Inquietude
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Notas iniciais
Marina não poderia ver mesmo que quisesse, seus olhos inundados não permitiriam enxergar nitidamente o rosto banhado pelas lágrimas de Clara que permanecia sentada, as pernas esticadas e as mãos no rosto junto de um sorriso tão largo que rasgaria sua boca com facilidade.
Clara nunca havia ouvido tão claramente que Marina a amava. A declaração formal e tão desejada por dez entre dez mulheres não havia acontecido. E agora Clara entendia o porquê. Tudo tem o momento certo e era naquele momento em que a insegurança começava a ameaçar sua sanidade que a declaração de Marina acalmaria seu coração como bálsamo.
– Então é isso? Você vai trocar a sua vida, o amor do seu pai por essa mulher que eu nem sei de onde vem?
– Você preferiu a ignorância e o preconceito a sua filha – respondeu Marina lutando contra a dor que começava a se instalar em seu coração – Não há mais nada que eu possa fazer.
Talvez fosse a segunda ou terceira vez em toda sua vida que Marina ia ver o pai chorar. Diogo sentia um pouco de falta de ar, mas não desceria de seu pedestal e se rebaixaria. Estava perdendo a filha entre os dedos, mas não se sentia completamente culpado. O “estilo de vida” que Marina levava era incompatível com os seus valores. A única filha. A única herança do amor que tivera anos atrás estava se perdendo e dessa vez pareceria ser para sempre.
– Então, Marina, como quiser. Dessa vez estamos rompidos pra sempre – disse Diogo piscando rapidamente para despistar as lágrimas. – Espero que você não se arrependa – ele foi deixando o estúdio sem olhar para trás.
Quando Clara ouviu os passos vindo em sua direção levantou correndo do chão, mas Diogo a viu tentando disfarçar a situação.
Olharam-se por longos segundos.
Diogo virou as costas mas deteve-se quando sentiu a mão de Clara em seu braço.
– Ela precisa de você – disse Clara baixinho e ouvindo Marina desmoronar gradativamente – Ela é a sua filha, cara. A sua única filha.
– Ela não pensou nisso quando decidiu se tornar mais uma lésbica pervertida. E você, tão linda... Você é realmente bonita. Seus pais devem estar tão decepcionados quanto eu.
– Meu pai faleceu quando eu era criança e a minha mãe está ao meu lado. Ela só quer ver minha felicidade. Ela sabe que eu amo a sua filha e que isso é recíproco. Você deveria pelo menos se importar com a felicidade dela – respondeu Clara.
Diogo coçou a sua nuca visivelmente entediado.
– Isso pra mim não é felicidade, não é vida, não é amor. Ela não precisa de mim, ela precisa... – Diogo achou graça do que iria falar – Ela precisa de você. E pelo jeito só isso basta.
Clara bufou.
Parecia mais fácil fazer um buraco na parede com um soco, do que destruir aquele muro de preconceito que cercava o homem à sua frente.
– Realmente – concordou Clara com o cenho franzido – Ela precisa de mim. E eu nunca vou abandoná-la como você está fazendo. Se for pra fazê-la chorar, fazê-la sofrer é melhor que você nunca mais coloque os pés aqui – avisou Clara trincando os dentes.
– Avise-a que a partir de amanhã todos os cartões de créditos estarão cancelados e que a poupança também já não existirá mais.
Desacreditando da discussão que acabara de acontecer Clara entrou no estúdio da amada e deparou-se com uma Marina completamente diferente da que tinha conhecido no dia da exposição.
Marina estava destroçada. Humilhada. Revoltada. De seus olhos já não saiam mais lágrimas de tanto chorar compulsivamente sem intervalo durante aqueles minutos.
Clara compadeceu-se de Marina e sentou ao lado dela.
– Shhh... Calma, eu estou aqui – disse Clara abraçando Marina e beijando o topo de sua cabeça – Eu estou aqui.
– Não me deixa, fica comigo. Eu te amo tanto! Não posso te perder – dizia Marina completamente desesperada. Abraçava-se a Clara como um naufrago que acaba de encontrar sua tábua de salvação.
“Venha até mim exatamente como você é
Não preciso de desculpas
Saiba que você vale a pena
Vou acabar com seus dias ruins através dos seus dias bons
Caminhar por esta tempestade, eu iria
Eu faria isso tudo porque eu te amo, eu te amo
Incondicional, incondicionalmente
Vou te amar incondicionalmente
Não há medo agora
Se liberte e apenas seja livre
Eu vou te amar incondicionalmente”
– Eu te amo mais ainda. E estou aqui com você, meu amor, pra sempre. Estamos juntas – garantiu Clara apertando os braços ao redor de Marina.
Vanessa correu para o estúdio quando viu Diogo entrando no carro. Parou na porta quando se deparou com a cena.
Definitivamente aquele jogo estava perdido para ela.
Clara deixou mais uma mensagem para o Cadu no celular, dessa vez dizendo que pegaria Ivan no dia seguinte. Naquele momento Clara não teria condições de dar a atenção que o filho merece.
A morena voltava da cozinha com um sanduíche quente nada saudável, um copo de suco de laranja e uma garrafa de vodca pela metade.
Marina riu quando viu a bebida alcoólica na bandeja.
– Sei lá, né? Vai que você quer tomar um porre. Eu posso te acompanhar – justificou Clara rindo junto.
– Só você pra me fazer rir – disse Marina sentindo os olhos marejando de novo – Eu te amo... – sussurrou ela com a voz esmagada demais para emitir um som audível.
– Eu te amo mais – sussurrou Clara dando um beijo suave em Marina e afagando seu rosto e seus cabelos – Vou ficar aqui fazendo igual eu faço com o Ivan, vendo se você come tudo. E se quiser conversar eu também estou aqui.
Marina fez um grande esforço para ocupar o vazio em seu estômago, mas o sanduíche amargava em sua boca e nem um litro de suco de laranja o faria descer. A fotógrafa deixou a bandeja a seus pés e se ajeitou na cama. Começou então a contar para Clara quase toda sua trajetória até a decisão de voltar para o país onde tinha nascido. Não queria deixar escapar nenhum detalhe.
– Contei sobre a minha sexualidade para o meu pai por que achei que seria mais fácil, sabe? Estávamos tão próximos depois da morte da minha mãe que... – Marina deu um longo suspiro – Achei que ele iria me aceitar. Mas não. E não demorou muito pra eu desmentir tudo que havia falado. Eu era muito mimada, tinha uma vida de rainha. Não saberia viver sem aquilo.
– Mas você e a Vanessa continuaram juntas? – questionou Clara.
– Por pouco tempo por que eu mesma comecei a me questionar sobre o que eu era, sabe? Então comecei a arrumar namorados e mais namorados, mas me sentia suja, estranha. Não era eu. Eu tinha tudo. Estúdio, meus luxos e mimos. Mas ainda assim não era o que eu queria.
– Ouvi seu pai falando que dessa vez o rompimento era pra sempre... Então vocês brigaram bastante – supôs Clara roubando o suco intocado de Marina.
– Brigamos muito, mas rompemos três vezes contando com essa – começou a explicar a fotógrafa – A primeira foi quando me assumi, a segunda foi quando descobri que a minha mãe...
Marina sentiu uma pontada no coração e novas lágrimas escorreram incessantemente.
– A minha mãe havia se suicidado quando soube que o meu pai havia traído ela com outras mulheres, inclusive a que se dizia melhor amiga dela.
Clara abraçou Marina e a sentiu tremer quando uma forte torrente de lágrimas escapou. Ficaram abraçadas por um longo tempo.
Assustada Clara tirou a bandeja da cama e deitou puxando Marina para o seu peito. Nunca havia visto Marina tão vulnerável, nem sabia que por trás daquela fortaleza havia alguém tão destroçada e cheia de cicatrizes.
– Então me revoltei. Como tinha algum dinheiro comecei a gastar em todas as festas possíveis de todos os países que eu ia e ai alguns “escândalos” foram publicados. Eu realmente aprontei. Sai de casa e fui morar com a Vanessa, nós brigávamos e voltávamos muito. E foi num desses términos que eu surtei e fui parar nas capas das revistas. Mas apesar de tudo, de ele... – Marina suspirou quando usou um pronome ao invés de “pai” – De ele ter traído a minha mãe, de ter me batido, ele era meu pai, minha única família – E Marina sentia o coração sendo esmagado pela décima vez naquele dia.
Marina olhou no relógio de cabeceira e já passava das três horas da manhã quando chegou à metade de sua história, nem ela e nem Clara se importavam com o horário. Clara só queria estar acordada para abraçar ou impedir que alguma lágrima imprópria banhasse o rosto da mulher que tinha mudado sua vida.
– Um longo tempo se passou e aqui estou eu. Sentindo o meu mundinho perfeito ruir lentamente. A única coisa que consigo pensar agora é na casa. Vou ter que vender tudo, se bobear até a roupa do corpo, despedir as meninas... Não queria ficar sem elas.
– Eu estou aqui para o que precisar e falo de tudo, pode contar com muito mais do que o meu amor por você, viu? – disse Clara depois de se certificar de que Marina havia encerrado – E eu só estou esperando o Cadu arrumar um lugar pra ele e eu vou vender o apartamento.
– Agora que você tocou nesse assunto eu vou confessar que não entendi o porquê de você ter deixado o Cadu com o apartamento – disse Marina – Ele não é seu?
– É, ele faz parte da herança que o meu pai deixou. Eu não queria continuar morando lá e nem quero começar uma vida nova com você lá – explicou-se Clara – São muitas lembranças boas, outras ruins, mas não quero me apegar a elas.
– Tem medo de querer voltar pra essas lembranças?
– Não! Só quero um lugar nosso, que tenha a nossa cara. Que seja meu e seu por inteiro. E além disso, não acho legal pra você ter que conviver com essas lembranças e comentários sobre o passado que podem escapar sem querer. Não quero te magoar com esse tipo de coisa, nem com coisa alguma. Eu só quero te fazer feliz, amor.
Marina abriu um sorriso abobalhado. As lágrimas corriam sem qualquer esforço. A fotógrafa ficou contemplando Clara por alguns segundos, se perguntando se merecia tanta felicidade, tanto amor e tanta sorte.
“Nós faremos tudo isto sozinhos
Nós não precisamos de nada ou de ninguém
Se eu deitasse aqui, se eu apenas deitasse aqui
Você deitaria comigo
E esqueceria do mundo?
(...)
Eu não sei bem como dizer como me sinto
Aquelas três palavras são ditas demais
Elas não são o suficiente
(...)
Eu preciso de sua graça para me lembrar
De encontrar a mim mesmo
(...)
Tudo que eu sou, tudo o que eu sempre fui
Está aqui em seus olhos perfeitos”
– Repete – pediu a fotógrafa hipnotizada como se estivesse se apaixonando por Clara pela primeira vez.
– O que?
– Isso que você acabou de falar. Começa com A e termina com MOR.
– Como você é boba, meu amor – respondeu Clara segurando o rosto de Marina entre as mãos e disparando beijos – Só minha.
– Só sua, meu amor. Minha amiga, minha amante, meu mundo. Tudo. Você é tudo, Clarinha.
– Eu amo você – segredou Clara entre os lábios de Marina, descendo a boca até seu queixo – Amo você além do que chamamos de eternidade.
– Além. Somos e vamos além, por que a eternidade ainda é muito pouco pra nós.
Clara continuou descendo a boca pelo pescoço de Marina, usando apenas o roçar de lábios. Marina enfiou uma mão nos cabelos de Clara enquanto a outra, por dentro da blusa, tocava a pele quente e macia.
– Me faz sua – pediu Marina estremecendo a cada toque de Clara – Me faz ter certeza que você é só minha. Eu te quero dentro de mim, preciso te sentir.
– Duvide de qualquer coisa – disse Clara enquanto arranhava delicadamente as costas e a barriga de Marina – Menos do amor que sinto por você. Estaremos juntas pra sempre.
Clara então abriu os botões da calça de Marina e a adentrou profundamente.
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