Inquietude
19 Dor
Notas iniciais
Leblon, sexta-feira, 17h32
O celular de Cadu tremia incansavelmente sobre o criado mudo. Ele apenas olhava para se certificar de que era Clara que mais uma vez ligava.
Levou duas malas para a sala enquanto perguntava ao filho se ele já estava pronto.
– A gente vai viajar? – perguntou Ivan quando chegou à sala com sua mochila nas costas.
– Vamos – respondeu Cadu conferindo se estava com os documentos de ambos.
– A mamãe vai com a gente? – o brilho nos olhos do garoto era evidente.
– Não... Sua mãe não faz mais parte de nossas vidas. Vamos indo pra não pegarmos trânsito na ponte.
Cadu deu uma última olhada no apartamento, trancou a porta e sem dizer nada para ninguém saiu com Ivan, despedindo-se apenas do porteiro.
Santa Tereza, sábado, 10h30
Clara acordou primeiro e observou Marina dormir.
Apesar do dia anterior ter sido agitado e completamente estressante, Marina dormia tranquila. Mas seu cansaço mental e físico era visível. Mesmo com Marina de olhos fechados, Clara percebia as pálpebras inchadas devido ao choro excessivo. Seu coração doeu ao lembrar-se da cena de horror que ouvira no dia anterior.
Clara beijou a testa, os olhos, o nariz e a boca de Marina. Acariciou os cabelos desordenados da fotógrafa, desceu o dedo delicadamente pela face, fazendo o contorno assimétrico daquele rosto que só a encantava cada segundo mais.
Marina movimentou-se na cama, passou o braço por cima de Clara, mas permaneceu de olhos fechados.
– Continua – disse Marina quando percebeu que Clara havia parado os carinhos – Amo o jeito como você me ama e cuida de mim.
– Bom dia, amor! Deu pra descansar?
– O suficiente pra conseguir enxergar alguma beleza no dia de hoje – respondeu Marina – Preciso de um banho. Hoje não tem fotos para fazer, mas tem para organizar e editar. Ficaremos sem a Gi hoje, achei melhor deixá-la em casa.
– Tudo bem, vai pro banho que eu vou pedir pra fazer um café reforçado já que você não comeu nada ontem a noite – observou Clara.
– Nada disso, o café pode esperar. Meu desejo agora é outro – disse Marina sussurrado no ouvido de Clara – Estou com fome de você.
Marina entrou na banheira e a água quente começou a renová-la no mesmo instante. Clara sentou atrás, massageando os ombros, e os cabelos enquanto beijava a nuca e o pescoço da fotógrafa. Suas mãos precisas e macias desciam e subiam nas costas de Marina que respirava profundamente, soltando o ar devagar pelas narinas. Os movimentos deixavam Marina excitada. Clara colocou o cabelo da amada de lado e passou as mãos para a parte da frente do corpo dela, moldando os seios enrijecidos com força.
– Hummmmmmm... – gemeu Marina ao toque.
Clara brincava com os mamilos entre os dedos, apertando-os, puxando-os e seus dentes marcavam a pele branca do pescoço.
Marina sentiu o coração acelerar quando os seios de Clara tocaram suas costas. Seu sexo pulsava de maneira lenta e Clara desceu a mão pela barriga de Marina e passeou em sua cintura.
A língua da morena que já conhecia muito bem aquela pele alva e pintada, saboreava das costas à orelha.
Marina tombou a cabeça para trás e Clara prendeu seu lábio inferior entre os dentes depois de sugar a língua quente e molhada.
Quando Clara ia escorregando seus dedos para o sexo de Marina a fotógrafa deteve sua mão e disse:
– Você já abusou muito de mim ontem, agora é a minha vez.
Marina pegou Clara pelos cabelos molhados e a obrigou a se encostar na banheira, aprisionou o lábio inferior dela entre os dentes e o puxou para si.
Sem cerimônia Marina penetrou dois dedos em Clara. A fotógrafa saía e entrava num ritmo lento, alternando as estocadas com massagens no clitóris que se inchava a cada minuto.
– Você me enlouquece – disse Clara entre um gemido e outro enquanto a boca de Marina devorava a sua.
– Você geme tão gostoso, sabia? – disse a fotógrafa no ouvido de Clara.
A morena retesou o corpo e Marina sentiu seus dedos sendo apertados pelo sexo que se contraía.
– É?
– Muito – ratificou Marina mordendo o pescoço de Clara – Quero ouvir você gemendo mais.
A fotógrafa tirou sua mão e pegou Clara pela cintura, colocando-a sentada na borda da banheira.
Com as pernas bem afastadas, Clara sentiu Marina adentrar naquele túnel molhado e quente com sua língua. Marina passou a língua de baixo pra cima e foi subindo até chegar a boca de Clara.
– Geme pra mim, vai – pediu enquanto as línguas se entrelaçavam.
Marina sugou o seio de Clara e seus dedos se perderam na intimidade que pedia por mais. A fotógrafa separou os grandes lábios esticando-os e a ponta de sua língua pousou no clitóris rosado.
– E-eu... Eu não maltratei você desse jeito, amor – disse Clara ofegante olhando para Marina.
– O que você quer? – perguntou Marina passeando as mãos pelo corpo de Clara, a enlouquecendo aos poucos.
– Você – respondeu num choramingo.
Ajoelhada na banheira, Marina colocou seus corpos. Os seios molhados encostando-se à barriga de Clara.
– Já estou aqui – respondeu Marina olhando para cima.
Clara torceu os lábios em revolta.
– Fala, o que você quer que eu faça com você, hein?
– Me chupa! Quero sua boca em mim – pediu Clara.
– Assim? – perguntou Marina sugando o pescoço de Clara como um suculento morango.
– Cretina – respondeu Clara num gemido sôfrego.
– Ou assim? – Marina apoderou-se dos seios de Clara e ela estremeceu, escorregando o corpo molhado.
Marina a segurou e cansada de brincar a penetrou com seus dedos ágeis.
Desceu a boca pelo abdômen liso e chegou ao ponto rosado e inchado que a fazia salivar.
Marina circulou o clitóris e o sugou. Clara trepidou e o gemido ficou preso em sua garganta. Ela começou a aumentar o ritmo das estocadas e usou todo o fôlego que tinha para chupar Clara até que ela gozou em seus dedos e em sua boca.
– Metade das fotos já estão organizadas – observou Flávia – Deve ter sido a Clara, ela é um anjo mesmo.
– Por que deve ter sido a Clara? Pode ter sido eu ou a Gisele – contrapôs Vanessa – Não é só ela que trabalha aqui nesse estúdio.
– Essa sua implicância com a Clara não vai terminar nunca pelo jeito.
– Achei que iria conseguir afastar a Clara da Marina, mas... – Vanessa parou a frase pela metade. Havia pensado alto demais e agora Flávia a encarava esperando pelo final da sentença. Um ponto de interrogação girando em torno da cabeça da morena.
– Acho que... Acho que não entendi – disse Flávia fechando o notebook – Que história é essa?
– História nenhuma – mentiu Vanessa voltando sua atenção para o que estava fazendo.
– O que você fez Vanessa?
E então a ruiva sentou de frente para Flávia e começou a contar até onde tinha chegado para tentar colocar um fim àquela história que, no seu ponto de vista, nunca deveria ter começado.
Flávia ficou chocada. Jamais poderia supor que Vanessa fosse aquele tipo tão baixo e vil de pessoa.
– Eu só me arrependo de ter feito isso por que serviu pra Clara se decidir de uma vez por todas – confessou a ruiva.
Marina chegou ao estúdio e ficou parada na porta, horrorizada demais para continuar caminhando. Vanessa estava de costas e Flávia não percebeu sua presença, pois estava compenetrada demais no que Vanessa falava.
– Eu só queria a Marina de volta pra mim. E eu mandaria aquelas fotos para o Cadu de novo se você quer saber. A Clara não é a pessoa certa para a Marina, nunca vai ser.
Marina sentiu as palavras lhe atingirem como um golpe na boca do estômago. Ficou parada onde estava sem conseguir se mexer, sem conseguir esboçar uma reação sequer.
E tudo aquilo que não fazia sentido começou a se encaixar num quebra-cabeça mental que ia surgindo na mente de Marina.
O recibo em cima da mesa. O afastamento de Vanessa.
Tudo agora se encaixava.
– Vanessa – chamou Marina com a voz engasgada.
A ruiva girou na cadeira conseguindo ficar ainda mais pálida do que já era. Engoliu em seco, entretanto não havia qualquer vestígio de arrependimento em seu olhar. Apenas o medo do fato eminente: perder a Marina.
A ruiva levantou-se e caminhou até Marina em silêncio.
– Deixa ver se eu entendi certo, você teve A CORAGEM de mandar as minhas fotos com a Clara para o Cadu, é isso? – perguntou Marina aumentando o tom de voz gradativamente.
– Fiz e faria de novo – disse Vanessa não suportando a ideia de que aquilo tinha virado contra ela.
Marina respirou fundo e num ataque de fúria bateu com as costas da mão no rosto de Vanessa.
Vanessa não acreditou que Marina tinha feito aquilo. Sua vontade era devolver o gesto com dois tapas. Mas seu rosto ardia demais e ela não conseguia tirar a mão do local atingido para revidar.
– Flavinha, deixe-nos a sós – pediu Vanessa sem tirar os olhos de Marina.
– Tá louca? Alguém tem que estar aqui pra impedir um homicídio – disse Flávia atrás de Vanessa.
– Por que você fez isso, Vanessa?
– Você acha que é fácil ficar vendo essa melação toda entre você e a Clarinha? – disse a ruiva num tom irônico e mordaz.
– Isso não justifica o que você fez!
– Eu queria destruir isso, mostrar que você ia se ferrar bonito quando a Clara decidisse voltar para o marido gato dela. Eu amo você, Marina. EU AMO VOCE – vociferou Vanessa que tinha metade do sangue concentrado em seu rosto.
– Problema seu – rebateu Marina – EU NÃO AMO MAIS VOCÊ. Mais errado do que mexer comigo foi mexer com alguém que eu amo – Marina tinha a mão nos cabelos e os olhos fechados cansados de chorar voltavam a derramar lágrimas, essas agora de pura e amarga decepção.
– Sabe como dói te ver assim? Apaixonada, entregue, completamente idiotizada por alguém tão diferente de você? Cada vez que você fala “Clara” e vejo seus olhos brilhando uma ferida nova se abre aqui – disse Vanessa apontando para o coração – e as velhas sangram um pouco mais. Eu achei mesmo que a Clara fosse ver a burrada que estava fazendo, achei que ela fosse cair na real, ver que vocês são apenas uma aventura, uma aventura que não leva a lugar algum. Achei que você voltaria pra mim como sempre fez...
– Você não tinha esse direito... – Marina tinha os olhos injetados de ódio.
– VOCE QUE NÃO TINHA O DIREITO DE PASSAR POR CIMA DO QUE NÓS TIVEMOS, DO MEU AMOR POR VOCE – gritou Vanessa disparando as palavras com rancor.
– Você é louca – constatou Marina dando uma risada curta – Eu fui bem clara esse tempo todo sobre o que senti por você, Vanessa... Eu não sinto mais nada por você.
– Achei que você tivesse um pouco de consideração pelo que tivemos.
“Enquanto você começa a sua discussão aleatória
Eu sei que, de longe, que você deve andar de
Bem, você deve voar para longe de mim
Assim como os aviões fazem sobre o mar
Se a vida parece esquecer
O que rimou 'eu com você'
Não resta muito a fazer
Ou insistir, sem ter por quê
Antes de o dia terminar
Eu sei que há tanta coisa pra contar
Mas é melhor fugir de mim
Sem mais, sem dor, perto do fim
Eu estive em quartos de hotel antes
E tudo que você pode dizer, eu sei de cor
Como num voo sobre o mar
Sempre partir, nunca ficar”
– Isso já é um problema todo seu. Caramba, Van! Você é a minha amiga. Era. Minha melhor amiga... Pelo amor de Deus! Isso que você fez foi doentio.
– Mas você não pode negar que eu ajudei no final das contas – provocou.
– Não era esse tipo de ajuda que eu queria. A Clara viria pra mim de qualquer jeito a qualquer momento – respondeu Marina se segurando ao máximo para não partir pra cima da ruiva de novo – Eu só queria você aqui pra me dizer que tudo ia ficar bem, pra eu não desistir. Mas você preferiu me apunhalar pelas costas. Não vejo um meio de te perdoar, não vejo mais um caminho pelo qual possamos seguir juntas como sempre seguimos... – Marina sentou na cadeira desolada. Os olhos vermelhos ardiam e a cabeça começava a doer – Acho melhor você pegar suas coisas e... Não dá mais. Você passou de todos os limites toleráveis.
Clara estava terminando o café e decidiu ligar para Cadu avisando que em poucos minutos estaria no Leblon. Mais uma vez o celular do ex-marido tocou até cair no correio de voz. A morena então começou a achar aquilo estranho demais, e a sensação piorou quando seu coração se contraiu em seu peito.
Ligou para a irmã mais velha perguntando se o ex-marido e o filho estavam lá, mas para sua surpresa Helena dissera que não tinha visto nenhum dos dois desde a tarde passada quando trombou com Cadu no elevador. Sem querer demonstrar o pânico que começava a surgir, Clara desligou e foi correndo para o estúdio avisar Marina do péssimo pressentimento que sentia.
– Marina, não consigo falar com o Cadu e não estou gostando nada... – disse Clara entrando no estúdio. Ela parou alguns segundos analisando a cena. Viu o rosto de Vanessa molhando e vermelho assim como os olhos de Marina.
Clara correu para o lado de Marina e sem perguntar nada passou as mãos no rosto de Marina enxugando-o e depois a abraçou.
Injuriada, Vanessa saiu do estúdio batendo a pesada porta e Flávia a seguiu.
– Seu pai aprontou de novo? – perguntou Clara.
– Não – disse Marina fungando e levantando – Depois a gente conversa sobre isso, Clarinha. Você chegou falando do Cadu, aconteceu alguma coisa?
– Não sei, amor... Não consigo falar com ele desde ontem, ele não atende as minhas ligações, a Helena não sabe dele e nem do meu filho, estou preocupada. Meu coração de mãe está me dizendo que isso não está certo.
– Mais problema... – reclamou Marina mais para si própria do que pra Clara – Será que a gente nunca vai ter paz? Eles devem ter ido passear em algum lugar, vai saber.
– Não sei – respondeu Clara andando de um lado para outro – Eu vou para o Leblon ver se ele aparece. Você vem comigo?
– Não... – respondeu a fotógrafa fungando e andando até o notebook para ligá-lo – E não sei por que essa preocupação toda. Os dois devem estar a caminho inclusive.
– Não tenho tanta certeza. Meu coração – disse Clara um pouco irritada e com a mão esquerda no peito – Ele está querendo me dizer alguma coisa e eu não sei o que é. Ai, meu Deus! Proteja meu filho! – pediu de olhos fechados.
– Pode pegar o carro se você quiser.
– Você não vai mesmo vir comigo? – indagou Clara mais uma vez.
– Tem muito trabalho pra fazer, Clara. Pega o carro, busca seu filho e depois nós conversamos.
Clara estranhou ser chamada pelo nome de batismo já que Marina quase nunca o usava ou se usava era quando faziam amor ou no diminutivo.
– Individualista – murmurou Clara baixinho colocando o celular no bolso traseiro do seu jeans.
– O que? – perguntou Marina percebendo o resmungo, mas sem entender o que era.
– Nada, Marina! Tchau – disse Clara saindo do estúdio como um furacão.
Marina fechou o notebook com raiva.
Horas antes havia perdido o pai, minutos antes perdera a melhor amiga e agora havia descontado toda a raiva na única pessoa que poderia lhe trazer paz.
Clara desceu do táxi como um foguete. Entrou no prédio de número 45 e para sua sorte o elevador acabava de chegar ao térreo, sem dizer bom dia a quem saía dele, descontroladamente ela apertava o número do andar onde a irmã mais velha morava.
Clara entrou no apartamento chamando por Helena. Rosa que vinha da cozinha com uma garrafa de café chamou Clara para se sentar à mesa com todos, mas ela recusou andando de um lado para outro.
Luiza e Virgílio perguntaram o que estava acontecendo. A sobrinha sentou a tia no sofá e ao pegar em suas mãos sentiu como estavam geladas.
Helena que ouviu do quarto o chamado da irmã caçula foi para sala ainda escovando os cabelos e Clara despejou toda sua aflição.
– Deve estar tudo bem, irmã. Calma – tentava tranquilizar Helena – Ontem eles estavam bem, felizes, nada de ruim deve ter acontecido.
– Não sei, irmã... Meu coração... Não quero nem pensar se ele estiver certo – disse Clara torcendo as mãos em cima do colo.
– Vem tomar café com a gente, tia. Daqui a pouco eles devem aparecer ai – disse Luiza voltando pra mesa.
Num impulso Clara levantou-se do sofá e foi em direção ao antigo apartamento ignorando o chamado de Helena. Ainda tinha as chaves e torceu para que Cadu não tivesse trocado as fechaduras.
Helena chegou minutos depois e encontrou a porta da sala escancarada. Saiu correndo para o ex quarto da irmã quando ouviu a mesma dar um grito.
– O que foi? – perguntou Helena assustada vendo Clara abrindo as portas do guarda roupa.
– Não... Não pode ser – disse Clara indo até o quarto do Ivan.
Ao chegar no quarto do filho, Clara abriu as gavetas da cômoda e caiu de joelhos no carpete.
– Não! – gritou Clara chorando copiosamente batendo as mãos no chão.
Helena olhou em volta e seu coração parou por alguns minutos. As duas primeiras gavetas estavam vazias e ao abrir as outras percebeu que estavam com vários espaços vazios.
– Ele levou o meu filho! – disse Clara entre as lágrimas.
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