Notas iniciais
Capítulo inspirado naquela conversa que a Clara e a Luiza tiveram na sorveteria quando estavam em Goiânia. Adorei aquele momento delas, rs. =)

Clara

O cheiro dela está comigo. Essa camiseta macia me lembra a pele dela sob minhas mãos e só me dá mais vontade de voltar no tempo.
Como é boa essa sensação de alguém que acabou de se apaixonar pelo primeiro namorado. Namorada. Sei lá. Por alguém.
A Marina sumiu e não sei o porquê. Hoje completa o oitavo dia e estou começando a ficar com medo.
O que será que eu fiz de errado? Não deveria ter me declarado? Será que ela só queria me beijar pra depois... Não. Se fosse isso ela teria me atendido. Não teria sumido de mim.
Ela deve estar confusa. Só não faço ideia com o que seja. A Marina é a pessoa mais decidida que conheci. Determinada. Pra todas as coisas da vida.
Se ela não quisesse mais nada ela não teria me dado essa camiseta com o cheiro dela. Não é o cheiro do perfume, nem do sabonete que ela usa, mas o cheiro dela. O melhor cheiro de todos.

– Amor, você não vem almoçar? – perguntou Cadu no ouvido de Clara – Está todo mundo na mesa só te esperando.
– Caraca. Que susto! Pô, não faz mais isso – brigou Clara levemente irritada levantando-se da poltrona em que estava.
– Desculpa. É que está todo mundo na mesa e você ai... Perdida nos seus pensamentos.
Clara caminhou até a mesa e se sentou ao lado da sobrinha Luiza.
Todos conversavam animados à mesa na casa de Helena. Enchiam seus pratos e copos enquanto Clara tentava se lembrar como se pegava na colher. Sempre que pensava em Marina e no beijo que tiveram ficava assim, com o raciocínio bagunçado, fora de ordem, fora do ar.
– Que camiseta linda, tia. Adorei – elogiou Luiza – Onde você comprou?
Clara mexeu em falso a colher que estava na panela do arroz e deixou uma boa parte cair na mesa.
– Não comprei em lugar nenhum. Eu ganhei. – respondeu Clara tentando limpar a sujeira que fizera.
– Ei, tio. Tem bom gosto, hein? – disse Luiza olhando para Cadu.
– Não fui eu que dei, não. Ela ganhou da patroinha dela – respondeu Cadu amargo e irônico.
– Ela não é a minha “patroinha”, ela era a minha patroa – bronqueou Clara fazendo careta para o marido.
– Por que era? – rebateu o marido – Ela te dispensou quando viu que você não queria dar o que ela esperava, né? – Cadu ria em conjunto com Nando. Enquanto Virgílio, Helena e Chica se entreolhavam sem entender.
Clara explodiu.
– Para de falar isso da Marina, que saco! Você só vê esse lado dela. Não vê que ela é um ser humano maravilhoso, tem um coração do tamanho do mundo. E é gay sim. E isso é só um detalhe dela. Mas você faz questão de se referir a isso com deboche. Prefiro que você não toque no nome da Marina se for pra fazer esse tipo de comentário. Com licença.
– Filha, senta aqui. Não esquenta – pediu Chica.
– Não, eu... Perdi a fome – disse Clara fuzilando Cadu com o olhar e jogando o guardanapo em cima da mesa.
Falar de Marina tinha se tornado um pouco doloroso nos últimos dias e ouvir Cadu daquela maneira só fazia aquele ardor em seu peito aumentar.

Já em seu apartamento Clara tentou conter as lágrimas, mas não conseguiu. Elas já estavam guardadas há dias e precisam ser liberadas.
Sentia-se um pouco zonza por que muito provavelmente estava à beira de uma crise de hipoglicemia. E para piorar tinha perdido a fome. Tomou apenas um copo de água quando passou pela cozinha.
Clara tirou a camiseta e colocou sobre o travesseiro. O abraçou e quando tentava adormecer ouviu uma batida na porta.
– Tia? Tô entrando.
Luiza colocou um prato em cima da mesa e foi até o quarto de Clara. Antes de a sobrinha adentrar o quarto, Clara pegou a camiseta e vestiu novamente. Correu até o banheiro e jogou um pouco de água no rosto.
– Vim saber como você está – disse Luiza sentando-se na cama de casal.
– Estou bem, ué. Por que não estaria?
– Sua camiseta tia... Ela está ao contrário.
Clara olhou para baixo, olhou para Luiza e riu.
– Quer conversar? – perguntou a sobrinha segurando a mão de Clara.
Clara ponderou sobre a pergunta.
Luiza não era mais uma criança. Tinha uma maturidade invejável. Era confiável e Clara sabia que uma de suas maiores qualidades era ser uma ótima “caixa de segredos”.
– Não está fácil pra titia aqui não, viu? – disse Clara aproximando-se de Luiza – Me dá um abraço?
Luiza sorriu como quem diz “e precisa pedir?”. Aconchegou a tia em seus braços e beijou o alto de sua cabeça.
– Aaah, Lu... Está uma confusão aqui dentro, sabe? – Clara apontou para o peito angustiado. – Não sei o que fazer.
– É por causa da Marina? Você e ela... Vocês...
E então Clara desabafou. Contou tudo que aconteceu desde o dia da exposição e acrescentou o fato recente do beijo, do afastamento e da angústia que dominava seu coração.
– Tia, o que você quer? Você está pronta pra deixar o tio Cadu e ficar com a Marina? Você tem certeza? Ou é só uma aventura? Por que não acho legal você ficar enganando o tio com a Marina. Se você quer ficar com ela, então faz tudo certinho pra não ter sofrimento de nenhum dos lados.
– Quando nós nos beijamos e-eu... Eu senti uma coisa aqui dentro, uma coisa grande. Se eu pudesse tocar teria me queimado por que era muito forte, intenso. E eu vi isso nos olhos dela. – disse Clara com o olhar parado no vazio – Eu vi que ali não tinha só o desejo por mim, tinha algo a mais. Mas ela sumiu, Lu. Evaporou. Me deixou aqui mais perdida que cego em tiroteio.
– Vai atrás dela, tia. Se for ela que você quer não deixa escapar. Às vezes ela também está sentindo essa “coisa” queimar, mas está assustada por que viu que é paixão mesmo. E pelo o que você falou ela era muito aventureira, então quando a paixão surgiu ela ficou assustada também. Dá essa chance pra vocês duas. Eu amo o tio Cadu, mas não é de hoje que vejo que vocês dois não tem se dado muito bem, andam se entranhando e esse sorriso tia... Que saudade desse seu sorriso, sorriso de quem está explodindo de felicidade. Sorriso de quem conseguiu encontrar aquilo que estava faltando para se sentir completa.
Clara sorriu enquanto mordia o lábio e abraçou a sobrinha beijando seu ombro repetidas vezes.
– Trouxe comida pra você, está em cima da mesa. Tenho que ir por que tenho que terminar um trabalho da faculdade. Pensa em tudo que conversamos. Corra atrás da sua felicidade, tia. Antes que a felicidade corra de você.