Inquietude
20 União
Notas iniciais
Vanessa jogava as roupas na mala com raiva. Não havia lágrimas em seu rosto, apenas uma expressão vazia de quem sentia todas as piores sensações em um só momento.
– Pra onde você vai? – perguntou Flávia ajudando Vanessa a organizar as roupas – Você pode ficar lá em casa se quiser.
– Obrigada, mas não. Odeio a sensação de que estou incomodando alguém. Vou pra um hotel qualquer – respondeu Vanessa parando pela primeira vez naquele dia para pensar com sensatez. Sentou na cama em meio à bagunça respirando fundo. – E depois vou começar a procurar um apartamento pra mim. Ao contrário da Marina, eu guardei uma grana boa pra fazer aquele famoso “pé de meia”. Não dá pra comprar nenhum apartamento de frente para o mar, mas pelo menos vou ter o meu canto.
– Tudo bem, o convite continua de pé se quiser – disse Flávia pousando sua mão na mão de Vanessa – Eu vou sentir sua falta.
As duas se olhavam com ternura e Vanessa retribuiu o gesto com um abraço meio torto, meio sem jeito, mas o suficiente para se sentir calma.
A ruiva e a morena que ali estava sempre se deram bem. Confiavam uma na outra, riam e choravam juntas. Colecionavam baladas e confidencias. Havia uma grande amizade ali que Vanessa sabia que poderia levar para sempre, independente das circunstâncias.
– Eu também vou sentir sua falta, Flavinha – disse a ruiva unindo a testa a testa de Flávia e acarinhando o rosto da morena com seus dedos.
Flávia girou a cabeça lentamente, afastando as testas, mas não os olhares.
A morena segurou a mão de Vanessa que estava em seu rosto e sem permissão a ruiva desceu pelo pescoço de Flávia.
Sem pensar muito Vanessa avançou sobre Flávia e roubou um beijo que foi correspondido a altura. Vanessa sentou no colo de Flávia sem desgrudar os lábios curiosos e bagunçou o cabelo dela quando emaranhou seus dedos na cascata castanha escura que emoldurava aquele rosto quadrado de expressão forte.
O beijo tinha calmaria, mas intensidade. Vanessa movia o corpo lentamente e Flávia que estava envolvida, passava as mãos pelas costas da ruiva com destreza.
Afastaram os lábios e se olharam com pontos de interrogações ao redor de suas mentes.
Tomaram uma dose de fôlego e dessa vez foi Flávia que buscou os lábios da ruiva.
A morena tombou para frente deitando Vanessa sobre as roupas que ainda esperavam pra serem guardadas na mala. O peso e a temperatura de Flávia fez Vanessa arfar. Havia uma sintonia curiosa entre elas e ambas aproveitavam com intensidade. A ruiva cruzou as pernas sobre o quadril de Flávia sentindo os sexos roçarem levemente o suficiente para arrancar arrepios em ambas.
Flávia deslizou com precisão o corpo sobre o de Vanessa, esfregando-os um no outro. Ela desceu sua mão direita pelo corpo de Vanessa, puxou sua perna acariciando a pele branca como leite. E Vanessa deixou os cabelos escuros de lado para tocar nos seios que estavam expostos pelo decote da blusa.
Vanessa girou o corpo ficando por cima de Flávia e empurrou a mala que fez um estrepito quando caiu no chão.
Flávia gemia rouco como sua voz natural e jogou o cabelo de lado para que Vanessa pudesse desvendar seu pescoço. A ruiva começou a erguer a blusa da amiga, mas parou na metade. Seu sexo começava a inundar-se de prazer e ela sentiu que aquilo estava errado.
– O que foi isso? – perguntou Vanessa sentada pouco abaixo do ventre de Flávia – Eu... Desculpa, Flavinha. Perdi a cabeça. Não era pra... Desculpa – Vanessa deitou-se sobre o corpo de Flávia a abraçando.
– Quando um não quer, dois não brigam – disse Flávia – E eu gostei do que você faz quando perde a cabeça – Flávia enfiou sua mão no cabelo de Vanessa e puxou-a para si, aproximando seus lábios avermelhados.
Vanessa a olhou com um sorriso malicioso e voltaram a se beijar como se já conhecessem suas vontades.
Enquanto em Santa Tereza o clima esquentava em determinado ponto da casa/estúdio mais balada do bairro, no Leblon as coisas não estavam tão boas.
Clara voltara para o apartamento de Helena e só conseguia chorar. Estava no quarto da irmã com as costas apoiadas a cabeceira e a cabeça inclinada. Os olhos vermelhos olhavam para o alto pedindo uma luz, pedindo paz, pedindo que nada de ruim acontecesse a Ivan.
Já passava das dez horas da noite e Cadu ainda não tinha respondido as quase cem ligações que Clara havia feito. Não poderiam ir à delegacia já que só se configurava sequestro após 24h do desaparecimento.
Trôpega Clara levantou-se da cama e foi para a sala. Sentou no sofá de três lugares e Benjamim a acompanhou. Deu um beijo singelo em sua testa e disse que tudo ficaria bem. Clara agradeceu com lágrimas e um meio sorriso em seu rosto.
Assim que o velhinho levantou-se para ir para o quarto, Nando entrou no apartamento como Clara fizera horas atrás, como um furacão.
– Clara, o Cadu... – tentou dizer Nando, mas Clara o interrompeu.
– Cadê aquele irresponsável? Você sabe pra onde ele foi com o meu filho? Claro que sabe, né? Vocês dois são cúmplices, com certeza deve ter ajudado o Carlos Eduardo nessa palhaçada – acusava Clara sem pausas em pé fuzilando Nando com seus olhos vermelhos e úmidos.
– Calma! E eu não tenho nada a ver com isso – defendeu-se Nando – Mas o Cadu me avisou que estava em Niterói com o Ivan...
– Eu vou pra lá agora! – disse Clara indo pro quarto da irmã buscar a bolsa.
– Clara. Me espera, caramba. Me ouve! – pedia Nando atrás dela.
– Alguma notícia do Cadu e do Ivan? – perguntou Helena se materializando ao lado de Nando.
– Tenho notícia dos dois, mas a sua irmã não quer parar pra me ouvir – disse Nando agoniado.
– Clara! – chamou Helena vendo a irmã passar por ela sem olhá-la.
– O que foi? Eu quero meu filho, Helena! – disse Clara desnorteada com as costas apoiadas na porta da sala.
– Deixa o Nando falar. Fala, Nando. O que é que você sabe sobre esses dois?
– O Cadu passou no bistrô e disse que estava indo para Niterói com o Ivan passar uns dias na casa de um tio dele. Mas ele me ligou agora falando que está voltando pra cá, por que...
– O que aconteceu com o Ivan? – perguntou Clara entre os dentes. – Fala, cara! O que aconteceu com o meu filho?
– O Cadu está voltando por que o Ivan não está muito bem, parece que está com febre alta e delirando. Ele está levando o Ivan pro hospital que vocês têm convênio.
Clara escorregou a coluna pela porta e sentou no chão aos prantos.
– Calma, irmã. Não deve ser nada demais. Vem, levanta. Eu te levo lá – disse Helena oferecendo a mão para Clara levantar.
Quando Marina deu por si já passava das dez horas da noite. Não havia comido, nem bebido nada. E o trabalho estava pela metade.
A fotógrafa tentou ligar para a amada, mas percebeu que não seria tão fácil, pois a ligação caía após o segundo toque no correio de voz. Aquela quase primeira briga deixara Marina se sentindo a pior das pessoas.
Vanessa havia ido embora e só avisou Marina que estava de partida, pois precisaram conversar sobre o pagamento daquele mês.
Marina estava sozinha no estúdio, andando de um lado para outro com o celular na mão. Cansada de esperar, calçou uma sapatilha e foi para o Leblon.
Ao chegar lá quem abriu a porta do apartamento foi Luiza, que estava deitada no sofá esperando por notícias. Assim que Luiza resumiu a história Marina pediu o endereço do hospital onde Ivan estava e foi até lá.
Clara estava sentada no corredor esperando por Cadu que ainda não havia chegado. Tinha o rosto enterrado entre as mãos e Helena ao lado, consolando-a.
Quando Clara levantou o rosto, deparou-se com a figura de Marina caminhando um pouco receosa em sua direção. Clara se esqueceu do pequeno atrito que tiveram mais cedo e saiu correndo para os braços de Marina que a recebeu com beijos e afagos.
– Me desculpa! – pediu Marina apertando Clara em seus braços – Me desculpa, meu amor. Eu fui uma idiota.
– O importante é que você está aqui agora comigo. – respondeu Clara respirando fundo e sentindo o cheiro tranquilizador de Marina – Vai ficar tudo bem, não vai? – perguntou começando a chorar novamente.
– Tudo vai ficar bem, eu prometo! – disse Marina consciente de que aquilo não dependia dela.
– Clara... – chamou Helena com cuidado caminhando até o casal.
Clara desvencilhou-se do abraço de Marina, mas entrelaçou os dedos aos dela e quando virou de costas viu Cadu.
A morena soltou a mão de Marina bruscamente. E foi até Cadu marchando como um soldado.
– Seu desgraçado! Irresponsável! Eu vou te matar! – gritou Clara partindo pra cima de Cadu com tapas.
Nando puxou Clara pela cintura e as enfermeiras que ali passavam pediam silêncio e calma.
– Cadê o meu filho, Carlos Eduardo? Cadê o Ivan? – perguntava Clara alto o suficiente para chamar a atenção.
– O médico está examinando-o, daqui a pouco ele aparece pra dar alguma notícia – respondeu o homem revezando seu olhar entre Clara e Marina.
– O que é que deu na sua cabeça, Cadu? Sequestrar o Ivan? – Nando dizia baixo direcionando Cadu para as cadeiras – Você ficou louco?
– Eu não quero o meu filho perto dessa mulher – disse Cadu fazendo questão de encarar Marina – E eu vou lutar pela guarda dele!
– E você acha que um juiz em sã consciência vai dar a guarda pra alguém que sequestrou o próprio filho? Me respeita, Cadu! – disse Marina cansada de ficar quieta – Sua ignorância vai além do que eu imaginei. O amor do Ivan é a única coisa que não pode ser disputada por vocês dois. E eu não quero roubar o seu lugar de pai se é o que você pensa.
– Já roubou minha mulher, pode roubar muito bem meu filho também.
– Cadu... – disse Helena tentando abrandar a situação.
– Eu não vou mais discutir isso com você, Carlos Eduardo! – disse Clara agora um pouco mais calma – Estou com a Marina por livre e espontânea vontade. Por amor.
Cadu ia replicar o que Clara dissera, mas um médico alto e grisalho caminhava na direção deles, parecia procurar por eles.
– Vocês são pais do Ivan? – perguntou o homem grisalho.
– Somos! – responderam Cadu, Clara e Marina que segurou na mão de Clara e não se intimidou com os olhares que recaíram sobre ela. Agira por puro instinto. Instinto esse que nem sabia que existia dentro de si.
– O menino está bem. Isso foi só uma reação ao emocional dele que está muito abalado. Só estamos esperando a febre abaixar e logo o liberaremos.
– Quero ver meu filho – disse Clara.
– Pode me acompanhar.
Marina tentou acompanhar Clara, mas Helena a deteve segurando-a pelo pulso.
Clara entrou no quarto e mesmo sem saber se podia deitou-se ao lado de Ivan beijando o filho como se fosse perdê-lo no minuto seguinte.
Cadu andava de um lado para outro, de cabeça baixa.
– Mãe? – perguntou o menino abrindo os olhos lentamente.
– A mamãe tá aqui, meu bichinho – disse Clara acariciando os cabelos de Ivan – A mamãe não vai sair do seu lado nunca mais.
– Eu estava com tanta saudade, mãe... – murmurou Ivan com a voz fraca.
Clara tentou segurar o choro, mas algumas lágrimas caíram na vestimenta hospitalar do filho.
– A Marina está aqui? – perguntou o pequeno.
Cadu soltou uma risada curta e passou a mão nos cabelos, desacreditando do que ouvia.
– Ela está lá fora.
– Quero ver ela, posso?
Sem dizer nada Cadu saiu do quarto. Não suportaria ver a mulher que mais odiava no mundo interagindo com o filho. Ainda mais quando era o filho que pedia pela presença dela.
Clara saiu do quarto e passou por Cadu sem olhá-lo. Voltou minutos depois puxando Marina pela mão.
Marina entrou no quarto e colocou a bolsa na cadeira que estava ao lado da cama. Quando viu Ivan sentiu uma emoção tão absurda e desconhecida que lágrimas escorreram e ela só conseguiu chegar perto do pequeno para beijar sua testa e dar um beijo de esquimó.
– Eu estava com saudade de vocês duas – disse Ivan segurando a mão de Marina e de Clara.
– Não precisa mais sentir saudade, estamos aqui – garantiu Marina olhando para Clara – Estamos aqui.
Clara inclinou-se sobre o leito e selou os lábios nos lábios de Marina.
Quando deram por si Ivan adormecia. Sua mão havia escapado da mão de Clara. Mas a mão que segurava a mão de Marina permanecia ali unida e Marina não se importou em segurá-la por mais algum tempo.
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