Inquietude
11 Crise
Notas iniciais
Vanessa
As pessoas cometem erros a todo momento, certo?
Será que é na intenção de acertar ou é só pelo prazer? Há prazer em errar?
Não sei...
Há prazer em consertar esses erros que acontecem o tempo todo. E há mais prazer ainda em saber que o que você fez foi o certo. Independente do estrago que tenha feito. Você fez a coisa certa.
Erros são cometidos também por querer proteger algo (ou alguém) que realmente é importante pra gente.
Eu sou só mais uma querendo consertar um erro que deveria ter sido evitado logo no começo. Alguém que quer proteger outro alguém.
Vanessa desligou o computador de Marina e deslizou a cadeira de rodinhas até onde sua bolsa estava.
O estúdio estava silencioso.
Flávia e Giselle já haviam ido embora. Marina estava no banho.
A ruiva colocou o pen drive no pequeno bolso externo e olhou no relógio. Dava tempo de ir ao shopping onde os estúdios que revelavam fotos em 1 minuto ainda estavam abertos.
Clara acordou quando um feixe de luz solar atingiu seus olhos.
Apesar do calor que o feixe trazia, sentiu um frio por dentro e o coração começou a bater descompassado.
Olhou no relógio e viu que Ivan já havia perdido o horário de ir para a escola. Remexeu-se na cama devagar para não acordar o filho e antes mesmo de escovar os dentes foi para a sala ver se Cadu ainda continuava no sofá.
Ficou surpresa quando não encontrou o marido em lugar nenhum do apartamento.
Foi para o próprio quarto e tomou um banho. Olhou-se no espelho perguntando-se quando foi que a vida e as decisões haviam tomado um caminho tão inesperado.
Voltou para o quarto de Ivan e o acordou cheio de beijos e dengos. Disse ao filho que poderia ficar na casa de Helena brincando com a cachorra e, se Virgílio deixasse, brincando com os restos de madeira do artesanato dele.
Radiante Ivan pulou da cama e foi escovar os dentes.
Durante o café, Clara observava o filho incapaz de conceber como seria a reação dele quando soubesse que ela e Cadu já não dividiriam o mesmo teto. E que a mãe estava completamente apaixonada por Marina e que estava disposta a viver aquela paixão até a última gota.
– Achei que o Cadu estivesse aqui – disse Clara ao chegar ao apartamento da irmã.
– Ele foi para o galpão do Laerte – respondeu Helena com certo desprezo ao pronunciar o nome de Laerte – Disse que precisava estar lá cedo para ver se poderia mesmo fazer o restaurante dele lá.
– Ah! – surpreendeu-se Clara ao lembrar vagamente das conversas que havia tido com Cadu semanas antes.
– Como esposa dele achei que você estivesse por dentro do assunto, mas pelo jeito...
– Entende por que preciso resolver isso? – perguntou Clara segurando o pulso da irmã – Não dá mais pra viver nessa duplicidade. Estou decidida e não posso mais adiar isso, não depois de... – Clara ficou reticente ao lembrar-se da noite anterior – Só não posso mais.
– Então resolva essa situação! – disse Helena – Para de enganar o Cadu e para de se enganar, irmã.
– Eu vou resolver – respondeu Clara um pouco alterada – Mas o Cadu parece que está sentindo o que está por vir e foge.
Brevemente Clara contou a irmã sobre a noite anterior em sua casa.
– Vai lá no galpão atrás dele, amarra ele na cadeira se for preciso, mas chega de adiar.
Clara aquiesceu e deu um beijo na irmã despedindo-se.
E quando Clara chegou ao galpão Verônica disse que Cadu havia acabado de sair com Laerte. Eles haviam ido a uma loja de tintas, escolher as cores que iriam compor as paredes de todo galpão.
Clara bufou deixando Verônica sem entender. Voltou para o apartamento de Helena e disse ao filho que iria para o estúdio de Marina, mas que logo estaria em casa.
No caminho Clara ligou para Cadu, mas a ligação foi parar na secretária eletrônica e então, sentindo a raiva esquentar seu sangue, Clara deixou o seguinte recado:
“Para ser infantil, Carlos Eduardo. Parece criança que não quer voltar pra casa com medo de apanhar da mãe. Não adianta fugir, não adianta se esconder, vai ser pior pra você, pra mim e principalmente para o Ivan. Às 19h00 estarei em casa e espero te encontrar lá.”
Clara permaneceu ainda com o celular na mão, aguardando uma resposta imediata de Cadu.
Quando Clara entrou no estúdio Marina estava de costas, a assistente fez sinal para que Giselle não esboçasse nenhuma reação que denunciasse sua chegada.
De mansinho Clara passou os braços ao redor da cintura de Marina e respirou fundo no pescoço dela.
– Oi, minha fotógrafa preferida – disse Clara agora dando um beijo na bochecha de Marina.
Marina sorria aproveitando o momento e demorou um pouco para girar o corpo e ficar de frente para Clara. Deu um beijo demorado em sua bochecha e depois um beijo terno em seus lábios.
– Que surpresa boa, achei que não te veria hoje. Como estão as coisas?
– No mesmo lugar – respondeu Clara soltando-se de Marina e andando de um lado para outro – O Cadu resolveu brincar de esconde-esconde. Decerto ele está achando que eu vou mudar de ideia daqui meia hora e falar que tudo é um engano, ou sei lá... Mas já deixei um recado pra ele no celular, de hoje não passa. Não quero sair de casa como se fosse uma foragida.
– Calma, meu amor – disse Marina segurando nas mãos de Clara – Tudo vai dar certo e logo você estará livre disso.
Clara concordou com um gesto de cabeça e abraçou Marina.
– Tem muito trabalho hoje? Pode pedir o que quiser que eu faço – disse Clara.
Marina deu um sorriso de lado e puxou Clara pela cintura.
– O que eu quiser? – perguntou a fotógrafa roçando os lábios nos lábios de Clara.
– Ô, gente! Só queria avisar que eu ainda estou aqui, ok? – disse Giselle sentindo o rosto arder.
Clara e Marina riram com as testas unidas.
– Desculpa Gi, essa sua prima é impossível – disse Clara – Vou dar uma organizada nessa mesa porque parece que um furacão passou por aqui.
Marina seguiu Clara para procurar sua agenda e encontrou um papel de tom amarelado.
– Ué, que recibo é esse? – perguntou Marina analisando o papel – É um recibo de revelação de fotos... É seu Gi?
– Não – respondeu Giselle.
– Estranho – continuou a analisar Marina. Decidiu então amassar o papel e jogar no lixo.
Vanessa chegou um pouco afoita no estúdio.
– Bom dia pra você também, Vanessa – disse Marina quando a ruiva chegou perto – Está procurando o que? Que cara é essa? Vai tirar o pai da forca?
– Nada... É que... – Vanessa engoliu em seco – Só achei que tivesse deixado o orçamento daquela revista aqui, mas... Deve estar na minha bolsa.
Mais tarde...
Cadu havia ouvido o recado de Clara pelo menos dez vezes. Ainda não acreditava que a esposa estaria disposta a largar tudo para viver uma aventura. Aquilo era uma aventura. Melhor palavra não definiria aquilo. Aventura.
O homem se negava a soltar o nó em sua garganta. Não se rebaixaria. Não diante daquilo. Não com um grande sonho se realizando.
Caminhou lentamente pela rua e olhou no relógio, eram 17h45.
Passaria no apartamento de Helena e pediria à cunhada para deixar Ivan lá até ele resolver o problema. Não deixaria Clara ir embora, não deixaria o casamento ir por ralo abaixo. Eles eram felizes, era uma família perfeita.
Tinham lá seus percalços, mas ainda assim eram felizes.
Ao colocar os pés no edifício o porteiro abordou o futuro chef de cozinha com um envelope pardo nas mãos.
– Cadu, um motoboy deixou isso aqui pra você. Disse que era pra ser entregue em mãos.
Cadu estranhou a entrega. O envelope não tinha identificação, mas tinha um peso considerável. Apalpou o pacote mais um pouco e então rasgou uma das laterais. Pareciam fotos.
Puxou os papeis para fora do envelope e seu coração acelerou deixando-o ofegante. Uma ira desconhecida começou a dominar todo o seu sistema nervoso.
– Tudo bem, Cadu? Você está pálido, vou pegar...
Mas não deu tempo de o porteiro terminar o que tinha a falar. Cadu já estava no elevador.
Cadu foi para o apartamento de Helena e apertava a campainha descontroladamente.
– Ave Maria, o que está acontecendo? – perguntou Rosa do outro lado indo abrir a porta.
– Cadê a Helena? – perguntou Cadu exaltado.
Rosa assustada deu espaço para que Cadu entrasse e antes que ela respondesse Helena surgiu na sala.
– O que está acontecendo? – perguntou a irmã de Clara assustada.
– Isso! – respondeu Cadu jogando as fotos em cima do sofá – É isso que está acontecendo. Aposto que você sabia disso e estava acobertando...
Sem entender nada Helena pegou algumas fotos e então começou a entender aquele começo de tempestade.
– Eu não... – tentou dizer, mas as fotos haviam entorpecido Helena.
– Ela mentiu pra mim esse tempo todo – vociferou Cadu – Mentirosa. Traidora. Vagabunda – gritou furioso.
– CALMA – pediu Helena – Traz um copo de água, por favor, Rosa. Nós vamos esclarecer tudo isso, isso deve ser tudo montagem.
Cadu riu amargurado.
Virgílio chegou minutos depois e quase sentiu a tensão do ar lhe atingir.
Ivan e Benjamim o acompanhavam e Cadu se viu obrigado a controlar o ódio que sentia. Abraçou o filho e o manteve afastado das fotos que estavam espalhadas no sofá.
Virgílio olhou para o sofá e sua boca formou um O que custou a fechar. Juntou as fotos e as colocou no envelope de novo.
– O que está acontecendo? – perguntou sussurrando perto de Helena.
– A gente vai descobrir daqui a pouco – respondeu Helena digitando os números de Clara no celular.
O ensaio havia terminado mais cedo do que o previsto. O estúdio estava organizado e todas estavam cansadas. Marina aproveitou a surpresa de Clara e dispensou Flávia e Giselle.
Vanessa que andou o dia todo distante foi para o quarto sem dizer uma palavra.
Clara estava deitada com a cabeça no colo de Marina e tinha os cabelos acarinhados por ela.
– Independente do que acontecer hoje Marina, eu quero meu emprego de volta – declarou Clara – Me apaixonei pelo estúdio, me apaixonei mais ainda por fotografia e me apaixono cada dia mais por você.
Marina sorriu como boba e beijou Clara, dando um beijo de esquimó em seguida. Fazendo Clara sorrir.
– Você leva jeito pra coisa, Clarinha. Só precisava de alguém pra te mostrar esse mundo – disse Marina.
Clara levantou-se e sentou no colo de Marina roubando um beijo que exigiu muito trabalho dos pulmões de ambas.
– Não parei de pensar no dia de ontem – declarou Clara entre beijos e mordidas – Quero você de novo.
Marina então puxou Clara para o chão do estúdio e as duas continuaram a se beijar como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte.
Clara deslizava sua mão por todo corpo de Marina e Marina correspondia adentrando a blusa de Clara com sua mão quente e provocativa.
A assistente rolou por cima da fotógrafa desabotoando a camisete que ela usava.
Sem paciência Marina logo tocou o sexo de Clara ainda encoberto pela calça e arrancou um gemido rouco dela.
Clara estava pronta para abrir o sutiã de Marina quando ouviu o celular tocando dentro da bolsa.
Ignorou.
Clara continuou o que estava fazendo.
Marina respirava pesadamente nos lábios de Clara e começou a tirar a blusa dela para fora da calça. O tecido leve deslizou delicadamente para cima quando Marina o retirou.
Sentindo-se muito mais livre, Clara foi descendo pelo corpo de Marina com sua boca úmida. Mordeu a barriga da fotógrafa que trepidou.
Clara subiu de novo para falar bem ao pé do ouvido de Marina:
– Quero tanto sentir seu gosto.
Marina apertou a cintura de Clara e mudou de posição jogando-a para baixo de seu corpo.
– Não antes de eu te provar de novo – revidou Marina adentrando a calça de Clara e tocando seu sexo por cima da calcinha úmida.
Marina se preparava para desabotoar a calça quando o celular de Clara tocou de novo.
– Acho melhor você atender – disse Marina enquanto tirava a calça de Clara.
– Não deve ser nada demais – garantiu Clara ajudando na retirada.
Clara puxou Marina para mais um beijo ardente e se relutou quando ouviu o celular tocar pela terceira vez.
– É rapidinho – disse Clara saindo debaixo de Marina um pouco cambaleante.
Marina a seguiu insaciável agarrando-a por trás.
– É a Helena... Ai... Marina! – ralhou Clara adorando as mordidas que estava recebendo – Espera! Deixa eu ver o que a minha irmã quer.
– Oi, irmã!
– Onde você está, Clara? Pelo amor de Deus vem pra cá agora. Ou vai acontecer uma desgraça.
Clara afastou as mãos de Marina e começou a caminhar pelo estúdio desorientada.
– O que está acontecendo? É com o Ivan, ele está bem?
Marina notou as expressões de Clara alternar entre preocupação e susto e caminhou até ela. Apesar de sentir o tesão esquentar o seu corpo, Marina parou diante de Clara pedindo com o olhar uma resposta.
– O Cadu está feito um louco aqui. Ele... – E Helena foi surpreendida por Cadu que estava às suas costas bufando como um boi bravo.
– É ela não é? Fala que eu já descobri tudo! – gritou Cadu.
Virgílio o puxou pelo braço e então Helena confirmou:
– Ele... O Cadu descobriu sobre você e a Marina da pior maneira possível.
Sem se despedir Clara desligou o celular e o segurou junto ao peito por alguns segundos. Estava estática. Sentia as lágrimas fazerem o caminho até seus olhos e sua garganta se fechou.
– O que foi, Clarinha? – perguntou Marina puxando Clara para seus braços.
– O Cadu... Ele... – Clara respirava rápido e não conseguia organizar o que Helena disse – Ele descobriu sobre eu e você.
– Como? – questionou Marina incrédula.
– Não sei... Preciso ir.
Clara voltou as roupas para o corpo, abotoou a calça novamente e calçou suas sapatilhas.
– Clara! Calma. Eu vou com você.
– Não! – Clara parou diante de Marina visivelmente preocupada – Não sei o que o Cadu é capaz de fazer, não quero colocar sua integridade física em risco.
– Ele não é nem louco de agredir uma mulher, né?
– Não sei, Marina... As pessoas quando ficam com raiva mudam da água para o vinho, não quero arriscar. Não vou aguentar te ver machucada...
Clara começou a chorar copiosamente e Marina a abraçou.
– Eu estou com você, meu amor. Te falei que enfrentaríamos isso juntas. E eu não vou sair do seu lado. Eu vou com você sim, mas vou ficar te esperando no carro, em algum bar que tiver lá por perto... Não vou aguentar ficar aqui sem notícias.
Clara apertou Marina ainda mais em seus braços e respirou fundo.
– Não faça eu me arrepender de tudo isso Marina – disse Clara molhando o ombro da fotógrafa com suas lágrimas.
– Olha pra mim – Marina afastou Clara de seus braços e passou os dedos ao redor dos olhos dela impedindo que novas lágrimas rolassem – Eu estou aqui pra você e por você. Desde o momento em que eu te vi eu te quis pra ser a mulher com quem eu quero passar o resto da minha vida ao lado. Prefiro morrer a ficar sem você.
Clara esboçou um sorriso e novas lágrimas correram por sua face.
Segurou o rosto de Marina entre as mãos e a beijou.
De mãos dadas as duas saíram do estúdio e juntas caminhariam até a tempestade que estava se formando.
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