Inquietude

1 Recíproco


Vanessa

Marina tem trabalhado mais e saído menos do que estou acostumada a ver. Faz alguns dias que a Clara não aparece. Não que me importe. Só que é estranho não ver aquela cara de sonsa por aqui. Alguma coisa aconteceu entre elas e pelo visto foi alguma coisa ruim, por que a Marina não tocou no nome da Clara nenhuma vez, não perto de mim pelo menos.
Sempre soube que o “interesse” na Clara não passava de fogo de palha.
A Clara não tem nada que atraía a Marina de verdade. Ela é tão... Comum. Simples. A Marina é o glamour personificado. Merece alguém a altura dela. Alguém que saiba se vestir, se comportar.
Entendo que no passado eu e Marina não pudemos ir adiante com toda aquela história do pai resolver implicar com a sexualidade dela mesmo aceitando. Ou depois, quando uma americana resolveu não sair do pé dela. Havia certa insegurança mesmo eu oferecendo o solo mais firme para ela pisar. Mas agora... Agora vejo que ela está muito mais madura e cansou da vida de pular de galho em galho. Ela precisa de alguém que cuide dela, que esteja aqui pra ela. E eu, melhor que ninguém, estou pronta para recebê-la.

Era a terceira hora seguida que Marina passava em seu quarto. Olhar o vazio parecia ter se tornado mais interessante que fazer sua arte, ou tomar um banho de piscina, ou beber um vinho.
Não entendia como tinha passado da extrema felicidade para o estado em que se encontrava.
Respirou fundo e passou as mãos no cabelo. Precisava reagir pelo menos para voltar a trabalhar. Depois pensaria em como organizaria a bagunça que se instalara em seu interior.
Parecendo ter bolas de ferro amarradas aos pés saiu da cama e foi até o banheiro preparar seu banho. Enquanto a banheira enchia olhou-se no espelho e se assustou quando soltou os cabelos e por um segundo viu Clara refletindo ali onde deveria ter sua figura.
Respirou fundo. Fechou os olhos enquanto se apoiava a pia. Abriu os olhos e agora era Marina que aparecia no reflexo.
Vanessa foi até o quarto da chefe para saber se ela precisava de alguma coisa e se surpreendeu quando olhou para a cama e se deparou apenas com lençóis bagunçados. Ouviu barulho de água e se dirigiu até o banheiro.
Não importa o quanto tempo passe, ver Marina imersa naquele mar de espuma era a maior contemplação para os olhos da ruiva.
– Resolveu sair da cama – disse Vanessa sentando no mesmo lugar onde Clara se sentou meses antes – Resolveu tomar banho de banheira... Estou gostando da evolução.
Marina tentou sorrir, mas só conseguiu fazer um movimento estranho com a boca.
– Preciso pensar Van, só isso – respondeu Marina escorregando na banheira o suficiente para apoiar a cabeça na borda.
– Pensar em que? – questionou Vanessa.
– Em quem – corrigiu Marina – Na Clara. Ai Van... Não acredito que consegui beijá-la. Eu tive a Clara do jeito que eu sempre desejei. E ela correspondeu melhor do que eu esperava. Achei que fosse ganhar um tapa na cara – Marina riu um riso bobo, infantil.
Vanessa torceu o nariz.
– Agora que... Que já conseguiu o que queria pode passar pra próxima, né?
– Que próxima, Vanessa? Ficou louca? Você acha que eu estou assim por quê? Eu estou perdida, Van. Per-di-da. – respondeu Marina desfazendo o riso e olhando Vanessa de forma dura.
– O que você quer dizer com “perdida”?
– Eu não estou mais me apaixonando por ela – confessou Marina.
Vanessa sentiu uma gargalhada se formar em sua garganta, mas se conteve.
– Eu estou apaixonada e...
– Você não está apaixonada – rebateu Vanessa estressando-se – Ela é só mais um souvenir pra sua coleção.
– Não dá mesmo pra conversar com você, né? – disse Marina levantando-se da banheira. Pegou a toalha e se enrolou voltando para o quarto. – Parece que não quer me ver feliz.
– É por querer ver você feliz que não acho certo você correr atrás de uma mulher casada – justificou a ruiva indo atrás de Marina.
Marina soltou uma risada irônica e se virou para a assistente com os braços cruzados.
– Não é só isso, não. Você não quer me ver com a Clara por que o que sentimos uma pela outra é recíproco e eu nunca fui recíproca com você. Você prefere me ver sozinha a me ver com ela.
Vanessa sentiu fogo correr nas veias. Se Marina não fosse quem fosse teria levado um tapa na cara, mas Vanessa conteve-se fechando as mãos e respirando fundo.
– O que nós tivemos não foi verdadeiro? Você balbuciando meu nome enquanto transávamos... Foi mentira? – perguntou Vanessa mais alto que esperava.
– Não, Vanessa! Não disse que foi mentira, disse que não foi recíproco. O tesão foi... Foi muito recíproco. Mas o amor... Eu não amei você.
Levar um soco na cara teria doído menos que as palavras de Marina.
Arrependendo-se do que havia falado, Marina pediu que ficasse sozinha. Já tinha confusões demais dentro de si, não precisava de mais uma.
Como um cachorro que é enxotado pra fora de casa, Vanessa saiu do quarto em silêncio.