Assim que desceu no andar do seu apartamento, Clara pôde ouvir o barulho do filho e do marido. Ao chegar mais perto da porta sentiu o cheiro de alho sendo frito na panela. Não sabia – ou não queria entender – o porquê de aquela situação lhe trazer uma pequena piscina nos olhos. Respirou fundo e girou a maçaneta.
– Mãe, até que enfim. – disse Ivan ao encontro de Clara, abraçando-a – Acordei e não te vi aqui, onde você foi?
Clara ergueu os olhos encarando um Cadu estranho.
O marido parecia ter se tornado o ser mais sombrio de um dia para o outro.
Cenho franzido, olheiras, um olhar duro e nenhuma palavra.
– A mamãe foi pra casa da tia Helena, ela... Ela precisa conversar comigo, acabei dormindo lá – disse Clara se desvencilhando do filho e indo até a cozinha.
Clara parou com as mãos apoiadas a mesa e encarou Cadu. Ele por sua vez ainda não havia engolido o que acontecera na noite anterior.
Cadu não queria pensar que aquela frieza corporal fosse por culpa de algo que ele mesmo sugeriu semanas atrás. Não queria se sentir responsável por ter plantado na cabeça de Clara a ideia de que a Marina estava interessada nela.
Clara caminhou até Cadu e o abraçou pelas costas, apertando seus corpos, respirando fundo... Independente da confusão que se instalara em seu interior, ela ainda sentia certa familiaridade com aquele corpo e aquela presença. Mas sentia que ali não havia mais tanto tesão, tanta paixão. Parecia que tinham se tornado... Amigos.
– Eu te amo tanto, sabia? – disse Clara ainda grudada a Cadu – Eu te amo muito, Cadu.
Cadu virou-se de frente para a esposa, segurou o queixo de Clara entre os dedos e a beijou.
Clara sentiu o gosto de Marina se misturar ao gosto de Cadu e se afastou. Arrepiada.
– O que está acontecendo, Clara? O que aconteceu com você? Conosco? – perguntou Cadu sentindo o peito arder em dor.
– Não me pergunta nada, Cadu, por favor – pediu Clara sussurrando – Eu tô tentando, Cadu. Eu juro, mas está difícil, difícil demais. Eu não quero... – agora as lágrimas já desciam pela face sem qualquer esforço – Eu não quero te magoar. Prometo tentar chegar o mais perto disso possível.
Sem entender Cadu procurou se distanciar. Apoiou a coluna na lateral da estante que dividia a cozinha da sala de jantar e perguntou:
– Te perdoar pelo o que, Clara? Não estou entendendo onde você quer chegar...
Sentindo-se sufocada com as palavras que não conseguia sair Clara correu para o quarto e trancou a porta. Deitou na cama respirando tão rápido que seus pulmões mal subiam e desciam completamente.
Um filme passou por sua cabeça.
Quando viu Cadu pela primeira vez, a primeira conversa, o primeiro beijo. A descoberta da gravidez. Uma vida nova sendo construída.
Eram tantas coisas vividas, tantas emoções... Clara tinha consciência de que tinha muito a perder, mas também tinha muito a ganhar.
Agora só precisava pensar em como fazer isso do jeito menos difícil.
Clara então pegou o celular e começou a digitar um SMS para Marina.

Lá em Santa Tereza, Marina descansava em sua poltrona favorita enquanto Gisele e Flávia organizavam a bagunça deixada pelas modelos que lá estiveram mais cedo.
Sorrisos vez ou outra apareciam em seus lábios e Marina fechava os olhos, desacreditando que aquela atmosfera era dela e que Clara fazia parte dela.
Vanessa voltou ao estúdio para verificar, como sempre, se Marina precisava de alguma coisa.
– Marina? Vou ter que te jogar um balde de água pra você me notar? – perguntou a ruiva depois de chamar Marina pela quinta vez.
– Ah! Oi, Van! Não... Fala, o que aconteceu? Está precisando de alguma coisa?
– Não... – respondeu musicalmente – É só que você está ai com essa cara de apaixonada.
Marina mudou sua fisionomia feliz imediatamente. Perguntou-se por mais quanto tempo Vanessa ficaria urubuzando seu sentimento e a reciprocidade dele. Levantou-se da poltrona com a intenção de ir para o quarto, mas Vanessa a deteve.
– Não vai me contar o que você e a Clara conversaram?
A fotógrafa girou nos seus calcanhares e parou diante de Vanessa.
– De uma maneira bem resumida: Ficaremos juntas – respondeu Marina concisa. Virou as costas e continuou o trajeto original.
Vanessa a seguiu.
– E você acha que vai ser fácil assim? Como num passe de mágica? Marina, a Clara...
– Tem um marido, um filho. Eu já sei disso, Vanessa – completou Marina exaltando-se. Estava realmente cansada de discutir aquilo com a ruiva.
– Hoje você está com cara de apaixonada, amanhã estará com cara de traída, trocada. Pra Clara você é só uma novidade, Marina. Uma curiosidade.
– Novidade, curiosidade, descoberta, amor. Eu sou tudo isso. E ela é isso e mais um pouco pra mim também – rebateu Marina.
– Amor... Você nem a ama – desdenhou a ruiva.
– Você tem razão. Eu não a amo. Mas eu vou amá-la, eu QUERO amá-la. E ela quer me amar também. E ela vai. Nós nos amaremos. E outra, eu a quero. Quero ser só dela e quero que ela seja só minha. E nós seremos. Agora sai daqui, por favor. Preciso descansar.
Assim que Vanessa saiu pela porta, Marina se jogou em sua cama. Sentiu o celular vibrar embaixo de sua lombar e assustou-se quando viu que as mesmas mensagens vinham do mesmo remetente: Clara.

“Me dá um tempo? Não é muito tempo, eu prometo, juro pelo o que você quiser, é só um tempo pra que eu possa arrumar as coisas aqui, ‘preparar o terreno.’ Não é de um dia para o outro que vou conseguir deixar o que foi meu por dez anos. E eu quero me entregar pra você por inteira, renovada. Não vou demorar. Me espera por que eu te quero tanto quanto você me quer.”

Marina sentiu os olhos marejarem de felicidade. Pediu aos céus que a demora da Clara não se estendesse e que ela não mudasse de ideia no meio do caminho. Odiaria ver o sorriso de vitória no rosto de Vanessa. Mais que isso, odiaria se sentir enganada.
“E eu quero me entregar pra você por inteira, renovada”.
Marina leu aquela frase mais vezes do que era recomendado e arrepiou-se ao imaginar Clara sendo dela por completo.
E a partir daquele momento Marina pediu que o tempo fosse generoso com elas.