Inquietude
27 Angústia
Notas iniciais
Marina estava diante de Clara e Cadu com os olhos inchados e vermelhos. Estava confusa. Até ontem ela e Clara dividiam sonhos, hoje Clara estava ao lado de Cadu dizendo que havia voltado. Que apesar de aquela história com Marina não ter sido uma aventura, havia terminado.
Marina não aceitou ouvir aquelas mentiras. Ajoelhou aos pés de Clara implorando que ela não fizesse aquilo. Clara fechou os olhos marejados e pediu desculpa num tom sussurrado, pediu que Marina se levantasse, ofereceu sua mão para ajudar. Marina segurou firme a mão de Clara e a puxou para seus braços. Clara tentava se afastar, empurrava a fotógrafa, era puxada por Cadu. E então ela deu um grito e seus olhos se abriram.
Clara acordou num sobressalto. Seu coração batia tão acelerado que ela sentou na cama um pouco tonta. Olhou para o lado e viu Marina de olhos fechados, tranquila.
Tinha lágrimas nos olhos inchados de sono. Apoiou a cabeça nos joelhos flexionados. Não entendera o sonho que tivera. Seria saudade? Seria MESMO uma vontade sem nexo de voltar?
Analisou o quarto ao redor e todas as caixas que precisavam ser levadas para o apartamento estavam lacradas. Prontas para irem embora junto dela e de Marina.
Desnorteada Clara foi para o banheiro, ligou o chuveiro na temperatura fria e sentou no box. O coração acelerado ainda a incomodava.
Pela primeira vez em meses Clara analisou suas decisões. E não precisou de muito para chegar à conclusão que havia escolhido a decisão certa. Ficar com Marina era o certo. Então porque aquele sonho e aquela vontade de ver e conversar com o ex-marido?
Talvez Clara precisasse colocar um ponto final definitivo. Conversar, explicar se fosse preciso que ela não voltaria, mesmo que o sonho tivesse lhe mostrado o contrário.
– Nossa! Porque não me chamou? Estamos quase perdendo a hora – reclamou Marina entrando no banheiro.
Clara levantou antes de Marina perceber e enfiou-se debaixo do chuveiro para que as lágrimas se misturassem a água fria.
– O que foi, meu amor?
– Nada! Vem cá – pediu Clara puxando o corpo quente de Marina para junto dela.
Clara a abraçou forte beijando o pescoço molhado, delineando o corpo lascivo com suas mãos.
– Você sabe que não temos tempo – disse Marina rindo e se entregando aos toques de Clara – Mas... Ah... – a fotógrafa perdera o raciocínio quando sentiu Clara penetrando-a.
Marina tentou tocar Clara, mas esta a impediu. Era como se Clara quisesse reafirmar sua decisão, sua escolha. Ter ainda mais certeza de que estava certa.
Com uma mão Clara afundava seus dedos em Marina e a ouvia gemer e morder seu pescoço e orelha. Com a outra, Clara a segurava pelas costas, apertando-a tanto contra seu corpo que eles estavam quase se fundindo.
Quando Marina gozou, Clara apoiou as costas no azulejo frio e ficou olhando para a fotógrafa que se aproximava para apoiar-se em seu peito. Clara começou a acariciar os cabelos molhados de Marina e tentou segurar o choro. Mas Marina sentiu o peito de Clara tremer e se afastou.
– Clarinha... – disse Marina olhando para Clara.
– Eu te amo muito. Nunca se esqueça disso – disse Clara.
– O-o que está acontecendo? Você tá me assustando – Marina riu tentando disfarçar o nervosismo.
– Promete que nunca vai esquecer isso?
– Prometo.
Marina e Clara deixaram Ivan na escola e seguiram para o apartamento junto do caminhão de mudança.
Clara desceu do carro primeiro e foi logo entrando naquele ambiente conhecido. Marina demorou um pouco na frente do prédio.
Apertando os olhos para a luz solar que maltratava seus olhos, a fotógrafa admirou, por alguns minutos, seu novo lar provisório. E concluiu que “nunca” é uma palavra forte demais para ser dita em voz alta ou pra manter num pensamento constante. Marina nunca quis de morar com Clara num lugar onde havia tanta história de um passado ainda tão fresco. Mas não estava se sentindo tão mal por isso. Logo tudo voltaria ao normal e desde que estivesse com Clara, não importaria o lugar.
Com o pé direito Marina entrou no prédio. Ao abrir a porta do apartamento viu Clara ajeitando algumas coisas.
Os móveis antigos se misturavam as caixas e aos móveis de Marina. A fotógrafa entrou no novo quarto um pouco intimidada com a intimidade que o cômodo havia presenciado durante anos. Nem a presença da sua cama conseguia afastar os fantasmas que ameaçavam assombrá-la.
– Desculpa, juro que não queria que terminássemos aqui – disse Clara percebendo o estranhamento de Marina.
– Não terminamos, estamos começando. E não importa o lugar, desde que você esteja comigo eu estarei tranquila – garantiu a fotógrafa passando por cima da cama para abraçar Clara.
– Até em Goiânia? – perguntou Clara rindo.
– Oi?
– Estou brincando. É só que... Faz tanto tempo que não vou lá, deu uma saudade.
– Você nunca me levou pra conhecer sua cidade natal, quando as coisas melhorarem poderíamos ir pra lá passear – disse Marina roubando de Clara um beijo terno.
– Seria perfeito – sonhou Clara – Mas a realidade nos chama. Olha essa bagunça. Vou recrutar toda a família Fernandes pra nos ajudar com isso aqui.
Não muito depois...
O sonho que tivera com Cadu ainda atormentava Clara.
A morena que agora passava cinco dias da semana no galpão por conta de Marina, parecia fugir de Cadu, mesmo que ele não demonstrasse interesse em procurá-la.
Clara e Marina estavam cada dia mais felizes e se sentindo mais completas na companhia uma da outra. Porém Clara tinha esse incomodo no peito, no pensamento. E naquele dia em particular aquilo tinha ganhado um peso a mais sem nenhuma razão aparente.
Naquela manhã Clara acordara mais cedo. Fez o café e deixara cair a colher e bule dentro da pia, despertando Marina. A fotógrafa acordou com o rosto amarrotado. Ainda não tinha se acostumado à nova rotina.
– Bom dia, amor – desejou Marina beijando o pescoço de Clara.
Clara respondeu tão baixo que nem ela havia escutado.
Marina sentou à mesa com seus olhos analíticos grudados em Clara. Olhava-a por cima da fina fumaça de café que saia da xícara.
– Hoje vou dar uma aula ao ar livre, quero pegar a luz do final da tarde pra mostrar algumas nuances, sabe? – disse Marina mordiscando um pedaço de mamão.
– Ah! Eu... – Clara parou um momento. Queria registrar bem o momento que mentiria para Marina pela primeira vez – Minha mãe quer que eu a ajude numas coisas na casa dela.
– Eu te queria tanto nessa aula... Ver o por do sol no Arpoador.
– Outras oportunidades virão, amor. Vou tomar banho – Clara passou por Marina dando um beijo em seus cabelos ainda bagunçados e minutos depois Marina ouviu o barulho do chuveiro.
Clara e Marina chegaram ao galpão e Clara procurou Cadu com os olhos que estavam sendo acobertados pelos óculos escuros inseparáveis da morena. Marina já havia tirado os seus que estavam presos ao decote em V de sua blusa. Passaram pelo bistrô e Veronica e Cadu conversavam animadamente. Veronica tocava as mãos grandes de Cadu e Cadu correspondia com o seu sorriso que arrasava metade de um quarteirão. O clima entre os dois era tão intenso que era quase palpável.
– Está rolando um clima ali? – perguntou Marina indicando com a cabeça Cadu e Veronica.
– Não sei – respondeu Clara sem olhar a cena – Vai ficar ai? Vou para o estúdio preparar as coisas para a aula.
Marina estranhou a resposta seca e direta de Clara.
Clara saiu do bistrô sem olhar para a cena Cadu/Veronica. Não sabia o porquê de sentir aquele incomodo. Não era ciúme, muito menos inveja. Mas era um vazio estranho.
Clara passou à tarde no mundo da lua. Flashes do sonho com Cadu atormentavam seu pensamento, faziam-na perder o foco. E Marina percebera que ela estava mais distraída que o normal, mas resolveu não perguntar nada, sabia que Clara a chamaria pra conversar como sempre fizera. Pelo menos era o que Marina achava.
Por volta das quatro horas, Marina reuniu sua turma para avisar que teriam uma aula surpresa. Todos adoraram a ideia de andar à beira do mar e poder fotografar aquele espetáculo da natureza.
– Você não vem mesmo? – perguntou Marina mais uma vez para Clara que separava o material que Marina levaria.
– Não, desculpa? – Clara fez beicinho.
– Só se você me der um beijo.
Clara sorriu e puxou Marina pela cintura beijando-a com um pouco mais de intensidade que a permitida para o local.
– Te amo – declarou-se Clara – Muito.
– Eu também te amo, muito.
Marina chamou a turma e combinaram de se encontrar na praia. Ofereceu carona para quem não tinha como ir, beijou Clara uma última vez e saiu.
O cheiro de Marina estava no ar quando Clara aproximou-se do balcão onde Cadu estava e disse:
– A gente precisa conversar.
– Sobre? – perguntou Cadu sem olhá-la.
– Tudo, Cadu. Eu sinto... Sinto que estou te devendo essa conversa.
Cadu então levantou seus olhos e quando eles encontraram os de Clara o chef sentiu o coração bater mais forte. Clara o olhava com intensidade e pediu aquilo com uma vontade tão verdadeira que o fez sorrir.
– Posso tirar um intervalo ali pelas 18h, pode ser?
Clara assentiu tamborilando os dedos no balcão e dando uma piscadela para Cadu.
Com uma pontualidade britânica Cadu estava esperando Clara na porta do galpão às 18h. Cinco minutos depois ela chegou se desculpando pelo pequeno atraso.
– Vamos dar uma volta na praia? Estou precisando sentir os meus pés na areia – convidou Cadu.
Clara ponderou por um momento. Olhou no relógio e concluiu que Marina já deveria estar quase no topo do Arpoador com seus alunos.
Ela então concordou com um menear de cabeça e os dois foram caminhando. Os dois não viram o tempo passar. Conversavam sobre assuntos aleatórios, trocando risadas. Clara se esquecera do propósito daquele encontro. Caminharam tanto que tinham o Arpoador nas suas vistas e o Sol no horizonte quase tocando o mar.
– Acho melhor voltarmos – disse Clara sentindo um gelo no coração por pensar em Marina e na mentira que havia contado a ela – Ah! Preciso passar numa loja. Me espera aqui?
Cadu balançou a afirmativamente a cabeça e quando Clara sumiu de suas vistas, deu um pulo à uma floricultura que estava diante de seus olhos.
Comprou algumas rosas brancas e cor de rosa.
Quando Clara saiu da loja se espantou e lembrou-se do primeiro encontro com Cadu. Uma perna cruzada sobre a outra, o ombro um pouco caído numa pose desajeitada, mas muito sexy e o sorriso cativante.
– Iguais as que eu te dei no nosso primeiro encontro – disse Cadu assim que parou de frente para Clara com o buquê estendido.
“Dê-me apenas um motivo
Só um pouquinho já basta
Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados
E podemos aprender a amar novamente
Está nas estrelas
Foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações
Não estamos quebrados, apenas curvados
E podemos aprender a amar novamente”
– Cadu... – Clara falou num fio de voz – Eu vou pedir a Marina em casamento – exibiu a pequena sacola da joalheria que estava em sua mão.
– Então foi por isso que me chamou pra conversar? Pra esfregar na minha cara...
– Não! – interrompeu Clara – Eu ia falar pra você de qualquer modo, mas eu queria... Queria não. Quero conversar com você. Eu sinto um carinho muito grande por você, se você quiser podemos ser amigos. E por ser amigos é que eu preciso te pedir desculpa e esclarecer algumas coisas que nem eu sei quais são.
Vendo que não tinha alternativas Cadu respirou fundo e tentou não surtar.
Clara o olhava com uma expressão serena. Cadu abriu os braços e um pouco desajeitada Clara se aconchegou ali. Cadu a apertou em seus braços e os dois permaneceram abraçados.
O abraço entre eles foi tão longo que não perceberam que durante minutos suficientes para criar suposições aterrorizantes, Marina estivera ali em seu carro.
A fotógrafa voltava do Arpoador e do outro lado da rua não conseguiu acreditar que a morena com as costas nuas que abraçava um cara semelhante ao Cadu era, de fato, Clara e Cadu. Então ela buscou o primeiro retorno e numa manobra que lhe rendeu algumas buzinadas passou um pouco mais perto do casal. A vontade que tinha era jogar o carro em cima deles. E aquelas flores? De onde surgiram? Porque Clara estava abraçada a Cadu? Porque mentiu e não estava na casa como o combinado?
A cabeça de Marina girou como uma roda gigante em alta velocidade e ela só desejou que as coisas se esclarecessem o mais rápido possível. Não lembrava como havia chegado a sua nova casa, quando deu por si ouviu uma voz pedindo para que segurassem o elevador.
E o Universo parecia estar conspirando contra a fotógrafa. Era Chica quem gritava pelo elevador.
Não conseguindo controlar o impulso em esclarecer a dúvida, Marina nem respondeu ao boa noite da sogra e perguntou:
– A Clara passou na sua casa hoje?
– Não... Não vi minha caçulinha hoje. A não ser que ela queira me fazer uma surpresa – respondeu Chica.
Marina balançou a cabeça algumas vezes e seus pensamentos a sugaram da realidade por um momento. Não percebeu quando entrou no apartamento e bateu a porta, fazendo o som ecoar pelos corredores.
Pegou uma garrafa de uísque que estava intacta e sentou no sofá. A bebida forte não lhe traria as respostas que queria, mas impediria que novas surgissem.
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