Notas iniciais
Capítulo bem fraquinho perto dos anteriores por que está introduzindo as "tretas" que estão por vir.

Clara chegou ao prédio onde, até então, morava há mais de 10 anos e respirou fundo ao entrar no elevador.
Repassou tudo o que falaria para Cadu e tudo que falaria para o pequeno Ivan, que com certeza ficaria confuso com o tanto de informação que a mãe iria lhe passar.
Passava das 21h quando Clara colocou a chave na fechadura e girou a maçaneta. Cadu estava deitado no sofá e por um segundo Clara se perguntou se Felipe estava lá também.
Havia um forte cheiro de álcool na sala e Cadu tinha manchas na camiseta. Estava com o cabelo bagunçado e dormia todo torto.
Clara bufou e respirou fundo mais uma vez.
Cadu havia bebido meio bar para fugir da conversa que teria.
Não adiantaria acordá-lo, jogá-lo embaixo da água fria, pois quando Cadu bebia somente um novo dia para deixá-lo melhor.
Clara passou no quarto do filho e o observou dormir por alguns segundos.
O abajur ao lado da cama estava aceso e ela foi até lá para apagá-lo. Beijou os cabelos dourados de Ivan e antes de se afastar da cama o pequeno pegou sua mão e chamou num tom sonolento:
– Mãe?
– Oi, meu bichinho – disse Clara voltando para perto do filho e agachando-se ao lado da cama.
– Você demorou – sussurrou o menino com os olhos mais fechados que abertos.
– Teve... Teve muito trabalho no estúdio hoje. Mas a mamãe está aqui agora, pode dormir tranquilo.
– Dorme comigo? – pediu Ivan segurando a mão da mãe – Tive um pesadelo agora, chamei o papai, mas ele não veio...
– A mamãe vai tomar um banho e já volta – disse Clara dando um outro beijo no filho.
Foi para o banheiro e muito a contra gosto entrou debaixo do chuveiro e deixou que o sabonete retirasse de sua pele o cheiro de Marina. Enquanto esfregava seu corpo lembrava-se do toque de Marina em seu corpo, e de como havia tocado a fotógrafa e de como havia gostado daquilo. Mas antes que seu pensamento a levasse para um lugar que não queria ir sozinha, Clara desligou o chuveiro, colocou uma camiseta e voltou para o quarto de Ivan. Aninhou-se ao filho e poucos segundos depois estava dormindo mais profundamente que ele.

Marina acordou em meio a alguns lençóis que misteriosamente permaneceram na cama já que ao olhar no chão encontrou metade da roupa de cama lá. A fotógrafa pegou o travesseiro ao lado e inalou o cheiro doce que dele vinha. Seu corpo todo arrepiou e sentiu uma vontade incontrolável de ligar para Clara e pedir que ela matasse aquele desejo matinal. Mas conteve-se. Sabia que naquele momento, ou um pouco antes, as coisas no apartamento de Clara estariam ruins. Poderia esperar mais um pouco. Já havia esperado tanto.
Marina foi para o banho e sentiu as costas arderem quando a água fria escorreu por suas escoriações.
Depois de um banho menos demorado que o habitual pegou na sua caixinha de emergência uma pomada e desajeitadamente passou nos vergões que conseguiu alcançar. Vestiu uma regata leve, um jeans e foi direto para o estúdio.
Ao chegar desejou um bom dia à Giselle e Flávia.
– Flavinha, preciso de um favor seu – disse Marina indo até Flávia – Passa as últimas fotos que estão aqui para o meu computador – retirou o cartão memória e deu à Flávia – Guarda em uma pasta isolada – puxou Flávia pelo braço e pediu baixinho – Não deixa ninguém além de você ver, ok? Talvez a Giselle, mas a Vanessa, não. Não quero encheção de saco.
Flávia assentiu sem entender muito o pedido de Marina e foi para a parte superior do estúdio organizar as fotos que a chefe havia pedido.
– Marina... – chamou Gisele desconcertada pelo o que iria falar – É...
– Que foi? – perguntou Marina rindo sem entender.
– O seu pescoço... Alguém fez um estrago ai, hein?
Marina correu para o imenso espelho que tinha por ali e respirou fundo quando sentiu os tremores que as lembranças daquelas marcas traziam.
– Vai lá no meu quarto e pega o meu pó, por favor, Gi – pediu Marina soltando os cabelos e jogando-os por cima dos ombros, tentando inutilmente esconder as marcas que Clara havia deixado. Quando Marina focalizou o olhar no espelho, a imagem de Vanessa refletiu junto a imagem dela e elas se olharam por alguns segundos.
Flávia desceu até o térreo e sentou numa das grandes cadeiras que ali estavam e seus olhos brilhavam com as fotos que via. Sentia como se um pouco daquele amor das imagens estivesse sendo transportado até ela.
– Que concentração é essa? – perguntou Vanessa tentando espiar.
– Nada – respondeu Flávia abaixando um pouco a tela do notebook – Na verdade até já acabei.
– Depois eu vejo se essas fotos precisam de algum tratamento – disse Marina – Mas creio que não, elas estão... Perfeitas. Obrigada Flavinha.
– Que fotos são essas? – questionou Vanessa começando a sentir o bichinho do ciúme cutucar.
– Fotos pessoais, Vanessa – respondeu Marina inserindo o cartão de memória novamente na câmera.
– Aqui, Marina – disse Gisele entregando o pó compacto para Marina.
Mariana deixou a câmera em cima de sua pequena mesa com formato de uma carta de baralho e foi até o espelho.
– Pelo jeito a noite ontem foi ótima, hein? – alfinetou Vanessa.
– Melhor do que você imagina – disse Marina fuzilando a ruiva com o olhar através do espelho – Melhorou? – perguntou Marina virando-se para que todas pudessem ver.
– Bem melhor – garantiu Flávia.
– Achei que você estava virando uma dálmata – brincou Giselle.
Vanessa girou os olhos entediada e começou a organizar o mural onde as fotos a serem escolhidas para os catálogos ficavam.
– Gi, vem comigo pegar aquele painel que coloquei lá fora? Vou usá-lo para o ensaio de mais tarde – pediu Marina.
Giselle acenou como se batesse continência e seguiu Marina.
Vanessa terminou de pregar as fotos com os pequenos pregadores e ligou o notebook de Marina.
– Você sabe que a Marina não gosta que mexe no computador pessoal dela – disse Flávia desenrolando os fios das luzes que ia usar.
– O que você sabe da Marina? – retrucou Vanessa ácida continuando o que estava fazendo.
– Sei que ela não gosta que mexa no computador dela – disse Flávia deixando os fios de lado.
Parou ao lado de Vanessa e com uma só mão desceu a tela do notebook desligando-o.
Mas o que quer que estivesse naquele notebook seria descoberto mais cedo ou mais tarde.