.
– Estamos brincando de sério? – perguntou Clara quebrando o clima.
Marina chegou mais perto roubando um beijo ardente de Clara que ficou sem ar. Piscando repetidas vezes até sentir o foco nítido novamente.
– Por que você está com essa cara? – perguntou Marina segurando as mãos de Clara – Me conta o que está acontecendo.
E então não havia mais como fugir. A hora da verdade havia chegado.
– Eu... – Clara respirou fundo com os olhos fechados – Eu não estou entendendo o que está acontecendo, Marina... Entre a gente.
– Ainda não há nada de concreto entre nós – respondeu Marina – Mas nós sentimos que algo vem crescendo, certo? – Clara concordou com um gesto afirmativo – Agora eu preciso saber se... Se o que você sente por mim é o mesmo que eu sinto por você.
– É... – Clara pigarreou – Não sei. Eu nunca me vi nessa situação, sabe? – confessou aturdida – Nenhum homem mexeu comigo assim, muito menos mulher. Eu estou muito confusa, não sei o que pensar, o que fazer e você ainda sumiu...
Marina copiou o gesto que Clara sempre fazia: mordeu o lábio inferior.
– Sei que sumi e peço desculpas por isso. Mas se eu sumi foi por que não sabia lidar com o que estava acontecendo aqui dentro – Marina retirou sua mão da mão de Clara e apontou para o seu coração que mais uma vez estava acelerado – Você me deixou perdida, Clarinha – confessou com um sorriso.
– Perdida? O que foi que eu fiz?
– Apareceu na minha vida, me bagunçou, me colocou na linha, me fez querer só você. – disse Marina entre sorrisos e suspiros.
– Você está falando sério? – perguntou Clara chegando cada vez mais perto do ponto mais difícil daquela conversa.
– Eu nunca falei tão sério em toda minha vida – garantiu Marina apertando o elo que se formara com as mãos de Clara – Clara, você... Você é tudo que eu sempre procurei. Mais que isso. Tudo que eu preciso. O seu jeito simples de ver a vida, sua inocência, sua leveza espiritual... Tudo em você me encanta, me deixa boba, me deixa feliz. Você já está em mim.
Clara tombou a cabeça de lado mordendo o lábio inferior. Fechou os olhos por um segundo. Talvez dois. E quando abriu, os olhos brilhavam em lágrimas.
– O que a gente vai fazer? – perguntou Clara segurando as lágrimas.
– O que você quer fazer?
– Eu queria não ter o Cadu na minha vida.
– Mas você tem. Tem o Cadu e o Ivan. E eu. Eu quero você, Clara. Eu preciso de você e sinto ter que dizer isso, mas... Eu vou fazer tudo que for preciso pra te ter comigo.
– Você não precisa fazer mais nada – respondeu Clara dando um sorriso entre as lágrimas que já saiam sem qualquer esforço – Eu já sou sua.
Clara acariciou o rosto de Marina. Abraçou a fotógrafa escondendo o rosto em seu pescoço, inalando o cheiro amadeirado e quente.
Marina não se importou com as lágrimas que molhavam sua pele.
– Calma, Clarinha – pediu Marina acarinhando os cabelos de Clara – A gente vai arranjar um jeito de não deixar o Cadu e o Ivan tão machucados nessa história. E você não está sozinha. Estou com você. Não vou sair do seu lado nunca mais. Eu também estou completamente apaixonada por você. Vou te fazer a mulher mais feliz do mundo, do Universo. Não vou prometer nada por que odeio promessas, mas vou provar todos os dias que eu sou a sua escolha certa.
Clara se retirou do seu novo refugio e encarou Marina. Enquanto a olhava tentava processar todas as informações que havia ouvido nos últimos minutos. E constatou que ser “a mulher mais feliz do mundo” talvez lhe custasse um preço caro. E pensou se estava preparada para pagar.
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