Inquietude
24 Conversas
Notas iniciais
Marina e Clara chegaram à casa de Helena pela manhã. A leiloeira ainda estava envolta em seu hobbie de seda.
Enquanto Helena trocava de roupa, elas tomavam café na companhia de Luiza e Virgílio. Marina estava tão à vontade que não conseguia ficar de boca fechada. Seu café esfriava pela segunda vez enquanto perguntava a Virgílio sobre como havia começado a se interessar por aquele tipo de arte e Clara observava encantada o ótimo entrosamento entre eles.
– Ela está se tornando da família cada vez mais hein tia? – comentou Luiza.
– Ela já é da família. Minha fotógrafa é assim mesmo, encantadora. – Marina olhou para Clara que sorriu e lhe deu um beijo no rosto.
Helena chamou a irmã e a mais nova cunhada para irem até o quarto.
Sentaram na cama de casal da irmã mais velha de Clara e Marina dispôs sobre o móvel suas joias. Joias que nem usava mais, mas estavam guardadas por ter algum valor sentimental.
– Essa pulseira é linda – disse Helena avaliando a joia em ouro branco.
– Ah! Não, essa não. – respondeu Marina guardando a joia novamente – Ela... Ela tem um valor sentimental muito importante pra mim.
– Era da sua mãe? – perguntou Clara.
– Aham – disse Marina colocando outras peças sobre a cama, querendo desviar o assunto. Não olhava para Clara. Não queria que ela percebesse que havia mentido.
A pulseira em questão havia sido dada por Vanessa depois que ela pedira Marina em namoro. Era da avó da ruiva, passou para a mãe, para a ruiva e por três anos foi exibida no pulso da fotógrafa.
Marina estava sentindo falta de Vanessa, a ruiva fora sua amiga durante aquele tempo todo. Tinham vivido muita coisa juntas, mas infelizmente o destino, o universo ou quem quer que fosse havia conspirado contra elas e agora eram só lembranças. E a pulseira seria a única lembrança concreta que guardaria. Colocou a joia no braço esquerdo e então se deu conta de que havia passado muito tempo imersa nos seus devaneios saudosos. Quando voltou o foco para o propósito da visita à Helena percebeu que a cunhada tinha uma calculadora nas mãos.
– Se você colocar tudo isso para leilão você terá um retorno, mais ou menos de R$400 mil reais – dissera Helena.
Marina soltou uma risada dolorosa e lágrimas vieram a seus olhos.
– Que foi, meu amor? – perguntou Clara se arrastando até Marina e a envolvendo em seus braços.
– Vou ter que vender a casa, Clarinha... E-eu não queria, mas vou ter que vender. R$400 mil não pagam nem metade das minhas dívidas.
– Eu te falei que vou vender o apartamento e vou te ajudar. Calma!
– Vocês... Vocês podem ficar por aqui enquanto a situação se estabiliza – ofereceu Helena apoiando a mão no ombro de Marina.
– Obrigada, mas não tem sentido vendermos o apartamento e pagar aluguel, amor. Podemos ficar nele enquanto não arranjamos um lugar só nosso – disse Marina com os olhos tristes.
– Tudo bem! Irmã, o Cadu tá por aí?
– Ele já foi para o bistrô.
– Vamos pra lá que enquanto você conversa com o Laerte sobre as aulas de fotografia eu converso com o Cadu sobre apartamento. Quanto mais cedo resolvermos isso melhor.
Marina e Clara agradeceram a atenção de Helena e seguiram para o bistrô. Apesar do horário o Galpão estava cheio com seus alunos de violino e dança. Foram recebidas por Veronica e Laerte que logo as convidaram a seguir para um canto menos barulhento e movimentado.
Clara seguiu para o bistrô minutos depois de a reunião informal começar. Parou em frente ao balcão. Cadu estava de costas e quando se virou apertou a vasilha prateada nas mãos que bambearam ao ver Clara.
– Oi – disse Clara sentando na banqueta e apoiando os cotovelos no balcão.
Cadu continuou mudo mexendo seu merengue de olhos baixos.
– Aí, Cadu... – murmurou Clara mexendo nos cabelos – Preciso do meu apartamento, pra ontem.
– Sem problema! Se já quiser ficar com as chaves, aqui estão – Cadu tirou as chaves do bolso e jogou no balcão.
– Olha pra mim, Carlos Eduardo – pediu Clara impaciente.
Cadu virou ficando de costas para Clara e colocou a massa que batia num refratário.
– Ritinha, termina aqui pra mim, por favor – pediu ele lavando as mãos e enxugando-as no pano de prato. – Fala.
– Tudo bem? O bistrô parece que tem funcionado muito bem.
– Sim – resignou-se a dizer.
– Abaixa essa guarda, cara. Eu ainda me importo com você. Você já tem lugar pra ficar? Senão eu posso ficar em algum lugar enquanto você se organiza. – disse Clara.
– Não quero sua pena, sua compaixão...
Cadu foi interrompido por Veronica e Marina que se aproximavam. Marina e Cadu trocaram olhares duros que diziam mais que um milhão de palavras.
– Vamos? – perguntou Marina com as mãos nos ombros de Clara.
– Deu tudo certo?
– Em casa nós conversamos – Marina poderia tocar na tensão que estava ali.
Clara entendeu o olhar e suas mãos frias. Despediram-se de Cadu e Veronica e saíram.
– Não vai me dizer que você contratou essa mulherzinha pra trabalhar aqui? – Cadu bufava de ódio.
– Contratei e ela começa em breve, Cadu. Ela é uma excelente fotógrafa e se mostrou muito a vontade aqui. Vocês terão que aprender a conviver um com o outro em paz.
– Me peça qualquer coisa, Ve. Menos suportar a presença dessa mulher.
– Mas você vai ter que suportar, Cadu. Até porque você ainda tem ligação com a família da Clara. Ligação essa que, até onde eu sei, é muito forte. E tem o Ivan também – Veronica colocou a mão no antebraço de Cadu. Ambos se olharam e Veronica sorriu – Você e a Clara de um jeito ou de outro ficarão ligados pra sempre.
Cadu pousou sua mão na mão de Veronica que ainda estava em seu antebraço. Ele pegou a mão da pianista e levou aos lábios, beijando-a.
– Tudo bem. Eu vou tentar, agora se eu vou conseguir é outra história!
– O primeiro passo você já deu: a tentativa.
– Já liguei para um corretor amigo meu, amanhã ele vem avaliar a casa – disse Marina sentada à beira da piscina com os pés imersos.
– Vai dar tudo certo, meu amor. Eu estou com você, enfrentaremos mais essa batalha juntas. E no final dessa guerra sairemos de cabeça erguida e muito mais felizes do que já somos.
– É só isso que eu quero, um final feliz. E esse trabalho no galpão vai nos ajudar muito. E se eu não conseguir comprar essa casa de volta, seremos felizes em outro lugar. Eu, você e os nossos filhos.
– Filhos? – Clara indagou sorrindo – Alguém aqui está querendo me ver grávida?
– Porque você? Você acha que eu não tenho capacidade de ser mãe?
– Não foi isso que eu quis dizer, Marina. Para!
– Mas foi o que pareceu.
As duas ficaram em silêncio e Clara se arrastou para mais perto de Marina beijando o pescoço da fotógrafa.
– Desculpa é só que... Você nunca me disse que queria ser mãe.
– Nunca quis mesmo. Porém depois de toda essa reviravolta na minha vida, você, o Ivan morando conosco... Sei lá, me deu uma vontade de sentir esse amor que falam que é tão intenso.
– Sim, é muito intenso. Você pensa em adotar uma chinesinha?
Marina riu.
– Talvez... Chinesinha ou não. Eu quero ter um filho com você. Começar do início mesmo. Vê-lo aprender a andar, falar, dar papinha, levar na creche depois pra escola... – os olhos da fotógrafa estavam marejados.
Clara puxou Marina para seus braços beijando-a num ritmo cadenciado.
– Tá com sono? – perguntou a fotógrafa.
– Não. Antigamente eu costumava dormir por volta desse horário, mas apareceu uma tal de Marina na minha vida e além de bagunçar meus pensamentos bagunçou meus horários.
A fotógrafa sorriu.
– Tenho algumas caixas perdidas por aí, me ajuda a encaixotar algumas coisas? Uma hora teremos que fazer isso mesmo.
Clara concordou num gesto e as duas subiram para a casa, que a partir de algum momento, breve ou não tão breve, estaria presente apenas na memória delas.
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