Inquietude

13 Ameaças


Notas iniciais
Ao som de Último Romance - Los Hermanos

“Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

(...)

Ah, vai
Me diz o que é o sufoco
Que eu te mostro alguém
A fim de te acompanhar”

Cadu deu um soco no batente da porta forte o suficiente para estremecê-la. Marchou em câmera lenta até o casal motivador do seu ódio. Helena ficou em posição de ataque e Luiza se posicionou alguns passos atrás de Marina.
– Cadê o Ivan? – perguntou Clara indo até a porta escancarada. Olhando o corredor vazio de um lado a outro.
– Não te interessa – Cadu ficou de frente para Marina.
Luiza pegou na mão da fotógrafa tentando afastá-la daquela granada humana.
– Eu não tenho medo dele – disse Marina soltando a mão bruscamente.
– Cadê o meu filho? – gritou Clara sentindo o pânico crescer.
– É bom que você esteja aqui – disse Cadu sustentando seu olhar duro e frio – Poderemos conversar de... Homem para homem.
– Ridículo – adjetivou Marina com um sorriso nervoso.
– Me fala que feitiço você jogou na minha mulher para que ela mudasse de opção sexual assim de um dia para o outro.
Marina riu da ignorância proferida.
– Acha engraçado destruir uma família? Acha engraçado fazer uma mãe abandonar um filho pra viver uma aventura? – perguntou Cadu aproximando-se de Marina lentamente.
– Não faça nada que vá fazer você se arrepender depois, tio – disse Luiza.
– Cala a boca – disse Cadu para a sobrinha – Isso não é assunto seu! ME RESPONDE – gritou Cadu disparando algumas gotas de sua raiva líquida em Marina.
– Ignorante. Grosso. Estúpido – disse Marina de forma pausada – Eu não enfeiticei sua mulher e a única coisa que me faz rir aqui é a sua ignorância. A sexualidade da Clara não é o que está em questão aqui e sim o amor que sentimos uma pela outra.
– Amor... – agora era Cadu quem ria – Você fala de amor como se um sentimento tão nobre e bonito pudesse nascer de uma relação assim...
– Então você acha que duas mulheres não podem se apaixonar? Acha que duas mulheres se interessam apenas pelo prazer sexual? Você está muito enganado. Se a Clara estivesse com um homem seria mais fácil pra você? – a pergunta foi dita tão pausadamente que Cadu pode sentir o efeito de cada palavra – Você deixaria de lado ou peitaria e ameaçaria o cara como está fazendo comigo?
Cadu ficou em silêncio. Seu pomo de Adão desceu e subiu. Tenso.
– Responde, Cadu – continuou Marina diante do silêncio sepulcral que fazia na sala – Vê como o seu muro concretado com preconceito e dogmas não te deixa enxergar que a Clara está comigo por que ela quer e por que estamos, sim, apaixonadas? Ela poderia te enganar desde o momento em que ela começou a me olhar diferente. Mas ela deixou bem claro que as coisas estavam mudando.
Marina gesticulava raivosa. Cadu não sabia, mas havia mexido com a pessoa errada.
– Só Deus sabe o quanto eu me segurei para não beijá-la todas as vezes que eu a via, e o quanto doía quando ela falava de você com carinho, respeito e de como você é carinhoso. E o quanto eu queria ser essa pessoa que ela ama e respeita... Ela... – Marina pausou seu discurso e limpou a garganta seca, tomou fôlego e prosseguiu – Ela e eu nos controlamos muito para que as coisas não chegassem nesse ponto. E eu realmente sinto muito por que sei que ela está tão machucada quanto você. Ela ama você. Mas... – Marina olhou para Clara que tinha tantas lágrimas rolando quanto ela – Estamos apaixonadas. Precisamos viver isso. Pra sempre ou não, não sei, não importa. Importa o agora...
– E agora eu preciso viver essa paixão que está me consumindo – interrompeu Clara parando ao lado de Marina.
A fotógrafa acarinhou discretamente a mão de Clara com a sua, mas Cadu parecia prever cada gesto vindo dela.
Sentiu ódio. Nojo. Incredulidade.
– Você pode ter destruído a minha família, mas agora quem vai te destruir sou eu – Cadu disse a última sentença acompanhada de um empurrão que lançou Marina contra o corpo de Luiza.
E Cadu não viu, mas o seu cotovelo acertou a boca de Clara que sentiu o gosto metálico e quente do sangue em sua língua.
– Para com isso Cadu! CHEGA! – rugiu Clara empurrando Cadu para longe delas e colocando a mão na boca que se tingia de vermelho – Você está completamente descontrolado.
– Clara! – assustou-se Helena indo até a irmã.
Luiza correu para o quarto da mãe. Pegou um pequeno chumaço de algodão e água oxigenada volume 10. Era o que estava mais acessível.
Cadu estava mesmo descontrolado. Mas não sentia culpa alguma em ter machucado Clara, aquilo foi como uma pequena vingança pela dor que ela o fazia sentir naquele momento.
– Ela não é assim, ela não é como você... – disse Cadu transtornado, deixando as lágrimas de ódio saírem – Ela nunca gostou de mulheres desse jeito nojento.
– Não fala assim do meu relacionamento com a Marina – disse Clara – Eu vou repetir mais uma vez. Eu estou APAIXONADA por ela. A Marina... – Clara buscou a mão trêmula e fria de Marina – A Marina me completa. Me realiza.
Marina apertou a mão de Clara fortalecendo o elo entre elas.
– E eu não te completei esses anos todos? Não te realizei?
– Não é só de amor que eu estou falando. Estou falando de tudo. Amor é só a base dos relacionamentos, os alicerces são a felicidade, a lealdade, os sonhos, o companheirismo... Tudo que eu não sentia mais entre a gente.
Ouvir aquilo foi como levar um soco no estômago. O soco da verdade.
Cadu usou o que achou ser a última arma para atacar a fotógrafa que para o seu total desespero segurava a mão de Clara firmemente.
– Mas isso que você fez foi um jogo sujo, baixo – o homem pegou o envelope em cima da mesa de centro e entregou amigavelmente à Marina.
Sem entender Marina pegou o envelope e tirou o que nele havia.
– O que essas fotos estão fazendo aqui? – perguntou Marina atordoada.
Sentiu um estalo.
O recibo.
O distanciamento de Vanessa.
A bomba que explodira no apartamento de Helena.
Respirou profundamente algumas vezes. Precisava manter o foco. Depois pensaria se as peças daquele quebra cabeça louco se encaixariam.
– Eu não jogaria tão baixo – Marina jogou as fotos em cima da mesinha fazendo algumas caírem no chão – Eu não tenho medo de enfrentar o que quer que seja pra ter o que ou quem eu amo comigo.
Um silêncio breve se fez. Helena, como boa conciliadora , aproveitou a brecha para tentar apaziguar os ânimos.
– Cadu vai pra casa, descansa. Outro dia vocês conversam com calma. Vocês vão acabar se machucando mais se continuar a discussão nesse clima de guerra.
– Eu só quero saber uma coisa – disse Cadu se dirigindo à Clara – Você – apontou para a ex-esposa – É isso mesmo que você quer? Você tem total certeza disso?
– Tenho – respondeu Clara sem titubear – É com a Marina que eu quero ficar.
Cadu balançou a cabeça algumas vezes e soltou o ar pesadamente pelas narinas.
– Tudo bem – disse Cadu depois de alguns minutos que pareceram durar a eternidade – Faça o que você quiser. A vida é sua assim como as suas decisões. Espero que você não se arrependa.
Clara tentou se aproximar de Cadu, mas arredio ele se afastou como se Clara tivesse alguma doença contagiosa.
– Vou ao nosso... Ao apartamento – corrigiu-se Clara – Pegar algumas coisas e depois eu peço pra alguém buscar o resto.
– Não! – disse Cadu com a mão em riste – Naquele apartamento você não pisa mais.
– Eu preciso...
– Não é uma vida nova que você quer? – as palavras foram ditas com desdém e amargura – Então comece modificando pelas roupas. Não vai sair nada daquele apartamento.
– A gente dá um jeito nisso depois, Clarinha – tranquilizou Marina passando a mão no ombro de Clara.
– Como você quiser – concordou Clara contra a vontade – Mas do meu filho eu vou me despedir. Cadê o Ivan?
– Tio... O Ivan não tem culpa de nada. Traz ele – pediu Luiza com a voz tão trêmula quanto as mãos que traziam o algodão embebido em água oxigenada.
A sobrinha pressionou o lábio de Clara que gemeu quando o líquido tocou a pequena ferida.
Cadu saiu em silêncio do apartamento de Helena fazendo questão de demonstrar o ódio ao bater a porta quando passou por ela.
Sem saber o que viria a seguir Clara sentou no sofá aos prantos. Marina a abraçou, desejando poder arrancar com as próprias mãos toda aquela dor que ela sentia e prometendo compensar com felicidade tudo o que Clara estava passando.
Pouco tempo depois Cadu voltou com Virgílio e Ivan a tira colo.
– Clarinha. – chamou Marina apontando para a porta.
Ivan saiu correndo para os braços da mãe que o abraçou forte.
– Por que você está chorando, mãe? O que está acontecendo? Você tá machucada! – disse o menino assustado agarrando-se à mãe com desespero.
– A mamãe vai embora...
– Não! – interrompeu Ivan abraçando-a novamente chorando tanto quanto a mãe.
– Tira a mão do meu filho – rosnou Cadu quando Marina passou a mão nos cabelos de Ivan.
– Amanhã a mamãe volta pra conversar com você, tá?
– Por que você tá indo embora? Você não me ama mais?
Clara sentiu como se uma navalha tivesse transpassado seu coração.
– Eu te amo mais que tudo nesse mundo. E é por isso que a mamãe tem que ir. Nós não vamos mais morar na mesma casa, mas nos veremos todos os dias. Vou cuidar de você como sempre cuidei. Eu te amo meu bichinho. Te amo muito.
– Eu tô com medo – murmurou Ivan com a voz abafada em meio aos cabelos de Clara.
– Tudo vai dar certo. Eu prometo! – tentava tranquilizar Clara.
Um novo abraço emocionado aconteceu e nem Virgílio conseguiu escapar das lágrimas.
Com relutância Clara se afastou de Ivan. Abraçou a sobrinha agradecendo-a pela força e fez o mesmo com a irmã e o cunhado.
Clara e Marina passaram por Cadu sem olhá-lo.
Ivan estava no colo de Luiza inconsolável. Os olhos já vermelhos de tanto chorar.
Já do lado de fora Marina permitiu-se abraçar Clara que retribuiu o gesto intensamente.
– Vamos pra casa, eu vou cuidar de você – disse Marina beijando suavemente Clara, pouco se importando com o movimento na rua.

“Ah, vai
Me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém
A fim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona
Pra te acompanhar”